MasukA mansão Bellucci nunca estivera tão silenciosa, nem tão carregada de tensão.
Cada canto parecia sussurrar segredos, conspirações e o peso de um futuro incerto. Amara caminhava pelos corredores largos, as mãos firmemente fechadas ao lado do corpo. No espelho do corredor, viu o reflexo da mulher que não queria ser: a herdeira mafiosa forçada a se casar com o homem que desprezava — e que poderia ser sua sentença de morte. No salão principal, uma reunião tensa se desenrolava. Os membros do Conselho discutiam estratégias, e os olhares lançados a ela eram uma mistura de desdém e expectativa. Não havia espaço para dúvidas: o poder estava em jogo, e Amara era a peça chave. — Ela não tem experiência para liderar — murmurou um dos conselheiros mais velhos, cruzando os braços. — Se o irmão Bellucci está desaparecido, isso é sinal de fraqueza. Dante deve garantir que ela não se torne um peso. Dante estava ao lado da lareira, as mãos cruzadas, imóvel como um lobo em repouso. Quando ouviu o comentário, seus olhos azuis cortaram o ambiente com um brilho letal. — Amara não é um peso. Ela é uma ameaça — sua voz saiu firme, a certeza de quem conhece a força oculta nas sombras. — Se subestimá-la, vocês podem se preparar para o caos. O silêncio caiu sobre a sala, e os homens se entreolharam, divididos entre o medo e o respeito. Mais tarde, no quarto reservado para ela, Amara sentou-se diante da penteadeira. O vestido de noiva — branco, clássico, mas pesado como uma armadura — estava dobrado ao lado, um lembrete cruel do que viria. Ela tocou a cicatriz fina na costela, sentindo o frio do passado e a urgência do presente. A lembrança do irmão desaparecido latejava na mente, a responsabilidade que ela não pediu pesava sobre os ombros. O som da porta sendo aberta a fez se virar. — Preparada para o juramento? — Dante estava ali, parado na soleira, os olhos fixos nela. Amara levantou o olhar, a tensão estampada em cada linha do rosto. — Nunca estarei pronta para um casamento forjado no fogo do poder — respondeu, a voz firme. Dante deu um passo à frente, aproximando-se lentamente. — Então vamos torná-lo um fogo que você não poderá apagar — murmurou, a voz rouca e intensa. O ar entre os dois parecia vibrar, um campo minado de emoções não ditas, ódio e uma atração impossível de ignorar. Amara desviou o olhar, sabendo que essa guerra não seria apenas contra o Conselho, mas contra algo ainda mais perigoso dentro dela. --- Enquanto isso, nas sombras da Sicília, os olhos do inimigo observavam. Enzo Mancini , rival dos Bellucci, sorriu ao receber a notícia do casamento. Para ele, aquela união era uma chance de infiltrar-se e derrubar ambos os clãs. — Que o juramento comece — disse, enquanto suas garras se preparavam para rasgar a aliança. O salão principal da mansão Bellucci estava lotado. Não de convidados alegres, mas de rostos frios, homens armados e sorrisos carregados de falsidade. Esse não era um casamento. Era uma negociação selada com alianças, sob a mira de armas invisíveis. Amara caminhava pelo corredor improvisado entre as colunas de mármore, com o vestido branco ajustado ao corpo, cada passo pesando como se as correntes da máfia se enrolassem em torno de seus tornozelos. Os saltos batiam no piso de pedra como se anunciassem a execução e não uma união. Todos a observavam. Os aliados. Os traidores. O Conselho. E no altar improvisado, o homem que agora seria seu "marido". Dante Moretti. Impecável, de terno escuro, o olhar cinzento tão frio quanto o oceano em noite de tempestade. Ele estava parado, imóvel, como se fosse parte da estrutura daquela mansão maldita. Quando os olhos dele encontraram os dela, Amara sentiu o corpo inteiro reagir. Não era desejo — ou talvez fosse. Mas era também raiva, desafio e uma tensão que queimava sob a