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7 - OLHOS NOS OLHOS

Autor: Mavi
last update Data de publicação: 2026-02-02 11:53:39

Dante saiu da empresa mais cedo naquele dia.

Não avisou ninguém. Apenas fechou a pasta, pegou o casaco e deixou o prédio antes que o movimento do fim da tarde tomasse os corredores. 

No caminho até o hospital, pensou em muitas coisas.

Pensou em começar se desculpando, em dizer que irá assumir tudo, inclusive uma indenização. Mas ainda assim, talvez não fosse o suficiente. Mas não sabia o que mais dizer.

Quando estacionou, permaneceu alguns segundos dentro do carro, com as mãos apoiadas no volante. Não havia ensaio possível para aquela conversa.

Entrou no hospital e seguiu direto para a UTI. A enfermeira o reconheceu.

- Senhor Owen, disse, em tom profissional. - Veio conversar com o Dr. Richard?

- Sim. Onde ele se encontra?

- Está logo ali. - Vamos, eu o acompanho. Ela hesitou por um instante antes de perguntar. - Pretende ver a paciente também?

- Sim. - Quero saber o boletim médico e, na sequência, irei vê-la.

A enfermeira já sabia que Melissa não queria vê-lo e informou a Dante de que, enquanto ele conversava com o médico, ela iria perguntar à paciente se aceitava recebê-lo.

Dante assentiu, sem entender ao certo. Ele estava ali para vê-la.

Enquanto aguardava o Dr. Richard terminar uma avaliação, a enfermeira foi avisar Melissa de que Dante estava no hospital.

Entrou no quarto.

Melissa estava acordada. Os olhos atentos para quem ainda sentia dor. A enfermeira a olhou com certa tensão, e Melissa concluiu imediatamente.

- O homem que me atropelou está aqui, não é?

- Sim, respondeu a enfermeira. - Ele está com o Dr. Richard agora e pretende vir vê-la.

Melissa fechou os olhos por um instante.

A imagem voltou inteira.

O farol.

A rua.

O impacto.

- Não, disse, firme. Desta vez, a voz não saiu fraca. - Não agora. - Não quero vê-lo.

A enfermeira não insistiu.

Naquele mesmo instante, o Dr. Richard se aproximou de Dante no corredor.

- Senhor Owen, chamou, com o prontuário em mãos. - Precisamos conversar.

- Sim. Estou aqui para isso. - Como está a paciente?

- Ela está consciente, explicou o médico. - Acordou durante a madrugada e novamente pela manhã. Teve episódios de dor intensa, mas a resposta neurológica é boa. -  Está lúcida, orientada, sem sinais de déficit cognitivo ou motor até o momento.

- Ela vai ficar com sequelas? Perguntou Dante, direto.

- Ainda é cedo para afirmar qualquer coisa, respondeu o médico. - Mas o quadro evolui melhor do que o esperado. - As costelas exigirão repouso. A recuperação será lenta, mas, até o momento, não há indícios de sequelas. Precisamos avaliá-la em pleno funcionamento para confirmar.

Dante respirou fundo.

- Entendo. Fez uma pausa. - Mas que ótima notícia. - Que ela fique bem logo. - Vou vê-la agora.

Enquanto caminhava em direção ao quarto de Melissa, a enfermeira o interceptou no corredor.

- Senhor Owen…, disse, com cuidado. - Ela pediu um tempo. Disse que não está pronta e não quer vê-lo.

A frase o pegou de surpresa.

Dante franziu levemente a testa.

-Ela… pediu?

- Pediu, confirmou a enfermeira. - De forma clara.

Houve um segundo de silêncio.

Dante não estava acostumado àquilo. Não à recusa. Não à ideia de que aquela jovem, que ele vinha chamando mentalmente de pobre coitada, tivesse uma decisão própria tão firme.

- Entendo, disse por fim, mesmo sem entender de fato.

- Recomendo respeitar, acrescentou a enfermeira.

- Claro, respondeu Dante. - Diga a ela que volto depois.

Caminhou até o elevador sem pressa. Desceu até o estacionamento e entrou no carro. Fechou a porta, ligou o motor… e ficou parado.

