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O reflexo no espelho do banheiro ainda me causava um leve estranhamento. Não pelas feições — os olhos amendoados e o rosto fino continuavam ali —, mas pela moldura. Seis meses atrás, eu estaria vestindo um pijama largo, sentada no sofá com Oliver, discutindo qual documentário sobre música assistiríamos enquanto dividíamos uma pizza brotinho. Hoje, o cenário era outro. Meu apartamento no Mirante cheirava a café recém-passado e madeira nova. O Banguela, meu gato preto e a criatura mais folgada do hemisfério sul, estava estirado sobre o tapete da sala, observando com desdém o par de saltos altos que eu tentava dominar.
Eu me formei em arquitetura sob pressão, sendo bolsista em uma faculdade onde todos pareciam ter nascido em berço de ouro, enquanto eu contava as moedas do ônibus saindo do Distrito Industrial. Meus pais, com a sabedoria simples de quem viveu entre a lida doméstica e a metalurgia, sempre disseram que o estudo era minha única saída. Mas, por dois anos, eu me perdi. Trabalhar em um escritório administrativo burocrático e viver um noivado que parecia mais um contrato de amizade de longa data com o Oliver me drenou. Oliver era doce, mas a doçura dele não me incendiava. Quando terminamos, não houve gritos. Houve apenas um vazio compartilhado e a percepção de que eu precisava ser a arquiteta da minha própria vida, literalmente. Agora, eu tinha meu próprio espaço em Santa Branca. Tinha minha carreira começando a decolar. Mas faltava algo que eu sempre guardei em uma caixa trancada no fundo da mente: a curiosidade pelo BDSM. Os homens com quem saí tratavam o sexo como uma tarefa doméstica ou como algo sagrado demais para ser "sujo". O máximo que consegui foram alguns t***s tímidos que me deixavam querendo o mundo, mas recebendo apenas uma vizinhança pacata. A campainha tocou, interrompendo meus pensamentos. Era Sarah. — Clara! Se você não estiver pronta, eu vou entrar e te arrastar nua mesmo! — A voz dela ecoou pelo corredor antes mesmo de eu abrir a porta. Sarah era a antítese da minha discrição. Alta, branca, escandalosa e dona de uma beleza que parava o trânsito. Conhecê-la em um fórum de discussões sobre o universo fetiche foi o empurrão que eu precisava. — Já vou, Sarah! Entra. Ela invadiu o apartamento como um furacão de perfume caro e energia caótica. Olhou para mim, analisando minha blusa de seda bege e calça de alfaiataria. — Nem pensar. Pode tirar isso. Hoje você não vai projetar um prédio, você vai projetar sua liberdade. — Sarah, eu não me sinto bem com roupas muito chamativas... — Cala a boca e senta naquela cadeira — ela ordenou, abrindo uma maleta de maquiagem que parecia conter o arsenal de guerra de uma pequena nação. — Eu vou te transformar. Você quer conhecer esse mundo? Então tem que entrar nele de cabeça. As duas horas seguintes foram uma mistura de tortura e fascínio. Sarah aplicava camadas de sombra escura, delineador e um batom que parecia sangue seco. Ela me entregou uma calça preta de material sintético que grudava como uma segunda pele, uma regata básica e uma jaqueta de couro pesada. — Olha no espelho — disse ela, guardando os pincéis. Eu me aproximei do vidro. A mulher ali era irreconhecível. Os olhos castanhos pareciam maiores e predatórios sob a maquiagem carregada. O contraste do preto da roupa com a minha pele morena era gritante, quase agressivo. — Eu pareço... outra pessoa — sussurrei, sentindo o aperto desconfortável da calça, mas uma estranha confiança vibrando no peito. — Você parece a Clara que estava escondida — Sarah piscou. — Vamos. O bar nos espera. E eu chamei alguns amigos. O bar ficava em um subsolo no centro de Santa Branca, com uma fachada discreta que ninguém daria um segundo olhar. Ao descermos as escadas, o som de jazz baixo e o cheiro de couro e sândalo preencheram meus sentidos. Meu coração martelava contra as costelas. — Sarah, o que é isso? — perguntei, estacando no final da escada. O salão não estava vazio. Havia uma mesa central longa e, espalhados pelo ambiente, contei pelo menos quinze homens. Alguns bebiam uísque, outros conversavam em tons baixos. Todos pareciam estar esperando. — Você disse que apresentaria alguns dominadores... — me virei para ela, sentindo um pânico súbito. — Tem quinze caras aqui! Sarah deu de ombros, com um sorriso travesso. — Eu posso ter exagerado um pouco no convite. A notícia de que uma "arquiteta curiosa e iniciante" queria entrar no meio correu rápido. Muitos quiseram te conhecer. E olha, tem um em especial que eu realmente queria que estivesse aqui... Ele é o ápice do que você procura, mas é difícil de atrair para esses eventos. Não sei se ele veio. — Sarah, eu não posso fazer isso. — Pode sim. Olha para você. Você é a dona da p*rra toda hoje. Ela caminhou até o centro do bar com a confiança de uma rainha. Bateu palmas, silenciando o ambiente. Os olhares de quinze homens se voltaram para nós — ou melhor, para mim. Senti-me como uma pequena presa diante de lobos bem vestidos. — Boa noite, senhores — Sarah anunciou, a voz projetada. — Esta é a Clara. Como sabem, o tempo de todos é precioso. Vamos organizar isso: cada um de vocês terá exatos cinco minutos com ela. Se a conversa não fluir, ela passa para o próximo. Sem insistências, sem ego ferido. Entendido? Houve um murmúrio de concordância. Alguns sorrisos de canto de boca, alguns olhares de avaliação que me fizeram arrepiar. — Sente-se