FAZER LOGINEle esperou do lado de fora do quarto.
Helena terminou de se arrumar em silêncio, conferiu se estava realmente bem, respirou fundo e saiu. Encontrou-o encostado à parede do corredor, a postura relaxada demais para alguém que claramente estava acostumado a controlar ambientes. — Podemos ir? — perguntou. — Claro. O elevador ficava no final do corredor. Caminharam lado a lado, sem se tocar, os passos ecoando baixos sobre o carpete espesso. Quando a porta se fechou atrás deles, o espaço pareceu menor do que realmente era. O elevador desceu devagar. Nenhum dos dois falou. Helena percebeu o reflexo dele no espelho lateral: alto, ombros largos, expressão serena demais para alguém que acabara de lidar com uma situação delicada. O tipo de homem que não precisava elevar a voz para ser ouvido — nem demonstrar força para que ela fosse percebida. Havia algo nele que chamava atenção sem esforço. Não uma beleza óbvia, mas presença. Uma firmeza silenciosa que incomodava e tranquilizava ao mesmo tempo. Ela desviou o olhar quando percebeu que observava demais. O elevador parou com um leve solavanco. As portas se abriram para a garagem clara, limpa demais para ser comum. Ele saiu primeiro, segurando a porta para ela. Foi então que Helena viu o carro. Preto, baixo, linhas precisas. Discreto e imponente ao mesmo tempo. Não chamava atenção por exagero, mas pelo oposto — luxo que não precisava ser anunciado. Ele abriu a porta do passageiro com naturalidade. — Fique à vontade. Helena entrou, sentindo o silêncio do interior, o couro macio, o cheiro leve de algo sofisticado que ela não soube identificar. Quando ele deu a volta e assumiu o volante, tudo pareceu acontecer com uma precisão quase automática. O motor ligou sem esforço. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou. A cidade ainda acordava lá fora, e Helena teve a nítida impressão de que aquele homem não apenas tinha dinheiro — ele vivia em um mundo completamente diferente do dela. — Pode me dizer o endereço — ele disse, sem tirar os olhos da saída da garagem. Ela hesitou por um instante. — Rua das Acácias, número 214. Ele apenas assentiu, como se a simplicidade não fosse algo que precisasse de comentário. O carro saiu da garagem com suavidade. Helena recostou a cabeça no banco, sentindo o cansaço da noite finalmente cobrar seu preço. Ela não sabia quem ele era. Mas havia algo ali que não se encaixava no esquecimento. O trajeto seguiu em silêncio. Helena observava a cidade pela janela, os prédios ficando mais simples conforme se afastavam da região central. O conforto do carro contrastava com a sensação estranha de estar vivendo algo fora do eixo da sua própria vida. Sentia-se constrangida — não de si mesma, mas da situação. De ter dado trabalho. De ter precisado da ajuda de um desconhecido. Ao mesmo tempo, havia um alívio quieto por estar indo para casa em segurança. Ele dirigia com atenção tranquila, sem pressa, sem olhar para ela além do necessário. Isso a deixava, curiosamente, à vontade. Quando o carro entrou na rua das Acácias, Helena reconheceu o caminho e endireitou a postura. — É aqui. Pode parar ali na frente. O prédio era antigo, fachada sem pintura recente, portão simples de metal. Nada chamativo. Nada que combinasse com o carro estacionando diante dele. Ele parou e desligou o motor. Por alguns segundos, Helena permaneceu ali, segurando a alça da bolsa, como se precisasse se organizar antes de sair. — Eu… — começou, depois respirou fundo. — Quero pedir desculpas por tudo isso. Eu realmente não quis causar transtorno. Ele virou o rosto na direção dela, atento. — Você não causou. — Mesmo assim… — insistiu, sentindo o rosto aquecer. — Obrigada por ter me ajudado. Por ter ficado. Por ter me trazido até aqui. Se houve algum custo… com o hotel, com o carro… eu posso pagar. Não agora, mas— Ele a interrompeu com um gesto calmo. — Não precisa. De verdade. A firmeza na voz não era dureza. Era constatação. Helena assentiu, sem saber o que dizer. — Ainda assim… obrigada — disse, abrindo a porta. — Eu não vou esquecer isso. Ela desceu e fechou a porta com cuidado. Ficou ali por um instante, de frente para ele, a mão apoiada na bolsa, sentindo o leve desconforto de despedidas inesperadas. — Espero que esteja melhor agora — ele disse. — Estou. Cansada, mas bem. Ele assentiu. — Descanse. Helena sorriu, educada, sincera. — Tenha um bom dia. — Você também. Ela caminhou até o portão e só então percebeu algo simples, mas marcante: ele não arrancou com o carro. Esperou até que ela estivesse dentro do prédio, até que a porta se fechasse atrás dela. Só então o motor voltou a roncar. No silêncio do corredor estreito, subindo as escadas até seu apartamento, Helena sentiu o peso da noite finalmente se acomodar.Na quinta-feira, Helena pegou Henry no colégio e seguiu com ele para a empresa de Ethan. Assim que entraram no escritório, Henry correu até o pai. — Papai! Ethan se levantou e abriu os braços. — Como foi a escola? — Boa. Mas eu quero almoçar naquele restaurante. Ethan arqueou uma sobrancelha. — Qual? — O da massa. Ethan pegou o paletó sobre a cadeira. — Então vamos. Henry segurou a mão do pai, satisfeito, e só então olhou para Helena. — Você também vai. Helena sorriu. — Vou, então. — Ótimo. Ethan olhou para o filho. — Você sempre consegue o que quer. — Igual você. Helena não conseguiu segurar o riso. Ethan lançou um olhar de lado para ela. — Ele está aprendendo com boas referências. — Não coloca a culpa em mim. Henry já puxava o pai pela mão. — Vamos logo! — Certo, chefe. O restaurante estava cheio quando chegaram, e o ar cheirava a molho de tomate e pão quente. Ethan conseguiu uma mesa mais reservada no fundo do salão, longe do barulho dos talheres. Henry se
