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05. De volta à realidade

Autor: Victor Nobre
last update Data de publicação: 2026-09-24 03:29:04

O sol começava a despontar no horizonte de Los Angeles, rasgando o céu cinzento com feixes alaranjados que refletiam agressivamente nos arranha-céus de vidro de Downtown. O ar frio da manhã batia no rosto de Andy enquanto ele caminhava pelas calçadas quase desertas. A cidade estava acordando sem pressa. Lojas começavam a abrir suas pesadas grades metálicas com estrondos secos, o trânsito nas grandes avenidas começava a engrossar com o murmúrio de trabalhadores iniciando o dia, e o contraste com o silêncio denso e protegido da suíte de hotel que ele acabara de deixar era brutal.

Andy enfiou as mãos nos bolsos da calça, os ombros pesados por uma exaustão que ia muito além da falta de sono. Ele tentava convencer a si mesmo, a cada passo apressado, de que havia sido apenas mais um trabalho. Uma noite, um homem rico, um envelope com dinheiro. A matemática simples e fria da sua sobrevivência diária. Mas sua mente se recusava a obedecer àquela lógica. Fragmentos teimavam em voltar e se repetir, rompendo suas defesas: o beijo faminto no meio da sala, a voz baixa e segura contra o seu pescoço, a forma como o desconhecido havia respeitado seus limites sem exigir nada além do que ele estava voluntariamente disposto a dar.

“Ainda não.”

A lembrança da recusa ecoou na cabeça de Andy. Ele soltou um suspiro irritado, esfregando o rosto com as mãos frias. Como podia estar pensando naquilo? Ele sequer sabia o nome do homem. Havia entregado o próprio corpo a um completo estranho, e agora estava caminhando pelas ruas de Los Angeles com o gosto de uísque e da pele dele ainda persistindo em sua boca.

Antes de virar a esquina para a rua de seu prédio, Andy parou sob o toldo de uma lavanderia fechada. Tirou o envelope pardo do bolso interno e abriu a aba. Ele já havia conferido o valor no hotel, mas precisava ver o dinheiro de novo sob a luz impiedosa do dia para ancorar a si mesmo na realidade. O maço de notas era grosso. Mais do que o combinado. Era o suficiente para aliviar imediatamente o estrangulamento financeiro daquela semana.

Uma onda de alívio genuíno lavou seu peito. O dinheiro importava. O dinheiro mantinha as pessoas vivas. Mas, logo em seguida, a culpa tomou seu lugar. Uma culpa ácida e incômoda por não querer admitir que, pela primeira vez em anos, aquela noite havia significado algo além daqueles pedaços de papel.

Para afastar o pensamento, Andy começou a separar o valor mentalmente, como fazia todos os dias de sua vida adulta. Uma pequena parte para as necessidades imediatas da casa. A fatia maior, intocável, para o hospital e os novos remédios de Ethan. Uma quantia considerável para abater a dívida com Marcus Vale, o suficiente para manter o agenciador calmo por alguns dias. O garoto frio que calculava cada dólar para continuar respirando reassumiu o controle.

O prédio de Andy ficava em um bairro de Los Angeles que os guias turísticos e o luxo fingiam não ver. A porta da frente do corredor emperrava no mesmo ponto de sempre, exigindo um empurrão com o ombro. O apartamento era minúsculo, desgastado pelo tempo, com paredes que precisavam de pintura urgente e contas com selos vermelhos acumulados sobre a pequena mesa da cozinha. Havia poucos móveis e nenhum enfeite. Absolutamente nada ali lembrava o mármore escovado, o cristal e os lençois de linho egípcio da cobertura do desconhecido.

Ele entrou, trancou a porta e jogou as chaves sobre o balcão da pia com um tinido metálico alto. Por alguns segundos intermináveis, ficou parado no centro da sala. O reflexo cansado o encarava do pequeno espelho pendurado na parede do corredor. A imagem da madrugada ainda estava ali, presa em seus olhos, no cabelo desgrenhado, e ele não suportou olhar por muito tempo.

Andy caminhou até o banheiro e ligou o chuveiro. A água quente bateu em suas costas, queimando os músculos tensos, enquanto ele esfregava a pele com força, tentando apagar qualquer traço do hotel. Quando saiu e vestiu uma calça de moletom gasta e uma camiseta de algodão, Sun finalmente desapareceu daquele espaço. Restou apenas Andy, o garoto de vinte e três anos lutando para manter o mundo de pé.

O celular vibrou sobre a cama.

Ele o pegou rapidamente. A tela brilhava com o nome de sua única prioridade.

Ethan: Você já chegou em casa?

A tensão crônica nos ombros de Andy cedeu um pouco.

Andy: Acabei de chegar.

