Home / Fantasia / O Feiticeiro / Capítulo X

Share

Capítulo X

last update publish date: 2021-12-01 23:25:11

Vincent deu um passo para fora da janela e Eleanore deu um gritinho, achando que ele fosse despencar dois andares e ir direto para o chão. Mas não, ao invés disso, seus pés se firmaram em uma espécie de chão invisível, que o manteve suspenso no ar.

 – Vamos, Ellie – Vincent alcançou a outra mão de Eleanore e a incentivou a acompanha-lo.

Ela estava sobre o parapeito da janela e olhou para baixo, vendo o chão a metros e metros de distância. Eleanore apertou as mãos dele com mais força, já que era seu único apoio. Ela sequer havia registrado que Vincent havia chamado ela por um apelido.

 – Não pode estar sugerindo que eu... a-ande... no nada!

 – Estou. Dê o primeiro passo.

Eleanore engoliu em seco e deu um passo à frente, rezando internamente. Mas não caiu, seu pé encontrou apoio em algo sólido, mesmo que fosse invisível. Ela tirou o outro pé do parapeito e logo estava planando no ar, como se fosse feita de nuvem.

Um gritinho animado escapou da boca de Eleanore, sem que ela conseguisse se conter.

 – Eu estou voando!

 – Relativamente – Vincent soltou uma das mãos dela e começou a andar normalmente.

As pernas de Eleanore bambeavam e mesmo que a altura fosse assustadora, ela não conseguia parar de olhar para baixo. A brisa agitava seus cachos ruivos, o frio gentilmente acariciando seu rosto.

 – Você é um feiticeiro? – Eleanore perguntou, enquanto olhava maravilhada a beleza da paisagem ao redor. As folhas amarelas e alaranjadas das árvores no outono, as montanhas se estendendo no horizonte cobertas por vegetação verde pálida. Podia até ver o vilarejo ao longe, repleto de casas e cortadas por ruelas. E, claro, a propriedade de seu pai à frente.

 – Sim, eu sou um feiticeiro.

 – Como? – Eleanore olhou para o rosto dele.

Ele a fitou pelo canto de seu olho.

 – Muitos anos de estudo e ensinamentos, além de prática, Ellie.

– Ellie? – Eleanore franziu o cenho, indignada com a petulância de Vincent, reparando apenas naquele segundo o apelido.

 – Eleanore é um nome muito grande, eu quis encurtar. – Ele nem a olhou, ignorando o quão inapropriado era chama-la por um apelido, quando se conheciam há apenas algumas horas.

 – Isso é inapropriado – pontuou Eleanore gentilmente.

 – Quem disse?

 – A sociedade – ela respondeu prontamente.

 – E o que a sociedade já fez por você, Ellie? Por que segue as normas dela?

Para ser aceita, ela estava prestes a dizer. Mas por que buscar a aceitação de pessoas que nem a conheciam, que nunca fizeram nada por ela? Além do mais, provavelmente todos já sabiam sobre seu sumiço, sabe se lá o que seu pai havia dito para justificar isso, provavelmente dissera coisas horríveis para desqualifica-la. Já deveriam estar fazendo fofoca e especulações.

Por que seguia as normas da sociedade? Porque foi isso que ensinaram à ela, obedecer sem questionar, apenas fazer o que lhe eram mandado. Mas não precisava mais fazer isso O que já tinham feito por ela? Nada.

Eleanore deixou o assunto de lado, aceitando silenciosamente seu novo apelido. Ellie soava bem e ela nunca teve um apelido antes.

Logo, Eleanore estava andando sobre a propriedade de seu pai, o que quase matou Otto, o cavalariço, de susto. Eles desceram como se houvesse uma escada invisível, que os deixou bem em frente a porta de entrada da casa.

Foi apenas então que Vincent soltou a mão de Eleanore e ela pôde sentir um ar gelado atingir sua palma. Ele deu duas batidas firmes com os nós dos dedos na porta e esperou.