Helena ainda sentia o rastro do beijo nos lábios quando Ethan entrelaçou os dedos nos dela, puxando-a corredor adentro sem dar espaço para perguntas. Nos últimos tempos, era assim que funcionava com ele: o mundo parecia girar na velocidade que ele determinava, e ela apenas ia primeiro, deixando para pensar nas consequências bem depois. Só parou de andar quando a porta do quarto se abriu, revelando o que havia lá dentro. Perto da grande janela, uma arara solitária exibia alguns poucos vestidos. Bastou bater os olhos no primeiro tecido para saber que aquilo não pertencia a nenhuma das lojas que ela frequentava. — O que é isso? — perguntou, a voz saindo mais desconfiada do que pretendia. Ethan encostou o ombro no batente da porta, cruzando os braços com aquela calma irritante que parecia natural nele. — Sua formatura é daqui a duas semanas. Escolhe um. — Escolher um? Helena atravessou o quarto devagar, os passos cautelosos, como se temesse que a arara fosse uma miragem que desapar
Helena praticamente atravessou o saguão do prédio. O coração ainda batia rápido quando empurrou a porta de vidro e saiu para a calçada, mas não precisou procurar. Ethan estava encostado no carro, alguns metros adiante. As mangas da camisa estavam dobradas até os antebraços e ele segurava o celular em uma das mãos, mas os olhos dele encontraram os dela imediatamente. — O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, parando na frente dele. — Eu falei que terminava cedo. — Isso não responde minha pergunta. — Eu sei. Helena cruzou os braços. — E então? Ethan guardou o celular no bolso e indicou o veículo: — Entra. — Isso também não responde minha pergunta. — Continua sendo meu plano. Helena tentou sustentar a expressão séria, mas acabou soltando uma pequena risada. — Por isso você falou que eu tinha que estar disponível para você? — Sim, você tem que estar sempre disponível para mim. Ela riu de novo, balançando a cabeça. — Talvez sim. Talvez não. Ethan arqueou uma
Helena só voltou a respirar normalmente quando a porta se fechou atrás deles. Por alguns segundos, permaneceu parada no mesmo lugar, tentando desacelerar o coração antes de balançar a cabeça e seguir para o andar de cima. O celular vibrou assim que entrou no quarto. Uma mensagem de Lucas apareceu na tela: “Você sumiu.” Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios enquanto digitava: “Estou trabalhando.” A resposta chegou quase imediatamente. “Mentira. Você nunca responde tão rápido quando está trabalhando.” Helena revirou os olhos, mas não conseguiu conter a diversão. “Hoje estou de folga.” O indicador de digitação apareceu, desapareceu e voltou alguns segundos depois. “Ótimo.” Ela já conhecia aquele tom. “Lucas...” “Almoço.” “Isso não foi uma pergunta.” “Porque eu sei que você vai dizer sim.” Helena soltou uma risada baixa diante da tela. “Convencido.” “Você já falou isso hoje?” Por um segundo, ela ficou apenas olhando para a conversa antes de bloquear o celular.
Os dias seguintes passaram mais rápido do que Helena esperava. Ethan não voltou a procurá-la, e ela também não tomou a iniciativa. Entre o trabalho na mansão, a faculdade e os preparativos para a formatura, Helena acabou se ocupando com a própria rotina e teve pouco tempo para pensar no que havia acontecido entre os dois. Naquela manhã, a mesa do café da manhã já estava posta quando Helena se sentou ao lado de Henry. O menino mexia distraidamente no prato enquanto tentava negociar um segundo copo de chocolate. — Não. — Só mais um. — Não. — Meio. — Continua sendo não. Henry apoiou o queixo na mão e a encarou com uma expressão ofendida. — Você é muito rígida. — E você muito dramático. — Eu aprendi com os melhores. — Nem quero saber quem são. — Eu também não. Helena soltou uma risada e empurrou o prato um pouco mais para perto dele. — Come. — Tô comendo. — Reclamar não conta como comer. Henry abriu a boca para responder, mas o som de passos vindo da escada chamou sua at
Alguns dias haviam passado desde a noite em que Lia encontrara uma foto de Ethan ao lado de Heloíse e a enviara para Helena. Ethan não apareceu, não ligou e não mandou nenhuma mensagem desde que a deixara em casa. Ela poderia ter procurado por ele, perguntado o que estava acontecendo ou simplesmente enviado uma mensagem qualquer, mas não fez nenhuma dessas coisas. Na verdade, tentou seguir a própria rotina como se nada tivesse acontecido. Durante aqueles dias, dividiu o tempo entre o trabalho na mansão, os cuidados com Henry e as aulas da faculdade. Ocupou-se o máximo que conseguiu e evitou procurar aquela foto novamente, embora a imagem daquela noite ainda aparecesse em sua memória vez ou outra. Naquela tarde, depois do trabalho, Helena foi direto para a faculdade. Encontrou Lia na cafeteria entre uma aula e outra e se sentou diante da amiga com o café nas mãos. Lia observou Helena por alguns segundos antes de perguntar: — Você tá me ouvindo? Helena piscou algumas vezes antes d







