FAZER LOGINPonto de vista de Pamela
Dizem que toda sogra é uma bruxa em potencial.
É porque não conheciam a minha.
Sônia Alencar não era uma bruxa. Sônia Alencar era o capeta de saia justa e unhas postiças. A mulher que tinha acabado de anunciar para cento e quarenta mil seguidores no I*******m que o casamento de mentira do filho estava renovado por mais seis meses.
Eu ainda olhava para a tela do celular de Lucas quando a ficha caiu.
Não era só um contrato.
Não era só uma cláusula esquecida.
Era uma conspiração de família.
— Sua mãe sabia. — Minha voz saiu baixa, mas o veneno escorria por cada sílaba. — Ela sabia da cláusula 14 o tempo todo, não sabia?
Lucas guardou o celular no bolso com um movimento brusco.
— Não interessa o que ela sabia.
— Interessa, sim. Porque isso muda tudo. — Levantei da cadeira e comecei a andar de um lado para o outro no escritório. Meu salto fazia clique-clique-clique no mármore. Eu não conseguia parar. Era raiva. Raiva pura, combustível, solta. — Sua mãe nunca me quis nessa família. Ela me chamou de oportunista na frente de todo mundo no nosso jantar de núpcias. Lembra? Ou você finge que não?
Lucas não respondeu.
— Claro que lembra. — Continuei, porque parar significava explodir. — Ela disse que eu só casei com você pelo dinheiro. Que uma arquiteta falida não tinha nada a ver com um Alencar. E agora? Agora ela está organizando uma festa de renovação de votos? Por quê? Porque de repente eu sou boa o bastante para o menino dourado dela?
— Pamela. — Lucas tentou me cortar.
— Não. — Parei no meio da sala e apontei o dedo para ele. — Você não vai me calar agora. Sua mãe é uma serpente de salto alto e ela acabou de destruir qualquer chance que eu tinha de sair desse inferno com discrição. Cento e quarenta mil pessoas sabem que eu sou "casada" com você, Lucas. Cento e quarenta mil!
Ele não se mexeu. Apenas me observava com aqueles olhos cor de mel que pareciam enxergar dentro de mim. Eu odiava quando ele fazia isso. Como se eu fosse um projeto arquitetônico e ele estivesse procurando falhas na planta.
— Já terminou? — perguntou, calmo demais.
— Quase. — Respirei fundo. — Só mais uma coisa.
— Fala.
— Espero não ver a sua mãe nem tão cedo. De preferência, nunca mais. Se ela aparecer na minha frente nos próximos seis meses, eu juro por Deus que vou falar tudo o que penso. E não vai ser bonito.
Lucas inclinou a cabeça. Pela primeira vez desde que o advogado saiu, alguma coisa parecia diverti-lo.
— Curioso você dizer isso. Porque ela adora você.
Eu gargalhei.
Não foi um riso educado. Foi uma gargalhada escandalosa, que ecoou pelas paredes de vidro e fez a Mercedes provavelmente se encolher na recepção.
— Adora? — repeti, quando consegui recuperar o fôlego. — Lucas, a única coisa que sua mãe adora em mim é a distância entre nós. Ela mal olhava na minha direção nos jantares de família. Ela nunca me ligou para saber como meu pai estava. Ela nem sequer...
— Ela foi no enterro do seu pai.
O golpe veio seco.
Eu fechei a boca.
Foi. Sônia Alencar foi no enterro do meu pai. Ficou no fundo da igreja, de preto, sem falar com ninguém, mas foi. Eu nunca soube por quê. Talvez para garantir que o contrato ainda estava de pé. Talvez para certificar que eu não fosse fugir antes do prazo.
— Ela foi, sim. — Minha voz ficou mais baixa. — E não disse uma palavra.
Lucas suspirou. Passou a mão no rosto de novo. O gesto cansado estava começando a me irritar. Ele não tinha o direito de estar cansado. A vítima aqui era eu.
— Pamela, eu não vou discutir sobre minha mãe com você. — Ele pegou a pasta de couro que eu tinha trazido e estendeu na minha direção. — Pega isso. Vai para casa. A gente resolve a logística amanhã.
— A "logística". — Peguei a pasta com um puxão. — É assim que você chama seis meses de inferno compartilhado?
— É assim que eu chamo a única saída que a gente tem.
Saí do escritório sem olhar para trás. Atravessei o corredor longo, passei por Mercedes sem dizer tchau, entrei no elevador e apoiei a testa no espelho frio.
No reflexo, eu me via. Os olhos marejados com as lágrimas que eu não deixava cair. A boca mordida para não tremer. O nó na garganta que eu engolia a cada segundo.
