LOGINOV: Rafael Ferraz
Eu não esperava que ela respondesse em menos de vinte e quatro horas. Muito menos que marcasse a conversa no restaurante corporativo no térreo da própria Montenegro Investimentos, em pleno horário de pico do almoço. Passei pelas mesas cheias de engravatados e parei diante da mesa de canto, onde Isadora já me esperava. Ela usava um blazer azul-marinho de corte impecável, o cabelo solto caindo de lado e uma xícara de café fumegando ao lado de uma pasta de couro fina. Quando me aproximei, ela apenas levantou os olhos e apontou a cadeira vazia à sua frente com a ponta de uma caneta dourada. — Sem atrasos, doutor Ferraz. Ponto para você. Puxei a cadeira e me sentei, sem tirar o paletó. — Não atravessei a cidade para jogar conversa fora, Isadora. O prazo de trinta dias não é sugestão. O Ministério das Comunicações oficializou a notificação hoje de manhã. Preciso da sua resposta até o fim do dia. Isadora deu um gole lento no café, sem demonstrar pressa nenhuma. — Você tá com essa pressa toda porque o seu conselho marcou uma reunião extraordinária para bater o martelo com o fundo externo, Rafael. Você tem menos de quatro semanas antes de votarem a sua demissão. Travei no lugar. — Como você sabe da pauta do conselho? Um sorriso fino e perigoso desenhou os lábios dela. — Eu sou a diretora jurídica de uma das maiores gestoras financeiras do país. Você realmente achou que eu não ia varrer a ata da Ferraz Nexus antes de sentar com você de novo? Eu sei o tamanho exato do buraco. O seu avô amarrou as ações a um pacto fiduciário intransferível. Sem uma Montenegro no cartório, você é só um CEO com prazo de validade esperando o facão cair. Apertei os dedos no braço da cadeira de madeira. A mulher à minha frente não estava blefando para valorizar o passe. Ela tinha cruzado os dados fiscais da holding, achado a brecha do testamento e medido o meu nível de desespero com precisão cirúrgica. Nenhum diretor na minha empresa tinha a audácia de falar comigo daquele jeito. — Se você sabe disso tudo, sabe também que a sua família não ganha nada com a minha queda — rebati, a voz baixa, fria e cortante. — Se o fundo de fora assumir a Ferraz Nexus, eles vão liquidar as patentes em leilão. A Montenegro Investimentos vai perder anos de processo e não vai ver um único centavo de royalties. — É só por isso que eu ainda tô sentada nesta mesa — ela rebateu, apoiando os cotovelos no tampo e cruzando os dedos sob o queixo. Os olhos castanhos fixos nos meus, sem piscar. — Mas a proposta que você deixou no meu colo ontem foi uma ofensa à minha inteligência. — Vinte por cento dos royalties e perdão de todas as custas processuais não é ofensa em lugar nenhum do mercado, Isadora. — Vinte por cento é esmola para quem tá salvando o seu pescoço da guilhotina — a voz dela saiu mansa, mas firme o suficiente para calar a conversa dos executivos da mesa ao lado. — E um assento consultivo sem poder de voto é piada. Eu não vou entrar na sede da Ferraz Nexus de enfeite para você me trancar numa salinha enquanto decide tudo sozinho. Encarei o rosto dela. A raiva ardeu na minha nuca, mas havia uma firmeza tão descarada naquela mulher que fui obrigado a engolir a réplica automática. Ela não era uma herdeira mimada tentando arrancar dinheiro fácil; era uma estrategista usando a minha própria fraqueza para virar o jogo. — O que você quer? — perguntei, com o maxilar trincado. Isadora abriu a pasta e deslizou uma folha impressa pela toalha de mesa. — Trinta por cento dos royalties das patentes a partir do mês que vem. Olhei para o documento sem encostar no papel. — O conselho nunca vai aprovar trinta por cento. — O conselho não apita nas ações do seu avô, Rafael. Você apita — ela rebateu no mesmo segundo, sem me dar um milímetro de