FAZER LOGIN༺ Malik Stavani ༻
Observo Tamara em silêncio enquanto ela leva a xícara de café aos lábios. Ela tenta parecer tranquila, mas seus dedos entregam o nervosismo. Ainda evita olhar diretamente para mim. Está tentando entender como acordou na cama de um homem que conheceu poucas horas antes. Não faz ideia de que essa história começou muito antes da noite passada. Permaneço calado. Prefiro assim. Algumas verdades têm o momento certo para aparecer. E esse momento ainda não chegou. Meu olhar percorre seu rosto com calma. Cada pequeno detalhe continua exatamente como eu lembrava. O jeito de prender uma mecha do cabelo atrás da orelha quando fica sem graça. A mania de morder discretamente o lábio inferior enquanto pensa. Pequenos hábitos que ela nem percebe possuir. Ela nunca percebeu muita coisa. Principalmente a minha presença. Durante anos, todos os olhares dela pertenciam ao Pedro Albuquerque. Enquanto ela insistia em amar o homem errado, eu assistia de longe, esperando o dia em que aquela fantasia finalmente acabaria. E acabou. Ontem. Vejo novamente a cena da boate passar pela minha cabeça. Pedro rindo. Os amigos debochando. Tamara sendo humilhada diante de todos. Naquele instante, precisei de todo o meu autocontrole para não atravessar aquele camarote e acabar com ele. Mas não era a minha hora. Então eu esperei. Esperei ela sair. Esperei ela desabar. E, quando o destino finalmente colocou nossos caminhos frente a frente, eu não desperdicei a oportunidade. Talvez alguns chamassem isso de sorte. Eu prefiro chamar de paciência. Porque algumas coisas valem a pena esperar. E Tamara sempre valeu. Ela ergue os olhos de repente e me encara. — Malik... de onde eu te conheço? Um sorriso discreto surge no canto da minha boca. Finalmente. A pergunta que eu sabia que chegaria. — No momento certo você vai saber. Naquela época, você só tinha olhos para o Pedro. Ela fecha a cara na hora e aperta o garfo com força, irritada com a menção do nome. — Nem me fala desse homem. Não acredito que perdi tanto tempo com um idiota daqueles. Mas chega. Isso acabou. Daqui para frente quero o melhor para mim. Me inclino um pouco na direção dela, sustentando o olhar. — E você terá. Eu sou o melhor para você, Tamara. Sou a sua única opção agora. Ela dá um sorriso de canto, tentando resistir ao meu jeito confiante. — Você é muito convencido. Pego uma uva do prato, provoco com o olhar e respondo sem pressa: — Só estou sendo realista. Agora que você esteve nos meus braços, não ache que vai se livrar de mim tão fácil. Serei uma presença constante na sua vida. Você é minha. Ela solta uma risada curta e leva a xícara de café até a boca. — Então quer dizer que você é possessivo e obcecado? É isso? Deixo um sorriso de lado aparecer. — Pode chamar do que quiser. Obsessão é uma palavra forte, prefiro dizer que sou dedicado. Ela ergue a sobrancelha, me estudando dos pés à cabeça. Consigo ver a confiança dela voltando aos poucos, pedaço por pedaço, bem diante de mim. O clima entre nós fica denso, cheio de uma eletricidade que eu esperava há anos para sentir. Defenderei isso com todas as minhas forças. Quando ela sorri de verdade, tenho certeza de que a nossa história começou. E ninguém vai destruir. O café da manhã termina e ela deixa a xícara de lado com um suspiro aliviado, parecendo mais calma. A luz do sol de domingo entra pela janela, iluminando o rosto dela. É uma imagem que quero guardar para sempre. Apoio os braços na mesa e mudo o rumo da conversa. — O que acha de um passeio de iate? O dia está lindo. Os olhos dela brilham na hora, cheios de animação. — Eu adoraria — diz, mas o sorriso some rápido. — Mas não dá. Eu não tenho biquíni aqui. Dou uma risada baixa, achando graça da preocupação dela. — Isso não é problema, meu amor. Se você quiser, eu compro a loja inteira para você agora mesmo. Ela sorri de novo, balançando a cabeça. — Você gosta de ostentar, né? Me levanto, chego perto e puxo a Tamara pela cintura, colando o corpo dela no meu. Sinto a respiração dela bater no meu maxilar. — Ainda não entendeu? Vou te tratar como uma rainha daqui para frente. Seu olhar muda, fica meio desconfiado, curioso e um pouco assustado. Ela morde o lábio inferior sem perceber o que faz comigo. Que inferno, o meu corpo reage na hora. — Não estou acostumada com esse tipo de tratamento — ela confessa. Seguro o rosto dela com cuidado, aproximando minhas falas. — Então começa a se acostumar. A sua vida mudou hoje. Não aguento mais a distância e a beijo com vontade. É um beijo quente, que exige e entrega tudo ao mesmo tempo. O desejo sobe rápido, quase fora de controle. A mão dela desliza pelas minhas costas, e sinto minha pele arrepiar inteira com o toque. Tenho certeza absoluta de que não vou largar essa mulher por nada. O beijo esquenta, mas o celular dela em cima da mesa começa a vibrar, estragando o momento. Ela dá uma risada e se afasta um pouco para pegar o aparelho. Aproveito para distribuir beijos lentos pelo pescoço dela. — Alô? — ela diz ao atender. Consigo ouvir a voz de um homem do outro lado da linha. Meu corpo tensiona na hora. É o Pedro. O ódio sobe direto pela minha espinha. — Tamara, onde você