Você vai superar isso, Pamela.
Você já superou coisas piores.
Seu pai superou coisas piores.
Eu repeti essas palavras como um mantra no caminho para o apartamento que eu aluguei no mês passado, mal sabendo que teria que dividir teto com o diabo de novo. O apartamento era pequeno. Intimista, como diziam os corretores. Dois quartos, uma sala aberta para a cozinha, uma varanda minúscula onde eu colocava um vaso de manjericão e fingia que aquilo era um jardim.
Meu lugar de paz.
Meu lugar só meu.
Cheguei já era noite. Tomei um banho longo, vesti o pijama mais velho e fiz miojo na panela porque não tinha energia para nada mais elaborado. Eu estava sentada no sofá, o prato no colo, a TV ligada sem som, quando a campainha tocou.
Olhei pelo olho mágico.
Lucas.
Claro.
Abri a porta sem descorrentar.
— O que você quer?
Ele estava diferente. Sem o terno. Vestindo uma camisa preta de mangas enroladas até o cotovelo e uma calça jeans escura. O cabelo já não estava perfeitamente penteados para trás; alguns fios caíam sobre a testa. À noite, no corredor mal iluminado do meu prédio modesto, ele parecia... humano.
Erro meu. Ele não era humano. Era o diabo.
— Podemos conversar? — perguntou.
— Conversamos o dia todo.
— Não conversamos. Gritamos. É diferente.
Respirei fundo. Destranquei a porta e abri. Ele entrou e olhou em volta. O apartamento minúsculo, o móvel planejado que eu mesma desenhei, o quadro abstrato na parede, o manjericão na varanda.
Dois passos e ele já tinha visto tudo.
— É... aconchegante.
— É meu. — Fechei a porta. — E não vai ser seu.
— Sobre isso... — Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça. O gesto o fazia parecer menor. Menos CEO, mais... homem comum. Outro erro meu. — Eu estive pensando.
— Coisa rara.
Ele ignorou a provocação.
— A coabitação tem que ser no mesmo domicílio. Mas o contrato não especifica qual dos dois.
— Eu sei ler. Também vi a cláusula. Depois de três anos.
— Pois bem. — Ele olhou para a varanda, para o manjericão, para o quadro. — Eu quero morar aqui.
Ponto de vista: PamelaTrês anos depois.O sol da tarde dourava as montanhas lá longe, pintando o céu de tons de laranja e rosa. O vento soprava macio, balançando as cortinas de voal da varanda, trazendo o cheiro de terra molhada e flores.O sítio do avô de Lucas estava irreconhecível.A casa velha tinha ganhado uma nova pintura — branca, com detalhes em azul marinho. O jardim, antes abandonado, agora era um mar de cores. Rosas vermelhas, amarelas, brancas, cor-de-rosa. Plantadas pelas nossas mãos. Regadas com paciência. Cuidadas com amor.E elas tinham florescido.— Mamãe! Mamãe! Olha o que eu achei!A voz infantil ecoou pelo jardim. Um menino de três anos, cabelos castanhos cacheados e olhos cor de mel — iguais aos do Lucas — corria na direção da varanda. Nas mãos pequenas, uma flor amarela murcha. Ele a ofereceu como se fosse um tesouro.— Para você — disse, o sorriso desdentado.— Obrigada, meu amor. — Me ajoelhei. Recebi a flor. Abracei ele com força. — É a flor mais linda do jar
Ponto de vista: PamelaDepois de tantos meses e tantas consultas, pela primeira vez, aquela maternidade não cheirava apenas a álcool, mas a esperança.Ou talvez fosse só o cheiro de sempre. Eu não sabia mais distinguir. Depois de tantas visitas, tantas consultas, tantos exames, o lugar tinha se tornado familiar. As paredes cor de rosa, as cadeiras de plástico branco, as revistas velhas na mesa de centro. As mulheres grávidas na sala de espera, as mãos nas barrigas, os sorrisos ansiosos.Eu nunca pertencia àquele lugar.Lucas estava ao meu lado dessa vez. A mão dele apertava a minha com força — não de nervosismo, de apoio. Ele tinha vindo a todas as consultas nos últimos meses. Não faltou uma. Nem quando o trabalho apertava. Nem quando a reunião era importante. Ele estava ali. Sempre.A médica, Dra. Lúcia, entrou na sala com uma pasta na mão.O rosto dela estava sério.Meu coração apertou.— Sra. Alencar. Sr. Alencar. — Ela sentou na cadeira em frente a nós. A pasta foi aberta. Os papé