espaço. — E a segunda condição não é sobre dinheiro: eu assumo a diretoria de compliance com poder de veto preventivo em qualquer movimentação fora da curva. Quero acesso irrestrito a todos os servidores, arquivos físicos, salas de custódia e auditorias anteriores a 2022. A armadilha fechou direto na minha garganta. Acesso aos arquivos anteriores a 2022. Se ela entrasse na custódia com poder de compliance, ia achar o rastro dos quarenta e dois milhões. Ia dar de cara com a assinatura do meu pai. — Poder de veto é inegociável para quem vem de fora — avisei, sustentando o olhar. — Então o casamento também é inegociável — ela puxou a folha de volta e guardou na pasta com uma calma irritante. — O relógio tá correndo, Rafael. Se quiser a minha assinatura na certidão antes da assembleia, vai ser com poder de verdade dentro daquele prédio. O silêncio instalou entre nós dois. A tensão na mesa dava para cortar com uma faca. Nossas respirações marcavam o ritmo de uma guerra que tinha deixado de ser só sobre números e papéis há muito tempo. Fiquei encarando aquela postura inabalável, o queixo erguido e a recusa absoluta de ceder um milímetro. A raiva que eu sentia brigava de frente com o fato de que, pela primeira vez na vida, eu tinha encontrado alguém que não abaixava a cabeça para mim. O tempo estava acabando. Eu não tinha para onde correr. — Vou levar a sua contraproposta ao conselho da família hoje — avisei, a voz saindo mais rouca do que eu gostaria. Isadora levantou, ajeitou a bolsa no ombro e me encarou de cima, os olhos faiscando com a certeza da vitória: — Não demore, Rafael. O relógio não espera. Virou as costas e se afastou pelo restaurante a passos firmes, deixando meia dúzia de diretores babando pelo caminho e o presidente da Ferraz Nexus sem chão.POV: Rafael FerrazO celular na minha mesa não parava de vibrar há quarenta minutos.Eram oito horas da manhã de segunda-feira. Antes que eu pudesse abrir a primeira pasta de auditoria do dia, Marcelo empurrou a porta do meu gabinete com o tablet nas mãos e um meio sorriso que raramente deixava escapar em horário de expediente.— Você já abriu as notícias hoje, Rafael?— Eu trabalho com infraestrutura e tecnologia, Marcelo, não com entretenimento — respondi, sem desgrudar os olhos do monitor. — Se for outra matéria do Nogueira sobre a assembleia, mande o jurídico despachar uma notificação extrajudicial.— Não é o Nogueira — Marcelo colocou o tablet sobre a mesa, deslizando a tela com o polegar. — É a coluna social do Estadão e o feed dos três maiores portais de finanças. Alguém na mansão do seu pai tirou uma foto durante o jantar de sábado e vazou para os bastidores do mercado.Puxei o aparelho para perto, os ombros tensos, esperando ver algum flagrante embaraçoso de desentendimento o
POV: Isadora MontenegroO eco dos passos de Rafael se afastando pelo corredor deixou a sala de jantar em um silêncio opressor.Helena Ferraz não se mexeu. Continuou apoiada no encosto da cadeira onde o irmão estivera sentado segundos antes, girando a taça de vinho pela haste com uma elegância preguiçosa. Só os olhos permaneciam imóveis, cravados em mim.— Você joga bem, Isadora — a voz dela saiu suave, cortando o ar da sala. — Na coletiva de imprensa, você parecia a advogada perfeita defendendo uma união histórica. Aqui nesta mesa, engoliu o veneno do meu pai sem piscar uma única vez. É uma performance impressionante para quem está noiva há menos de uma semana.Apoiei os braços no assento da cadeira, sem desviar os olhos dos dela.— Não é performance, Helena. É compostura. Uma habilidade básica para quem precisa lidar com conselhos de administração e homens que adoram testar a paciência alheia.Helena soltou uma risada curta, girando o líquido escuro na taça antes de dar mais um gole.
