Compartilhar

6. O primeiro confronto

Autor: A.C. Borges
last update Data de publicação: 2026-08-20 04:28:09

OV: Rafael Ferraz

Eu não esperava que ela respondesse em menos de vinte e quatro horas. Muito menos que marcasse a conversa no restaurante corporativo no térreo da própria Montenegro Investimentos, em pleno horário de pico do almoço.

Passei pelas mesas cheias de engravatados e parei diante da mesa de canto, onde Isadora já me esperava.

Ela usava um blazer azul-marinho de corte impecável, o cabelo solto caindo de lado e uma xícara de café fumegando ao lado de uma pasta de couro fina. Quando me aproximei, ela apenas levantou os olhos e apontou a cadeira vazia à sua frente com a ponta de uma caneta dourada.

— Sem atrasos, doutor Ferraz. Ponto para você.

Puxei a cadeira e me sentei, sem tirar o paletó.

— Não atravessei a cidade para jogar conversa fora, Isadora. O prazo de trinta dias não é sugestão. O Ministério das Comunicações oficializou a notificação hoje de manhã. Preciso da sua resposta até o fim do dia.

Isadora deu um gole lento no café, sem demonstrar pressa nenhuma.

— Você tá com essa pressa toda porque o seu conselho marcou uma reunião extraordinária para bater o martelo com o fundo externo, Rafael. Você tem menos de quatro semanas antes de votarem a sua demissão.

Travei no lugar.

— Como você sabe da pauta do conselho?

Um sorriso fino e perigoso desenhou os lábios dela.

— Eu sou a diretora jurídica de uma das maiores gestoras financeiras do país. Você realmente achou que eu não ia varrer a ata da Ferraz Nexus antes de sentar com você de novo? Eu sei o tamanho exato do buraco. O seu avô amarrou as ações a um pacto fiduciário intransferível. Sem uma Montenegro no cartório, você é só um CEO com prazo de validade esperando o facão cair.

Apertei os dedos no braço da cadeira de madeira.

A mulher à minha frente não estava blefando para valorizar o passe. Ela tinha cruzado os dados fiscais da holding, achado a brecha do testamento e medido o meu nível de desespero com precisão cirúrgica.

Nenhum diretor na minha empresa tinha a audácia de falar comigo daquele jeito.

— Se você sabe disso tudo, sabe também que a sua família não ganha nada com a minha queda — rebati, a voz baixa, fria e cortante. — Se o fundo de fora assumir a Ferraz Nexus, eles vão liquidar as patentes em leilão. A Montenegro Investimentos vai perder anos de processo e não vai ver um único centavo de royalties.

— É só por isso que eu ainda tô sentada nesta mesa — ela rebateu, apoiando os cotovelos no tampo e cruzando os dedos sob o queixo. Os olhos castanhos fixos nos meus, sem piscar. — Mas a proposta que você deixou no meu colo ontem foi uma ofensa à minha inteligência.

— Vinte por cento dos royalties e perdão de todas as custas processuais não é ofensa em lugar nenhum do mercado, Isadora.

— Vinte por cento é esmola para quem tá salvando o seu pescoço da guilhotina — a voz dela saiu mansa, mas firme o suficiente para calar a conversa dos executivos da mesa ao lado. — E um assento consultivo sem poder de voto é piada. Eu não vou entrar na sede da Ferraz Nexus de enfeite para você me trancar numa salinha enquanto decide tudo sozinho.

Encarei o rosto dela.

A raiva ardeu na minha nuca, mas havia uma firmeza tão descarada naquela mulher que fui obrigado a engolir a réplica automática. Ela não era uma herdeira mimada tentando arrancar dinheiro fácil; era uma estrategista usando a minha própria fraqueza para virar o jogo.

— O que você quer? — perguntei, com o maxilar trincado.

Isadora abriu a pasta e deslizou uma folha impressa pela toalha de mesa.

— Trinta por cento dos royalties das patentes a partir do mês que vem.

Olhei para o documento sem encostar no papel.

— O conselho nunca vai aprovar trinta por cento.

— O conselho não apita nas ações do seu avô, Rafael. Você apita — ela rebateu no mesmo segundo, sem me dar um milímetro de espaço. — E a segunda condição não é sobre dinheiro: eu assumo a diretoria de compliance com poder de veto preventivo em qualquer movimentação fora da curva. Quero acesso irrestrito a todos os servidores, arquivos físicos, salas de custódia e auditorias anteriores a 2022.

