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Capítulo 2 — Choque de Mundos

last update Fecha de publicación: 2025-10-23 21:22:34

Rose acordou cedo, como sempre. O relógio marcava cinco e meia da manhã quando ela deixou o apartamento, os cabelos ainda úmidos do banho, a pasta firme na mão. Havia passado a noite pensando na missão. Pedro Nascer. Um nome que carregava fortuna, escândalos e agora também a responsabilidade de ser o alvo dela — não como inimiga, mas como guardiã.

Não era a primeira vez que cuidava de alguém difícil. Já havia protegido empresários paranoicos, artistas que confundiam segurança com escravidão, até políticos que se achavam donos do país. Mas havia algo no nome Nascer que pesava diferente. Talvez porque, desde que aceitara o trabalho, lembrava das manchetes sobre o acidente. O carro destruído, a noiva morta, Pedro saindo ileso mas marcado para sempre.

Rose balançou a cabeça. “Disciplina é força. Emoção é fraqueza.” O lema do pai martelava sua mente.

O motorista designado a levou até a cobertura no centro da cidade. O edifício era um arranha-céu de vidro, que refletia o nascer do sol como se quisesse tocar o céu. Rose saiu do carro com passos firmes, ignorando os olhares curiosos do porteiro e dos seguranças de uniforme. Subiu pelo elevador privativo, sentindo a tensão subir com ela.

Quando a porta se abriu, encontrou Pedro sentado no sofá da sala imensa, ainda de robe, taça de uísque na mão — às oito da manhã. O cabelo bagunçado, a barba por fazer, o olhar carregado de tédio. Ele sequer disfarçou a expressão de desdém quando a viu.

— Você de novo — disse, sem levantar. — Pensei que tivesse sido uma piada de mau gosto do meu pai.

Rose manteve o queixo erguido.

— Não sou piada. Sou sua guarda-costas.

Pedro riu baixo, aquele riso sarcástico que vinha carregado de veneno.

— Guarda-costas… você. — Ele a mediu com os olhos, de cima a baixo. — Não sei se rio mais da sua ousadia ou da incompetência da empresa que te mandou.

Ela respirou fundo. A vontade de responder na mesma moeda era enorme, mas se conteve.

— Subestimar alguém pela aparência é sempre um erro, senhor Nascer.

— Não me chame de senhor. — Ele bebeu outro gole. — Isso me faz parecer com meu pai, e eu detesto parecer com ele.

— Muito bem, Pedro — disse, firme, sem titubear. — Mas eu continuo aqui.

Ele levantou-se devagar, andando até ela com o copo na mão. Parou tão perto que Rose sentiu o cheiro da bebida misturado ao perfume caro.

— Está aqui porque eu deixei. Se eu disser uma palavra, você some dessa cobertura em segundos.

— Tente — rebateu Rose, cruzando os braços. — Seu pai foi claro: estou contratada por um ano. Quer você queira ou não.

Pedro estreitou os olhos, como se tentasse decifrá-la. Estava acostumado a ver as pessoas recuarem diante do tom dele. Rose, no entanto, permanecia firme, quase desafiadora.

— Você acha mesmo que pode me proteger? — a voz dele saiu baixa, carregada de escárnio. — Já perdeu alguma luta, Rose?

— Muitas. — Ela ergueu o queixo. — E foi assim que aprendi a vencer.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Ele tomou o último gole do uísque e deixou o copo sobre a mesa com força.

— Muito bem. Já que insiste… quero ver se aguenta o meu ritmo.

— Ritmo de autodestruição? — ela ironizou. — Isso eu já vi antes. Não impressiona.

Por um instante, os olhos de Pedro brilharam com algo diferente. Raiva? Admiração? Ele não soube dizer. Apenas virou as costas e foi em direção ao quarto.

— Faça como quiser, Rose Almeida. Mas aviso: você vai se cansar antes de mim.

O dia seguiu em um campo minado de provocações.

Na hora do café da manhã, Pedro apareceu de camiseta branca e calça de moletom, o cabelo ainda desgrenhado. Rose já o esperava à mesa, analisando a planta da cobertura e os pontos de vulnerabilidade.

— Está se sentindo em casa? — ele perguntou, com um sorriso irônico. — Vai redecorar também?

— Apenas analisando por onde alguém poderia entrar sem ser visto — respondeu, sem erguer os olhos. — E, pelo que vi, sua cozinha é mais vulnerável do que imagina.

Pedro ergueu uma sobrancelha, pegando uma maçã da fruteira.

— Então quer dizer que alguém poderia entrar aqui e me matar enquanto como?

— Se estivesse sozinho, sim. Mas agora não. — Rose o encarou com firmeza. — Minha função é impedir que isso aconteça.

Ele deu uma mordida na maçã e mastigou devagar, sem desviar o olhar dela.

— Você fala bonito. Mas ainda não acredito que consiga.

— Não precisa acreditar. Precisa apenas me deixar trabalhar.

O silêncio voltou a se instalar, cortado apenas pelo som da mastigação dele e das anotações dela na prancheta.

À tarde, Pedro tentou ignorá-la. Trancou-se no escritório, passou horas ao telefone, mas Rose permaneceu por perto, atenta. Quando finalmente saiu, encontrou-a sentada no sofá, lendo um relatório.

— Está confortável? — ele debochou. — Vai pedir café também?

— Já fiz. — Rose ergueu a xícara. — Mas não trouxe para você. Achei que preferia uísque.

Pedro engasgou com a resposta. Não estava acostumado a ser provocado de volta. Parte dele queria explodir; outra parte… se divertia.

Ele se aproximou, os olhos fixos nos dela.

— Você não sabe no que está se metendo, Rose.

— Sei exatamente. — Ela fechou a pasta com calma. — Você é um homem quebrado, cercado de inimigos que não sabe nomear. E eu sou quem vai manter você vivo, mesmo que faça de tudo para me atrapalhar.

Por alguns segundos, o silêncio foi quase insuportável. Pedro sentiu a respiração pesar. Era como se estivesse diante de alguém que não via apenas o herdeiro arrogante, mas o homem por trás das cicatrizes.

Ele se afastou, rindo baixo, tentando recuperar o controle.

— Muito bem, guarda-costas. Vamos ver quem desiste primeiro.

Rose não respondeu. Apenas o seguiu com o olhar, firme como uma sombra.

E, pela primeira vez em muito tempo, Pedro Nascer percebeu que talvez tivesse encontrado alguém que não podia simplesmente dobrar.

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