O silêncio se impôs.

Pensou em ir embora. Pensou que talvez fosse melhor assim. Que cada um seguisse seu caminho. Que indenização, advogados e acordos resolvessem o que precisava ser resolvido.

Mas havia algo ali que não se resolvia com distância.

Desligou o motor.

Saiu do carro.

Entrou novamente no hospital.

Não pediu autorização. Não explicou nada. Apenas seguiu pelo corredor até o quarto onde Melissa estava internada.

Abriu a porta com cuidado.

Melissa estava acordada.

Quando o viu, o coração acelerou antes mesmo que pudesse pensar.

Ele não se aproximou de imediato. Parou a alguns passos da cama.

E foi ali que Dante a viu de verdade.

Não mais em preto e branco.

Agora havia cor.

Um leve tom rosado nas bochechas. Os olhos cor de mel estavam abertos e atentos, trazendo equilíbrio e harmonia à pele clara e aos cabelos negros. Os lábios, naturalmente vermelhos, denunciavam que a vida começava a voltar.

Ela estava frágil.

Mas viva.

E bela, de um jeito que o pegou de surpresa.

Do outro lado, Melissa o observava com confusão crescente.

Antes de apagar no acidente, havia visto algo.

Uma presença.

Naquele instante entre a dor e o escuro, pensara ter visto um anjo. Cabelos castanhos claros. Olhos verdes. Uma imagem tão bonita e irreal que sua mente ferida havia transformado em algo celestial.

E agora, ali, diante dela, estava o mesmo rosto.

Não era um anjo.

Era um homem.

Alto. Contido. Olhar firme.

A percepção a desarmou.

- Eu sei que você disse que não queria me ver, disse Dante, com a voz baixa. - E eu respeito isso.

Melissa não respondeu.

- Mas achei que precisava vir mesmo assim, continuou. - Não para justificar nada. Nem para pedir nada.

Ela o observava em silêncio.

- Só para dizer que eu estou aqui, concluiu. - E que vou assumir tudo o que for necessário.

O silêncio voltou a se espalhar pelo quarto.

Melissa respirou com cuidado. A dor estava ali, constante, mas havia algo maior ocupando espaço dentro dela naquele momento.

Raiva.

Confusão.

Medo.

- Eu não pedi isso, disse, por fim. - Não pedi pra ser atropelada. Não pedi pra estar aqui.

- Eu sei, respondeu Dante. - E nada do que eu disser muda isso.

Ela desviou o olhar por um segundo.

- Então por que voltou?  Perguntou. -  Se eu disse que não queria te ver.

Dante respirou fundo.

- Porque fingir que isso não aconteceu não vai apagar nada, respondeu. - E porque eu não sou o tipo de homem que vai embora quando as coisas ficam difíceis.

Melissa o encarou novamente.

Não havia pedido de perdão exagerado.

Não havia explicação defensiva.

Não havia discurso ensaiado.

Apenas presença.

E isso a desarmou mais do que gostaria.

O encontro não trouxe alívio.

Mas trouxe algo inevitável: agora, nenhum dos dois podia fingir que o outro não existia.

A raiva que ela esperava sentir não veio inteira. A voz sumiu.

Dante se aproximou um pouco mais.

- Escute, disse. - Você pode sentir raiva. É um direito seu. Aliás, você tem muitos direitos nessa situação. Talvez ainda não se dê conta disso. Por isso estou disponibilizando uma advogada para te explicar tudo e, assim, chegarmos a um acordo justo. Você tem direito a indenização, além de todos os gastos médicos serem pagos por mim. E, se houver sequelas, vou pagar uma indenização vitalícia.

Melissa abaixou a cabeça, pensativa.

- Quer que eu te agradeça?  Disse, irônica. - Eu não vou precisar da sua indenização vitalícia. - Sabe por quê? - Porque eu não vou ter sequela alguma.

Os olhos marejaram.

- Eu sinto muito, respondeu Dante. - Não foi isso que quis dizer. - Falei de forma prática para que você entendesse que assumo minhas responsabilidades. - Não percebi que isso poderia ser pesado de ouvir.

