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####CAPÍTULO 02

last update Data de publicação: 2026-06-28 04:20:42

CONTINUAÇÃO

Saio do escritório de Marina sentindo o ambiente da fazenda de uma maneira completamente nova. — O ar parece mais carregado, saturado com o cheiro da terra e das oliveiras, mas agora, há algo mais.

— Um rastro cítrico, uma nota de limão siciliano que parece ter ficado impregnada no corredor, um eco invisível daquela funcionária que, sem saber, acabara de desafiar a estagnação que meu pai impunha a este lugar.

Enquanto caminho de volta para o meu carro, verifico o relógio.

— O tempo para Milão está apertado, mas minha mente, teimosa, recusa-se a focar nos contratos hoteleiros que me esperam.

A imagem daquela jovem — o rabo de cavalo simples, o rubor nas bochechas, a intensidade dos olhos verdes — repete-se em um loop incessante. Por que ela me causou um impacto tão súbito?

— Já conheci mulheres da alta sociedade, herdeiras de impérios, profissionais brilhantes, e ainda assim, nenhuma delas conseguiu, com apenas uma frase, desviar meu eixo daquela maneira.

Chego ao estacionamento onde meu motorista aguarda ao lado do sedã preto. — Entro no banco de trás, sentindo o conforto estéril do couro, que agora parece excessivo, quase frio.

— Pego meu celular, mas não abro a planilha de resultados trimestrais. — Em vez disso, fico parado, observando o movimento dos trabalhadores que passam perto da entrada principal, esperando, talvez, ver aquela silhueta castanho-clara atravessar o pátio novamente.

— Senhor, já podemos partir? — meu motorista pergunta, com a educação polida de sempre.

— Espere um instante. — respondo, a voz mais rouca do que eu pretendia.

Observo cada funcionária que caminha em direção aos pomares, buscando a vivacidade que aquela desconhecida exalava.

— A frustração por não saber o nome dela começa a crescer, misturada a uma vontade inusitada de descer do carro, voltar àquele escritório e exigir que Marina me entregue a ficha cadastral daquela moça.

— Mas isso seria um gesto impulsivo demais, algo que um homem na minha posição, sob o olhar vigilante do meu pai, não deveria cometer.

— Não é nada. Vamos. — ordeno, inclinando a cabeça para trás e fechando os olhos, tentando acalmar a pulsação.

O motor arranca com suavidade, enquanto a fazenda Trovato começa a diminuir pelo espelho retrovisor, sinto uma pontada de descontentamento.

— Aquela breve sugestão sobre os azeites aromatizados não era apenas uma ideia de negócio. — Era uma afronta ao conservadorismo do meu pai, uma brecha na armadura que ele construiu ao redor de nossas vidas.

Ao implementar aquela linha de produtos, eu não estaria apenas inovando; estaria, pela primeira vez em anos, desafiando a estrutura de poder que ele mantinha sobre mim.

Pego meu tablet, ignorando as notificações de e-mail dos hotéis, e começo a redigir uma nota mental sobre a logística dos novos azeites.

— Precisarei de uma equipe técnica de confiança, alguém que saiba manter o silêncio até que o primeiro lote esteja pronto.

E, acima de tudo, precisarei garantir que a "autora" da ideia esteja presente.

— Preciso dela por perto, preciso observar de onde vem aquela criatividade, aquela audácia de sugerir algo tão simples e tão revolucionário.

A viagem para o aeroporto é silenciosa, mas meus pensamentos estão longe de ser tranquilos. A sensação de que algo fundamental mudou é persistente.

— Como um magnata acostumado a controlar cada variável de seus investimentos, sinto-me desconfortável com essa variável inesperada: uma funcionária de nove meses, vinda dos limões, que sem um único toque, conseguiu desestabilizar minha rotina.

— Se ela soubesse que um simples comentário sobre temperos acabou de dar início a uma guerra silenciosa dentro da família Trovato... — penso, soltando um suspiro entrecortado.

Bettina, minha esposa, provavelmente estranhará meu entusiasmo repentino quando eu chegar a Milão.

