INICIAR SESIÓN~HELENA~
Lá estava eu, no banco de trás do táxi, vendo a cidade passar. A raiva que sentia era como uma bola de fogo no peito, misturada com uma pontada de vergonha. "Que tipo de homem faz isso?", pensei. O bilhete, o café da manhã, o buquê de flores... tudo parecia uma piada de mau gosto, uma tentativa de compensar a covardia de não ter se despedido pessoalmente. Senti-me uma idiota por ter acreditado em um momento de paixão, por ter me entregado a um estranho que me tratou como um brinquedo descartável. Mas a raiva logo deu lugar à determinação. Eu precisava seguir em frente Quando cheguei ao meu apartamento, com a sensação de abandono ainda pesando no peito, a primeira coisa que fiz foi colocar o celular para carregar. A tela acendeu, e com ela, o bombardeio de mensagens. Uma delas era da Bruna, minha amiga e também fotógrafa. 'Onde você tá, Helena? Preciso de você para fotografar um casamento, não vou conseguir ir'. A primeira reação foi de rejeição. A última coisa que eu queria era estar em um casamento, rodeada de pessoas celebrando o amor, justamente depois de toda a minha desilusão. A ironia era cruel. A tentação de ignorar a mensagem foi grande, mas a ideia de ficar em casa, afogada nos meus próprios pensamentos, era ainda pior. A fotografia sempre foi a minha fuga, a minha paixão, o meu refúgio. Precisava disso. Então, respondi que sim. Precisava pensar em outra coisa. Precisava de algo que me tirasse de mim mesma. Talvez, ao focar nas emoções dos outros, eu pudesse, por um instante, esquecer as minhas. Me concentrar em capturar a felicidade de um casal, mesmo que para mim, naquele momento, o amor parecesse uma farsa. Sim, eu precisava ir. Precisava trabalhar, não só para a Bruna, mas para a minha própria sanidade. A água quente escorreu pelo meu corpo, levando consigo o cansaço da viagem e, por um momento, a dor da manhã. Mas a tristeza ainda estava lá, insistente, esperando que eu saísse do banho para voltar a me incomodar. Enquanto me vestia, liguei para Bruna e pedi para ela mandar um táxi e a localização. O meu corpo estava em movimento, mas a mente ainda estava presa na noite anterior, nas palavras de Léo, na sua fuga. O casamento foi uma bênção. Não para os noivos, que pareciam radiantes, mas para mim. Foi um dia exaustivo, uma correria sem fim. Fomos quatro fotógrafos, mas eu não tive tempo para respirar, para pensar. Passei o dia inteiro correndo de um lado para o outro, buscando os melhores ângulos, capturando a emoção dos convidados, a felicidade dos noivos. E, em cada clique, eu me esquecia da minha própria dor. Eu estava tão focada no trabalho, que por um momento, esqueci o motivo de eu estar ali. A fotografia, que antes era só um hobby, se tornou a minha salvação. A minha paixão me deu um propósito naquele dia, e a cada flash, eu me sentia mais forte, mais viva. O casamento, que eu temia tanto, foi a minha terapia. A celebração do amor me fez refletir sobre a minha própria vida, sobre o que eu queria, sobre o que eu merecia. E, ao final do dia, a exaustão física superou a emocional, me dando um alívio que eu não sentia há muito tempo. Trabalho concluído. O táxi me deixou em casa, e o cansaço era tão grande que parecia ter corpo e peso. Eu só queria me jogar em algo macio e não pensar em mais nada. O apartamento estava silencioso, o que era um alívio depois de um dia inteiro de música, risadas e a pressão de registrar cada momento de felicidade. Joguei a bolsa e a câmera em um canto, me arrastando até o sofá. Assim que meu corpo tocou a maciez das almofadas, a escuridão veio. Não foi um sono de sonho, foi um apagão. A exaustão física e mental se uniram para me dar um descanso que a minha mente agitada estava negando há tempos. Por um momento, não existiu Andrey, Mary, nem Léo. Só o silêncio e a paz que o cansaço me proporcionou.Na manhã seguinte, quando abri os olhos, encontrei um bilhete repousando ao lado da cama:> “Bom dia, meu amor. Seria um pecado te acordar. Estou na vinha com Alessandro, volto para o almoço.”Sorri, sentindo o coração aquecer. Por um breve instante, lembrei do abandono no Milani — do bilhete e das flores deixados para trás —, mas me recusei a permitir que aquela lembrança ofuscasse o presente. Isso fazia parte de um passado distante, e além do mais, Léo já havia me contado sobre o medo que sentiu de se envolver novamente depois do rompimento com Maire.Ela havia desaparecido desde o dia em que sabotou a moto de Léo, provocando o acidente em Águeda. Depois que seus pais conseguiram tirá-la da prisão — graças à influência do senhor Francesco —, a família a enviou para a Inglaterra. O próprio Francesco deixara claro que não aceitaria mais nenhuma ameaça contra os Montenegro.Meus pensamentos foram interrompidos por leves batidas à porta.— Entre — falei.Era Maria, trazendo Lucca nos br
