INICIAR SESIÓNMaria Clara olhou para o relógio. Ainda faltava muito para o jantar e ninguém havia lhe dito que não poderia explorar o solar ou o jardim.
Saiu do quarto devagar, o corredor estava silencioso e imaginou onde estariam as crianças… talvez escondidas aprontando alguma travessura.
Quando desceu a majestosa escadaria, e então, como numa coincidência, o homem que ela tinha visto da varanda surgiu no hall.
Ele parou imediatamente, com expressão surpresa e agradavelmente intrigada.
— Você deve ser a nova babá?
A suavidade da voz o tornava ainda mais simpático.
Maria Clara piscou, igualmente surpresa. Seu rosto esquentou um pouco. O homem era bonito, tinha porte atlético, cabelos levemente bagunçados, olhos castanhos acolhedores e um sorriso espontâneo.
Com tudo que haviam dito sobre o conde como um homem severo, reservado e de modos rígidos, ela esperava encontrar alguém totalmente diferente e também mais velho, o conde devia ter trinta e cinco anos. Mas aquele ali parecia não ter mais de trinta anos e ar tão descontraído que não parecia carregar um título de nobreza.
— Sim, senhor — confirmou.
Ele riu levemente, como se a resposta dela o divertisse.
— Sinceramente, não esperava que fosse tão jovem… e bonita.
Antes que ela pudesse reagir, ele estendeu a mão. Quando ela tocou na dele, ele inclinou-se e beijou delicadamente como um cavalheiro à moda antiga.
— É um prazer conhecê-la, senhorita. Seja muito bem-vinda ao Solar Alencastro.
Maria Clara sentiu as faces queimarem. Não sabia se pelo gesto, pelo tom gentil ou pelo olhar que ele mantinha sobre ela.
— Muito obrigada, senhor. A casa é… magnífica.
— Já conheceu as crianças? — perguntou ele, com um brilho divertido nos olhos.
— Sim. E… bem, elas são adoráveis. Só precisam de atenção.
Ele ergueu as sobrancelhas, divertido.
— Adoráveis! Espero que permaneça aqui, então. As anteriores eram senhoras rabugentas… e muito chatas. — Sorriu, abrindo o gesto com as mãos. — As crianças merecem alguém como você.
Maria Clara sentiu o coração acelerar.
— Já que tocamos no assunto das crianças — começou ela, reunindo coragem — gostaria de conversar sobre meu método de ensino.
O sorriso dele se desfez num instante, mas não de forma grosseira, apenas surpresa.
— Senhorita… eu não entendo nada de crianças. — Ele riu, sincero. — Esse assunto deve ser discutido com meu primo.
Maria Clara piscou, confusa.
— Seu primo?
Ele pareceu achar graça.
— Acho que a senhorita está me confundindo com Álvaro. — E, com uma leve reverência, apresentou-se: — Eu sou Roberto Alencastro.
O coração dela afundou. O homem gentil, belo e simpático não era o conde.
Antes que pudesse reagir, a porta principal se abriu e um homem entrou e o ar do saguão mudou completamente.
Álvaro Alencastro surgiu com a imponência de alguém acostumado a comandar. Alto, de postura impecavelmente ereta, vestindo um terno preto que parecia feito sob medida para ressaltar a força dos ombros e a elegância fria de sua presença.
Não tinha a leveza de Roberto. Sua beleza era austera. Aristocrática. Máscula. Marcada por linhas firmes no rosto, sobrancelhas espessas, olhos escuros como a noite e uma forma de olhar que fez Maria Clara sentir como se estivesse sendo atravessada.
Sim... Aquele era o conde.
— Chegou cedo hoje, Álvaro — disse Roberto com naturalidade. — Acabei de conhecer a senhorita Duarte. Ela disse que as crianças são adoráveis e espero que fique conosco por muito tempo.
Álvaro lançou um olhar rápido para o primo e depois para Maria Clara, estudando-a com uma certa frieza.
Roberto se virou para ela mais uma vez, inclinando ligeiramente a cabeça, mas dessa vez sem esconder a admiração em seu olhar.
— Vejo que você fez o favor de lhe dar as boas-vindas — disse o conde, com uma expressão perceptivelmente reprovadora.
— Na sua ausência, considerei meu dever. — Roberto sorriu. — E foi um grande prazer. Com licença, senhorita.
