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O céu da Sicília estava cinza. Uma camada densa de nuvens se arrastava pelo horizonte, como se o próprio tempo soubesse que algo sombrio pairava sobre aquela ilha maldita.
Amara Bellucci desceu do avião com os ombros tensos, o maxilar travado e o estômago em chamas. Fazia sete anos que não pisava ali. Sete anos tentando esquecer que o sangue dela tinha preço, que o sobrenome Bellucci carregava cadáveres, alianças sujas e promessas de morte. Mas agora… não havia mais fuga. Seu irmão estava desaparecido. E ela era a próxima na linha de fogo. O celular vibrou em sua mão, a tela iluminando o nome que ela temia: O Conselho. Não um conselho político, não um tribunal comum — mas o círculo mais implacável da máfia italiana, formado pelos homens que regiam o submundo da Sicília como deuses invisíveis. Amara atendeu, a voz fria: — Fale. Do outro lado, a resposta veio carregada de desprezo: — Vá para o portão principal. Seu “acompanhante” já está à sua espera. O clique seco encerrou a ligação, e Amara soltou o ar com dificuldade. Ela sabia o que aquela palavra escondia. Acompanhante… não era proteção. Era vigilância. Era ameaça disfarçada. Era o aviso sutil de que ela não estava ali como herdeira legítima, mas como alvo. Seguiu pelas ruas de Palermo com o olhar atento, sentindo a Sicília pulsar sob os pés — antiga, caótica, cheia de história e sangue. O carro preto estacionado em frente ao portão principal da propriedade Bellucci reluzia como um presságio. E, encostado nele, estava o homem que mudaria o curso de tudo. Dante Moretti. O executor do Conselho. O Lobo de Palermo. O predador treinado para eliminar fraquezas… como ela. Ele a observava com olhos cinzentos como aço, frios como a lâmina que, segundo os rumores, já ceifou dezenas de vidas. Era alto, intimidante, de uma beleza cruel e expressão impassível. Amara parou a poucos passos, erguendo o queixo, sustentando o olhar como quem desafia o destino. — Moretti — ela disse, a voz firme, mesmo com o coração em chamas. — Bellucci — ele respondeu, com um sorriso torto que não alcançava os olhos. — Seja bem-vinda ao seu inferno. Ela não recuou. O jogo tinha começado. E no mundo da máfia, o único juramento que se mantém… é aquele selado com sangue. O ar em Palermo tinha cheiro de mar, pólvora e passado. Era pesado, sufocante, impregnado de histórias que ninguém ousava contar em voz alta. Dante Moretti abriu a porta do carro com a mesma calma letal de quem já tinha enterrado corpos e destruído dinastias inteiras. O olhar cinza dele percorreu o corpo de Amara, dos saltos elegantes ao rosto carregado de orgulho, e pousou diretamente nos olhos dela. — Vai entrar? Ou prefere ficar alimentando os abutres que já farejam sua queda? — ele provocou, a voz grave, carregada de deboche. Amara ergueu uma sobrancelha, caminhando na direção do carro como se pisasse num campo minado — o que, na prática, não estava muito longe da realidade. — Estou surpresa que o Lobo de Palermo se rebaixe a motorista — rebateu, jogando a bolsa no banco de trás antes de se acomodar no assento. Dante soltou uma risada baixa, mas havia veneno naquele som. Fechou a porta com força, deu a volta no veículo e entrou, ligando o motor sem pressa. — Rebaixado? — ele disse, acelerando pelas ruas estreitas da cidade. — Você ainda não entendeu, Bellucci… Eu não sou motorista. Sou o aviso. Ela o encarou de lado, os olhos verdes faiscando. — E qual seria o recado, Moretti? Que estou viva por enquanto? Ele soltou o volante com uma das mãos e puxou a manga do terno, revelando discretamente o símbolo tatuado na pele — o brasão antigo dos Moretti, um