INICIAR SESIÓNPonto de vista de Pamela
Uma armadilha.
Tudo tinha sido uma armadilha desde o começo.
Respirei fundo. Não ia desmoronar na frente deles. Nunca. Antes morta do que dar esse gosto para Lucas Alencar.
— Dr. Rocha. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. Boa. — Eu quero saber tudo. Todas as opções. Se eu quiser anular o contrato agora, quais são as consequências?
O advogado trocou um olhar rápido com Lucas. Depois abriu a pasta de novo. Tirou um documento amarelado, que parecia mais velho do que os outros.
— A cláusula de rescisão antecipada está na página 52. — Ele passou os olhos pelo texto. — Se qualquer uma das partes solicitar a anulação do contrato antes do cumprimento integral das obrigações, incluindo o período de coabitação assistida... — Ele hesitou. — A parte solicitante deverá restituir integralmente todos os valores recebidos durante a vigência do contrato.
Minha testa franziu.
— Todos os valores?
— Todas as parcelas mensais. Os bônus. Os benefícios. — Dr. Rocha fechou o documento com um suspiro. — Tudo o que foi pago a você ao longo dos três anos, senhora... Pamela.
— Quanto?
Ele hesitou de novo.
Por que ele está hesitando?
— Dr. Rocha. — Apertei os dedos no braço da cadeira. — Quanto?
— Um milhão, duzentos e quarenta mil reais.
O número bateu no meu peito como um caminhão.
— Mais os juros de correção monetária — ele continuou, impassível — e as multas contratuais por quebra de cláusula. O valor total corrigido hoje está em aproximadamente... um milhão e oitocentos mil reais.
Um milhão e oitocentos mil reais.
Eu não tinha nem oitenta mil na poupança.
O tratamento do meu pai tinha custado caro. Muito caro. Cada quimioterapia, cada cirurgia, cada noite na UTI. O dinheiro de Lucas pagou tudo. Salas particulares. Os melhores médicos. Remédios importados que o plano de saúde negava.
Meu pai viveu dois anos a mais do que os médicos previam.
Por causa daquele dinheiro.
Por causa do contrato.
Por causa do demônio sentado atrás da mesa.
— Eu não tenho esse dinheiro. — Minha voz falhou. Eu odiei ter falhado. — Você sabe que eu não tenho.
Dr. Rocha baixou os olhos.
— Eu sei.
— Então não tem como anular.
— Não. — Ele tirou os óculos e limpou as lentes com um lenço de pano. — Não sem que você devolva o valor total. E, pelo que entendi, sua empresa de arquitetura ainda está no primeiro ano. Os rendimentos...
— Meu rendimento não é da sua conta. — Levantei a cabeça. O orgulho era a única coisa que ninguém podia tirar de mim. — Mas você tem razão. Eu não tenho um milhão e oitocentos mil reais. Nem perto disso.
— Então a única saída juridicamente viável é cumprir a cláusula 14. — Dr. Rocha colocou os óculos de volta. — Os seis meses de coabitação. Depois disso, o divórcio é concedido automaticamente, sem multas, sem devolução de valores. Cada um segue seu caminho.
Seis meses.
Cento e oitenta dias.
Quatro mil, trezentas e vinte horas.
Dividindo a cama com o diabo de novo.
Lucas, que tinha ficado em silêncio o tempo todo, finalmente falou. A voz dele estava estranha. Menos afiada. Como se a fúria tivesse dado lugar a algo que eu não sabia nomear.
— Dr. Rocha, eu quero entender uma coisa. — Ele cruzou os braços. — Meu avô. Por que ele colocou essa cláusula? Ele sabia que o contrato era temporário. Ele mesmo disse que depois de três anos a gente podia seguir cada um pro seu lado.
O advogado demorou a responder. Quando respondeu, a voz estava mais baixa.