Com mais um olhar de admiração para Maria Clara, Roberto deixou o saguão.
Álvaro então voltou-se totalmente para ela. Sua presença parecia ocupar todo o espaço.
— Espero que meu primo não tenha sido inconveniente, senhorita Duarte.
Maria Clara engoliu em seco.
— O senhor Roberto… foi muito gentil.
— Naturalmente. — O conde ajeitou o paletó, sem desviar os olhos dela. — Eu deveria tê-la recebido, mas assuntos urgentes me prenderam na empresa.
— Compreendo, senhor.
Ele não estendeu a mão. Não sorriu. Apenas a observava, como se tentasse decifrá-la.
Maria Clara sentiu que estava sendo avaliada, mas algo nela fez encarar os olhos escuros dele, não como desafio, mas como alguém que não se deixava intimidar, mas com olhos gentis e sinceros.
— Acompanhe-me, senhorita — disse finalmente — É melhor conversarmos no meu escritório.
E, sem esperar resposta, virou-se e começou a andar.
Maria Clara respirou fundo e o seguiu, os passos dele firmes e silenciosos, os dela um pouco hesitantes. Sentia mais forte o peso daquele encontro e do homem que caminhava à sua frente, tão imponente quanto o solar inteiro.
Eles pararam diante de uma porta de madeira maciça, entalhada com o brasão da família Alencastro. Álvaro abriu a porta e segurou-a para que ela entrasse primeiro.
Ao entrar, Maria Clara prendeu a respiração. O escritório não era apenas um cômodo: era uma declaração.
Móveis clássicos de madeira escura, poltronas de couro, uma estante imensa ocupando toda a parede lateral. Atrás da imponente mesa ricamente trabalhada a mão, havia um enorme quadro a óleo representando uma batalha naval do período imperial: caravelas em confronto, ondas revoltas, céu tempestuoso. Era tão grandioso quanto perturbador e de certa forma parecia ser o próprio conde.
A luz que entrava pelas janelas com vitrais coloridos. Tudo ali exalava poder, disciplina e tradição.
Tudo ali exalava Álvaro Alencastro.
Às seis horas em ponto, os sinos da capela do solar romperam o entardecer com seu som grave anunciando o início da Missa de Ação de Graças.A luz dourada do pôr do sol atravessava os vitrais, tingindo o interior da capela com cores suaves. Aos poucos, o espaço foi sendo preenchido não apenas por pessoas, mas por histórias, reconciliações e novos começos.Os primeiros bancos estavam ocupados pela família.Teresa, a condessa mãe, mantinha o pequeno Filipe nos braços. A cena, por si só, já dizia muito, havia nela uma ternura que antes poucos tinham visto. Ao seu lado, Álvaro segurava Luiza, que, tranquila, brincava com os botões de sua camisa. Ao seu lado estava Guilherme com a esposa e o filho, integrado, presente… pertencendo àquela família. Mais atrás, os demais familiares se acomodavam, unidos como há muito tempo não se viam.No altar lateral, Helena ajustava-se diante do teclado. Já não havia nervosismo, estava acostumada a tocar nas missas que aconteciam uma vez por mês no solar.Ao
Pediram licença e foram ao encontro do casal. O cumprimento veio em forma de abraços sinceros, daqueles que carregam saudade.— Desculpem não termos vindo antes — disse Roberto, ainda segurando o ombro de Álvaro.— O importante é que vieram — respondeu Maria Clara, com um sorriso acolhedor. — As crianças perguntaram o tempo todo pelos primos.Os quatro voltaram o olhar quase ao mesmo tempo para o jardim para contemplar a cena.Helena, agora com doze anos já com traços de uma bela moça que estava se transformando, conduzia a brincadeira com uma natural autoridade. Havia nela um senso de cuidado que ia além da idade, como se se sentisse responsável por todos os menores. Thomas, aos dez, estava ao seu lado, atento, ajudando a manter a ordem com a mesma firmeza tranquila que lembrava tanto o pai.Mais à frente, Luiza segurava a mão de Eveline, filha mais velha de Roberto e Leonor. As duas, tão próximas em idade, separadas por apenas alguns meses pareciam inseparáveis. Já Jacinto, com seus
