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6 - BUROCRACIAS

Autor: Mavi
last update Fecha de publicación: 2026-02-02 09:58:09

Ainda no mesmo dia, pela manhã.

Dante mal havia atravessado a porta do andar quando ouviu seu nome.

- Dante.

Ele parou no meio do corredor.

Leon vinha em sua direção, passos firmes, expressão séria para ser apenas curiosidade. Trabalhavam juntos havia anos. Leon sabia reconhecer quando algo estava fora do lugar.

- Você sumiu, disse ele. - Cancelou reuniões, saiu no meio da nossa última reunião, não respondeu mensagens. O que aconteceu?

Dante respirou fundo, medindo as palavras.

- Aconteceu uma coisa, respondeu.  - E não foi pequena.

Leon cruzou os braços.

- Dá pra ser mais específico?

Dante olhou em volta. Gente passando, vozes misturadas, a empresa funcionando como sempre.

- Vamos entrar , disse. - Melhor conversar na minha sala.

Entraram. Dante fechou a porta e apoiou as mãos na mesa por um instante, como se organizasse o que diria.

- Eu me envolvi num acidente,  começou. - Atropelei uma pessoa.

Leon arregalou levemente os olhos.

- Como assim?

- Foi na noite da última segunda-feira. Estava chovendo muito, o trânsito parado. Quando o trânsito deu uma brecha, eu acelerei. Por uma distração de segundos, não freei a tempo, explicou Dante, sem rodeios.

- Ela está viva? - perguntou Leon, direto.

- Está. Ficou em estado grave, mas agora está estável.

Leon soltou o ar devagar.

- Meu Deus…

- Eu fiquei no hospital desde o início, continuou Dante. - Assumi tudo. Tratamento, despesas, o que foi necessário.

- E juridicamente? - perguntou Leon.

- Tudo foi registrado. Não houve fuga. Não houve negligência comprovada, respondeu Dante. - Ainda assim, vou acionar o advogado. Quero formalizar uma indenização.

Leon cruzou os braços.

- Você não costuma agir por impulso.

- Isso não é impulso, disse Dante. - É responsabilidade.

Houve um breve silêncio.

- O nome dela é Melissa Cross, acrescentou Dante. - Ela esteve inconsciente até ontem. Parece que ainda está, não sei ao certo. Desde ontem não tive mais notícias.

- Como você se sente com relação a isso, Dante? - perguntou Leon.

- Cansado. Testado. Sinto a vida me testando, respondeu. - Queria que não tivesse acontecido, mas aconteceu. Agora preciso arcar com as responsabilidades.

Leon assentiu.

- Vou falar com o Jonas, o advogado, disse ele. -  Pensar no valor da indenização.

- Faça isso, Leon. Te agradeço. Estou com a cabeça cheia demais e ainda preocupado, torcendo para que essa moça não tenha ficado com sequelas. Pelo que vi, ela é uma pobre coitada, com o pai doente. Provavelmente veio procurar emprego na cidade grande, como fazem tantas pessoas do interior com poucos recursos. Encontrei papéis molhados na mochila dela, pareciam currículos, mas estavam tão estragados que não consegui ver sequer o nome ou as instruções.

- Sendo assim, disse Leon, -  ela mal deve saber dos próprios direitos. É capaz de te agradecer por você ter pago a conta do hospital, mesmo sendo o responsável pelo atropelamento. Esse pessoal de baixa renda agradece por tudo, até quando tem direitos.

- Leon, não seja maldoso, - respondeu Dante. - Mas você tem razão. Só o que me faltava essa pobre coitada me agradecer. Aí, sim, eu seria corroído pelo remorso.

Fez uma pausa e completou:

- Assim que possível, traga o Jonas à minha sala. Quero que ele me oriente legalmente sobre os passos que devo seguir para ser justo e não ficar em dívida com a justiça. Peça para que venha assim que puder. Pretendo ir ao hospital visitar a moça ainda hoje.

No hospital, ao entardecer, Melissa pediu à enfermeira se poderia se levantar. Mesmo sentindo muita dor, a pressa em melhorar lhe dava forças para enfrentar o desconforto físico.

- Mel… posso te chamar assim? - perguntou a enfermeira. - Foi o primeiro nome que você vocalizou quando a equipe perguntou seu nome.

- Claro. - Mel é meu apelido desde a infância.