— Seu avô, Waldemar Alencar, era um homem que não acreditava em acaso. — Dr. Rocha olhou para a moldura de madeira na parede. A foto de um velho de olhos claros e expressão severa. O fundador do império. — Ele me disse uma vez, quando redigiu a cláusula em segredo: "Roberto, casamento por contrato é igual a jogo de pôquer. As melhores mãos às vezes só aparecem depois que você já ia desistir."
Lucas apertou os olhos.
— Ele estava jogando com a minha vida.
— Ele estava jogando com a sua vida, sim. — Dr. Rocha não negou. — Mas ele também estava jogando com a dela. — Apontou para mim. — Waldemar acreditava que vocês dois tinham algo que nenhum contrato podia criar ou destruir.
— E o que seria isso? — Minha voz saiu mais alta do que eu queria. — Ódio? Porque ódio é o que não falta.
Dr. Rocha me olhou por cima dos óculos. E pela primeira vez, um sorriso pequeno e triste apareceu no canto da boca dele.
— Química, senhora. Waldemar chamava de... faísca. Ele dizia que via faísca entre vocês dois no dia do casamento. E que se tivesse faísca, um dia virava fogo. Ele só queria dar mais seis meses de combustível.
Eu quase ri. Quase.
Não era engraçado. Era trágico.
Um velho bilionário, sentado no trono de uma fortuna construída com sangue e suor, brincando de Cupido com dois desconhecidos que ele empurrou para um casamento falso.
Lucas passou a mão no rosto. O gesto cansado. Derrotado.
— E se a gente se recusar? Os dois juntos? — Ele olhou para o advogado. — E se Pamela e eu dissermos "não" e simplesmente... ignorarmos a cláusula?
— Aí o divórcio não é concedido. — Dr. Rocha foi direto. — O contrato original continua valendo. Vocês continuam casados no papel. Nenhum dos dois pode se casar de novo. Qualquer herança ou bem adquirido individualmente pode ser questionado pelo outro. E a empresa... — Ele apontou para a foto do avô. — A holding volta para o espólio. Você perde o controle, Lucas.
Lucas fechou os olhos.
Ele sabia o que isso significava. Eu também.
A empresa era a vida dele. O império. O sangue. A única coisa que Lucas Alencar amava de verdade, além de si mesmo.
Ele não ia largar o osso.
E eu não tinha um milhão e oitocentos mil reais.
Dr. Rocha começou a guardar os papéis na pasta. O movimento lento, quase solene, como um médico que acaba de dar um diagnóstico terminal para o paciente.
— Sugiro que comecem a organizar a mudança amanhã. — Ele fechou o zíper da pasta e se levantou. — O período de seis meses começa a contar a partir da data em que a coabitação for estabelecida. Quanto mais cedo...
— Não precisa terminar a frase. — Lucas abriu os olhos. O rosto dele era uma máscara de pedra. Sem emoção. Sem fraqueza. — Já entendi.
O advogado assentiu, fez um aceno para mim, e saiu sem olhar para trás.
Mercedes fechou a porta atrás dele.
Silêncio.
O mesmo silêncio ensurdecedor do começo. Mas agora era diferente. Antes eu tinha alívio pela frente. Agora eu tinha seis meses de prisão domiciliar com o pior ser humano que eu já conheci.
Lucas girou a cadeira devagar. Ficou de frente para mim. O rosto ainda era uma máscara, mas os olhos... os olhos cor de mel estavam diferentes. Mais escuros. Mais fundos.
— Pamela. — Ele disse meu nome como se fosse uma sentença. — Uma coisa eu te garanto.
— O quê?
— Você vai cumprir esses seis meses. E eu vou cumprir. — Ele se levantou, trouxe as mãos para trás do corpo, caminhou até a janela. As costas largas do terno cinza-escuro pareciam uma muralha. — Porque eu não vou perder minha empresa. E você não vai querer parar na cadeia. Fazer o quê, não é? Interesses alinhados.
— Pela primeira vez. — Minha voz saiu ácida. — Interesses alinhados.
Ele parou de falar. Eu esperei o próximo golpe verbal. Ele sempre tinha um próximo golpe verbal.