- Está perdoado, respondeu ela. - Por isso e pelo resto. - Fez uma pausa. - Não vou querer a advogada.

- Não?  Dante se surpreendeu. - Mas é um direito seu.

- Eu sei. - Quero te propor algo.

- O quê? — perguntou.

- Não faço ideia do valor dessa indenização e nem quero saber se tenho direito a mais ou a menos. - Mas preciso que você faça algo com esse meu direito.

- O quê? Repetiu Dante.

- Acerte as despesas médicas do hospital onde meu pai está internado. - Nada mais me importa agora. Só isso.

Ela respirou com esforço.

- Em breve vou me levantar dessa cama. - Depois disso, eu mesma me viro. - Pode fazer isso por mim?

Dante ficou sem palavras.

Concordou de imediato.

Ela, mesmo naquela situação, estava mais preocupada com o pai do que consigo mesma.

- Me passe o nome do hospital e os dados dele, disse. — Vou resolver isso.

Melissa informou. Dante anotou.

- Não precisa voltar aqui, disse ela. - Vou sair dessa cama. - Não vou precisar de mais nada. - Pode seguir sua vida sem remorso.

Dante concordou. Caminhou até a porta, pensativo, mas aliviado por saber que aquele corpo no chão agora estava vivo, corado e sabia argumentar.

Antes que saísse, Melissa o chamou:

- Dante… obrigada!

Ele se lembrou do que Leon dissera.

- Obrigado pelo quê?

- Por atravessar meu caminho. - Se esse era o preço para salvar meu pai, eu pago com gosto.

Dante saiu sem responder.

Não sabia se sentia pena… ou admiração pela mulher que acabara de conhecer.

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Último capítulo

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   140 - CAPÍTULO FINAL

    Os sinos da igreja tocaram pela terceira vez quando o carro de Dante parou diante da escadaria. Ele desceu primeiro e, antes que Melissa abrisse a porta, estendeu a mão para ajudá-la. Melissa sorriu. O jardim da igreja estava tomado por flores claras e um perfume suave se espalhava pelo ar. Os convidados chegavam aos poucos, subindo as escadas em pequenos grupos e cumprimentando-se enquanto aguardavam o início da cerimônia. Assim que entraram, Melissa avistou Richard e Giovanna. Os dois estavam próximos ao altar, conversando com alguns convidados. Giovanna usava um vestido elegante e, ao estender a mão para cumprimentar Melissa, a aliança em seu dedo chamou sua atenção. Melissa sorriu. - O Richard quis garantir que todos percebam a aliança em seu dedo, não é? Giovanna riu e a abraçou. - Sim. Falei para ele que não precisava ser tão grossa, mas ele insistiu. Richard aproximou-se de Dante e os dois se cumprimentaram com um abraço. - Vocês sempre arrasam como padrinhos

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   139 - CONSEQUÊNCIAS

    Na semana seguinte, Leon chegou à empresa com um sorriso largo no rosto. Entrou na sala de reuniões, onde já estavam Dante, Paul e alguns outros membros da equipe. Rita também estava presente. Leon olhou para todos e, ainda sorrindo, disse: - Pessoal, eu sei que isso não tem nada a ver com a reunião de hoje, mas eu gostaria de dar uma notícia muito importante para vocês. Então, quero que todos prestem atenção. Imediatamente, todos ficaram sérios, imaginando que se tratasse de alguma novidade relacionada ao trabalho. Leon fez uma pequena pausa, só para aumentar a expectativa. Então, abriu ainda mais o sorriso e anunciou, com uma entonação claramente feliz: - Eu vou me casar. Dante apoiou a mão na mesa de forma espontânea e se levantou na mesma hora. - O quê? Paul franziu a testa. - Você está com febre, Leon? Aconteceu alguma coisa? - Não, eu vou lá verificar - disse Paul. Ele se aproximou de Leon, colocou a mão em sua testa e fingiu examiná-lo com toda a serieda