pele. Ela parou diante dele, mantendo o queixo erguido, mesmo com o coração disparado. O velho do Conselho, com a expressão de mármore, iniciou o discurso formal: — Hoje, diante das famílias, do Conselho e sob as leis do submundo, selamos um juramento sagrado. Um pacto de sangue e lealdade. Quem quebrá-lo… morre. Dante estendeu a mão para ela, e por um segundo, Amara hesitou. Ele a encarou, a voz baixa o suficiente para só ela ouvir: — Não pense nisso como um casamento, Bellucci. Pense como um campo de guerra. E agora… você está no meu lado do front. Ela segurou a mão dele, firme, sentindo o toque quente e o poder escondido ali. O Conselho continuou: — Amara Bellucci e Dante Moretti, juram, perante nós, lealdade ao Conselho, às famílias e um ao outro, até que a morte — ou o sangue — os separe? Dante não piscou. — Eu juro — disse, o tom tão firme que parecia uma ameaça e não uma promessa. Todos aguardaram a resposta dela. O salão parecia mais silencioso que um túmulo. Amara sentiu o peso do olhar dele, dos conselheiros, de todo o passado. E ainda assim, sustentou a própria coragem: — Eu juro — respondeu, com um fio de voz, mas com a determinação de quem sabe que, a partir dali, não havia mais volta. As alianças deslizaram pelos dedos, frias como aço. O juramento estava feito. Mas quando Dante se inclinou, aproximando os lábios do rosto dela, Amara soube que aquilo ia além de uma formalidade. Ele a puxou pela cintura, o toque forte, possessivo, e sussurrou contra os lábios dela: — Bem-vinda ao inferno, esposa. O beijo veio seco, cheio de faíscas, sem romance, mas carregado de promessa e veneno. E no fundo, ambos sabiam: o verdadeiro jogo começava agora.O telefone permaneceu nas mãos de Amara por alguns segundos depois que a mensagem desapareceu da tela.O silêncio ao redor parecia ainda mais pesado.— Eles sabiam que encontraríamos isso — ela murmurou.Dante pegou o aparelho, releu a mensagem e depois voltou os olhos para as coordenadas anotadas no verso da fotografia.— Então vamos descobrir por quê.Amara observou a expressão dele.— Você acha que Riccardo está lá?— Acho que existe uma boa chance.— Não é o bastante.Ela tomou a fotografia de volta.— Quero certeza.Dante não discutiu.Os dois retornaram para a mansão antes do amanhecer. A equipe levou os documentos encontrados na propriedade, enquanto Dante ordenava que ninguém comentasse sobre a operação.Assim que chegaram ao escritório, Amara abriu um mapa sobre a mesa.As coordenadas apontavam para uma região afastada, entre pequenas propriedades rurais, a quase duas horas de distância.Dante marcou o ponto.— Aqui.Amara se inclinou.— Não existe nada registrado.— Oficialm
Dante fechou a pasta devagar, mas não tirou os olhos da fotografia de Riccardo.A imagem continuava aberta sobre a mesa.O rosto do irmão de Amara estava machucado, porém consciente. E aquilo era o que mais importava.Ele estava vivo.Amara permaneceu ao lado dele, encarando a pequena placa metálica visível atrás de Riccardo.A-17.— Precisamos descobrir onde isso fica — disse ela.Dante assentiu.— Já estou pensando nisso.— Não. — Ela puxou a pasta para perto. — Estamos pensando nisso.Ele a observou por um instante.Amara abriu os documentos antigos de Matteo Bellucci e começou a separar as páginas.— Seu pai não colocou o nome do projeto em dezenas de documentos. Ele escondia as informações. Isso significa que cada referência pode ter sido proposital.— Concordo.— Então não procure apenas por A-17.Dante se inclinou sobre a mesa.— O que você está procurando?— Pessoas.Ela apontou para uma lista antiga.— Quem trabalhou para ele naquela época. Motoristas, seguranças, contadores,
