LOGIN"Algumas obsessões começam quando encontramos respostas. As mais perigosas começam quando encontramos perguntas."
Nikolai Romanov não dormiu naquela noite.
Tentou permanecer deitado por algumas horas, imóvel no escuro do quarto, com os olhos fixos no teto e o corpo rígido demais para aceitar qualquer descanso, mas a tentativa foi inútil desde o início, porque sua mente continuava voltando para o mesmo lugar, para o mesmo escritório, para a mesma mulher parada diante dele com as mãos presas ao cabo do carrinho de limpeza e os olhos arregalados de uma forma que não parecia apenas nervosismo.
Irina Petrova.
O nome voltou a surgir dentro dele com uma insistência irritante.
Nikolai fechou os olhos com força, como se pudesse expulsar aquela lembrança apenas pela força da própria vontade, mas o silêncio do quarto tornou tudo pior. Porque, no silêncio, não havia reuniões, relatórios, ligações ou problemas urgentes que servissem de distração. Havia apenas a memória dela e, por baixo dela, outra memória muito mais antiga, muito mais cruel, que ele havia passado dois anos tentando manter enterrada.
O som da chuva contra o pára-brisa. O farol surgindo rápido, o volante sob suas mãos e o grito de Francesca.
A respiração dele falhou antes que pudesse impedir.
Se sentou na cama com um impulso, passando a mão pelo rosto enquanto tentava controlar o peso que se instalava no peito sempre que aquela noite voltava.
Dois anos haviam se passado, mas algumas lembranças não envelheciam. Apenas aprendiam a esperar.
A fotografia sobre a mesa de cabeceira permaneceu em seu campo de visão.
Francesca sorria na imagem.
Viva.
Linda.
Intocada pelo acidente.
Nikolai desviou o olhar antes que a culpa se tornasse mais difícil de suportar.
Desde a morte dela, nenhuma mulher havia ocupado seus pensamentos por mais do que alguns minutos. Nenhuma havia atravessado a barreira de indiferença que ele ergueu ao redor de si mesmo. Nenhuma havia conseguido provocar qualquer reação que não fosse distância, impaciência ou absoluta falta de interesse.
Até Irina Petrova.
E isso o irritava.
Não porque fosse desejo, não era isso.
Nikolai sabia reconhecer o desejo, assim como sabia reconhecer curiosidade, atração e impulso. O que sentiu diante dela não se encaixava em nenhuma dessas coisas. Era algo mais incômodo, mais profundo e muito menos aceitável.
Era como se uma parte dele tivesse reagido antes da razão, antes da lógica, antes do controle que ele levou anos para aperfeiçoar.
E ele não suportava isso.
Quando chegou à Romanov Corporation, o céu ainda estava escuro e parte do prédio permanecia silenciosa. Nikolai entrou pela garagem privativa, subiu pelo elevador exclusivo e atravessou o corredor da presidência sem cumprimentar ninguém, porque ainda não havia quase ninguém para cumprimentar.
O escritório parecia exatamente igual ao dia anterior.
A mesa de mogno, as janelas amplas, os relatórios organizados, a cadeira onde Dmitri havia se sentado. O espaço perto da porta onde Irina havia parado por alguns segundos antes de responder ao nome.
Nikolai permaneceu imóvel ao perceber que estava olhando justamente para aquele ponto.
Apertou a mandíbula e caminhou até a mesa, irritado consigo mesmo.
Abriu o notebook e tentou trabalhar. Leu a mesma linha de um relatório três vezes antes de perceber que não havia absorvido uma única palavra.
Fechou o arquivo com mais força do que o necessário.
Quando Dmitri entrou pouco depois das sete, trazendo uma pasta de documentos embaixo do braço e um copo de café na outra mão, parou no meio do escritório ao notar a expressão do amigo.
— Você está aqui desde quando?
Nikolai não ergueu os olhos da tela.
— Cedo.
Dmitri observou a camisa impecável, a gravata ausente, os cabelos ainda levemente úmidos e a tensão evidente nos ombros.
— Cedo quanto?
— Antes das seis.
— Então você não dormiu.
O silêncio de Nikolai respondeu antes dele.
Dmitri fechou a porta atrás de si e caminhou até a mesa com mais calma, deixando a pasta sobre a superfície sem desviar os olhos do amigo.
— Isso tem a ver com ela?
Os dedos de Nikolai pararam sobre o teclado por uma fração de segundo.
Mas Dmitri viu.
— Não comece.
— Eu nem disse o nome.
— Não precisa.
Dmitri soltou uma risada baixa, sem humor.
— Exatamente. Esse é o problema.
Nikolai recostou-se na cadeira devagar, sustentando o olhar do amigo com uma frieza ensaiada, mas Dmitri o conhecia bem demais para se intimidar com aquilo.
— Você mandou investigar a funcionária da limpeza ontem, passou a noite sem dormir e agora está no escritório antes do amanhecer fingindo que consegue ler um relatório que está aberto na mesma página há quinze minutos. Então, sim, eu vou perguntar. O que aconteceu?
