INICIAR SESIÓNA claridade invadiu o quarto, e Helena despertou com o canto dos pássaros. Ao sentir o vazio ao seu lado, um calafrio percorreu sua espinha. Se sentou na cama, o lençol escorrendo pelo seu corpo, e viu um bilhete na mesinha de cabeceira. Em uma letra elegante, estava escrito: "Estavas a dormir tão profundamente que seria um pecado acordá-la. Você é incrível. Léo Montenegro." "Incrível?", pensou. O homem a abandonou sem ao menos um "bom dia". A decepção era palpável.
Droga!", ela exclamou, amassando o papel em sua mão. "Que tipo de homem faz isso?". O luxo do quarto, antes tão impressionante, agora parecia uma gaiola dourada. Helena se sentiu uma idiota. Ela tinha acabado de sair de uma traição para se entregar a um estranho que a descartou com um bilhete. A raiva que sentia de si mesma era quase tão grande quanto a que sentia por ele. "Ótimo! Isso é ótimo!", ela murmurou com raiva na voz, os dentes cerrados. "Ele nem teve o trabalho de me dar um 'bom dia'. Apenas um bilhete de adeus, como se eu fosse um prêmio de consolação". A frustração tomou conta de Helena. Ela se levantou da cama, pegou sua roupa e começou a se vestir, os movimentos bruscos e nervosos. Aquele homem, com sua arrogância e charme, havia conseguido atingir a ferida mais profunda de seu coração, a de se sentir usada e insignificante. Mas, desta vez, ela não iria chorar. Helena franziu a testa, a raiva crescendo dentro dela. "Que tipo de homem faz isso?", ela perguntou para o quarto vazio, a voz ecoando com frustração. O bilhete, com sua caligrafia perfeita e a mensagem condescendente, era um insulto. Ele a havia chamado de "incrível", mas a tratou como uma conveniência, uma distração para a noite. Ainda furiosa, ela andou pelo quarto até que seus olhos pararam em uma mesa de cabeceira. Ali, havia uma surpresa que a fez parar em seu caminho. Ao lado da cama, havia uma mesa posta com um buquê de flores e um cartão. A fúria inicial deu lugar à confusão. Ela se aproximou hesitante, o cheiro das flores invadindo seus sentidos. O buquê era lindo, com uma variedade de flores coloridas. O cartão, amarrado com uma fita de cetim, tinha a mesma caligrafia elegante do bilhete. "Para senhorita Alencar", ela leu, e um nó se formou em sua garganta. A raiva começou a diminuir, dando lugar a uma sensação de desorientação. Que tipo de homem a abandonava com um bilhete, mas a presenteava com flores e um café da manhã? O que ele queria com tudo aquilo? Helena se sentiu mais perdida do que nunca, e o luxo do quarto, antes tão opressor, agora parecia apenas parte de um jogo que ela não compreendia. Sentindo-se completamente desnorteada, Helena percebeu que precisava sair dali o mais rápido possível. A mistura de raiva, confusão e uma pontada de desilusão era demais para suportar. Pegou o telefone e ligou para a recepção, a voz firme apesar da turbulência interna. — Eu gostaria de pedir um táxi, por favor — disse ela. A voz do outro lado soou educada e profissional. — Sim, senhora. Já está a caminho. Enquanto esperava, olhou para a mesa posta, o buquê de flores e o cartão. Ignorou-os. Aquele luxo, a vista, tudo que antes parecia um sonho, agora tinha o gosto amargo de um pesadelo. Apenas queria fugir, voltar para sua vida real, para longe do bilionário enigmático que a desestabilizara por completo. A porta do quarto se abriu, e o táxi a aguardava. Sem olhar para trás, ela saiu, deixando para trás as flores e a incerteza.Na manhã seguinte, quando abri os olhos, encontrei um bilhete repousando ao lado da cama:> “Bom dia, meu amor. Seria um pecado te acordar. Estou na vinha com Alessandro, volto para o almoço.”Sorri, sentindo o coração aquecer. Por um breve instante, lembrei do abandono no Milani — do bilhete e das flores deixados para trás —, mas me recusei a permitir que aquela lembrança ofuscasse o presente. Isso fazia parte de um passado distante, e além do mais, Léo já havia me contado sobre o medo que sentiu de se envolver novamente depois do rompimento com Maire.Ela havia desaparecido desde o dia em que sabotou a moto de Léo, provocando o acidente em Águeda. Depois que seus pais conseguiram tirá-la da prisão — graças à influência do senhor Francesco —, a família a enviou para a Inglaterra. O próprio Francesco deixara claro que não aceitaria mais nenhuma ameaça contra os Montenegro.Meus pensamentos foram interrompidos por leves batidas à porta.— Entre — falei.Era Maria, trazendo Lucca nos br
