INICIAR SESIÓNAcordo antes mesmo do despertador tocar.Permaneço deitada por alguns instantes, encarando o teto do quarto. Meu corpo ainda dói, mas a febre desapareceu. A cabeça está mais leve, a respiração voltou ao normal e a sensação de peso que parecia esmagar meus ossos na tarde anterior deu lugar a um cansaço suportável.Viro o rosto para o relógio sobre o criado-mudo. Ainda são pouco mais de sete horas. Meu primeiro impulso é levantar, vestir uma roupa e ir para a empresa, mas a voz de Dave ecoa na minha memória.— Amanhã não apareça na empresa.Resmungo baixinho.— Como se eu pudesse simplesmente faltar...Mesmo assim, continuo na cama por mais alguns minutos. Quando finalmente me levanto, a leve tontura que sinto desaparece antes que eu atravesse o quarto. Tomo um banho rápido, visto uma calça de moletom e uma camiseta larga e sigo para a cozinha. Faz meses que não estou em casa nesse horário. Normalmente, a essa altura, já estaria dentro do ônibus, revisando mentalmente a agenda do dia e o
O entregador chega menos de vinte minutos depois.Abro a porta antes que toque a campainha pela segunda vez, pego a sacola e agradeço com um aceno discreto. Assim que a fecho, encontro Lena exatamente onde a deixei. Está sentada no sofá, com as mãos entrelaçadas sobre o colo, como se ainda não tivesse decidido se deveria ficar ali ou insistir que já conseguia cuidar de si mesma.— Chegou.Ela faz menção de se levantar.— Eu pego.— Não.Vou até a cozinha, encontro uma tigela no armário e despejo a sopa ainda quente. Pego também uma colher e um copo d'água antes de voltar para a sala. Estendo a tigela, e ela a segura com cuidado.— Coma devagar.— O senhor não precisava...Lanço um olhar que basta para interrompê-la. Ela abaixa a cabeça e começa a comer. Aproveito o momento para abrir o notebook outra vez e responder alguns e-mails. O silêncio que se instala não é desconfortável. Apenas é preenchido pelo som ocasional da colher tocando a porcelana e pelo barulho das teclas sob meus ded
A sede é a primeira coisa que me desperta.Abro os olhos lentamente, ainda desorientada. Por alguns segundos, fico encarando o teto da sala sem entender por que estou ali. Aos poucos, as lembranças voltam. A empresa. A febre. Dave me trazendo para casa. O remédio.Levo a mão à testa. Ainda me sinto quente, mas a sensação de peso no corpo diminuiu. A garganta, no entanto, parece lixa, e meu estômago protesta com um ronco baixo que me faz fechar os olhos por um instante.Apoio as mãos no sofá e me sento devagar. Espero a tontura aparecer, mas ela vem bem mais fraca do que antes. Respiro fundo, afasto o cobertor que alguém colocou sobre mim e caminho em direção à cozinha.É então que percebo que não estou sozinha.Dave continua na poltrona em frente ao sofá.O notebook permanece aberto sobre as pernas, preso apenas por uma das mãos. A cabeça está inclinada para o lado, os olhos fechados e a respiração tranquila. O paletó foi cuidadosamente dobrado sobre o braço da poltrona, e a gravata,
Olho para o relógio pela terceira vez em menos de cinco minutos.Oito e doze.Lena nunca se atrasa.Nas últimas semanas, chegou antes de mim em alguns dias e, nos outros, entrou na empresa com uma pontualidade quase irritante. Não é o tipo de pessoa que esquece compromissos ou perde a hora. Muito pelo contrário. Desde que começou a trabalhar aqui, parece determinada a provar que merece estar nesta empresa.Volto a atenção para o contrato aberto sobre a mesa, mas releio a mesma cláusula sem absorver uma palavra. A ausência dela começa a incomodar mais do que deveria.Talvez o trânsito ou o ônibus tenha atrasado.Talvez simplesmente tenha acordado tarde.A última hipótese, porém, não parece combinar com Lena.Pego o celular por impulso, disposto a pedir para Nora ligar para ela, mas desisto antes mesmo de desbloquear a tela. Ainda não faz sentido criar alarde por causa de alguns minutos de atraso.Uma batida discreta interrompe meus pensamentos.— Entre.Nora coloca a cabeça para dentro
Chego em casa mais cansada do que o normal.Deixo a bolsa sobre o sofá, prendo o cabelo em um coque desajeitado e visto o primeiro moletom confortável que encontro. A ideia de cozinhar desaparece assim que abro o aplicativo de entregas, então peço qualquer coisa e me jogo no sofá com uma manta sobre as pernas.Há semanas minha rotina se resume à empresa e ao apartamento. Talvez por isso eu aceite a primeira sugestão que aparece na plataforma de filmes: um romance. Faz tempo que não assisto a um. A protagonista conhece alguém completamente diferente dela, os dois vivem discutindo, mas aos poucos as pequenas gentilezas começam a mudar a forma como se enxergam.Reviro os olhos quando percebo para onde a história está caminhando.— Bem previsível...Mesmo assim, continuo assistindo.Em determinado momento, o protagonista ajeita o casaco sobre os ombros da mocinha sem dizer uma única palavra. É um gesto simples, quase insignificante.Ainda assim, alguma coisa dentro de mim desperta uma lem
Duas semanas passam em um piscar de olhos. A rotina finalmente deixa de parecer um quebra-cabeça impossível. Já consigo reorganizar a agenda de Dave sem consultar anotações, aprendi a lidar com as mudanças de última hora e até começo a antecipar algumas necessidades dele antes que precise pedir. O trabalho continua intenso, mas não me assusta mais. O que continua me assustando é o próprio Dave.Por isso, faço o possível para limitar nossas interações ao estritamente necessário. Se posso resolver alguma coisa por e-mail, resolvo. Se basta deixar um documento sobre sua mesa enquanto ele está em reunião, melhor ainda. Não é uma decisão consciente, apenas acontece.Depois do episódio no refeitório, alguma coisa mudou. Ainda sinto vergonha quando lembro da bandeja espalhada pelo chão, das minhas mãos tremendo e de todos olhando para mim. Principalmente dele. Só que, curiosamente, a lembrança nunca termina aí. Ela sempre continua até o momento em que Dave se ajoelha ao meu lado, afasta os c