lobo envolto em espinhos. — O recado é simples — ele respondeu, o tom carregado de ameaça velada. — Você está viva porque o Conselho ainda permite. Mas cada passo em falso… cada demonstração de fraqueza… eu estarei ali, pronto para te lembrar que Bellucci ou não, ninguém está acima da lei da máfia. Amara desviou o olhar para a janela, o maxilar travado. A cidade passava como um borrão: becos antigos, vielas que escondiam negócios sujos, prédios antigos onde famílias inteiras tinham sido condenadas por desafiar o sistema. Ela sabia das regras. Sabia o preço de carregar aquele sobrenome. Mas o desaparecimento do irmão mudava tudo. Riccardo Bellucci era o herdeiro legítimo. O homem que deveria estar ali, enfrentando o Conselho, protegendo o legado da família. Não ela. Mas Riccardo sumiu. E, no vácuo do poder, os inimigos farejavam sangue. O carro parou diante dos portões de ferro forjado da antiga propriedade Bellucci — um casarão siciliano de arquitetura clássica, imponente, com jardins que já foram palco de festas luxuosas e hoje mais pareciam túmulos abertos à espera dos próximos corpos. Os portões se abriram automaticamente, revelando seguranças armados, olhares desconfiados e sussurros abafados. — Prepare-se — disse Dante, saindo do carro e abrindo a porta dela. — A caça começou. E o Conselho quer ver se a princesa mafiosa sabe sobreviver no campo de guerra. Amara desceu do carro com a postura ereta, o coração disparado, mas o rosto inexpressivo. Tinha aprendido cedo que na máfia, o medo é uma arma… e fraqueza, sentença de morte. Dentro da mansão, o ar era frio, os corredores longos demais, o silêncio opressor. Quadros antigos, tapeçarias italianas, retratos de família que contavam gerações de poder, conspiração e sangue. Dante caminhava ao lado dela, a presença imponente como uma sombra grudada na pele. Até que pararam diante da sala principal, onde os membros do Conselho aguardavam. Homens velhos, poderosos, cada um com sangue nas mãos e segredos nos olhos. O líder, um homem de cabelos grisalhos e expressão de mármore, a observou com desprezo. — Amara Bellucci… retornando ao covil. — Ele riu, sem humor. — Mas sem o irmão, sem o herdeiro. Só sobra você. Uma mulher. Um problema. Amara sentiu o veneno nas palavras, mas manteve o queixo erguido. — Sou mais do que suficiente para sustentar o que é dos Bellucci — disse, desafiando-os. O líder a encarou, depois desviou o olhar para Dante. — E você, Moretti? Está pronto para cumprir o juramento? Ou acha que ela não aguenta o peso da coroa? Amara franziu o cenho, o coração batendo mais forte. Juramento? Dante respondeu antes que ela pudesse falar, a voz cortante como aço: — Eu estou pronto. E ela vai aguentar. Não porque é forte… — ele a olhou diretamente, o cinza dos olhos queimando nela — …mas porque agora ela me pertence. O silêncio no salão parecia tão pesado que cada palavra poderia ser um estilhaço capaz de quebrar tudo. O líder do Conselho levantou a mão, impondo ordem. — Basta! — sua voz ecoou, autoritária e fria. — O tempo dos Bellucci terminou. Ou Amara aceita o acordo que propomos, ou sua família será dilacerada até o último fio de sangue. Amara sentiu um calafrio, mas não recuou. Em pé, firme, encarou cada homem naquela sala como se desafiasse o próprio destino. — Qual é o acordo? — perguntou, a voz firme, sem medo. Dante deu um passo à frente, a postura rígida, os olhos como lâminas afiadas. — Um juramento. — Ele falou com uma frieza cortante, olhando para Amara com intensidade. — Vocês dois vão se casar. Formalizar um vínculo que selará a paz entre os Bellucci e o Conselho. O murmúrio percorreu o salão. Alguns sorriram com