Mag-log in(Narrado sob a perspectiva de Aurora)A escuridão tomou o salão de jantar como um golpe físico. O ar, pesado e saturado pelo cheiro de pólvora e cera queimada, paralisou a todos por um milésimo de segundo.Mas eu não era apenas a garota atordoada pela revelação do meu sangue. Eu era uma operadora treinada para abatemento no escuro.No exato instante em que o lustre apagou, meu corpo reagiu por puro reflexo militar. Deslizei para fora da cadeira de jacarandá antes mesmo que o eco do primeiro disparo ressoasse no teto. Minha mão direita rasgou a fenda do vestido de cetim vinho, sacando a nove milímetros velada no coldre de coxa. Puxei o ferrolho na penumbra absoluta. O estalo metálico foi abafado pela confusão imediata de gritos, cadeiras tombando e talheres de prata se chocando contra o mármore.— Mantenham as mãos no chão! — a voz de Brendo rugiu no escuro, seguida pela rajada seca de seu fuzil tático direcionada ao alto. Os projéteis estouraram os gessos do teto, fazendo uma chuva de
(Narrado sob a perspectiva de Endrick)O eco dos disparos na entrada ainda zunia nos meus ouvidos quando a figura de Brendo deu mais dois passos para dentro do salão. As farpas da madeira arrombada jaziam sobre o mármore limpo, e a névoa fria da noite entrava pela porta destruída, fazendo as chamas das velas da mesa de jantar oscilarem em um ritmo frenético.Ver o meu irmão mais velho de pé, empunhando o fuzil tático com o lado esquerdo do rosto cortado pelas marcas profundas do fogo antigo, fez o meu peito comprimir em um pavor quase sufocante.A cidade inteira — a imprensa, o mercado e o conselho — sempre acreditara na tragédia oficial de anos atrás. A mídia comprada pelo meu pai noticiara o acidente fatal na curva da serra e o enterro de um herdeiro carbonizado. Mas eu sabia a verdade. Vanessa e eu éramos os únicos naquela sala que carregávamos o segredo podre daquela noite: o acidente na serra nunca fora uma tentativa de assassinato definitiva. Fora uma lição cruel e teatral orques
(Narrado sob a perspectiva de Vanessa)A porta de carvalho da sala da presidência fechou-se atrás de mim com um estalo que ressoou no meu peito como uma pancada. As palmas das minhas mãos estavam gélidas. Caminhei pelo corredor executivo do vigésimo andar com o queixo erguido e os passos cadenciados, sustentando a imagem da diretora inabalável diante dos funcionários que ainda circulavam na sede, mas por dentro eu sentia a estrutura do império ranger.Orestes descobrira sobre quem comandava o jornal amador.Ao entrar no meu escritório privativo, tranquei o painel biométrico e caminhei direto para o banheiro. Abri a torneira de prata e joguei água fria no rosto, encarando meu próprio reflexo no espelho com os lábios trêmulos.Brendo Brahzão. O primogênito que Orestes tentara apagar da família. O rapaz que sobrevivera à emboscada do próprio pai reconstruíra sua vida em Macau sob um manto de silêncio e ódio. Durante anos, eu fora a única ponte invisível entre Brendo e a capital — recebend
(Narrado sob a perspectiva externa de Orestes)A porta pesada de carvalho da sala da presidência fechou-se com um clique abafado no momento em que Valério deixou o vigésimo andar. O secretário saíra sob ordens expressas para acionar a célula de liquidação na Ásia e disparar os convites de honra que trariam o Ministro Otávio Ramires para a armadilha na mansão.Orestes permaneceu sozinho no recinto imerso em penumbra. O som gélido do ar-condicionado era a única música de fundo para o patriarca, que caminhou até o bar de nogueira maciça e encheu dois copos de cristal com uísque de malte raro. Os cubos de gelo estalaram contra o vidro, projetando um eco seco entre os móveis de luxo.O velho capitão girou sobre os calcanhares e encarou o telefone corporativo de linha direta sobre o mogno da mesa. Havia uma pergunta que queimava em sua mente — uma dúvida que as três pastas de capa vermelha de Valério não puderam responder por completo.Ele discou a extensão interna de quatro dígitos.— Vanes
A terceira pasta de capa vermelha permaneceu fechada sobre o mogno da mesa de reuniões. Orestes ergueu o arquivo do mandante com a ponta dos dedos, deixando de lado as coordenadas bancárias de Macau e a foto desbotada do primogênito.— E o que mais ainda temos para hoje, Valério? — perguntou Orestes, cravando os olhos na terceira e última pasta vermelha que permanecia fechada.— O senhor quer abrir o arquivo do homem que deu a ordem final para a invasão? — sem rodeio disparou o investigador.Orestes encarou a última pasta com o olhar de quem já encarara todos os demônios do inferno em uma única manhã.— Abra, Valério — ordenou o patriarca, a voz baixa e mortal. — Vamos ver quem mais ressuscitou das covas do meu passado para tentar tomar o que é meu.Valério deu um passo à frente. Com movimentos lentos e milimetricamente calculados, rompeu o lacre de cera preta do documento e espalhou três folhas de gramatura pesada sobre a superfície espelhada da mesa. No topo da primeira folha, abaixo
(Narrado sob a perspectiva externa de Orestes)O ar da sala da presidência pareceu faltar por completo. A sombra de Helena ainda flutuava no ambiente quando Valério abriu a segunda pasta de capa vermelha e deslizou um único documento sobre o mogno: a cópia de uma transferência bancária internacional oriunda de um banco privado em Macau, emitida para a conta da gráfica que rodava as edições do jornal "A Hora".No rodapé da transação, sob a chancela de uma holding fantasma registrada em Hong Kong, figurava o nome que Orestes mandara apagar de todas as certidões, fotos e arquivos da família há mais de vinte anos.Brendo Brahzão.Orestes deu dois passos atrás, os joelhos fraquejando levemente até tocar a borda da poltrona. O velho capitão, que enfrentara generais de Estado e mandara executar inimigos no Porto Seco sem alterar o pulso, sentiu o chão da sua impunidade ceder sob os sapatos.— Brendo... — a palavra saiu da boca de Orestes como um estertor, um sussurro carregado do mofo de um c