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   138 - BATIZADO

    Os meses se passaram, e, quando Oscar e Otto completaram seis meses, chegou o dia do batizado. Os dois já eram bebês grandes, cheios de dobrinhas, bochechas redondas e sorrisos fáceis. Haviam se tornado duas pequenas alegrias dentro de casa, cada um com sua própria personalidade, mas igualmente encantadores. Naquela manhã, a igreja estava cheia de familiares e amigos. Melissa fazia questão de manter Olie sempre por perto. Enquanto os bebês eram preparados para a cerimônia, segurava a mão da menina e, vez ou outra, ajeitava seus cabelos ou lhe dava um beijo na testa. Olie não demonstrava qualquer ciúme dos irmãos. Pelo contrário. Parecia genuinamente feliz com a casa cheia, com a família reunida e, principalmente, orgulhosa de ser a irmã mais velha. A escolha dos padrinhos também havia sido motivo de muita alegria. Oscar tinha Leon e Eloá. Otto tinha Richard e Giovanna. Richard e Giovanna já estavam juntos havia seis meses e o relacionamento havia avançado rapidamente.

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   137 - EM CASA

    Depois que Richard se despediu, Dante e Melissa finalmente tiveram alguns minutos a sós. Dante permaneceu ao lado da cama, olhando primeiro para Melissa e depois para os dois filhos. Estava encantado com aquela cena. De vez em quando, sorria sozinho, como se ainda estivesse tentando acreditar que tudo aquilo era real. Ele voltou os olhos para a esposa. - Nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar uma sensação dessas. Melissa sorriu. Dante respirou fundo. - Eu posso te dizer uma coisa? - Sim. - Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Ele riu baixinho e balançou a cabeça. - Talvez também tenha sido o segundo mais desesperador... mas, pelo menos, terminou com um final feliz. Melissa segurou sua mão. Dante se inclinou e beijou seus lábios. - Muito obrigado, Melissa. Muito obrigado por ter me feito enfrentar esse medo. Depois beijou delicadamente a cabecinha de Oscar e, em seguida, a de Otto. - Eu vou permanecer aqui com você durante todo o tempo da sua

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   136 - MAMAR

    Dante saiu da capela ainda emocionado. Assim que atravessou a porta, apressou o passo pelo corredor. Queria comparrilhar a notícia com a Eloá e Leon. Precisava dividir com eles a notícia que acabara de receber. Quando chegou à entrada do hospital, encontrou os dois lado a lado, ainda com aquele olhar apreensivo de quem esperava por alguma notícia. Dante parou diante deles e sorriu. Leon foi o primeiro a perceber. Ao ver aquele sorriso, não conseguiu conter as lágrimas. Eloá também levou a mão ao rosto, emocionada. Dante correu na direção dos dois e os abraçou.. - Meus filhos estão bem! A Melissa também está bem! - disse entre lágrimas. Leon e Eloá o apertaram num abraço. - Dante... parabéns! - disse Leon, emocionado. Depois de alguns segundos, Dante se afastou um pouco. Ainda segurava os dois e, com carinho, colocou uma mão no rosto de Leon e depois no de Eloá. Olhou primeiro para um, depois para o outro. - Vocês aceitam ser padrinhos do Oscar? Eloá abaixou a c

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   135.- LOUVADO SEJA

    Dante encostou-se à parede próxima à porta do centro cirúrgico e foi deslizando lentamente até ficar de cócoras. Quando finalmente chegou ao chão, desabou. Estava completamente sem forças. As mãos cobriram o rosto enquanto chorava. Todo o controle que havia tentado manter desde que chegara ao hospital simplesmente desapareceu. Eloá se aproximou em silêncio e se abaixou perto dele. Dante demorou alguns segundos para conseguir falar. - Eloá... por favor. Me deixa um pouco sozinho. Ela permaneceu ali por um instante, olhando para ele. - Claro. Se precisar de mim, estarei na entrada do hospital, junto com Leon. Dante apenas assentiu. Eloá se levantou e se afastou, deixando-o sozinho no corredor. Quando percebeu que ela havia ido embora, Dante ergueu os olhos para o teto. As lágrimas continuavam escorrendo. - Você gosta de me ver sofrer, não é? Sua voz estava quebrada. - Você gosta de me torturar. É isso? Quer que eu me renda? Quer que eu implore? Ele respirou f

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