INICIAR SESIÓNPonto de vista de Pamela
O miojo quase entrou pelo meu nariz.
— Você está louco?
— É mais intimista. — Ele deu de ombros. — A sua energia. Eu gosto.
— A minha energia? — repeti, incrédula. — Lucas, isso aqui não é um Airbnb descolado. É a minha casa. O único lugar no mundo onde eu não sou Pamela Alencar, esposa troféu de bilionário. Eu sou só Pamela. Com manjericão e miojo.
Ele me encarou. Os olhos cor de mel estavam sérios.
— Eu sei.
— Então por que você quer estragar isso?
— Porque se a gente for para minha cobertura, você vai se sentir ainda mais prisioneira do que já se sente. — Ele deu um passo na minha direção. Eu recuei. Ele parou. — Lá é o meu território. A minha energia, como você disse. Você vai estar em campo inimigo todos os dias. Mas aqui... aqui é seu. Talvez isso torne as coisas mais suportáveis.
Eu quase caí.
Quase.
Por um segundo, eu vi o argumento dele. Vi a lógica. Vi até uma gentileza forçada que eu não sabia que ele era capaz.
Mas aí eu lembrei de tudo.
De todas as noites em que eu dormi na ponta da cama. De todas as vezes que ele me humilhou com silêncios. De todas as vezes que a Sônia Alencar me chamou de oportunista e ele não abriu a boca.
— Não. — Minha voz foi firme. — Você não vai morar aqui.
— Pamela...
— Não. Não. Não. — Fui até a porta e abri. O corredor estava vazio. O barulho do elevador ecoava lá embaixo. — Esse é o meu lugar de paz. Eu não vou compartilhar ele com você. Nem com o seu terno caro. Nem com o seu perfume amadeirado. Nem com a sua maldita energia.
Ele me olhou por um longo tempo. Tentei ler alguma coisa naquele rosto. Raiva? Foi a primeira coisa que procurei. Mágoa? Foi a segunda. Não achei nenhuma das duas.
Achei... rendição.
— Tudo bem. — Ele passou por mim e parou no corredor. — Minha cobertura, então.
— Isso.
— Mas com regras.
Franzi a testa.
— Regras?
— Dois estranhos forçados a viver juntos. — Ele virou o rosto na minha direção. A luz do corredor pegava em cheio na mandíbula forte, nos olhos sérios. — Precisa de regras, Pamela. Senão a gente vai se matar antes do sexto mês.
Ele tinha razão. Odiei que ele tivesse razão.
Voltei para dentro, peguei um bloco de notas da gaveta da cozinha e uma caneta preta. Ele voltou também. Sentamos na mesa pequena, um de frente para o outro, como dois diplomatas em guerra fria.
— Vamos lá. — Ela empurrou o bloco na direção dele. — As regras. Fale.
Ele pegou a caneta.
— Primeiro: sem toques.
— Óbvio.
Ele escreveu. A letra dele era firme, inclinada para a direita. Inconfundível.
— Segundo: sem convidados na cobertura sem aviso prévio de 24 horas.
— Justo. — Concordei. — Terceiro: sem contar para a família que a gente se odeia. Aparências mantidas.
Ele ergueu os olhos do papel.
— Isso inclui a festa da minha mãe.
— Especialmente a festa da sua mãe.
Ele escreveu mais devagar dessa vez. Como se doesse.
— Quarto: sem cama.
Minhas sobrancelhas subiram.
— O quê?
— Sem dividir a mesma cama. — Ele não desviou o olhar. — A cobertura tem três quartos. Eu fico no principal. Você escolhe um dos outros. Não se entra no quarto do outro sem bater. E nunca, jamais, sob nenhuma circunstância, vamos dormir na mesma cama outra vez.
O jeito como ele disse outra vez fez alguma coisa se mexer no meu peito. Uma memória desenterrada. Um calor que eu tinha trancado a sete chaves.
Eu ignorei.
— Ótimo. Anota aí: sem cama juntos outra vez.
Ele escreveu. A letra saiu um pouco mais trêmula dessa vez. Ou foi impressão minha?
— Quinto...