Ethan: Você dormiu?

Andy hesitou. Seus polegares pairaram sobre o teclado virtual. Ele estava exausto, o corpo inteiro pedindo por algumas horas de inconsciência, mas mentir pelo celular era mais fácil do que explicar a verdade.

Andy: Um pouco. Vou passar aí mais tarde.

Duas horas depois, Andy empurrou a porta do quarto do hospital. 

O cheiro de antisséptico e produtos de limpeza era o perfume real da sua vida, a âncora que o impedia de sonhar. Ethan, aos dezenove anos, estava sentado na cama, o rosto um pouco mais pálido do que no dia anterior, mas os olhos tão vivos e astutos quanto os de Andy. Ele assistia a um programa qualquer na pequena televisão fixada na parede.

— Achei que você ia dormir até o meio-dia — Ethan comentou, sem tirar os olhos da tela, mas com um pequeno sorriso no canto da boca que entregava o alívio de ver o irmão mais velho.

— E perder o privilégio de ver você reclamar dessa comida? Jamais. — Andy puxou a cadeira de plástico e sentou-se ao lado da cama, colocando um copo de café que havia comprado na rua sobre a mesa de cabeceira.

Ethan desviou a atenção da TV e olhou para ele. Seus olhos castanhos estreitaram-se em uma avaliação silenciosa.

— Você está péssimo, Andy.

— Obrigado. Você também não está no seu melhor momento.

— Eu tenho uma desculpa médica — Ethan retrucou, apontando para o acesso venoso em seu braço. — Você só está trabalhando demais.

— Estou acostumado — Andy desviou o olhar, ajeitando desnecessariamente o lençol da cama do irmão.

— Esse é exatamente o problema. Você não devia estar acostumado com isso.

Andy não respondeu. Ele não podia entrar em detalhes. Não podia falar sobre o clube, sobre Marcus e, muito menos, sobre o estranho do terno sob medida que havia mudado o curso da noite anterior. Ele precisava manter o mundo sombrio de Sun o mais longe possível das paredes brancas daquele hospital.

Quando a enfermeira entrou para checar os sinais vitais, Andy precisou ir até a recepção do andar para assinar um formulário. Ao abrir a carteira, deixou à mostra parte do maço de notas que havia separado. Quando voltou ao quarto, Ethan estava observando-o da cama com uma postura rígida.

— Isso é muito dinheiro vivo para uma manhã de terça-feira — Ethan apontou, o tom de brincadeira escondendo uma preocupação aguda. — Você conseguiu um trabalho melhor?

Andy guardou a carteira no bolso traseiro da calça, mantendo a expressão perfeitamente neutra.

— Dei sorte.

Ethan não pareceu engolir a resposta. O vinco em sua testa denunciou o incômodo, e ele quase abriu a boca para questionar a origem da "sorte", mas conhecia o orgulho do irmão bem o suficiente para saber que pressionar não levaria a lugar nenhum.

O assunto morreu ali. Pela hora seguinte, uma pequena e rara normalidade se instalou no quarto. Eles assistiram a um trecho de um filme de ação ruim que passava na televisão aberta. Ethan reclamou longamente de uma matéria da faculdade que estava tentando acompanhar a distância, e Andy fez piadas sobre a capacidade culinária do hospital. Por alguns minutos preciosos, Andy conseguiu relaxar, recostando a cabeça na cadeira dura de plástico e permitindo-se esquecer a cidade lá fora.

Até o celular vibrar no bolso de sua jaqueta.

Andy pegou o aparelho por reflexo. A notificação brilhava na tela trincada.

O nome era de Marcus Vale.

A simples visão das letras fez o estômago de Andy despencar. Ele abriu a mensagem com o polegar tenso.

Marcus: Espero que tenha aproveitado a noite. Amanhã quero o dinheiro da semana passada. Não se atrase, garoto.

Não havia ameaça física explícita naquelas linhas, mas o tom territorial e controlador do homem de trinta e oito anos transbordava por cada palavra. O desconhecido podia ter tirado Andy do corredor do clube na madrugada, mas a rede do cafetão continuava existindo. E Andy ainda estava perigosamente preso nela.

Ele bloqueou a tela imediatamente, o maxilar travado.

— Problema? — Ethan perguntou, os olhos atentos fixos no rosto subitamente fechado do irmão.

— Nada. — Andy forçou um sorriso curto, perfeito e plástico, e guardou o celular de volta no bolso. Outra mentira para a coleção. — Propaganda da operadora.

