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Capítulo 2

Autor: Primeira Neve
Na manhã seguinte, levei o gato preto à clínica veterinária, pois ele não dormiu a noite inteira. Ficou andando de um lado para o outro pela sala e, de vez em quando, arranhava a gaveta que já estava vazia.

De manhã, quando tentei colocá-lo na caixa de transporte, ele reagiu com uma violência impressionante. Chegou a deixar um arranhão sangrando no dorso da minha mão.

Olhei para as pequenas gotas de sangue que brotavam da pele e não disse nada. Apenas peguei um lenço antisséptico que estava ao lado e limpei o ferimento devagar.

O gato preto pareceu atônito. Encolhido em um canto da caixa de transporte, ficou olhando para a minha mão enquanto soltava um gemido baixo, como se estivesse arrependido. A clínica veterinária estava lotada.

Quando o veterinário tirou o gato preto da caixa para examiná-lo, ele ficou estranhamente quieto. Apenas não tirava os olhos de mim, como se tivesse medo de que eu desaparecesse de seu campo de visão.

— Esse gato tem um temperamento forte. A reação dele ao estresse está um pouco intensa. — Comentou o veterinário enquanto media sua temperatura. — Talvez ainda não tenha se acostumado ao novo ambiente.

Fiquei ao lado da mesa de exames, olhando para o celular. Na lista de conversas do WhatsApp, a foto de perfil de Diogo continuava sem qualquer sinal de atividade.

A única mensagem que eu havia recebido era de Leonardo, seu assistente, meia hora antes.

[Srta. Amanda, o Presidente Diogo sofreu um acidente ontem à noite e está no hospital.]

[Quando acordou e não viu a senhorita, ficou de mau humor.]

[Quando a senhorita tiver disponibilidade, poderia vir até aqui? A Srta. Vitória também está aqui e está muito preocupada com o Presidente Diogo.]

Li aquelas palavras na tela e achei aquilo quase engraçado.

"Se Vitória está lá, por que ele ainda quer que eu vá? Para assistir de camarote a uma demonstração de amor deles?"

Apaguei a conversa com Leonardo sem hesitar.

De repente, o gato preto começou a se agitar. Tentou se lançar na minha direção, mas o veterinário o segurou de imediato.

— Fique quieto, fique quieto. Já está acabando.

Foi nesse momento que a porta do consultório se abriu. Quem entrou foi Caio, amigo de infância de Diogo. Ele também carregava um gato nos braços, um ragdoll caríssimo, que era o presente que Diogo havia comprado para Vitória no mês anterior.

Ao me ver, Caio ficou visivelmente surpreso. Em seguida, seu olhar caiu sobre a caixa de transporte ao meu lado, e um sorriso de escárnio surgiu em seus lábios.

— Amanda, você realmente tem tempo de sobra, não é? — Ele se aproximou e colocou o ragdoll sobre a bancada ao lado. — Diogo está internado e você nem aparece por lá, mas tem disposição para trazer um gato de rua ao veterinário?

Não olhei para ele, apenas respondi em um tom indiferente:

— Vitória está com ele. Isso já basta.

Caio soltou uma risada fria.

— Que birra é essa agora? Vitória é como uma irmã para ele. Qual é o problema de Diogo tratá-la bem? Você sabe por que ele sofreu aquele acidente ontem à noite? Ele atravessou metade da cidade para comprar para você um bolo da Doce Encanto Confeitaria, aquela de que você mais gosta, e acabou sendo arranhado por um gato de rua. Amanda, não seja tão ingrata.

Enquanto ouvia Caio, voltei os olhos para o gato preto sobre a mesa de exames. O corpo dele enrijeceu no mesmo instante.

Ele me encarava com a ansiedade estampada nos olhos, como se esperasse para ver qual seria a minha reação.

"Ele acha que eu vou me emocionar? Que, como antes, basta eu saber que Diogo fez o mínimo por mim para amolecer na mesma hora e correr de volta para os braços dele?"

Baixei os olhos e alisei o curativo adesivo no dorso da mão.

— O bolo da Doce Encanto Confeitaria? — Ergui a cabeça e encarei Caio. — Eu tenho alergia à soja. Todos os bolos daquela confeitaria são feitos com óleo de soja.

Caio ficou sem reação.

— Era o sabor preferido da Vitória, não era? — Minha voz permaneceu calma, sem a menor oscilação. — Caio, faça o favor de voltar e dizer ao Diogo que, já que ele gosta tanto de comprar coisas para Vitória, daqui para a frente pode se dedicar a isso. Só não precisa mais usar o meu nome como desculpa.

O gato preto se debateu violentamente sobre a mesa de exames, acabou derrubando a bandeja ao lado e espalhando os instrumentos médicos pelo chão.

Ele me encarava fixamente, soltando um chiado abafado e angustiado. Parecia querer correr até mim, como se tentasse me dizer que as coisas não eram bem assim.

Mas apenas lancei um olhar indiferente em sua direção. Então me virei e abri a porta do consultório.

— Doutor, quando terminar os exames, por favor, coloque o gato de volta na caixa. Vou esperar lá fora.

Quando voltei da clínica veterinária, comecei a arrumar a mala. Na verdade, não havia muita coisa para arrumar.

A casa tinha sido comprada por Diogo, e a maior parte das coisas que havia nela também tinha sido escolhida por ele. Tudo o que era realmente meu cabia em uma única mala.

Desde o instante em que entramos em casa, o gato preto não desgrudou dos meus pés. Ia atrás de mim aonde quer que eu fosse.

Tirei do guarda-roupa, uma por uma, as roupas de grife que Diogo havia comprado para mim, e coloquei todas à venda em uma plataforma de produtos usados. O gato preto pulou na cama e fincou uma das patas sobre o meu vestido. Não queria me deixar tocar nele.

— Saia daí. — Estendi a mão para afastá-lo.

Mas ele continuou deitado sobre o vestido, teimoso, soltando um protesto baixo.

Parei de dar atenção a ele e fui arrumar a escrivaninha. No fundo da última gaveta, havia um documento guardado. Era um contrato de transferência de participação acionária do Grupo Rodrigues. Quando Diogo transferiu dez por cento das ações para Vitória, para me apaziguar, concedeu a mim uma participação em outra subsidiária.

Na época, ele segurou minha nuca e falou comigo com uma doçura que mais parecia uma concessão.

— Amanda, esta empresa vai ser a sua segurança daqui para a frente. Seja boazinha e pare de disputar as coisas com a Vitória.

Naquela época, peguei o documento e não disse nada. Agora, tirei o contrato dali e o coloquei dentro de uma pasta, junto com a declaração de renúncia que eu já havia assinado.

Ao ver a pasta, o gato preto disparou na minha direção como se tivesse enlouquecido, e tentou rasgá-la com os dentes.

— Diogo.

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