Eleanore sentiu o coração batendo fortemente em seu peito, soando em seus ouvidos feito o tique-taque de um relógio, em um ritmo acelerado alarmante. Ela sentia as mãos se umedecerem de suor e só de pensar em ouvir seu pai gritando, encolheu os ombros como uma reação instintiva de submissão. Sentia-se gelada, como se não usasse roupa alguma e sua pele estivesse completamente exposta ao ar gelado outonal. Eleanore tremeu.

 – Ellie – a voz de Vincent chegou à ela, o que a fez focar sua atenção nele – Não tenha medo, não mostre que seu pai ainda tem poder sobre você. Eu não vou permitir que ele faça mal algum para você. Não precisa se preocupar com nada.

Ela assentiu com a cabeça. Não queria que seu pai a visse tão amedrontada por sua causa, mas era difícil controlar suas próprias emoções. Acreditava que Vincent poderia mesmo protegê-la, considerando que enfeitiçara uma casa inteira.

A porta se abriu e Edelina, uma das empregadas do casarão, surgiu. Ela se espantou ao ver Vincent, possivelmente por causa de sua aparência incomum, mas, apesar de Eleanore não saber como isso era possível, os olhos dela se arregalaram mais ao olhar para a menina.

 – Senhorita Eleanore! Graças a Deus! – Edelina juntou ambas as mãos sobre o coração e suspirou aliviada. – Estávamos tão preocupados com a senhorita. Fico tão feliz que você tenha voltado.

 – Pois não fique – Vincent a cortou, varrendo o sorriso do rosto de Edelina – Porque ela não vai ficar. Podemos entrar?

 – Quem é? – uma voz grave soou de um cômodo próximo e todos os músculos de Eleanore se contraíram em puro pânico.

Albert surgiu da cozinha atrás de Edelina. Era um homem bastante alto, com cabelos e barba castanhos, feições rígidas e endurecidas como pedra. Tinha os mesmos olhos azuis cristalinos de Eleanore, a única característica que ela herdou dele. Como sempre, ele usava um terno, sempre para exibir ser um dono de terras.

Quando viu a filha parada na porta, a cor sumiu de seu rosto e algo obscureceu seus olhos.

 – Eleanore! – o grito dele reverberou por toda a casa, chacoalhando os ossos da garota.

Ele avançou na direção dela e Eleanore se encolheu inteira, como se pudesse sumir dentro de si mesma. Mas, antes que ele pudesse alcança-la, Vincent se pôs à sua frente, como uma espécie de muralha protetora. Albert estagnou no lugar, quando percebeu a presença do feiticeiro ali.

 – Vincent Maddox – Albert cuspiu as palavras como se o nome dele fosse amargo em sua boca.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O Feiticeiro   Epílogo

    Era uma casa simples no topo de uma pequena colina, feita de madeira com uma pequena varanda. Algumas margaridas cresciam ao redor dela. Havia um cercado próximo com cerca de pouco mais de meia dúzia de ovelhas pastando.Duas crianças brincavam no gramado em frente à casa. Uma delas era uma garotinha de não muito mais que dois anos, sentada, arrancando a grama com seus pequenos dedinhos; ela tinha cabelos castanhos caídos pelas costas. O menino, que corria em círculos com um pássaro de madeira nas mãos, possuía cabelos loiros volumosos, e se parecia muito com Sam.Havia uma mulher pendurando roupa em um varal ali perto. Tinha cabelos loiros que estavam presos em uma longa trança, que caía por sobre o ombro toda vez que ela se abaixava para pegar a próxima peça de roupa em um cesto de madeira no chão.Vincent caminhou até ela. Estava usando as roupas qu

  • O Feiticeiro   Capítulo CXCV

    Ellie estava com as mãos apoiadas em uma mesa da biblioteca, de pé, inclinada para frente, lendo e balbuciando as palavras de um feitiço o qual não estava conseguindo acertar o ponto. Às vezes, ela sentia como se mágica fosse igual a fazer um prato de comida, era preciso seguir passo a passo de uma receita que, em alguns momentos, era particularmente difícil.Pelo canto do olho, ela viu um vulto preto, que pousou no encosto da cadeira à sua frente.Logo depois, ela sentiu um toque suave em sua lombar, um toque que provocou um frenesi pelo corpo todo de Ellie. A mão subiu lentamente por sua coluna, parando entre as omoplatas, hiperaquecendo cada parte em que tocava e produzindo uma cadencia em seu coração. Com o braço livre, Vincent abraçou a cintura de Ellie e beijou a nuca exposta dela, já que seu longo cabelo cacheado estava preso em um coque no alto da cabeça, o