— Ela, com seu perfeccionismo e sua gravidez de risco que a mantém sob cuidados médicos constantes, está acostumada a um Giorgio que lida com o trabalho como uma extensão fria do dever.

Ela não sabe lidar com o lado que acaba de ser despertado. — Não sabe que, enquanto ela espera por um marido previsível, eu estou voltando para casa com o plano de criar uma linha de azeites que leva o nome de um dos sentimentos mais intensos e proibidos que já experimentei.

Enquanto o jato decola, observando as colinas da — Sicília se tornarem pequenas manchas verdes lá embaixo, tomo uma decisão: esta linha de produtos terá o nome dela, mesmo que, por enquanto, o nome dela ainda seja um mistério para mim.

O azeite "Limão Siciliano" será o projeto que me trará de volta a esta fazenda o mais rápido possível.

— E da próxima vez que eu cruzar o corredor, não serei apenas um estranho parado à porta. — Eu serei o homem que vai descobrir exatamente quem é a moça que, com apenas algumas palavras, mudou o curso de tudo o que eu achava que conhecia sobre o meu próprio destino.

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Último capítulo

  • O MAGNATA EM BUSCA DO PERDÃO    ####EPÍLOGO BÔNUS

    CAPÍTULO BÔNUS – BETTINATrês anos em uma clínica psiquiatrica, esse foi o tempo exato que passei isolada na clínica de reabilitação.No início, o ódio e o ressentimento me consumiam por dentro. Achei que meu pai estava me punindo, mas, no fundo, ele não me deu trégua porque sabia que aquela era a minha única chance de salvação. E hoje eu reconheço: foi a melhor coisa que ele já fez por mim.Durante todo esse tempo, fui submetida a um tratamento rigoroso e a regras estritas. Não podíamos ter nenhum tipo de relacionamento, contato afetuoso ou distrações externas. Tivemos que encarar nossos próprios demônios de frente. Foi um processo doloroso, arrastado e profundo, mas indispensável.Foi lá dentro que conheci o meu terapeuta, Lucero. Ele foi o homem que me ajudou a desmontar a carcaça de egoísmo e obsessão que construí durante a vida, ensinando-me a entender que nem tudo o que a gente quer na vida a gente pode ter. Mas Lucero foi muito além do profissionalismo impecável: ele enxergou

  • O MAGNATA EM BUSCA DO PERDÃO    ####EPÍLOGO

    GIORGIOCinco anos depois do nascimento dos gêmeos.O fim de tarde na fazenda tingia o céu da Sicília em tons vibrantes de dourado e lilás. O aroma dos limões-sicilianos e do azeite fresco vindo do laboratório de Gemima preenchia o ar, criando aquela atmosfera de paz que, no passado, eu jamais julguei ser possível alcançar.Sentei-me na varanda da casa principal, com um copo de suco de laranja na mão, observando com orgulho a cena que se desenrolava no gramado à minha frente.Enzo e Lorenzo, agora com cinco anos, e as pequenas Marina e Mariana, nossas outras gêmeas que vieram logo em seguida e já estavam com três aninhos esbanjando fofura, corriam atrás de uma bola de futebol pelo terreiro. E à frente de todo esse time, comandando a partida com a severidade e a dignidade de uma verdadeira técnica profissional, estava Georgina.Aos dez anos, nossa filha mais velha havia se tornado uma garotinha linda, esperta e completamente imbatível em suas convicções.— Passa a bola, Enzo! Lorenzo,

  • O MAGNATA EM BUSCA DO PERDÃO    ####CAPÍTULO 145

    GEMIMAA volta para casa com Enzo e Lorenzo nos braços trouxe uma movimentação diferente para a fazenda. O aroma suave de sabonete infantil e o silêncio sereno da casa logo foram preenchidos pela expectativa do nosso reencontro. Minha mãe estava na sala com Georgina, segurando as mãozinhas inquietas da nossa pequena, que pulava no lugar de tanta ansiedade.Assim que cruzamos a porta de entrada, Georgina correu na nossa direção, parando abruptamente com os olhos bem abertos diante dos dois moisés decorados.Em vez do esperado abraço calmo de boas-vindas, ela colocou as mãos nas cintoquinhas, olhou diretamente para Giorgio e para mim e disparou, com o tom mais sério e desesperado do mundo:— Quando é que vocês vão se ajoelhar de novo e pedir para o Papai do Céu mais irmãozinhos? Agora que chegou esses dois, quando é que vai vir o resto do meu time?Eu e Giorgio nos olhamos no mesmo instante. Tentei conter o riso, mas a expressão da minha filha era de puro e genuíno desespero logístico.