A armadilha fechou direto na minha garganta.

Acesso aos arquivos anteriores a 2022.

Se ela entrasse na custódia com poder de compliance, ia achar o rastro dos quarenta e dois milhões. Ia dar de cara com a assinatura do meu pai.

— Poder de veto é inegociável para quem vem de fora — avisei, sustentando o olhar.

— Então o casamento também é inegociável — ela puxou a folha de volta e guardou na pasta com uma calma irritante. — O relógio tá correndo, Rafael. Se quiser a minha assinatura na certidão antes da assembleia, vai ser com poder de verdade dentro daquele prédio.

O silêncio instalou entre nós dois.

A tensão na mesa dava para cortar com uma faca. Nossas respirações marcavam o ritmo de uma guerra que tinha deixado de ser só sobre números e papéis há muito tempo.

Fiquei encarando aquela postura inabalável, o queixo erguido e a recusa absoluta de ceder um milímetro. A raiva que eu sentia brigava de frente com o fato de que, pela primeira vez na vida, eu tinha encontrado alguém que não abaixava a cabeça para mim.

O tempo estava acabando. Eu não tinha para onde correr.

— Vou levar a sua contraproposta ao conselho da família hoje — avisei, a voz saindo mais rouca do que eu gostaria.

Isadora levantou, ajeitou a bolsa no ombro e me encarou de cima, os olhos faiscando com a certeza da vitória:

— Não demore, Rafael. O relógio não espera.

Virou as costas e se afastou pelo restaurante a passos firmes, deixando meia dúzia de diretores babando pelo caminho e o presidente da Ferraz Nexus sem chão.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • O CONTRATO DIZIA APENAS NEGÓCIOS (Ele Exigiu Rendição)   15. A primeira noite na mesma casa

    POV: Isadora Montenegro​Três e dezessete da madrugada.​Eu estava deitada de olhos abertos na cama da suíte leste, encarando as sombras que a janela projetava no teto branco do quarto.​Passei as últimas duas horas tentando desligar a cabeça, mas o silêncio daquela cobertura não era como o silêncio da minha antiga casa. Era um vazio pesado, pontuado apenas pelo estalo térmico do vidro blindado contra o vento da serra e pelo zumbido quase inaudível do ar-condicionado.​Cada músculo do meu corpo continuava alerta.​A consciência de que Rafael estava a menos de vinte metros de mim, no mesmo mezanino, funcionava como um alarme ligado na minha cabeça.​A cena dele girando a chave dourada na tranca antiga do quarto da mãe e batendo a porta na minha cara não saía da minha mente. O homem que me enfrentava nos tribunais e calculava cada movimento da empresa com a frieza de uma máquina tinha uma ferida aberta no meio daquela casa. E eu agora morava dentro dela.​Desisti de tentar dormir.​Jog

  • O CONTRATO DIZIA APENAS NEGÓCIOS (Ele Exigiu Rendição)   14. O apartamento de Rafael

    POV: Isadora Montenegro​Fechei a última gaveta do closet da suíte leste com um empurrão bem firme.​Minhas roupas de trabalho estavam penduradas em cabides de veludo, minhas pastas de processos organizadas sobre a escrivaninha de madeira clara e meus perfumes alinhados na bancada de mármore do banheiro. Em menos de duas horas, eu tinha tomado posse de cada centímetro daquele quarto no fim do mezanino.​Mas do lado de fora daquela porta, o resto da cobertura continuava sendo território inimigo.​Saí para o corredor acarpetado e apoiei as mãos no parapeito de vidro que dava para a sala de estar no piso inferior.​O duplex de Rafael Ferraz não parecia a casa de um homem de trinta e quatro anos; parecia a sede de uma embaixada privada.​Tudo era monumental, simétrico e estéril. Paredes em concreto polido, sofás de linho grafite e telas de arte abstrata que pareciam escolhidas por um consultor de investimentos, não por alguém que realmente gostava de pintura. Não havia uma única fotografi