Em uma pequena capela de Milão, como tantas que guardam séculos de história e devoção, Suzana avançava pelo corredor de braços dados com o pai. Igreja era ricamente decorados por afrescos e detalhes renascentistas, criando uma atmosfera íntima e solene Ela estava elegante em um vestido cor creme, de linhas suaves, sem excessos. Nas mãos, segurava uma única rosa do mesmo tom, simples e perfeita como a escolha que a trouxera até ali.Os poucos convidados se voltaram para ela, tomados por admiração. Entre eles, algumas amigas e parentes que vieram do Brasil.Ao chegar ao altar, Samuel segurou a mão da filha com emoção e entregou-a a Lorenzo Bianchi.Lorenzo a recebeu com um sorriso sereno, mas profundamente apaixonado, aquele tipo de sentimento que não precisa se provar. Em seguida, Samuel afastou-se e foi ao encontro de Carla, que não conseguiu conter as lágrimas ao ver a filha ali, iniciando uma nova vida.Cinco anos haviam se passado desde que Suzana chegou a Milão para trabalhar com
Ao vê-la, ficou imóvel por um instante, como se o tempo tivesse parado. Seus olhos brilharam intensamente ao percorrer cada detalhe dela.— Como você é linda…Ele chegou a estender a outra taça, mas desistiu. Havia algo mais urgente no ar. Em silêncio, caminharam um ao encontro do outro.— Esperei tanto por esse momento… — murmurou ele, acariciando o rosto dela com ternura.Quando a puxou para si, o beijo que se seguiu já não tinha a mesma suavidade de antes. Tornou-se mais profundo e urgente. As mãos dele, agora mais seguras, deslizavam por ela mais exigentes para conhecer, como se quisessem memorizar cada detalhe.Marcelo ergueu o olhar por um instante, percebendo o estremecer de Sílvia a cada toque, a cada beijo depositado em seu pescoço e ombros.— Está nervosa? — perguntou, a voz rouca, mas suavizada por uma ponta de cuidado.— Tenho medo de decepcionar você…Ele sorriu, um sorriso verdadeiro, tranquilo.— Essa também é a minha primeira vez.Sílvia arregalou os olhos, surpresa.—
A pequena igreja estava adornada com flores claras e delicadas. Nada excessivo, nada grandioso, apenas elegância simples, exatamente como Sílvia desejava.Ramos de rosas brancas e folhagens suaves decoravam o corredor central. A luz da tarde atravessava os vitrais coloridos, criando reflexos suaves sobre os bancos de madeira.Os convidados conversavam em voz baixa, aguardando o início da cerimônia.Perto do altar, Marcelo aguardava. Ele tentava parecer tranquilo, mas suas mãos entrelaçadas revelavam a emoção.Ao seu lado estava o padrinho, Álvaro, impecável em um terno escuro perfeitamente ajustado.— Nervoso? — perguntou Álvaro com um leve sorriso.Marcelo soltou um suspiro.— Muito.Álvaro deu um pequeno tapinha em seu ombro.— Isso é um bom sinal.Então, ele retornou ao seu lugar de padrinho, posicionando-se ao lado de Maria Clara. Ela estava radiante em um elegante vestido de tom suave, que realçava com delicadeza a leve curvatura de sua barriga, já anunciando a vida que começava
A noite havia caído sobre Milão, trazendo consigo o brilho elegante da cidade.Luzes douradas refletiam nas vitrines das ruas e o murmúrio suave dos cafés e restaurantes preenchia o ar. O movimento era sofisticado, típico das noites milanesas, onde negócios, arte e encontros se misturavam naturalmente.Suzana estava sentada à mesa de um restaurante discreto e refinado, perto de uma grande janela. Ao longe, iluminada contra o céu escuro, erguia-se a silhueta majestosa do Duomo di Milano.Ela ainda se surpreendia com a beleza daquele lugar. À sua frente, sentado com natural elegância, estava Lorenzo Bianchi.Uma garrafa de vinho repousava entre os dois, e o jantar já estava servido. O encontro começou oficialmente como uma comemoração profissional.O projeto da casa no lago havia sido aprovado com entusiasmo. A residência ficaria em uma das encostas mais privilegiadas do Lago di Como.Suzana ainda lembrava do momento em que o cliente dissera:— É exatamente o que eu imaginei.Ela havia