Mas não veio.
Em vez disso, Lucas pegou o celular no bolso do paletó. Olhou para a tela. E a cor do rosto dele mudou de novo.
Não era palidez.
Era... alarme.
— O que foi? — perguntei, mesmo sem querer perguntar.
Lucas levantou os olhos do telefone. Dentro daqueles olhos cor de mel, o desespero de antes tinha voltado. Mas agora era diferente. Agora o desespero tinha um alvo.
— Minha mãe. — Ele virou o celular na minha direção. — Ela acabou de postar.
No I*******m, em uma foto recém-publicada, Sônia Alencar sorria ao lado de uma faixa colorida.
A faixa dizia: "Festa de 6 meses de renovação de votos de Lucas e Pamela. Venham comemorar o amor eterno do casal!"
A legenda: "O amor não acaba quando o contrato termina. Ele recomeça."
Meu estômago caiu no chão.
Lucas desligou o celular e me encarou.
— Ela sabe da cláusula, Pamela. — A voz dele estava rouca. — E acabou de contar para o país inteiro.
Ponto de vista: PamelaTrês anos depois.O sol da tarde dourava as montanhas lá longe, pintando o céu de tons de laranja e rosa. O vento soprava macio, balançando as cortinas de voal da varanda, trazendo o cheiro de terra molhada e flores.O sítio do avô de Lucas estava irreconhecível.A casa velha tinha ganhado uma nova pintura — branca, com detalhes em azul marinho. O jardim, antes abandonado, agora era um mar de cores. Rosas vermelhas, amarelas, brancas, cor-de-rosa. Plantadas pelas nossas mãos. Regadas com paciência. Cuidadas com amor.E elas tinham florescido.— Mamãe! Mamãe! Olha o que eu achei!A voz infantil ecoou pelo jardim. Um menino de três anos, cabelos castanhos cacheados e olhos cor de mel — iguais aos do Lucas — corria na direção da varanda. Nas mãos pequenas, uma flor amarela murcha. Ele a ofereceu como se fosse um tesouro.— Para você — disse, o sorriso desdentado.— Obrigada, meu amor. — Me ajoelhei. Recebi a flor. Abracei ele com força. — É a flor mais linda do jar
Ponto de vista: PamelaDepois de tantos meses e tantas consultas, pela primeira vez, aquela maternidade não cheirava apenas a álcool, mas a esperança.Ou talvez fosse só o cheiro de sempre. Eu não sabia mais distinguir. Depois de tantas visitas, tantas consultas, tantos exames, o lugar tinha se tornado familiar. As paredes cor de rosa, as cadeiras de plástico branco, as revistas velhas na mesa de centro. As mulheres grávidas na sala de espera, as mãos nas barrigas, os sorrisos ansiosos.Eu nunca pertencia àquele lugar.Lucas estava ao meu lado dessa vez. A mão dele apertava a minha com força — não de nervosismo, de apoio. Ele tinha vindo a todas as consultas nos últimos meses. Não faltou uma. Nem quando o trabalho apertava. Nem quando a reunião era importante. Ele estava ali. Sempre.A médica, Dra. Lúcia, entrou na sala com uma pasta na mão.O rosto dela estava sério.Meu coração apertou.— Sra. Alencar. Sr. Alencar. — Ela sentou na cadeira em frente a nós. A pasta foi aberta. Os papé
Ponto de vista: LucasA ambulância cortava o trânsito como uma navalha.As sirenes berravam. As luzes vermelhas e azuis giravam, refletindo nos vidros dos prédios, nos rostos curiosos das pessoas nas calçadas. O paramédico trabalhava sem parar ao lado de Pamela — aferindo os sinais, ajustando o soro, comprimindo o ombro dela para estancar o sangue.Eu não tirava os olhos dela.Pálida. Tão pálida que os lábios estavam brancos. Os cabelos bagunçados espalhados na maca. A camiseta encharcada de sangue — o sangue dela, que não parava de escorrer mesmo com os curativos.— Ela vai ficar bem? — perguntei pela quinta vez.— Estamos fazendo o possível, sr. — O paramédico respondeu pela quinta vez. — O tiro acertou o ombro. Não pegou órgãos vitais. Mas ela perdeu muito sangue. Vai precisar de cirurgia.— Ela não pode morrer.— Vamos fazer de tudo para que não morra.Apertei a mão dela. A mão fria. Os dedos finos, trêmulos. Ela não respondia ao toque — estava apagada, os olhos fechados, a respir