— Quinto e último. — Peguei a caneta da mão dele sem pedir. Nossos dedos se tocaram por um segundo. Puxei rápido como se tivesse queimado. Escrevi em letras maiúsculas no final da lista:
SEM TOQUES. SEM CAMA JUNTOS OUTRA VEZ. SEM PORRA NENHUMA.
Empurrei o bloco de volta para ele.
— Assina.
Ele leu. O canto da boca dele se mexeu. Não era um sorriso. Era... alguma coisa entre espanto e respeito.
— Você é impossível, Pamela.
— E você é o diabo. — cruzei os braços. — Assina.
Ele assinou.
Eu assinei embaixo.
O contrato novo estava feito.
Lucas guardou o bloco na pasta e se levantou. Foi até a porta, parou, olhou para trás.
— Amanhã, nove da manhã. Eu mando um carro.
— Não precisa mandar carro. Eu tenho pernas.
— Você tem orgulho demais, Pamela. Isso vai te destruir um dia.
— Por enquanto só está me mantendo viva.
Ele saiu.
A porta fechou.
E eu fiquei ali, encostada na madeira fria, ouvindo o barulho do elevador levando o diabo de volta para o inferno dele.
O bloco de notas estava em cima da mesa.
Sem porra nenhuma.
Eu gargalhei sozinha, na sala vazia, enquanto o miojo esfriava.
Não era engraçado.
Era desesperador.
Mas rir do desespero era a única coisa que me impedia de chorar.
Ponto de vista: PamelaTrês anos depois.O sol da tarde dourava as montanhas lá longe, pintando o céu de tons de laranja e rosa. O vento soprava macio, balançando as cortinas de voal da varanda, trazendo o cheiro de terra molhada e flores.O sítio do avô de Lucas estava irreconhecível.A casa velha tinha ganhado uma nova pintura — branca, com detalhes em azul marinho. O jardim, antes abandonado, agora era um mar de cores. Rosas vermelhas, amarelas, brancas, cor-de-rosa. Plantadas pelas nossas mãos. Regadas com paciência. Cuidadas com amor.E elas tinham florescido.— Mamãe! Mamãe! Olha o que eu achei!A voz infantil ecoou pelo jardim. Um menino de três anos, cabelos castanhos cacheados e olhos cor de mel — iguais aos do Lucas — corria na direção da varanda. Nas mãos pequenas, uma flor amarela murcha. Ele a ofereceu como se fosse um tesouro.— Para você — disse, o sorriso desdentado.— Obrigada, meu amor. — Me ajoelhei. Recebi a flor. Abracei ele com força. — É a flor mais linda do jar
Ponto de vista: PamelaDepois de tantos meses e tantas consultas, pela primeira vez, aquela maternidade não cheirava apenas a álcool, mas a esperança.Ou talvez fosse só o cheiro de sempre. Eu não sabia mais distinguir. Depois de tantas visitas, tantas consultas, tantos exames, o lugar tinha se tornado familiar. As paredes cor de rosa, as cadeiras de plástico branco, as revistas velhas na mesa de centro. As mulheres grávidas na sala de espera, as mãos nas barrigas, os sorrisos ansiosos.Eu nunca pertencia àquele lugar.Lucas estava ao meu lado dessa vez. A mão dele apertava a minha com força — não de nervosismo, de apoio. Ele tinha vindo a todas as consultas nos últimos meses. Não faltou uma. Nem quando o trabalho apertava. Nem quando a reunião era importante. Ele estava ali. Sempre.A médica, Dra. Lúcia, entrou na sala com uma pasta na mão.O rosto dela estava sério.Meu coração apertou.— Sra. Alencar. Sr. Alencar. — Ela sentou na cadeira em frente a nós. A pasta foi aberta. Os papé