- Um apelido que faz jus a você. - Seus olhos cor de mel são lindos, intensos. Fazia tempo que não via uma tonalidade assim, misturando mel com um pouco de ocre. -  Além disso, você parece ser um doce de pessoa. Completou a enfermeira.

Melissa sorriu de leve.

- Muito obrigada. Há tempos não ouço um elogio tão bem elaborado. Te agradeço de verdade. Mas me diga… posso me levantar?

- Não pode, Mel. - Por enquanto, não. - Além da pancada na cabeça, você fraturou três costelas. Por isso sente dor ao respirar, tossir ou chorar. - Precisa de repouso absoluto para que os ossos calcifiquem novamente. O ortopedista já as colocou no lugar durante as cirurgias, mas agora é preciso esperar.

- Cirurgias? Quantas cirurgias eu fiz?

- Duas cirurgias grandes. Uma na cabeça, para controlar a pressão e o sangramento, e outra nas costelas. Além disso, você perdeu muito sangue e precisou de transfusão.

Melissa arregalou os olhos.

- Tinha meu tipo sanguíneo nos estoques? Sempre tive medo de algo assim acontecer, porque sei que meu tipo é difícil de encontrar.

A enfermeira hesitou um segundo.

- Mel… o homem que te atropelou foi quem doou o sangue para você. -  Ele não tem o mesmo tipo sanguíneo, mas o sangue dele era compatível com o seu. Isso salvou sua vida.

Melissa ficou em silêncio por alguns instantes.

- Como entender os desígnios de Deus, não é? — murmurou. - Não sei se sinto raiva ou gratidão por ele não ter me deixado morta no chão.

- Provavelmente ele virá te ver hoje, disse a enfermeira.

Melissa franziu o rosto.

- Não sei se estou preparada para vê-lo. Na verdade, nem queria. Ele me atropelou. Eu me lembro de atravessar a rua com o farol aberto para mim e fechado para ele. Será que não estava bêbado?

- Não, Mel. Ele não estava bêbado. Dante Owen foi o homem que te atropelou. - Ele é um empresário influente na indústria automobilística. É o CEO da D.O.W.

-Hum…, resmungou Melissa. - Já entendi tudo. - Deve ser mais um desses mauricinhos que se acham donos do mundo. - Já convivi com tipos assim.

- Não tire conclusões precipitadas, respondeu a enfermeira. - Ele me parece um bom homem. Estava realmente preocupado. E muito culpado também.

Melissa suspirou.

- Desculpa falar assim. - Estou com raiva. - Só me faltava ele querer que eu agradeça por ter me atropelado e depois me socorrido… fez uma pausa. - Mas talvez seja isso mesmo. - Esse povo rico quer que a gente se contente com qualquer gesto nobre.

Ela virou o rosto para a janela.

- Enfim… farei o que meus pais sempre me ensinaram.  -Não bater de frente com quem pode mais do que eu.

Melissa ficou em silêncio depois de dizer aquilo.

A enfermeira percebeu. Não insistiu. Apenas ajeitou o lençol com cuidado, como quem entende que certas dores não estão no corpo.

- Você precisa descansar, disse por fim. - Seu corpo passou por muita coisa.

Melissa concordou com a cabeça. 

As lágrimas vieram de novo, silenciosas dessa vez. Melissa mordeu o lábio para não gemer, respirando curto, controlando o choro como quem aprende a sobreviver em silêncio.

No mesmo horário, a quilômetros dali, Dante tentava se concentrar em números que não faziam mais sentido naquele exato momento.

A batida discreta na porta o tirou dos próprios pensamentos.

- Entre,  disse Dante, sem levantar os olhos.

Jonas surgiu na porta segundos depois. Terno escuro, pasta fina sob o braço, expressão objetiva. Era o tipo de homem que não perdia tempo com rodeios, nem oferecia conforto onde não cabia.

- Leon me chamou, disse, fechando a porta atrás de si. - Falou que você precisava conversar sobre um acidente.

Dante assentiu e indicou a cadeira à frente da mesa.

- Atropelei uma mulher, disse direto.  - Ela ficou em estado grave. - Está se recuperando agora.

Jonas abriu a pasta com calma, como se aquela fosse apenas mais uma situação a ser organizada.

- Houve boletim de ocorrência?

- Houve. Fiquei no local. Prestei socorro. Tudo registrado.

- Teste de alcoolemia?

- Deu negativo. Respondeu Dante

Jonas anotou algo.

- Ótimo. Isso elimina muita coisa, disse. - Do ponto de vista criminal, a situação tende a ser tratada como acidente de trânsito, ainda mais considerando as condições climáticas.

