ANMELDENCapítulo 33 Dois meninos Dulce Farias Uma semana depois, o envelope estava na minha bolsa. O resultado do exame de sangue tinha chegado naquela manhã. Eu abri no hotel, com Fernando de um lado e Lorenzo do outro. As palavras estavam ali, claras, em italiano e em português: dois fetos masculinos. Confirmado. Dois meninos. Eu chorei. Eles também. Agora o carro parava em frente à casa de Alex Loke. O portão já estava aberto. Fernando segurou minha mão o caminho inteiro. Lorenzo carregava a pasta com as fotos do ultrassom e o laudo. Eu respirei fundo antes de descer. A casa cheirava a comida. Muita comida. Eu reconheci o aroma do molho que a avó Lara fazia desde que eu era criança. Jade correu até a porta assim que nos viu, o unicórnio roxo balançando no braço. — Tia Dulce! Eu me abaixei e a peguei no colo. O cheiro de xampu infantil me acalmou um pouco. Alex Loke apareceu atrás dela, Esmeralda ao lado. Os três avós, Alex Farias, Loke Farias e Lara, estavam na sala, já sentados
Capítulo 32 Lorenzo Gonçalves A sala da casa de Alex Loke ainda cheirava a chuva e café. Dulce estava sentada no sofá entre eu e Fernando, as pernas dobradas, o corpo um pouco tenso, como se ainda não acreditasse que a gente estava realmente ali. Eu não tirava a mão dela. Fernando também não. Os dedos dele estavam entrelaçados nos dela de um lado; os meus, do outro. O silêncio depois da revelação tinha durado longos segundos. Agora ele precisava ser quebrado de verdade. — A gente precisa falar sobre o que vem agora — eu disse, a voz mais baixa do que o normal. — Sobre a gente. Sobre você. Sobre… isso. Dulce olhou para o próprio ventre, ainda discreto sob a blusa. Depois levantou os olhos para mim e para Fernando. — Eu tenho medo — admitiu. — Medo de não dar conta. Medo de vocês se arrependerem. Medo de que isso seja grande demais. Fernando se virou de frente para ela. Segurou o rosto dela com as duas mãos, o polegar passando de leve sob o olho inchado de tanto chorar. — Eu t
Capítulo 31A verdade e o medo Dulce Farias A porta se fechou atrás deles.Eu fiquei parada no meio da sala, ouvindo o portão ranger lá fora. O tablet ainda estava ligado em cima da mesa, a tela preta refletindo o meu rosto pálido. Jade continuava no sofá, o unicórnio no colo, os olhos grudados no desenho. Eu respirei fundo, tentei sorrir para ela e falhei.— a Tia precisa falar uma coisinha com o tio Alex. Fica aqui, tá?Ela assentiu sem tirar os olhos da televisão. Eu saí da sala com as pernas moles.No corredor encontrei Alex Loke. Ele estava encostado na parede, os braços cruzados, o olhar atento.— Você viu tudo — ele disse. Não era pergunta.— Vi.— E agora?Eu passei a mão pelo rosto. As pontas dos dedos estavam frias.— Agora eu preciso processar. Sozinha. Por algumas horas. Depois… eu não sei.Ele assentiu.— O quarto é seu. O tempo também.Subi as escadas. Fechei a porta do quarto. Me sentei na beira da cama e só então deixei o corpo ceder.As imagens voltaram todas de uma
Capítulo 30 Lorenzo Gonçalves Milão estava cinza e úmida quando o carro parou em frente ao portão alto. Eu olhei pela janela. O muro de pedra, as árvores já quase sem folhas, o jardim que se via por entre as grades. Fernando estava ao meu lado, a pasta preta apertada na mão. Nenhum de nós falou nada nos últimos minutos. O motorista abaixou o vidro e tocou o interfone. Uma voz masculina, formal, respondeu em italiano. Fernando se inclinou. — Somos Fernando e Lorenzo Gonçalves. Estamos aqui para falar com Dulce Farias. Alex Loke nos deu autorização. Houve um silêncio. Depois o portão se abriu devagar, rangendo. Entramos. O carro parou no caminho de pedras. Eu desci primeiro. O ar frio me acertou no rosto. Do lado direito da casa, no jardim coberto por uma estrutura de vidro, eu a vi. Dulce. Ela estava ajoelhada na grama artificial, o cabelo vermelho preso num rabo de cavalo baixo, usando uma blusa bege e calça preta. Ao lado dela, uma menininha de uns cinco anos, corria com um
Capítulo 29 No ar, de volta Fernando Gonçalves O jatinho dos Gonçalves decolou do aeroporto privado do Rio às 22h40.Eu estava sentado no assento de couro preto, o cinto ainda afivelado, o laptop aberto na mesa à minha frente. Lorenzo estava do outro lado do corredor, a cabeça apoiada na mão, os olhos cansados mas alertas. Entre nós, sobre a mesa, estava a pasta preta. Tudo estava ali. O frasco da droga com o laudo laboratorial. As gravações das câmeras da Eclipse Prime — de dentro e de fora da cabine 12. O depoimento formal da Camila "depois que ela entendeu que a gente tinha provas suficientes para processar" . E a confissão do Lucas, gravada no celular de Lorenzo no dia em que fomos atrás dele. Três meses. Três meses para juntar cada pedaço. Três meses sem dormir direito. Três meses ouvindo a voz de Dulce na minha cabeça todas as noites. Eu abri a pasta de novo, mesmo já sabendo de cor. A tela do laptop mostrava o vídeo da câmera do corredor. Dulce aparecia a
Capítulo 28 Dulce Farias O outono em Milão tinha chegado de verdade. As folhas das árvores do jardim estavam douradas e o ar já mordia de frio quando eu abria a janela de manhã. Eu ainda acordava algumas noites com o coração apertado. Mas de dia… de dia a rotina tinha me salvo. Jade corria pela sala com um vestido de princesa pela terceira vez naquela semana. Eu estava no chão, ajudando a colocar a coroa torta na cabeça dela, quando a náusea veio de novo. Forte. Subindo quente pela garganta. Eu engoli em seco e me levantei rápido demais. A cabeça girou. — Tia? — Jade parou de brincar e me olhou com aqueles olhos grandes. — Tia está branca. — Estou bem, amor — menti, forçando um sorriso. — Só preciso beber água. Caminhei até a cozinha com as mãos um pouco trêmulas. Abri a geladeira, peguei a garrafa e bebi direto. A água gelada desceu, mas o enjoo não passou. Apoiei as duas mãos na bancada e fechei os olhos, respirando fundo pela boca. Foi nessa hora que Esmeralda entr