  • O MAGNATA EM BUSCA DO PERDÃO    ####CAPÍTULO 144

    GEMIMASaímos do hospital radiantes, flutuando em uma nuvem de pura felicidade. Antes de ir buscar a nossa filha na escola, fizemos questão de parar em uma loja de artigos infantis. Giorgio fazia questão de escolher cada detalhe pessoalmente. Compramos dois ursinhos de pelúcia idênticos, macios e delicados, cada um trazendo uma fitinha bordada no peito com a frase perfeita: "Parabéns, você vai ser nossa irmã mais velha!".No caminho para casa, Giorgio ligou para o nosso cozinheiro e pediu que preparasse um bolo especial de comemoração, bem bonito e decorado, para receber a nossa garotinha.Fomos juntos até a escola e, assim que Georgina passou pelo portão e nos viu esperando por ela do lado de fora, veio correndo com os braços abertos, cheia de energia. O trajeto de volta para a fazenda foi puro suspense, com Giorgio piscando para mim pelo retrovisor enquanto ela tentava adivinhar o motivo de estarmos tão sorridentes.Assim que entramos em casa, a mesa da sala de jantar já estava pos

  • O MAGNATA EM BUSCA DO PERDÃO    ####CAPÍTULO 143

    GEMIMADois meses se passaram desde o nosso casamento. A vida na fazenda havia ganhado uma rotina harmoniosa e abençoada. O meu laboratório de azeites já estava em pleno funcionamento, Georgina estava radiante com a sua nova rotina e o meu amor por Giorgio crescia a cada amanhecer.Estávamos todos reunidos à mesa para o café da manhã. A mesa estava farta com pães frescos, queijos da região, frutas e o café recém-passado, cujo aroma costumava ser um dos meus preferidos. Mas, de repente, no exato momento em que Giorgio serviu a sua xícara, uma onda súbita e devastadora de enjoo atingiu o meu estômago. O cheiro do café, antes tão agradável, pareceu insuportável.Senti a minha garganta fechar e a salivação aumentar rapidamente.— Licença... — murmurei com a voz falhada, levantando-me às pressas da mesa e levando a mão à boca.Corri em direção ao lavabo mais próximo do corredor. Mal deu tempo de fechar a porta; debrucei-me sobre a pia e vomitei de forma violenta, o meu estômago contorcend

  • O MAGNATA EM BUSCA DO PERDÃO    ####CAPÍTULO 142

    – HENRIQUEA luz fraca do final de tarde que entrava pelas cortinas do escritório parecia deixar o ambiente ainda mais pesado. Eu observava a minha filha andar de um lado para o outro como um animal enjaulado, as mãos trêmulas, o olhar desprovido de qualquer traço de lucidez.Bettina havia ultrapassado todos os limites aceitáveis para a razão humana.— O Giorgio é meu! Ele é meu, pai! — ela gritava, a voz estridente cortando o silêncio da casa enquanto cravava as unhas na própria palma da mão. — Aquele casamento é uma farsa! Aquela camponesa desgraçada usou feitiço, usou aquela criança para prender ele! O Giorgio me ama, ele tem que voltar para mim! Ele não pode me largar assim!— Chega, Bettina! — minha voz ecoou firme pelo cômodo, embora o meu peito estivesse destruído por dentro ao ver o estado lamentável em que ela se encontrava. — Pela amor de Deus, olhe para você! Pare de se humilhar e de encarar o mundo através dessa sua obsessão doentia!— Eu não estou doentia! — ela vocifero

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