escárnio; outros franziram a testa. Amara sentiu o mundo girar por um instante. Casar com Dante Moretti? O homem que ela deveria odiar? O executor que a vigiaria como uma presa? — Isso é um castigo — ela disse, a voz baixa, carregada de desprezo. — Um casamento forjado para me controlar. Dante respondeu com um sorriso frio, sem humor. — O casamento é o juramento mais sagrado que existe. Quem quebra, morre. Quem ama, enfraquece. Essa é a regra. Ela o encarou, vendo não só o inimigo, mas o homem que carregava um fardo tão pesado quanto o dela. — Eu não vou fraquejar — Amara afirmou, a determinação incendiando seus olhos. — Nem por você, nem pelo Conselho. Dante se aproximou, tão perto que o cheiro amadeirado do seu perfume misturava-se com o suor frio dela. — Fraquejar? — ele sussurrou, a voz baixa e ameaçadora. — Você ainda não sabe do que eu sou capaz, Bellucci. Por um instante, o silêncio foi quebrado apenas pelo som abafado do relógio antigo na parede. O líder do Conselho bateu a mão na mesa com força, chamando a atenção. — Está decidido. Amanhã a cerimônia será realizada. O juramento será selado diante de todos. E que sirva de aviso: Quem quebrar a palavra, perderá mais que a vida. Amara olhou para Dante. O homem que deveria ser seu carrasco seria, por enquanto, sua única proteção. E naquele momento, uma pergunta cruel ecoou em sua mente: Até onde você está disposto a ir para sobreviver?Três meses haviam passado desde a noite em que Augusto Bellini deixara de ser uma ameaça. Três meses desde que o último vestígio do A-17 fora retirado dos arquivos das famílias e colocado sob custódia, encerrando uma estrutura que durante anos havia sobrevivido nas sombras. Três meses desde que Amara Bellucci assumira oficialmente o comando de sua família. E, pela primeira vez em muito tempo, a mansão estava em silêncio. Não o silêncio pesado que costumava anteceder uma ameaça. Um silêncio tranquilo. Amara estava diante da janela de seu escritório, observando os jardins enquanto segurava uma pasta nas mãos. Sobre a mesa havia relatórios, contratos e documentos que precisavam de sua assinatura. Nada de mensagens anônimas. Nenhuma fotografia. Nenhuma ameaça. Apenas o trabalho de uma chefe. Ela abriu a pasta e começou a ler. Os negócios dos Bellucci estavam sendo reorganizados. Algumas alianças antigas haviam sido encerradas. Outras, mantidas. Os homens que durante anos havia
O corredor que levava à sala onde Augusto Bellini estava preso parecia mais silencioso naquela noite. Amara caminhava à frente, acompanhada por Dante. Dois homens da segurança aguardavam alguns metros atrás, mas ela não havia pedido que entrassem. Aquilo era uma decisão que queria tomar pessoalmente. Quando a porta se abriu, Bellini levantou os olhos. Estava sentado diante de uma mesa, as mãos algemadas, o rosto marcado pelos últimos dias. Ainda assim, havia algo naquele olhar que incomodava Amara. Ele não parecia derrotado. Parecia esperar por ela. — Finalmente — disse ele. Amara entrou sem responder. Dante permaneceu junto à porta. Bellini soltou um sorriso discreto. — O Lobo de Palermo atrás de você. Como sempre. Dante não reagiu. Amara puxou uma cadeira e sentou-se diante dele. — Você queria falar comigo. — Eu queria saber quanto tempo levaria para você entender que ainda precisa de mim. — Não preciso. A resposta foi imediata. Bellini inclinou a cabeça. — A-17 n