- Não estou preocupado só com isso, respondeu Dante. - Quero fazer o que é justo.

Jonas ergueu o olhar pela primeira vez.

- Justiça e indenização nem sempre caminham juntas , disse. - Mas vamos aos fatos. - Ela teve despesas médicas?

- Todas. Cirurgias, UTI, transfusão de sangue. Assumi tudo desde o início.

- Isso conta a seu favor, afirmou Jonas. - Mostra boa-fé.

- Ela ainda está hospitalizada, continuou Dante. - E há a possibilidade de sequelas. Ainda não sabemos.

Jonas fechou a pasta devagar.

- Nesse caso, o mais prudente é aguardar o laudo médico definitivo antes de falar em valores. Indenização não é só sobre o que aconteceu, mas sobre o que deixa de ser possível depois.

Dante inclinou-se levemente para frente.

- Ela não parece ter muitos recursos, disse. - Pelo que vi, estava procurando emprego. O pai está doente.

Jonas franziu a testa.

- Isso explica a vulnerabilidade, mas precisamos ter cuidado, alertou. - Pessoas nessa situação, muitas vezes, não sabem o que podem exigir. Não é incomum aceitarem menos do que têm direito por medo ou desconhecimento.

- Não quero isso, disse Dante, firme. - Não quero que ela aceite nada por gratidão ou constrangimento.

Jonas o observou por alguns segundos antes de responder.

- Então o melhor caminho é formalizar tudo com clareza. Quando ela estiver em condições, oferecemos um acordo justo, documentado. Com opção de advogado para ela, inclusive.

- Faça isso, disse Dante. - Quero que ela tenha orientação.

- Há outro ponto, acrescentou Jonas.  - Se houver incapacidade temporária ou permanente para o trabalho, a indenização precisa considerar renda futura.

Dante respirou fundo.

- Eu sei.

- Você pretende falar com ela pessoalmente? — perguntou Jonas.

- Sim. Vou ao hospital hoje. 

Jonas levantou-se, organizando os papéis. - Vou preparar os cenários possíveis. - Assim que tivermos os relatórios médicos, avançamos.

- Obrigado, Jonas.

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Último capítulo

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   140 - CAPÍTULO FINAL

    Os sinos da igreja tocaram pela terceira vez quando o carro de Dante parou diante da escadaria. Ele desceu primeiro e, antes que Melissa abrisse a porta, estendeu a mão para ajudá-la. Melissa sorriu. O jardim da igreja estava tomado por flores claras e um perfume suave se espalhava pelo ar. Os convidados chegavam aos poucos, subindo as escadas em pequenos grupos e cumprimentando-se enquanto aguardavam o início da cerimônia. Assim que entraram, Melissa avistou Richard e Giovanna. Os dois estavam próximos ao altar, conversando com alguns convidados. Giovanna usava um vestido elegante e, ao estender a mão para cumprimentar Melissa, a aliança em seu dedo chamou sua atenção. Melissa sorriu. - O Richard quis garantir que todos percebam a aliança em seu dedo, não é? Giovanna riu e a abraçou. - Sim. Falei para ele que não precisava ser tão grossa, mas ele insistiu. Richard aproximou-se de Dante e os dois se cumprimentaram com um abraço. - Vocês sempre arrasam como padrinhos

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   139 - CONSEQUÊNCIAS

    Na semana seguinte, Leon chegou à empresa com um sorriso largo no rosto. Entrou na sala de reuniões, onde já estavam Dante, Paul e alguns outros membros da equipe. Rita também estava presente. Leon olhou para todos e, ainda sorrindo, disse: - Pessoal, eu sei que isso não tem nada a ver com a reunião de hoje, mas eu gostaria de dar uma notícia muito importante para vocês. Então, quero que todos prestem atenção. Imediatamente, todos ficaram sérios, imaginando que se tratasse de alguma novidade relacionada ao trabalho. Leon fez uma pequena pausa, só para aumentar a expectativa. Então, abriu ainda mais o sorriso e anunciou, com uma entonação claramente feliz: - Eu vou me casar. Dante apoiou a mão na mesa de forma espontânea e se levantou na mesma hora. - O quê? Paul franziu a testa. - Você está com febre, Leon? Aconteceu alguma coisa? - Não, eu vou lá verificar - disse Paul. Ele se aproximou de Leon, colocou a mão em sua testa e fingiu examiná-lo com toda a serieda