  • O Feiticeiro   Capítulo CXCIV

    Minerva estava no quarto de hospedes do castelo de Vincent. Mesmo depois de terem queimado os corpos dos feiticeiros, mesmo depois de tirarem o sangue de toda a clareira, de purificarem o local devido a forte magia negra e demoníaca, ela não conseguia nem chegar perto de seu próprio castelo. Talvez nunca mais voltasse para aquele lugar profano. Sobretudo porque havia sido lá que seu irmão morrera e que ela havia sacrificado todos aqueles feiticeiros.A única vez que havia saído do quarto tinha sido para fazer a avaliação em Dante, a pedido dele, onde seu aprendiz provara que já era um feiticeiro completo e, então, havia feito a cerimonia.Fora isso, tinha ficado deitada na cama sem vontade de sair dali. Dormindo e comendo. Deixava sempre as cortinas fechadas, para que Maggie pudesse visita-la sem correr o risco de ser queimada por qualquer feixe de luz.E, naquele momento, Maggie adento

  • O Feiticeiro   Capítulo CXCIII

    Depois de horas da cerimônia, Vincent encontrou June de joelhos em frente a um dos jardins, colhendo flores e ervas e colocando em uma cesta. Algumas semanas antes, ela havia reaberto o herbário e havia conseguido reatar o contato com muitos de seus antigos clientes, agora estava novamente empenhada em fazer suas poções, emplastos, pomadas e unguentos.Ao lado dela estava Dante, apenas observando-a fazer o seu trabalho e conversando, ele falava algo que Vincent não conseguia ouvir aquela distância. Então, ele se inclinou para o lado e beijou sutilmente o pescoço de June, que não pareceu minimamente surpresa com o toque.Vincent sentiu seu estômago se revirar, sabia que estava fazendo careta, mas não conseguia evitar ao assistir um homem tocar sua filhinha daquela maneira. Ele teve vontade de arrancar Dante de perto dela e amarra-lo no chão, talvez o deixasse ali fora por umas dez ou quinze

  • O Feiticeiro   Capítulo CXCII

    Maximus Lennox teve um funeral digno de um feiticeiro, seu corpo havia sido queimado em uma pira por fogo mágico, onde sobraram apenas as cinzas. Foi plantado um carvalho onde jaziam suas cinzas onde o nome dele havia sido gravado no tronco. Carvalho era uma árvore especial para feiticeiros, considerado mágico.A árvore agora crescia na frente do castelo de Minerva.Ela parecia desolada, pálida e fraca depois da batalha, totalmente entristecida pela perda de seu irmão. Não chorava, mas ficava olhando para aquele carvalho através da janela quebrada do que antes era a sala principal.Dante e June estava sentados no chão, lado a lado, de mãos dadas, as cabeças encostadas uma na outra enquanto lágrimas silenciosas desciam por seu rosto. Ellie havia contado que fora Sam quem fechara a fissura e ele havia ficado lá dentro, por ela, no lugar dela.Ninguém jogou na c

  • O Feiticeiro   Capítulo CXCI

    Ellie ainda segurava as bordas da fissura, mas agora parecia quase convulsionar enquanto chorava. A verdade assustadora era que não queria morrer, não queria ficar presa para sempre naquele cenário gelado e estéril que ela mesma havia criado.Era tão silencioso que ela podia ouvir as batidas de seu coração e o ar entrando e saindo de seus pulmões, conseguia quase ouvir seu sangue correndo em seus vasos.Foi quando alguém surgiu ao seu lado, uma sombra, uma presença.Quase, por instinto, Ellie soltou a fissura e tentou reunir magia de ataque, mas não conseguiu soltar e, lá no fundo, sabia que não havia mágica alguma para reunir, que toda sua força e seu fôlego estavam concentrados naquele ato de tentar fechar aquele buraco.– Ellie – a voz lhe era estranha, ela sabia que não conhecia o homem que falara e, quando olhou para

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status