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Capítulo 02

Author: Apples
A dor não se anunciou.

Se isso tivesse sido nada mais do que a traição de um amigo de infância, eu teria dito a mim mesma que era suportável.

O que realmente me quebrou foi que Lucien cruzou a linha da amizade, fazendo-me acreditar que era amor. Naquela noite, ele me levou a um bar de lobisomens em território neutro para celebrar a transferência.

As luzes estavam baixas, a música pulsava, os feromônios estavam densos no ar e, pela primeira vez em anos, eu me permiti realmente olhar para ele, não como o menino com quem cresci, mas como um homem perto o bastante para que eu pudesse tocá-lo.

Minha loba havia despertado, mas a Lua não tinha me dado nenhum companheiro destinado. Eu disse a mim mesma que não precisava de um, que o amor poderia ser construído, não atribuído.

Então, quando Lucien me beijou, eu fiz a pergunta que vinha evitando há anos.

— Lucien — eu disse baixinho, com o coração acelerado —, o que somos agora?

Ele sorriu, caloroso e condescendente, beijou minha testa como uma promessa e respondeu sem responder nada.

— O que mais poderíamos ser?

Vivas explodiram ao nosso redor. As pessoas nos celebravam.

Dois dias depois, aprendi o quão risível era aquela crença.

Quando a verdade chegou até mim, eu ri entre as lágrimas.

Então, aquela garantia vaga nunca foi amor, apenas uma coleira, algo que Lucien usou para garantir que eu partisse silenciosamente e sem resistência.

Lucien cometeu um erro de cálculo fatal.

Ele confundiu proximidade com igualdade.

Ele era o filho ilegítimo do antigo Alfa da Alcateia Silvercrest, tolerado, ocasionalmente mimado, mas nunca formalmente reconhecido. O lugar dele na alcateia repousava sobre uma boa vontade frágil e promessas inacabadas.

Eu, por outro lado, era a única filha da Alcateia Bloodmoon, criada não para o afeto, mas para a herança.

As pessoas gostavam de acreditar que estávamos lado a lado porque havíamos crescido juntos. Na verdade, nunca estivemos no mesmo nível.

Éramos incompatíveis.

O formulário de transferência tremeu em minhas mãos, encharcado de lágrimas até que a tinta borrou em algo feio e ilegível.

Não importava.

Papel poderia ser substituído.

A Alcateia Bloodmoon nunca careceu de alternativas.

Imprimi um novo formulário. Quando cheguei à linha que pedia a academia de destino, fiz uma pausa e liguei para minha mãe.

— Mãe — eu disse baixinho —, aquela academia no exterior que você mencionou antes, qual era?

Ela respondeu imediatamente. Sem surpresa. Apenas compreensão.

— Sim — acrescentei calmamente. — Eu irei sozinha.

No momento em que terminei a nova inscrição.

Então veio uma batida.

Eu morava sozinha, e minha porta estava selada com um amuleto de aroma da Bloodmoon, um que apenas um punhado de pessoas poderia passar sem resistência.

Quando a abri, Lucien estava lá.

— Você não veio à reunião de despedida — ele disse suavemente. — Fiquei preocupado.

— Eu não vou — respondi calmamente. — Não estou me sentindo bem.

Eu me movi para fechar a porta.

Foi quando senti a segunda presença.

Olivia Miller.

Ela estava meio passo atrás de Lucien. No momento em que nossos olhos se encontraram, o corpo dela ficou tenso, os ombros se encolhendo como se ela esperasse que minha dominância a pressionasse.

Lucien percebeu imediatamente e a puxou para seus braços com facilidade instintiva, sua aura brilhando para fora em proteção.

— Vivienne — ele disse baixinho, descontente —, você assustou a Olivia.

Eu não senti nada. Apenas uma sensação maçante de repetição.

— Eu já disse antes — respondi calmamente — que não gosto que as pessoas tragam outros para o meu espaço.

Lucien franziu a testa.

— Olivia não é uma estranha — disse ele com firmeza. — Ela veio porque estava preocupada com você.

Antes que eu pudesse responder, Olivia falou primeiro, a voz tremendo, os olhos já marejados.

— Sinto muito — disse ela suavemente. — Eu sei que não pertenço a alcateias de sangue nobre como a sua. Eu não deveria ter vindo.

Ela abaixou a cabeça, os dedos se entrelaçando.

— Meus pais deram a vida durante o expurgo da fronteira. Essa é a única razão pela qual recebi uma admissão especial na academia. Eu sei que sou… diferente.

A expressão de Lucien escureceu quando ele se voltou para mim.

— Vivienne, você está praticando bullying com a Olivia, mesmo com os pais dela tendo morrido protegendo a alcateia. Você deveria refletir sobre si mesma!

Olivia puxou suavemente a manga dele, a imagem da contenção e do perdão.

— Lucien, por favor, não discuta — ela sussurrou. — Afinal, você e Vivienne cresceram juntos. Alguém como eu jamais poderia se comparar a isso.

— Já chega — Lucien disse imediatamente, segurando o rosto dela com uma ternura inconfundível. — Você deveria dar uma boa olhada em si mesma.

Então ele olhou de volta para mim, seu olhar afiado, distante.

— Olivia não está se sentindo bem. Vou levá-la de volta.

Ele fez uma breve pausa e acrescentou:

— Certifique-se de que seu formulário de transferência esteja devidamente selado.

Eu assenti.

Depois que a porta se fechou, fiquei ali por um momento, então levantei meu pulso e pressionei meu polegar levemente contra o nó de aroma embutido no batente.

A proteção da Bloodmoon se alterou.

A autorização de aroma de Lucien se dissolveu.

Ele estava certo. Eu deveria refletir, refletir sobre o motivo de algum dia ter me permitido me apaixonar por alguém tão falso.
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