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   138 - BATIZADO

    Os meses se passaram, e, quando Oscar e Otto completaram seis meses, chegou o dia do batizado. Os dois já eram bebês grandes, cheios de dobrinhas, bochechas redondas e sorrisos fáceis. Haviam se tornado duas pequenas alegrias dentro de casa, cada um com sua própria personalidade, mas igualmente encantadores. Naquela manhã, a igreja estava cheia de familiares e amigos. Melissa fazia questão de manter Olie sempre por perto. Enquanto os bebês eram preparados para a cerimônia, segurava a mão da menina e, vez ou outra, ajeitava seus cabelos ou lhe dava um beijo na testa. Olie não demonstrava qualquer ciúme dos irmãos. Pelo contrário. Parecia genuinamente feliz com a casa cheia, com a família reunida e, principalmente, orgulhosa de ser a irmã mais velha. A escolha dos padrinhos também havia sido motivo de muita alegria. Oscar tinha Leon e Eloá. Otto tinha Richard e Giovanna. Richard e Giovanna já estavam juntos havia seis meses e o relacionamento havia avançado rapidamente.

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   137 - EM CASA

    Depois que Richard se despediu, Dante e Melissa finalmente tiveram alguns minutos a sós. Dante permaneceu ao lado da cama, olhando primeiro para Melissa e depois para os dois filhos. Estava encantado com aquela cena. De vez em quando, sorria sozinho, como se ainda estivesse tentando acreditar que tudo aquilo era real. Ele voltou os olhos para a esposa. - Nem nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar uma sensação dessas. Melissa sorriu. Dante respirou fundo. - Eu posso te dizer uma coisa? - Sim. - Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Ele riu baixinho e balançou a cabeça. - Talvez também tenha sido o segundo mais desesperador... mas, pelo menos, terminou com um final feliz. Melissa segurou sua mão. Dante se inclinou e beijou seus lábios. - Muito obrigado, Melissa. Muito obrigado por ter me feito enfrentar esse medo. Depois beijou delicadamente a cabecinha de Oscar e, em seguida, a de Otto. - Eu vou permanecer aqui com você durante todo o tempo da sua

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   136 - MAMAR

    Dante saiu da capela ainda emocionado. Assim que atravessou a porta, apressou o passo pelo corredor. Queria comparrilhar a notícia com a Eloá e Leon. Precisava dividir com eles a notícia que acabara de receber. Quando chegou à entrada do hospital, encontrou os dois lado a lado, ainda com aquele olhar apreensivo de quem esperava por alguma notícia. Dante parou diante deles e sorriu. Leon foi o primeiro a perceber. Ao ver aquele sorriso, não conseguiu conter as lágrimas. Eloá também levou a mão ao rosto, emocionada. Dante correu na direção dos dois e os abraçou.. - Meus filhos estão bem! A Melissa também está bem! - disse entre lágrimas. Leon e Eloá o apertaram num abraço. - Dante... parabéns! - disse Leon, emocionado. Depois de alguns segundos, Dante se afastou um pouco. Ainda segurava os dois e, com carinho, colocou uma mão no rosto de Leon e depois no de Eloá. Olhou primeiro para um, depois para o outro. - Vocês aceitam ser padrinhos do Oscar? Eloá abaixou a c

  • O CEO QUE ME FERIU E AGORA ME PROTEGE   135.- LOUVADO SEJA

    Dante encostou-se à parede próxima à porta do centro cirúrgico e foi deslizando lentamente até ficar de cócoras. Quando finalmente chegou ao chão, desabou. Estava completamente sem forças. As mãos cobriram o rosto enquanto chorava. Todo o controle que havia tentado manter desde que chegara ao hospital simplesmente desapareceu. Eloá se aproximou em silêncio e se abaixou perto dele. Dante demorou alguns segundos para conseguir falar. - Eloá... por favor. Me deixa um pouco sozinho. Ela permaneceu ali por um instante, olhando para ele. - Claro. Se precisar de mim, estarei na entrada do hospital, junto com Leon. Dante apenas assentiu. Eloá se levantou e se afastou, deixando-o sozinho no corredor. Quando percebeu que ela havia ido embora, Dante ergueu os olhos para o teto. As lágrimas continuavam escorrendo. - Você gosta de me ver sofrer, não é? Sua voz estava quebrada. - Você gosta de me torturar. É isso? Quer que eu me renda? Quer que eu implore? Ele respirou f

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