Os dias foram se passando. Léo seguia na rotina, sempre ocupado com os negócios das vinhas. Alessandro o ajudava nas reuniões em que ele não podia comparecer, e algumas delas aconteciam no escritório da própria propriedade.O vinho que Léo havia criado em minha homenagem — o Santa Helena — tornara-se um sucesso. Ele até recebeu convites para participar de alguns campeonatos de motocross, mas recusava todos. Sabia que, para mim, seria uma tortura vê-lo correr novamente depois do acidente em Águeda. Mesmo amando o esporte, ele escolhia ficar.Eu já estava com oito meses de gestação. Era fim de novembro, e o Natal se aproximava. As contrações de treinamento já mostravam que meu corpo começava a se preparar. Tentava descansar, mas Lucca, esperto e curioso, estava sempre por perto, encantado com as borboletas dos jardins.Maria continuava sendo uma grande ajuda e companhia. Passávamos boa parte dos dias juntas, enquanto Léo se dividia entre compromissos e decisões importantes à frente dos
Léo foi ao escritório enquanto eu me vestia. Escolhi um vestido branco que desenhava suavemente a minha barriga e deixei os cabelos soltos.Desci as escadas com cuidado, indo até o escritório onde ele estava.Léo permanecia concentrado diante do notebook. Sobre a mesa, uma foto antiga — eu grávida de Lucca, entre as vinhas da serra gaúcha. Quando me aproximei, ele percebeu minha presença e levantou os olhos.— Meu amor, vamos? — disse, levantando-se da cadeira.Ele me abraçou, a mão acariciando com ternura a minha barriga.— Você está linda — murmurou, deslizando os dedos sobre o tecido do vestido.Saímos de casa logo em seguida. Achei melhor deixar Lucca com Maria na propriedade; não sabíamos a hora em que voltaríamos.No carro, Léo dirigia como se levasse o mundo inteiro dentro dele. De tempos em tempos, desviava o olhar da estrada para mim.— Está tudo bem? — perguntava, sempre com aquela preocupação que lhe era tão própria.Quando chegamos à casa de Fellipe e Camille, Léo respirou
Acordei com o sol atravessando as cortinas e o canto suave dos pássaros lá fora. Os peões já trabalhavam nas vinhas, o som distante das vozes e das ferramentas misturando-se ao vento da manhã.Vesti-me e desci. O quarto de Lucca já estava vazio. Na sala de jantar, encontrei Maria à mesa, servindo o café ao meu pequeno.— Como dormiu, senhora? — perguntou Emma, com seu sorriso acolhedor.— Bem, Emma. Acho que o cansaço venceu. Assim que deitei, apaguei. Nem percebi se Léo ligou — respondi, sentando-me à mesa.Tomamos café juntas. Lucca estava encantado com o jardim da propriedade — talvez pelas borboletas que dançavam entre as flores.Depois, Maria o levou para brincar, enquanto eu ficava conversando com Emma, que organizava algumas coisas na cozinha.Ela me falava sobre Léo, quando ainda era criança, e o quanto sofreu com a morte de dona Clarice.— Eles tinham uma conexão muito bonita, senhora — disse Emma, com ternura. — Depois que ele nasceu, dona Leonor quase não vinha mais aqui. A
Acordei no meio da madrugada com um enjoo terrível — talvez algo do jantar não tivesse me caído bem. Corri para o banheiro e, quanto mais vomitava, mais parecia que meu corpo queria expulsar o mundo inteiro de dentro de mim.Escovei os dentes para tirar aquele gosto amargo da boca e fui até a varanda do quarto em busca de ar fresco. O vento da manhã roçava suavemente o meu rosto, e, aos poucos, a náusea foi cedendo. Levei um copo d’água aos lábios e, ao erguer o olhar, vi o horizonte clareando.O sol nascia, tingindo de dourado as fileiras de videiras que se estendiam até onde a vista alcançava. O orvalho ainda brilhava sobre as folhas, e os primeiros trabalhadores caminhavam pelas vinhas com seus chapéus de palha, carregando cestos e ferramentas. O canto dos pássaros se misturava ao som distante das rodas dos tratores, e por um instante, senti-me dentro de um filme — desses em que a vida parece perfeita, mesmo nos detalhes simples.Quando o sol já estava alto, desci as escadas devaga
A manhã nasceu mansa, e o claro invadiu nosso quarto como um convite à saudade. Os pássaros cantavam do lado de fora, enquanto o murmúrio dos trabalhadores ecoava nos vinhedos, trazendo vida à propriedade.Léo tomou um banho demorado, o vapor cobrindo o espelho e seu perfume espalhando-se pelo ar. Quando saiu, já trazia uma pequena mala nas mãos — a mesma que havia deixado pronta na noite anterior.Descemos juntos. Lucca ainda dormia, o rostinho tranquilo, e Léo não teve coragem de despertá-lo.Na cozinha, Emma havia preparado pães e bolo fresco. O cheiro era acolhedor, mas Léo estava apressado. Limitou-se a um café preto, enquanto eu o observava em silêncio, tentando gravar cada detalhe seu — o modo como dobrava as mangas da camisa, o olhar firme, o sorriso breve antes de partir.Nos despedimos à porta. Ele entrou no carro e seguiu pela estrada que levava ao hangar.Talvez fossem os hormônios, mas as lágrimas vieram sem que eu pudesse conter.Era estranho estar ali, na França, sem Lé