  • O CONTRATO DIZIA APENAS NEGÓCIOS (Ele Exigiu Rendição)   13. Sob os Holofotes

    POV: Isadora Montenegro​Os disparos dos flashes eram tão rápidos que deixavam clarões brancos na minha vista a cada piscada.​A bancada de madeira no palco do centro de convenções estava forrada por mais de vinte microfones de emissoras de televisão e portais de economia. Ao meu lado, a menos de trinta centímetros, Rafael vestia um terno sob medida cinza-chumbo, com a postura impecável de quem nasceu para comandar o mercado.​— Boa tarde a todos — a voz dele ressoou limpa pelos alto-falantes, calando o burburinho na primeira fila. — Eu e a doutora Isadora Montenegro convocamos esta coletiva para oficializar o fim de todas as disputas judiciais entre os grupos Ferraz e Montenegro, e para consolidar o nosso compromisso público.​Uma repórter de finanças levantou a mão no mesmo segundo:​— Doutor Ferraz, o mercado foi pego de surpresa pela nota. Como fica a divisão das patentes de inteligência artificial com a unificação das duas empresas?​— A transição será coordenada diretamente pela

  • O CONTRATO DIZIA APENAS NEGÓCIOS (Ele Exigiu Rendição)   12. O anel

    POV: Isadora Montenegro A caixinha de veludo azul-marinho foi deixada sobre a mesa de centro com uma brusquidão que dizia mais do que qualquer palavra. Rafael deu um passo para trás, enfiando as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, a cara fechada na mesma expressão de quem só estava riscando o próximo item de uma lista burocrática. — A assessoria marcou a nossa primeira coletiva de imprensa para quarta-feira de manhã — avisou, a voz no piloto automático de sempre. — O mercado quer a confirmação visual do noivado. Você não pode aparecer na frente dos repórteres com a mão vazia. Fiquei encarando a caixa fechada por dois segundos antes de esticar o braço e puxar para mim. O veludo estava levemente gasto nas bordas — um detalhe antigo, discreto, que não combinava em nada com o padrão de ostentação que eu esperava de um bilionário querendo impressionar os jornais. Abri a tampa de uma vez. A peça cravada no centro não era uma daquelas joias modernas de vitrine de shopping. Era u

  • O CONTRATO DIZIA APENAS NEGÓCIOS (Ele Exigiu Rendição)   11. Regras do casamento

    POV: Rafael Ferraz ​Larguei a pasta de couro preto no centro da bancada de mármore da cozinha da minha cobertura. ​A certidão de casamento assinada em cartório há menos de vinte e quatro horas repousava no bolso interno do meu paletó, mas aquele papel era só a blindagem jurídica contra o conselho. O que estava prestes a começar entre quatro paredes exigia um nível de controle muito mais rígido. ​Isadora entrou na cozinha puxando uma mala de mão rígida. Vestia jeans escuro, blazer cinza e sapatos baixos. Correu os olhos pelo espaço amplo, pelas janelas de pé-direito duplo com vista para a serra e, finalmente, pela pasta aberta diante de mim. ​— Bom dia para você também, Rafael — disse, soltando a mala perto da ilha central. — Já imprimiu o organograma da nossa vida de casados? ​Ignorei o deboche, empurrando a folha com as diretrizes na direção dela. ​— O caminhão com as suas caixas chega às duas da tarde com a transportadora que contratei. A portaria já cadastrou o seu reconhecim

  • O CONTRATO DIZIA APENAS NEGÓCIOS (Ele Exigiu Rendição)   10. Isadora assina

    POV: Isadora Montenegro A caneta pesava na minha mão como se fosse de chumbo. O contrato de casamento estava aberto na última folha, desdobrado em três vias sobre o couro escuro da escrivaninha de Rafael. No rodapé de cada uma delas, a assinatura dele já estava cravada em traços pretos, angulosos e firmes. A caligrafia pesada de um homem acostumado a mover bilhões sem pedir licença para ninguém. Ao lado do nome dele, a linha pontilhada esperava pela minha assinatura. Parei por dois segundos, com a ponta de aço suspensa a um milímetro do papel. No trigésimo oitavo andar daquela torre, o silêncio era tão denso que dava para ouvir o zumbido abafado da avenida lá embaixo. O ar-condicionado soprava um vento gelado que fazia a ponta dos meus dedos arder contra o metal da caneta. Era uma loucura. Seis meses atrás, eu estava sentada na sala de audiências da vara empresarial de São Paulo, usando meu melhor salto e desfiando argumentos técnicos que derrubaram uma liminar inteira da Ferra

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status