A sala do conselho estava em silêncio quando Amara entrou. Dante veio ao lado dela, como sempre fazia agora. Não como um homem que precisava protegê-la, mas como seu marido e como chefe dos Moretti. Os dois haviam aprendido, ao longo dos últimos meses, que estar juntos não significava ocupar o mesmo lugar. Cada um tinha seu próprio nome, sua própria família e seu próprio poder. Amara parou diante da mesa. Todos os olhares se voltaram para ela. — Imagino que tenham me chamado para falar sobre os Bellucci. Vittorio Rinaldi foi o primeiro a responder. — Sobre a sucessão. Amara não se sentou. — Então falem. Um dos conselheiros mais antigos ajeitou-se na cadeira. — Riccardo era o sucessor reconhecido. A lembrança do irmão ainda doía, mas Amara não permitiu que aquilo enfraquecesse sua postura. — Riccardo está morto. O silêncio que veio depois foi pesado. — E antes de morrer — continuou ela — ele me disse exatamente o que queria. Vittorio a observava atentamente. — O que ele
A notícia da morte de Riccardo se espalhou antes mesmo que o corpo chegasse à mansão. Em poucas horas, todos os nomes importantes das famílias que ainda mantinham algum vínculo com os Bellucci já sabiam que o herdeiro estava morto, Bellini havia sido capturado e Amara havia sobrevivido. Mas havia algo que ninguém parecia saber ao certo. O que ela faria agora. Amara passou a noite no escritório do pai. Não dormiu. Sobre a mesa estavam os documentos recuperados do A-17, os registros financeiros e uma lista de nomes que havia pertencido à estrutura de Bellini durante anos. Dante entrou pouco antes do amanhecer. Encontrou Amara diante da janela, ainda usando a mesma roupa da noite anterior. — Você precisa descansar. — Depois. Ele se aproximou da mesa. — Encontramos o carro de Mancini. Amara virou-se. — Onde? — Próximo à fronteira. Ele abandonou os homens e fugiu sozinho. Ela pegou o casaco. — Então vamos atrás dele. Dante a observou por alguns segundos. — Você não prec
Bellini recuou um passo. Pela primeira vez desde que aparecera naquela sala, a segurança havia desaparecido de seu rosto. Amara manteve a arma apontada para ele. — Você matou meu irmão. — Não fui eu quem disparou. — Mas foi você quem colocou a arma na mão daquele homem. Bellini não respondeu. Dante surgiu ao lado dela, o rosto frio, os olhos fixos no homem que havia passado anos manipulando pessoas das sombras. O Lobo de Palermo não precisava levantar a voz para intimidar ninguém. A presença dele já era suficiente. — Acabou, Bellini. Augusto olhou para ele. — Você realmente acredita que pode decidir isso? Dante deu um passo à frente. — Não. Ela pode. Amara não desviou os olhos. — Você queria saber quem assumiria depois de Riccardo? Bellini permaneceu em silêncio. — Olhe bem. Ela avançou. — Sou eu. Um dos homens de Bellini levantou a arma. Dante foi mais rápido. O disparo ecoou pela sala. O homem caiu. Os outros hesitaram. A equipe de Dante já havia cercado o
A escuridão tomou a sala.Por alguns segundos, Amara só conseguia ouvir a própria respiração e o som distante dos disparos que continuavam do lado de fora. Riccardo estava ao seu lado, Dante alguns passos à frente, atento a qualquer movimento.Então as luzes de emergência se acenderam.Vermelhas.A voz de Bellini voltou pelos alto-falantes.— Durante anos, Matteo acreditou que poderia enterrar o A-17 junto com ele. O problema é que seu pai nunca entendeu que certos segredos deixam de pertencer a quem os criou.Amara ergueu a arma na direção do teto.— Apareça.Uma risada baixa ecoou.— Você sempre teve o temperamento dele.— E você sempre se escondeu atrás de homens armados?Silêncio.Dante lançou um olhar rápido para ela.Havia algo quase satisfeito em sua expressão. Aquela era a Amara que ele conhecia: mesmo cercada, ela ainda conseguia transformar uma ameaça em provocação.— Cuidado, menina — Bellini respondeu. — Seu pai também achava que podia me enfrentar.Amara apertou a mandíbu