Ponto de vista: LucasA ambulância cortava o trânsito como uma navalha.As sirenes berravam. As luzes vermelhas e azuis giravam, refletindo nos vidros dos prédios, nos rostos curiosos das pessoas nas calçadas. O paramédico trabalhava sem parar ao lado de Pamela — aferindo os sinais, ajustando o soro, comprimindo o ombro dela para estancar o sangue.Eu não tirava os olhos dela.Pálida. Tão pálida que os lábios estavam brancos. Os cabelos bagunçados espalhados na maca. A camiseta encharcada de sangue — o sangue dela, que não parava de escorrer mesmo com os curativos.— Ela vai ficar bem? — perguntei pela quinta vez.— Estamos fazendo o possível, sr. — O paramédico respondeu pela quinta vez. — O tiro acertou o ombro. Não pegou órgãos vitais. Mas ela perdeu muito sangue. Vai precisar de cirurgia.— Ela não pode morrer.— Vamos fazer de tudo para que não morra.Apertei a mão dela. A mão fria. Os dedos finos, trêmulos. Ela não respondia ao toque — estava apagada, os olhos fechados, a respir
Ponto de vista: LucasO tempo parou.Macedo ergueu a arma. O cano escuro apontou para o meu peito. Os olhos dele estavam vidrados, desesperados — um animal acuado que só sabia morder.— Você escolheu morrer — ele disse, o dedo no gatilho.Eu ia atirar primeiro.Já estava com o braço erguido, a mira na cabeça dele, o pensamento frio e calculado.Cabeça. Colete. Não erra. Um tiro só.Foi quando ela se moveu.Pamela.Amarrada. Amordaçada. Machucada. Exausta.Ela se jogou.Com um esforço sobre-humano, a cadeira rangendo, as cordas arranhando os pulsos, ela se lançou para a frente — para o lado — para dentro da linha de tiro.— NÃO! — gritei.O tiro veio.O estrondo ecoou pelo depósito como um trovão. Os pássaros lá fora voaram assustados. A luz fraca tremeu.E ela caiu.O sangue espirrou. Vermelho vivo. Brilhante. Quente.Pamela caiu no chão de terra batida como um boneco de pano. O ombro dela — o ombro direito — estava aberto, jorrando. Os olhos dela se arregalaram. A boca, mesmo com a f
Ponto de vista: LucasA arma estava apontada para o peito de Macedo.Mas eu não atirava.Não porque não quisesse. Não porque tivesse medo. Mas porque se eu atirasse e errasse, ele atiraria de volta. E se ele atirasse de volta, o tiro poderia acertar Pamela."Ele usa colete à prova de balas. Não atira no peito. Mira na cabeça."As palavras de Luciano ecoavam na minha mente. Colete. Ele usava colete. Se eu atirasse no peito, não morreria. E no tempo que eu levasse para mirar de novo, ele já teria atirado nela.Espera.Espera o momento certo.Macedo quer negociar. Ele sempre quer negociar. Use isso.— Você não tem coragem, Lucas. — Macedo repetiu, a arma ainda apontada para Pamela. O cano tremia levemente. Ele estava nervoso. Desesperado. Perigoso. — Eu conheço gente igual a você. Gente que nunca sujou as mãos. Gente que sempre teve empregados para fazer o trabalho sujo.— Você não me conhece. — Minha voz saiu calma. Mais calma do que eu me sentia. — Não sabe do que eu sou capaz.— Sei,
Ponto de vista: LucianoO escritório de arquitetura estava escuro quando entrei.A chave que Pamela tinha dado a Marcos — a chave reserva, guardada para emergências — girou na fechadura com um clique seco. A porta rangeu. O cheiro de café velho e papel impresso ainda pairava no ar, como se o dia tivesse terminado há minutos, não há horas.A luz do corredor iluminava parcialmente a sala. As plantas na estante. Os projetos na mesa. A xícara de café frio ao lado do computador.E Marina.Ela estava de costas para mim, curvada sobre a gaveta da mesa de Pamela. As mãos dela se moviam frenéticas, pegando papéis, rasgando, amassando, jogando no chão. O cabelo rosa estava bagunçado, preso num coque desfeito. A camiseta amassada. Ela tremia.— Marina. — Minha voz ecoou no silêncio.Ela congelou.Os ombros dela subiram e desceram com a respiração ofegante. Devagar, como se cada movimento doesse, ela virou o rosto.Os olhos dela estavam vermelhos, inchados de chorar. A maquiagem borrada. As olhei







