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Capítulo 6 — Preciso Entender 

Author: Annanda
last update publish date: 2026-08-09 08:51:17

“Existem perguntas que deveriam permanecer sem resposta, porque algumas respostas exigem que cheguemos perto demais.” 

Dmitri percebeu o nome antes mesmo de Nikolai terminar a frase.

Francesca.

E, por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada, porque falar dela ainda tinha o poder de alterar o ar dentro de qualquer sala, como se dois anos fossem insuficientes para transformar aquela ausência em algo que pudesse ser mencionado sem despertar tudo aquilo que Nikolai passava os dias tentando manter sob controle.

Ele se levantou e caminhou até a janela, enfiando as mãos nos bolsos da calça enquanto respirava fundo, os olhos fixos na cidade que começava a despertar muitos andares abaixo.

— Essa é exatamente a questão — continuou, depois de alguns segundos, com a voz mais baixa. — Ela não se parece com Francesca. Não fala como ela. Não se move como ela. Não existe absolutamente nenhum motivo para eu ter reagido daquele jeito.

Dmitri permaneceu observando-o.

— Mas reagiu.

Nikolai fechou os olhos por um breve instante.

E talvez aquela fosse justamente a parte que mais o perturbava.

— Sim.

Dmitri apoiou uma das mãos no encosto da cadeira.

— E ela?

Nikolai demorou a responder.

A lembrança voltou nítida demais.

Irina levando a mão ao peito, o susto nos olhos, a forma como tentou se recompor. O esforço para fingir normalidade enquanto o próprio corpo denunciava o contrário.

— Ela também sentiu alguma coisa.

— Você não pode ter certeza disso.

Nikolai virou o rosto devagar.

— Eu vi.

A convicção na voz dele fez Dmitri se calar.

Nikolai não era um homem que se deixava levar por impressões vagas, e talvez fosse justamente por isso que aquela situação o incomodava tanto. Se estivesse apenas interessado em uma mulher, negaria, controlaria e seguiria em frente. Mas aquilo parecia diferente. Parecia tocar em um lugar que ele não permitia que ninguém tocasse desde o acidente.

— Nikolai — Dmitri disse com cuidado —, você passou dois anos se recusando a olhar para qualquer coisa que pudesse fazer você sentir de novo. Talvez o problema não seja ela. Talvez seja você.

O olhar de Nikolai endureceu imediatamente.

— Cuidado…

— Eu estou sendo seu amigo, não seu funcionário.

— Então escolha melhor as palavras.

Dmitri sustentou o olhar dele sem recuar.

— Você acha que eu não sei que se culpa pelo acidente? Acha que eu não vejo que você transformou a própria vida numa punição desde a morte da Francesa? Eu só estou dizendo que talvez essa mulher tenha provocado uma reação porque você está vivo, Nikolai, mesmo que venha tentando fingir o contrário há dois anos.

A tensão no maxilar de Nikolai ficou visível.

Por um instante, pareceu que ele fosse encerrar a conversa ali, mas não encerrou.

Apenas desviou o olhar.

E isso, para Dmitri, já dizia demais.

— Eu não tenho o direito de reagir a ela.

A frase saiu baixa e controlada. Mas carregada de algo que Dmitri raramente ouvia na voz do amigo.

Culpa.

— Ninguém está falando de direito.

— Eu estou.

Nikolai se virou de volta para ele, os olhos azuis frios, embora a frieza já não conseguisse esconder completamente o desgaste.

— Eu estava dirigindo naquela noite. Francesca morreu no banco ao meu lado enquanto eu sobrevivi. Então não, Dmitri, eu não tenho o direito de ficar perturbado por uma mulher que apareceu no meu escritório usando um uniforme de limpeza e dizendo um nome que eu nunca ouvi antes.

Dmitri ficou em silêncio.

Porque havia dores que nenhuma resposta resolvia. Mas havia verdades que precisavam ser ditas mesmo assim.

— E o que pretende fazer?

Nikolai respirou fundo, voltando para a mesa.

A resposta já estava pronta antes mesmo que Dmitri perguntasse.

E talvez fosse isso que o irritasse ainda mais.

— Quero ela trabalhando aqui.

Dmitri piscou uma vez, depois inclinou levemente a cabeça.

— Aqui onde?

— Na presidência.

— Você está brincando.

— Não.

— Nikolai, ela é da equipe de limpeza.

— Eu sei.

— Então me explique como isso parece uma decisão racional.

Nikolai apoiou as mãos sobre a mesa e se inclinou ligeiramente para frente.

— Não parece.

Dmitri ficou imóvel.

A honestidade da resposta pareceu surpreendê-lo mais do que qualquer negativa.

— Então por quê?

Nikolai encarou o espaço vazio diante da porta, exatamente onde Irina havia ficado no dia anterior.

— Porque eu preciso entender.

— Entender o quê?

O silêncio voltou a se instalar entre eles.

Nikolai apertou os dedos contra a madeira escura da mesa.

— Se isso passa.

— E se não passar?

Nikolai não respondeu de imediato. Porque aquela pergunta havia atravessado sua mente durante toda a madrugada, mesmo que ele se recusasse a admiti-la.

E se não passasse? E se a presença dela só piorasse tudo? E se trazê-la para perto fosse exatamente o erro que deveria evitar?

— Então eu descubro o que ela tem de diferente — respondeu por fim.

Dmitri soltou o ar devagar.

— E se o problema não estiver nela?

Nikolai ergueu os olhos.

Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.

Então ele disse, com uma calma perigosa:

— Coloque Irina Petrova para trabalhar diretamente comigo.

Dmitri permaneceu em silêncio, encarando-o como se ainda esperasse uma última chance de fazê-lo reconsiderar.

— Isso vai dar errado.

— Provavelmente.

— E mesmo assim vai fazer?

Nikolai pegou uma caneta sobre a mesa, assinou um documento qualquer sem sequer olhar direito para o conteúdo e só então respondeu:

— Já estou fazendo.

Dmitri passou a mão pelo rosto, visivelmente contrariado, mas conhecia Nikolai o suficiente para saber quando uma decisão já havia sido tomada.

— Ela vai estranhar.

— Ótimo.

— Ótimo?

Nikolai ergueu o olhar.

— Talvez assim eu descubra se fui o único que perdeu a cabeça ontem.

Dmitri não respondeu.

E, pela primeira vez naquela manhã, pareceu realmente preocupado.

Porque Nikolai Romanov podia sobreviver ao próprio luto, à própria culpa e à própria solidão.

Mas talvez não sobrevivesse ao que aquela mulher parecia estar despertando nele.

E o pior era que, dessa vez, ele mesmo estava abrindo a porta.

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