POV: Isadora MontenegroA sala de jantar da residência dos Ferraz parecia o cenário de um interrogatório de altíssimo padrão.O lustre de cristal maciço sobre a mesa de vinte lugares iluminava a prataria antiga da família, as taças lapidadas e os rostos das sete pessoas que fingiam estar ali apenas para brindar a um noivado promissor.Eu estava sentada à direita de Rafael, usando um vestido midi verde-esmeralda de corte reto e fechado, com o solitário de platina da mãe dele posicionado de forma impecável sobre a toalha de linho cru.Ao meu lado, Rafael mantinha a postura milimétrica de sempre: o paletó escuro ajustado, a mão esquerda apoiada ao lado do prato e o olhar atento a cada respiração ao redor da mesa.Na cabeceira, Augusto Ferraz presidia o jantar.O patriarca da família parecia ainda mais debilitado do que na reunião da crise: a pele acinzentada, a respiração curta e as mãos manchadas pela idade. Mas os olhos dele continuavam afiados como bisturis. Uma bengala de ébano com c
POV: Isadora MontenegroO técnico de redes guardou as ferramentas na maleta e conferiu o painel uma última vez.— Conexão criptografada ponto a ponto estabelecida com a rede da Montenegro Investimentos, doutora. Totalmente segregada da rede doméstica do apartamento.— Excelente. Muito obrigada, Tiago.Acompanhei o rapaz até o elevador e voltei para a biblioteca, onde a mesa de jacarandá — que antes abrigava só uma luminária de design italiano e compêndios intocados de economia — agora acomodava dois monitores, meu notebook blindado e as primeiras pastas de governança da Ferraz Nexus.Eu não estava naquela cobertura para ser uma presença decorativa. Ocupar a biblioteca era estratégia pura, e alinhei o resto com Neusa em cinco minutos: manutenção só às terças e sextas, sempre comigo no apartamento; café da manhã sem horário fixo. A governanta assentiu sem perguntar por quê — vinte anos cuidando da casa de Rafael tinham ensinado a ela quando uma ordem não precisava de justificativa.Enqu
POV: Rafael FerrazSete e vinte da manhã.Eu já estava de terno azul-marinho alinhado, sapatos engraxados e a pasta de trabalho fechada sobre a bancada da cozinha.Depois das poucas horas mal dormidas na suíte master, o meu primeiro instinto ao acordar foi restabelecer a ordem. A trégua silenciosa da madrugada, quando dividimos água gelada descalços e olhamos a cidade desarmados, precisava ser soterrada com urgência sob camadas grossas de pragmatismo.Se eu começasse a tratar Isadora Montenegro como uma parceira de verdade em vez de uma aliança de risco, o controle daquela farsa escaparia das minhas mãos antes do fim da semana.O som de saltos firmes na escada de vidro anunciou a descida dela.Isadora entrou na cozinha usando saia lápis preta, camisa de seda branca com os primeiros botões abertos e o cabelo escuro solto caindo pelos ombros. Ela não parecia nem de longe alguém que tinha passado a noite em claro; parecia pronta para tratorar o conselho inteiro da minha empresa.Caminhou
POV: Isadora MontenegroTrês e dezessete da madrugada.Eu estava deitada de olhos abertos na cama da suíte leste, encarando as sombras que a janela projetava no teto branco do quarto.Passei as últimas duas horas tentando desligar a cabeça, mas o silêncio daquela cobertura não era como o silêncio da minha antiga casa. Era um vazio pesado, pontuado apenas pelo estalo térmico do vidro blindado contra o vento da serra e pelo zumbido quase inaudível do ar-condicionado.Cada músculo do meu corpo continuava alerta.A consciência de que Rafael estava a menos de vinte metros de mim, no mesmo mezanino, funcionava como um alarme ligado na minha cabeça.A cena dele girando a chave dourada na tranca antiga do quarto da mãe e batendo a porta na minha cara não saía da minha mente. O homem que me enfrentava nos tribunais e calculava cada movimento da empresa com a frieza de uma máquina tinha uma ferida aberta no meio daquela casa. E eu agora morava dentro dela.Desisti de tentar dormir.Jog