ali, Clara — ela apontou para uma mesa mais reservada ao fundo. — O primeiro pode começar. Eu caminhei até a cadeira, minhas pernas pareciam feitas de gelatina. Sentei-me, respirei fundo e tentei lembrar que eu tinha o controle. Mas, ao ver o primeiro homem se levantar e caminhar em minha direção, percebi que a teoria dos livros era muito diferente da realidade do frio na barriga. A noite estava apenas começando, e eu não tinha ideia de que, entre aqueles homens, o meu destino já estava traçado em tons de cinza e autoridade.Com o encerramento de O Dominador de Clara, finalizamos uma história de superação onde as cicatrizes foram transformadas em ouro. Preciso fazer um agradecimento especial pela paciência e compreensão de todos; sei que, em diversos momentos, houve demora no lançamento de alguns capítulos, mas cada espera valeu a pena para entregarmos este desfecho. No entanto, o fim de um império é apenas o prefácio para o nascimento de outro, muito mais sombrio e implacável. Preparem-se para a nova obra de Lina Amar: Próximo Lançamento: Sequestrada por um Traidor O que acontece quando o seu carrasco é a única ponte para a sua coroa? Esqueça as histórias de amor convencionais. Em Sequestrada por um Traidor, entramos em um território onde a lealdade é moeda de troca e o desejo nasce do ódio mais profundo. O que esperar? Aqui, a sobrevivência não é uma escolha, é uma guerra. Prepare-se para uma narrativa visceral, onde o poder da máfia siciliana encontra a fúria de uma mulher que se recusa a se
A quietude da madrugada na cobertura foi interrompida não por um alarme ou uma ameaça, mas pelo som mais transformador que já ecoou entre aquelas paredes: o primeiro choro de uma vida que carregava nosso sangue e nossa história.O nascimento não foi apenas um evento médico; foi uma cerimônia de cura. Alex não saiu do meu lado por um único segundo. O homem que outrora buscava o controle absoluto através da força, ali, naquela sala de parto, encontrou seu poder na entrega. Suas mãos, que já haviam segurado armas e assinado contratos bilionários, tremiam ao sustentar o corpo minúsculo do nosso filho enquanto ele o entregava ao meu peito.— Ele é perfeito, Clara — Alex sussurrou, a voz embargada, enquanto nos envolvia em um abraço que selava definitivamente o nosso dest
O ateliê da cobertura, que antes era o santuário da minha arquitetura profissional, transformou-se no quartel-general do nosso projeto mais ambicioso. Sobre a grande mesa de carvalho, as plantas de edifícios corporativos deram lugar a amostras de tecidos orgânicos, paletas de cores suaves e esboços de móveis com cantos arredondados.— Quero algo que não pareça uma redoma de vidro, Alex — eu disse, riscando um detalhe no papel. — Precisa ser um espaço onde a criança possa explorar, sentir as texturas.Alex estava ao meu lado, mas não apenas como observador. Ele segurava um escalímetro e analisava a incidência de luz solar que entrava pela janela do quarto vizinho ao nosso, que havíamos escolhido para ser o berçário.— A ilumina&cce
O silêncio do banheiro da cobertura parecia amplificado pelo som da chuva batendo contra o vidro. Eu segurava o pequeno bastão de plástico com as mãos trêmulas, o coração martelando contra as costelas como se quisesse escapar. O tempo de espera indicado na embalagem parecia uma eternidade, um hiato entre a mulher que eu era e a que eu poderia me tornar.Quando os dois traços vermelhos finalmente apareceram, nítidos e incontestáveis, o mundo ao meu redor pareceu perder o peso. Não houve gritos ou lágrimas imediatas; apenas um suspiro longo, como se eu finalmente estivesse expelindo o último resquício de luto que guardava no peito.Saí do banheiro e encontrei Alex no quarto. Ele estava parado junto à janela, já vestido para o trabalho, mas não tinha saído. Ele estava
Os meses que se seguiram à nossa união na fazenda foram marcados por uma serenidade que eu, por muito tempo, julguei impossível. A vida na cobertura voltou ao seu ritmo, mas com uma nova cor. O Kintsugi florescia como escritório, e Alex aprendera a equilibrar sua intensidade natural com a leveza de um lar que não era mais uma fortaleza, mas um refúgio.No entanto, havia um silêncio que ainda ecoava nos cantos do nosso quarto durante as madrugadas. Um silêncio que tinha nome e uma dor antiga.— No que você está pensando? — Alex perguntou, sua voz vibrando contra minhas costas enquanto ele me abraçava na varanda, observando o horizonte da cidade.— No que perdemos — confessei, minha mão repousando instintivamente sobre o meu ventre. — E no que eu ainda t
As semanas que antecederam a cerimônia trouxeram uma mudança sutil, mas profunda, na nossa rotina. O Alex que eu via agora não era mais apenas o homem que exigia obediência ou que se escondia atrás de protocolos de controle. O trauma compartilhado e a superação do que enfrentamos haviam suavizado as arestas. Ele ainda era intenso, mas o domínio dera lugar a uma parceria protetora e genuína.— Não quero uma festa impessoal em um salão de festas — Alex me disse certa noite, enquanto compartilhávamos uma taça de vinho na cobertura. — Quero que este momento tenha raízes. Vamos fazer na fazenda.Eu concordei imediatamente. A ideia de oficializar nossa união sob o céu aberto, cercados pela terra que ele tanto amava, parecia o fechamento perfeito para a nossa reconstrução.No dia escolhido, o ar do campo estava fresco e perfumado. A fazenda, que geralmente era