Ponto de vista: LucasA ambulância cortava o trânsito como uma navalha.As sirenes berravam. As luzes vermelhas e azuis giravam, refletindo nos vidros dos prédios, nos rostos curiosos das pessoas nas calçadas. O paramédico trabalhava sem parar ao lado de Pamela — aferindo os sinais, ajustando o soro, comprimindo o ombro dela para estancar o sangue.Eu não tirava os olhos dela.Pálida. Tão pálida que os lábios estavam brancos. Os cabelos bagunçados espalhados na maca. A camiseta encharcada de sangue — o sangue dela, que não parava de escorrer mesmo com os curativos.— Ela vai ficar bem? — perguntei pela quinta vez.— Estamos fazendo o possível, sr. — O paramédico respondeu pela quinta vez. — O tiro acertou o ombro. Não pegou órgãos vitais. Mas ela perdeu muito sangue. Vai precisar de cirurgia.— Ela não pode morrer.— Vamos fazer de tudo para que não morra.Apertei a mão dela. A mão fria. Os dedos finos, trêmulos. Ela não respondia ao toque — estava apagada, os olhos fechados, a respir
Ponto de vista: LucasO tempo parou.Macedo ergueu a arma. O cano escuro apontou para o meu peito. Os olhos dele estavam vidrados, desesperados — um animal acuado que só sabia morder.— Você escolheu morrer — ele disse, o dedo no gatilho.Eu ia atirar primeiro.Já estava com o braço erguido, a mira na cabeça dele, o pensamento frio e calculado.Cabeça. Colete. Não erra. Um tiro só.Foi quando ela se moveu.Pamela.Amarrada. Amordaçada. Machucada. Exausta.Ela se jogou.Com um esforço sobre-humano, a cadeira rangendo, as cordas arranhando os pulsos, ela se lançou para a frente — para o lado — para dentro da linha de tiro.— NÃO! — gritei.O tiro veio.O estrondo ecoou pelo depósito como um trovão. Os pássaros lá fora voaram assustados. A luz fraca tremeu.E ela caiu.O sangue espirrou. Vermelho vivo. Brilhante. Quente.Pamela caiu no chão de terra batida como um boneco de pano. O ombro dela — o ombro direito — estava aberto, jorrando. Os olhos dela se arregalaram. A boca, mesmo com a f
Ponto de vista: LucasA arma estava apontada para o peito de Macedo.Mas eu não atirava.Não porque não quisesse. Não porque tivesse medo. Mas porque se eu atirasse e errasse, ele atiraria de volta. E se ele atirasse de volta, o tiro poderia acertar Pamela."Ele usa colete à prova de balas. Não atira no peito. Mira na cabeça."As palavras de Luciano ecoavam na minha mente. Colete. Ele usava colete. Se eu atirasse no peito, não morreria. E no tempo que eu levasse para mirar de novo, ele já teria atirado nela.Espera.Espera o momento certo.Macedo quer negociar. Ele sempre quer negociar. Use isso.— Você não tem coragem, Lucas. — Macedo repetiu, a arma ainda apontada para Pamela. O cano tremia levemente. Ele estava nervoso. Desesperado. Perigoso. — Eu conheço gente igual a você. Gente que nunca sujou as mãos. Gente que sempre teve empregados para fazer o trabalho sujo.— Você não me conhece. — Minha voz saiu calma. Mais calma do que eu me sentia. — Não sabe do que eu sou capaz.— Sei,
Ponto de vista: LucianoO escritório de arquitetura estava escuro quando entrei.A chave que Pamela tinha dado a Marcos — a chave reserva, guardada para emergências — girou na fechadura com um clique seco. A porta rangeu. O cheiro de café velho e papel impresso ainda pairava no ar, como se o dia tivesse terminado há minutos, não há horas.A luz do corredor iluminava parcialmente a sala. As plantas na estante. Os projetos na mesa. A xícara de café frio ao lado do computador.E Marina.Ela estava de costas para mim, curvada sobre a gaveta da mesa de Pamela. As mãos dela se moviam frenéticas, pegando papéis, rasgando, amassando, jogando no chão. O cabelo rosa estava bagunçado, preso num coque desfeito. A camiseta amassada. Ela tremia.— Marina. — Minha voz ecoou no silêncio.Ela congelou.Os ombros dela subiram e desceram com a respiração ofegante. Devagar, como se cada movimento doesse, ela virou o rosto.Os olhos dela estavam vermelhos, inchados de chorar. A maquiagem borrada. As olhei