— Eu já disse que não sei.
A resposta saiu seca.
Mais seca do que pretendia.
Dmitri estreitou ligeiramente os olhos.
— Essa é a parte que me preocupa.
Nikolai desviou o olhar para a janela.
Do lado de fora, a cidade começava a acordar, indiferente ao fato de que alguma coisa dentro dele parecia fora do lugar.
— Quando ela entrou aqui ontem, alguma coisa mudou.
Dmitri ficou em silêncio.
Nikolai detestou ouvir a própria resposta, porque ela pareceu vaga, fraca e completamente inaceitável até para os seus próprios padrões.
— Mudou como?
— Eu não sei explicar.
— Tente.
Nikolai passou o polegar pela lateral do copo de café, embora ainda não tivesse bebido nada.
— Foi como se eu devesse conhecê-la.
Dmitri não respondeu de imediato.
A expressão dele mudou apenas o suficiente para mostrar que havia entendido o peso da frase.
— Você conhece?
— Não.
— Tem certeza?
Nikolai olhou para ele.
— Eu saberia.
— Então talvez ela se pareça com alguém.
A pergunta ficou suspensa entre eles.
Por um instante, Nikolai pensou em Francesca, no sorriso que sempre surgia com facilidade, nos olhos que pareciam enxergá-lo além das aparências e na forma como sua simples presença era capaz de preencher qualquer ambiente sem esforço.
Depois pensou em Irina, no uniforme simples, nos cabelos ruivos presos de qualquer jeito, nos dedos tensos ao redor do carrinho e naquele olhar assustado que parecia refletir a mesma confusão que ele sentia.
— Não — respondeu por fim. — Ela não se parece com Francesa.
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“Há quem encontre uma verdade e escolha usá-la para sustentar uma mentira.”Romena VorontsovaA resposta chegou enquanto eu revisava um relatório.Reconheci o nome na notificação e deixei o documento aberto, sem terminar a linha que estava lendo.A mulher havia compartilhado a campanha do hospital dois anos antes. Na descrição do perfil, mencionava o período em que trabalhou na administração da instituição.Eu havia escrito na tarde anterior, dizendo que encontrara as publicações antigas e queria saber o que tinha acontecido com a jovem que aguardava um transplante. Não mencionei o Romanov Group nem expliquei de on
“Há notícias que fazem o futuro caber inteiro na palma de uma mão.”Irina Petrova— Irina, sua menstruação está atrasada?Ao meu lado, Ekaterina ficou imóvel por um instante. Depois voltou o rosto para mim, e percebi que a pergunta tinha feito sentido para ela.Abri a boca, mas precisei pensar antes de responder.— Quando foi a última vez? — minha amiga perguntou com delicadeza.Tentei lembrar a manhã em que tinha reclamado de cólica para ela. Depois vieram o trabalho, os encontros com Nikolai e tantos acontecimentos que eu não havia parado para conferir o calendário.
“Às vezes, uma pergunta muda o sentido de tudo o que estávamos tentando explicar.”Irina PetrovaA mensagem de Nikolai chegou quando Ekaterina estacionou diante da clínica.“Já chegaram?”Sorri para a tela antes de responder.“Acabamos de chegar. Aviso quando sair.”O telefone vibrou novamente enquanto eu soltava o cinto.“Queria estar aí.”Passei o polegar sobre as palavras.Eu também queria. Tinha acordado durante a no
“Quando estar perto se torna parte da felicidade, até uma ausência breve custa a aceitar.”Nikolai RomanovLi a cláusula outra vez.— Isso já tinha sido recusado.Dmitri assentiu.— E retirado da última versão. Voltou no documento que enviaram hoje.Os italianos queriam transferir para o Romanov Group a responsabilidade por atrasos que também dependiam das autorizações locais. Havíamos passado semanas discutindo aquele ponto antes de chegar a uma divisão aceitável.Devolvi o telefone.&mda
“Há uma tranquilidade especial em ver alguém que amamos sendo amado com cuidado.”Ekaterina RostovaNikolai ajeitou o travesseiro atrás de Irina e permaneceu inclinado, esperando que ela encontrasse uma posição confortável.— Assim?— Assim está bom.Ela sorriu para ele antes de voltar o rosto para mim.Apertei sua mão.Durante o caminho até a cobertura, eu tinha imaginado situações suficientes para deixar Dmitri preocupado comigo também. Ele explicou que Irina estava melhor, que tinha comido e descansado, mas só consegui acreditar por inteiro quando a encontrei naquela cama.Agora ela usava uma camisa de Nikolai, com as mangas dobradas e os cabelos um pouco amassados pelo travesseiro.Havia um pote de sorvete sobre a bandeja.— Então foi assim que resolveram o problema? — perguntei, olhando para ele.Irina acompanhou meu olhar.— Eu almocei antes.— Ainda bem. Por um instante, achei que precisaria conversar com seu enfermeiro.Nikolai recolheu a bandeja.— Ela também comeu parte do m