Ponto de vista: LucasO tempo parou.Macedo ergueu a arma. O cano escuro apontou para o meu peito. Os olhos dele estavam vidrados, desesperados — um animal acuado que só sabia morder.— Você escolheu morrer — ele disse, o dedo no gatilho.Eu ia atirar primeiro.Já estava com o braço erguido, a mira na cabeça dele, o pensamento frio e calculado.Cabeça. Colete. Não erra. Um tiro só.Foi quando ela se moveu.Pamela.Amarrada. Amordaçada. Machucada. Exausta.Ela se jogou.Com um esforço sobre-humano, a cadeira rangendo, as cordas arranhando os pulsos, ela se lançou para a frente — para o lado — para dentro da linha de tiro.— NÃO! — gritei.O tiro veio.O estrondo ecoou pelo depósito como um trovão. Os pássaros lá fora voaram assustados. A luz fraca tremeu.E ela caiu.O sangue espirrou. Vermelho vivo. Brilhante. Quente.Pamela caiu no chão de terra batida como um boneco de pano. O ombro dela — o ombro direito — estava aberto, jorrando. Os olhos dela se arregalaram. A boca, mesmo com a f
Ponto de vista: LucasA arma estava apontada para o peito de Macedo.Mas eu não atirava.Não porque não quisesse. Não porque tivesse medo. Mas porque se eu atirasse e errasse, ele atiraria de volta. E se ele atirasse de volta, o tiro poderia acertar Pamela."Ele usa colete à prova de balas. Não atira no peito. Mira na cabeça."As palavras de Luciano ecoavam na minha mente. Colete. Ele usava colete. Se eu atirasse no peito, não morreria. E no tempo que eu levasse para mirar de novo, ele já teria atirado nela.Espera.Espera o momento certo.Macedo quer negociar. Ele sempre quer negociar. Use isso.— Você não tem coragem, Lucas. — Macedo repetiu, a arma ainda apontada para Pamela. O cano tremia levemente. Ele estava nervoso. Desesperado. Perigoso. — Eu conheço gente igual a você. Gente que nunca sujou as mãos. Gente que sempre teve empregados para fazer o trabalho sujo.— Você não me conhece. — Minha voz saiu calma. Mais calma do que eu me sentia. — Não sabe do que eu sou capaz.— Sei,
Ponto de vista: LucianoO escritório de arquitetura estava escuro quando entrei.A chave que Pamela tinha dado a Marcos — a chave reserva, guardada para emergências — girou na fechadura com um clique seco. A porta rangeu. O cheiro de café velho e papel impresso ainda pairava no ar, como se o dia tivesse terminado há minutos, não há horas.A luz do corredor iluminava parcialmente a sala. As plantas na estante. Os projetos na mesa. A xícara de café frio ao lado do computador.E Marina.Ela estava de costas para mim, curvada sobre a gaveta da mesa de Pamela. As mãos dela se moviam frenéticas, pegando papéis, rasgando, amassando, jogando no chão. O cabelo rosa estava bagunçado, preso num coque desfeito. A camiseta amassada. Ela tremia.— Marina. — Minha voz ecoou no silêncio.Ela congelou.Os ombros dela subiram e desceram com a respiração ofegante. Devagar, como se cada movimento doesse, ela virou o rosto.Os olhos dela estavam vermelhos, inchados de chorar. A maquiagem borrada. As olhei