O endereço continuava aberto na tela do celular de Amara. Dante permaneceu em silêncio por alguns segundos, encarando a mensagem como se pudesse descobrir a intenção por trás de cada palavra. — Você conhece esse lugar? — ela perguntou. — Conheço. — E? Ele pegou o celular da mão dela. — Uma propriedade de Lorenzo. Fica afastada da cidade e quase nunca é utilizada. Amara estreitou os olhos. — Então por que alguém me mandaria justamente esse endereço? — Para que você vá até lá. — Ou para que eu pense que devo ir. Dante ergueu o olhar. — Exatamente. Ela caminhou até a mesa e apoiou as mãos sobre os documentos espalhados. — Eles sabem que estamos procurando Riccardo. Sabem que encontramos os registros do meu pai. Sabem que descobrimos o Projeto A-17. — E agora querem decidir qual será nossa próxima pista. Amara assentiu. — Só que alguma coisa não está certa. Dante se aproximou. — O quê? Ela apontou para a mensagem. — Se eles realmente quisessem n
A propriedade ficou para trás pouco depois do anoitecer. Dante ordenou que ninguém tocasse em nada além do que já havia sido recolhido, e a equipe deixou o local exatamente como o encontrou. Se Lorenzo e Mancini estavam observando, precisavam acreditar que a armadilha havia funcionado. Dentro do carro, porém, a realidade era outra. Amara permanecia em silêncio, olhando pela janela enquanto a paisagem escura passava rapidamente. A fotografia de Riccardo estava sobre seu colo. Ela ainda sentia o peso daquela imagem nas mãos, mas agora não havia espaço para desespero. Havia perguntas. — Eles não queriam que encontrássemos meu irmão — disse finalmente. Dante, sentado ao lado dela, ergueu os olhos do telefone. — Não. — Queriam que encontrássemos a propriedade. — Sim. Amara virou a fotografia. — Então o que existe aqui que seja mais importante para eles do que esconder Riccardo? Dante ficou alguns segundos em silêncio. — A resposta provavelmente está no passado da sua família. E
A notícia de que Riccardo estava vivo mudou completamente o rumo das coisas. Durante semanas, Amara havia sido obrigada a conviver com a possibilidade de nunca mais ver o irmão, mas agora tinha uma prova concreta diante dos olhos. A imagem dele ainda permanecia em sua mente, assim como a voz fraca chamando seu nome. Não importava que a gravação tivesse sido uma armadilha. Para ela, havia uma única verdade que importava naquele momento: Riccardo estava vivo.Dante não permitiu que a esperança os cegasse. Desde que o vídeo chegara, permanecia diante dos monitores do escritório, voltando a gravação diversas vezes e analisando cada detalhe do ambiente onde Riccardo aparecia. Amara estava ao lado dele, observando em silêncio, até que percebeu algo na parede atrás do irmão.— Volta.Dante obedeceu sem questionar. A imagem congelou.— Ali — ela apontou.Ele ampliou.— O revestimento?— Meu pai usava esse tipo de azulejo nas propriedades antigas. Não era comum. Ele mandava importar porque gos
A manhã chegou sem trazer qualquer sensação de alívio. Depois do golpe em Ravenna, Dante sabia que a reação de Mancini seria apenas uma questão de tempo. A mansão permanecia em alerta, os homens espalhados pelos pontos estratégicos e os telefones não paravam de receber atualizações. Ainda assim, havia uma estranha quietude dentro do escritório. Amara entrou e encontrou Dante diante da janela, uma pasta aberta sobre a mesa e vários documentos espalhados ao redor. A xícara de café ao lado dele já estava fria. — Você não dormiu — comentou, aproximando-se. — Não consegui. Ela pegou a xícara e fez uma careta ao perceber que estava gelada. — Isso explica por que está com essa cara. Dante finalmente olhou para ela, e por um instante quase sorriu. — Ravenna caiu. A expressão dela mudou. — Então funcionou. — Funcionou. As contas que conseguimos identificar foram bloqueadas, algumas rotas foram interrompidas e Giulio Ferraro está colaborando. Amara se aproximou da mesa, passando os o







