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O Gato de Rua Disse: Ele É Meu Ex
O Gato de Rua Disse: Ele É Meu Ex
Autor: Primeira Neve

Capítulo 1

Autor: Primeira Neve
— Vocês terminaram mesmo?

Do outro lado da linha, a voz da minha melhor amiga, Manuela Teixeira, estava carregada de incredulidade.

— Sim. Terminamos.

Prendi o celular entre o ombro e a orelha e abri um saco de lixo preto extragrande.

Aos meus pés, o gato preto que eu havia encontrado na noite anterior estava agachado sobre o cobertor.

Seus olhos cor de âmbar permaneciam cravados em mim, enquanto a cauda batia irritada no chão atrás dele.

— E o Diogo aceitou? — Manuela soltou uma risada fria. — Ele não adora tratar você como um bichinho de estimação? Você nem pode sair de casa sem ter que avisar aonde vai.

— Se ele aceita ou não, já não importa.

Me agachei e abri a última gaveta da escrivaninha. Lá dentro, havia um par de alianças.

Diogo havia colocado uma delas no meu dedo no meu aniversário do ano anterior.

Naquela noite, ele tinha acabado de voltar da festa de boas-vindas de Vitória Azevedo e ainda trazia no corpo o cheiro do perfume que ela costumava usar.

Ele acariciou meu cabelo e disse, num tom de voz ao mesmo tempo terno e resignado:

— A Vitória acabou de voltar para o país e está emocionalmente abalada. Fiquei um pouco mais com ela. Você é tão compreensiva... Não vai implicar com isso, vai?

Na época, não respondi. Diogo simplesmente tomou meu silêncio como consentimento e, logo depois, transferiu para Vitória dez por cento da participação societária que havia prometido a mim.

A justificativa foi que Vitória precisava de algo que lhe desse segurança.

Peguei a aliança masculina e a joguei, sem cerimônia, dentro do saco de lixo preto. Se ouviu um baque abafado.

O gato preto aos meus pés estremeceu de repente e disparou na minha direção. Com as duas patas dianteiras, se agarrou com força à borda do saco de lixo e soltou um miado estridente.

— Miau!

Baixei os olhos para ele. O olhar daquele gato realmente me lembrava o de Diogo. Aquela expressão arrogante, segura de que eu jamais o abandonaria.

Estendi o pé e o afastei delicadamente.

— Pare com isso. Está sujo.

O gato preto não desistiu. Tornou a avançar e chegou a tentar morder o saco de lixo. Ignorei e continuei esvaziando a gaveta. A chave reserva que Diogo havia deixado ali. Lixo. As canecas de casal que Diogo havia comprado. Lixo. A camisola de seda que Diogo tinha mandado fazer especialmente para mim, porque achava que ela ficaria bonita. Lixo.

— Você está mesmo tirando de casa todas as coisas dele. — Comentou Manuela, que havia escutado o barulho pelo telefone.

— Só estou tirando o lixo. — Respondi com tranquilidade, enfiando a última camisa dele no saco.

No punho da camisa, ainda havia uma pequena mancha seca de café. Na semana anterior, Diogo tinha se sujado ao se pôr na frente de Vitória para impedir que o café a atingisse.

Naquele momento, ele se virou para mim e disse, naquele tom sempre tão racional e gentil:

— Vá até o carro buscar uma camisa reserva para mim. Não deixe a Vitória se sentir culpada.

Ele sempre fazia isso. Usava a voz mais gentil possível para cometer as maiores injustiças.

O gato preto andava em círculos ao meu lado, visivelmente aflito. Quando percebeu que eu continuava o ignorando, saltou de repente sobre a mesa e bateu com uma pata na tela do meu celular.

A tela acendeu. Por uma coincidência, uma mensagem do WhatsApp apareceu naquele exato instante.

Daniel Mendes: [Está livre amanhã? Consegui uma mesa naquele restaurante japonês que você queria conhecer há tanto tempo.]

O gato preto ficou imóvel no mesmo instante. Seus olhos se fixaram no nome de Daniel na tela, e um rosnado ameaçador começou a vibrar em sua garganta.

— O Daniel chamou você para sair? — Manuela percebeu na mesma hora.

— Chamou.

— Então vá! Por que o Diogo pode passar todos os dias com a queridinha dele, e você não pode ter sua própria vida?

Peguei o celular, mantendo-o longe das garras afiadas do gato preto, e digitei uma resposta.

[Certo. Até amanhã.]

Assim que enviei a mensagem, o gato preto pareceu enlouquecer e se lançou contra o meu celular.

Fui mais rápida e ergui o aparelho. Ele errou o salto e caiu pesadamente sobre o tapete.

Olhei para ele de cima.

— Se continuar fazendo isso, vou colocar você para fora.

O gato preto congelou no lugar. Ergueu a cabeça para me encarar e, pela primeira vez, surgiu em seus olhos cor de âmbar algo parecido com espanto.

Era como se não conseguisse acreditar que eu pudesse falar com ele com tamanha frieza.

Exatamente como Diogo jamais acreditaria que eu, Amanda Soares, a mulher que sempre deixava uma luz acesa em casa à espera dele, pudesse realmente decidir que não o queria mais.

Dei um nó bem apertado no saco de lixo cheio das coisas de Diogo. Então o ergui, caminhei até a entrada e, sem a menor hesitação, joguei na lixeira do lado de fora.

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