Os dias foram se passando. Léo seguia na rotina, sempre ocupado com os negócios das vinhas. Alessandro o ajudava nas reuniões em que ele não podia comparecer, e algumas delas aconteciam no escritório da própria propriedade.O vinho que Léo havia criado em minha homenagem — o Santa Helena — tornara-se um sucesso. Ele até recebeu convites para participar de alguns campeonatos de motocross, mas recusava todos. Sabia que, para mim, seria uma tortura vê-lo correr novamente depois do acidente em Águeda. Mesmo amando o esporte, ele escolhia ficar.Eu já estava com oito meses de gestação. Era fim de novembro, e o Natal se aproximava. As contrações de treinamento já mostravam que meu corpo começava a se preparar. Tentava descansar, mas Lucca, esperto e curioso, estava sempre por perto, encantado com as borboletas dos jardins.Maria continuava sendo uma grande ajuda e companhia. Passávamos boa parte dos dias juntas, enquanto Léo se dividia entre compromissos e decisões importantes à frente dos
Léo foi ao escritório enquanto eu me vestia. Escolhi um vestido branco que desenhava suavemente a minha barriga e deixei os cabelos soltos.Desci as escadas com cuidado, indo até o escritório onde ele estava.Léo permanecia concentrado diante do notebook. Sobre a mesa, uma foto antiga — eu grávida de Lucca, entre as vinhas da serra gaúcha. Quando me aproximei, ele percebeu minha presença e levantou os olhos.— Meu amor, vamos? — disse, levantando-se da cadeira.Ele me abraçou, a mão acariciando com ternura a minha barriga.— Você está linda — murmurou, deslizando os dedos sobre o tecido do vestido.Saímos de casa logo em seguida. Achei melhor deixar Lucca com Maria na propriedade; não sabíamos a hora em que voltaríamos.No carro, Léo dirigia como se levasse o mundo inteiro dentro dele. De tempos em tempos, desviava o olhar da estrada para mim.— Está tudo bem? — perguntava, sempre com aquela preocupação que lhe era tão própria.Quando chegamos à casa de Fellipe e Camille, Léo respirou
Acordei com o sol atravessando as cortinas e o canto suave dos pássaros lá fora. Os peões já trabalhavam nas vinhas, o som distante das vozes e das ferramentas misturando-se ao vento da manhã.Vesti-me e desci. O quarto de Lucca já estava vazio. Na sala de jantar, encontrei Maria à mesa, servindo o café ao meu pequeno.— Como dormiu, senhora? — perguntou Emma, com seu sorriso acolhedor.— Bem, Emma. Acho que o cansaço venceu. Assim que deitei, apaguei. Nem percebi se Léo ligou — respondi, sentando-me à mesa.Tomamos café juntas. Lucca estava encantado com o jardim da propriedade — talvez pelas borboletas que dançavam entre as flores.Depois, Maria o levou para brincar, enquanto eu ficava conversando com Emma, que organizava algumas coisas na cozinha.Ela me falava sobre Léo, quando ainda era criança, e o quanto sofreu com a morte de dona Clarice.— Eles tinham uma conexão muito bonita, senhora — disse Emma, com ternura. — Depois que ele nasceu, dona Leonor quase não vinha mais aqui. A
Acordei no meio da madrugada com um enjoo terrível — talvez algo do jantar não tivesse me caído bem. Corri para o banheiro e, quanto mais vomitava, mais parecia que meu corpo queria expulsar o mundo inteiro de dentro de mim.Escovei os dentes para tirar aquele gosto amargo da boca e fui até a varanda do quarto em busca de ar fresco. O vento da manhã roçava suavemente o meu rosto, e, aos poucos, a náusea foi cedendo. Levei um copo d’água aos lábios e, ao erguer o olhar, vi o horizonte clareando.O sol nascia, tingindo de dourado as fileiras de videiras que se estendiam até onde a vista alcançava. O orvalho ainda brilhava sobre as folhas, e os primeiros trabalhadores caminhavam pelas vinhas com seus chapéus de palha, carregando cestos e ferramentas. O canto dos pássaros se misturava ao som distante das rodas dos tratores, e por um instante, senti-me dentro de um filme — desses em que a vida parece perfeita, mesmo nos detalhes simples.Quando o sol já estava alto, desci as escadas devaga
A manhã nasceu mansa, e o claro invadiu nosso quarto como um convite à saudade. Os pássaros cantavam do lado de fora, enquanto o murmúrio dos trabalhadores ecoava nos vinhedos, trazendo vida à propriedade.Léo tomou um banho demorado, o vapor cobrindo o espelho e seu perfume espalhando-se pelo ar. Quando saiu, já trazia uma pequena mala nas mãos — a mesma que havia deixado pronta na noite anterior.Descemos juntos. Lucca ainda dormia, o rostinho tranquilo, e Léo não teve coragem de despertá-lo.Na cozinha, Emma havia preparado pães e bolo fresco. O cheiro era acolhedor, mas Léo estava apressado. Limitou-se a um café preto, enquanto eu o observava em silêncio, tentando gravar cada detalhe seu — o modo como dobrava as mangas da camisa, o olhar firme, o sorriso breve antes de partir.Nos despedimos à porta. Ele entrou no carro e seguiu pela estrada que levava ao hangar.Talvez fossem os hormônios, mas as lágrimas vieram sem que eu pudesse conter.Era estranho estar ali, na França, sem Lé