No final da tarde, de volta ao seu apartamento solitário, Andy sentou-se na beirada da cama e organizou o dinheiro em montes sobre o colchão. Ele olhou para as notas. Decidiu, com frieza, que não entregaria tudo a Marcus. Ele precisava preservar uma margem de segurança para os próximos remédios de Ethan. Se desse todo o excedente ao agenciador, Marcus perceberia o desespero ou simplesmente inventaria uma nova taxa compensatória na semana seguinte. Ele separou a quantia exata que havia prometido no clube e escondeu o restante no fundo de uma gaveta, debaixo de blusas de inverno que raramente usava. Ele não era uma vítima aguardando o milagre de um salvador anônimo; ele era um estrategista da própria sobrevivência.

Com o dinheiro guardado e a segurança temporária restabelecida, Andy tentou dormir. Fechou os olhos, mas o silêncio do apartamento parecia ruidoso demais. E a cabeça, invariavelmente, voltava para a madrugada.

“Você ainda não sabe meu nome inteiro.”

“Ainda não.”

Andy abriu os olhos e encarou as manchas de umidade no teto com irritação. Por que estava lembrando da forma como ele havia dito aquilo? Ele pegou o celular sobre o travesseiro e abriu a lista de contatos, rolando a tela instintivamente, como se procurasse algo que havia esquecido.

Não havia nenhum número novo. O homem não havia pedido seu telefone. Não havia deixado um cartão de visita. Não havia criado nenhuma ponte para o dia seguinte. A noite havia sido um vácuo luxuoso no tempo. Não havia como encontrá-lo, mesmo que quisesse. E constatar esse muro de anonimato trouxe uma pontada de frustração surda que o irritou ainda mais.

A noite caiu sobre Los Angeles, pintando o céu poluído de púrpura e fumaça antes de acender as luzes da cidade. Às oito horas, uma notificação da agência brilhou na tela de Andy. Havia um novo cliente. Um horário reservado no mesmo clube de sempre.

Andy sentou-se na beirada da cama e encarou a mensagem. Por alguns segundos longos e perigosos, ele pensou em não ir. Pensou em ignorar o aviso, desligar o aparelho, ficar em casa e fingir que sua vida havia mudado apenas porque dormira em lençois caros uma vez. Mas a conta do hospital chegaria no final do mês. A dívida de Marcus tinha juros diários. E a característica central de sua vida era exatamente essa: ele não podia simplesmente abandonar a própria sobrevivência porque teve uma noite diferente.

Ele levantou-se. Caminhou até o pequeno guarda-roupa e abriu as portas gastas. Tirou do cabide as ferramentas de trabalho. A camisa de seda escura, a calça de corte perfeito. Diante do pequeno espelho do corredor, ele começou o doloroso processo de transformação. Arrumou o cabelo com cuidado, ajustou a gola da camisa para sugerir a quantidade exata de pele, mudou o peso do corpo e ergueu o queixo. A expressão endureceu.

Sun estava de volta.

Mas algo parecia errado. A máscara estava incrivelmente pesada. Não porque ele houvesse esquecido como interpretar o papel ou como simular desejo por homens ricos, mas porque, agora, ele sabia que existia um homem no mundo capaz de enxergar o garoto exausto por trás da vitrine. O teatro havia perdido sua eficácia absoluta. Vestir a persona de repente parecia uma farsa exaustiva.

Antes de cruzar a porta do apartamento, o celular apitou mais uma vez. Andy congelou o coração dando um salto com a suspeita de que Marcus havia decidido adiantar a cobrança. Ele pegou o aparelho.

Era uma mensagem automática do sistema financeiro do hospital, confirmando um procedimento de Ethan.

Aquele era o seu lembrete. A âncora fria que o impedia de flutuar em fantasias sobre desconhecidos de terno. Ele guardou o telefone, trancou o apartamento e saiu.

Uma hora depois, Andy estava de volta ao ponto de partida. O clube privado mantinha a mesma atmosfera densa de negócios escusos, jazz contemporâneo e dinheiro velho. As luzes âmbar, a música grave, o cheiro de uísque e charuto. Na primeira vez em que esteve ali, ele entrou como Sun, acreditando que a noite terminaria como todas as outras, na apatia do controle. Agora, ele retornava sabendo que, há poucas horas, estava na mesma cidade, mas em um universo completamente diferente, nos braços de um homem cujo nome nem sequer conhecia.

Marcus estava em algum lugar daquele prédio, provavelmente esperando para recolher sua parte. O cliente da noite o aguardava no salão.

Andy ajeitou a manga da camisa, respirou fundo, preparando-se para o primeiro sorriso mecânico e o primeiro flerte da noite, e deu um passo para dentro do corredor principal.

Foi então que alguém passou por ele, diminuiu o passo e virou-se, parando no meio do corredor.

— Sun? Você tem um minuto?

Andy paralisou e se virou para encarar a voz.

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Último capítulo

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