está? Vem aqui em casa fazer alguma coisa para eu comer, estou de ressaca. Ainda está brava por causa de ontem? — ele exige, com aquela audácia de quem acha que manda nela. Tamara respira fundo, impaciente. — Você se acha demais, Pedro. Eu não sou sua empregada. Apaga o meu número e me esquece. A voz do cara fica mais alta, irritada e autoritária. — Se você não vier, eu não vou te perdoar pelo papelão de ontem. Você me fez passar vergonha na frente dos meus amigos. — Eu não quero o seu perdão, seu imbecil! Vai para o inferno — ela rebate, firme. Para cutucar o calo do idiota, decido provocar. Falo perto do telefone dela: — Com quem você está falando no celular, linda? Larga isso e vem para cá. Estou com saudades. Escuto o Pedro travar do outro lado da linha. A Tamara solta uma risada, entendendo o meu jogo e gostando da provocação. — Tamara? Você está com um homem? — o tom do Pedro muda, fica agitado, com ciúmes. — Isso não é da sua conta. Não se mete mais na minha vida. Sinto o sangue pulsar forte na minha testa. Não vou aguentar esse cara enchendo o saco dela. Chego mais perto, dou um beijo na clavícula da Tamara e, com um movimento rápido, tiro o celular da mão dela. — Ela está ocupada agora, cara. Liga outra hora — falo, com a voz firme, sem precisar gritar. — Quem está falando? Passa o telefone para a Tamara agora! — o Pedro grita do outro lado. — Não. Levo o dedo até a tela e desligo na cara dele, encerrando o assunto. A Tamara me olha com os olhos arregalados, em choque. — Por que você fez isso? Seguro a cintura dela de novo, trazendo o corpo dela para perto sem perder a postura. — Para ele entender de uma vez por todas que te perdeu. O vínculo de vocês acabou ontem. Agora você está comigo. Ela puxa o ar com força, parecendo dividida entre brigar comigo ou me agradecer. — Malik... você não pode decidir as coisas por mim. — Eu não decidi nada — passo os dedos pelo maxilar dela. — Só mostrei o que ele foi burro demais para não enxergar. Você merece respeito, Tamara. Serei o primeiro a te dar isso. A respiração dela fica curta. — Você fala como se... — Como alguém que vai cuidar de você — completo, colando meus lábios nos dela. — E que não vai deixar você voltar para quem só sabe te fazer sofrer. Ela apoia as mãos no meu peito, um gesto simples que me diz muito mais do que qualquer palavra. — E se eu disser que estou com medo de tudo isso? — ela sussurra. — Então deixa que eu te mostro o caminho — respondo, antes de começar um beijo calmo, cheio de promessas. Farei ela entender que o Pedro Albuquerque agora é passado, uma página virada. A Tamara agora faz parte do meu mundo, e daqui ela não sai.༺ Tamara Silva ༻5 anos depois— Papai, quando eu vou poder ter um namorado?— Quando eu morrer… — Malik disse sério.Eu estava terminando de cortar algumas frutas para fazer uma salada, observando a interação dele com nossa filha, Alexa. Ela era uma menina tão inteligente e confiante, possuía o mesmo temperamento meu e a confiança do pai. Com os cabelos loiros e os olhos azuis de Malik, ela era a cópia feminina dele.— Mas papai, isso vai demorar muito! A minha amiga da escola disse que o irmão dela já tem uma namorada e eles andam de mãos dadas no parquinho. Eu também quero um príncipe para me dar flores.— Pois diga à sua amiga que no nosso território as regras são diferentes. Você é muito nova para pensar nessas bobagens. Foco nos estudos, nos treinos de hipismo e nos seus brinquedos. Meninos só trazem dor de cabeça e nenhum deles é bom o suficiente para cruzar o portão desta propriedade.— Você é muito mandão! Quando eu crescer, vou escolher um príncipe bem alto, igual a você, e
༺ Tamara Silva ༻Depois da festa, Malik havia escolhido um lindo lugar na Itália para passarmos a nossa lua de mel. Era um pequeno chalé de madeira nobre e pedra, encravado na encosta e de frente para o oceano, revelava-se um refúgio maravilhoso. Mesmo quando a escuridão da noite já começava a se consolidar sobre o horizonte, era possível contemplar a beleza rústica e imponente do cenário, banhado pelo reflexo prateado da lua nas águas calmas.Nossa noite de núpcias aconteceria naquele cenário perfeito; a certeza de que o meu marido havia planejado cada detalhe com precisão milimétrica acalmava o meu peito. Desci do iate com a ajuda firme das mãos dele, sentindo a brisa fresca da noite tocar o meu rosto. Caminhamos lado a lado até a entrada da propriedade e, por dentro, a estrutura conseguia ser ainda mais deslumbrante. No corredor de entrada, pétalas de rosas escuras cobriam o piso de mármore, desenhando um caminho perfumado que levava diretamente até as portas duplas do quarto pri
༺ Malik Stavani ༻A felicidade estava estampada no meu rosto de forma tão nítida que se tornava uma tarefa impossível tentar mascarar o que sentia. Finalmente, a mulher que eu amava encontrava-se ao meu lado para sempre, oficialmente casada perante as leis da nossa tradição. Naquele instante, começaria uma nova vida, bem longe de cada ameaça, trama ou fantasma do passado que um dia ousou tentar nos separar. O peso que carreguei nos ombros durante os meses de conflito parecia ter evaporado assim que as alianças foram trocadas no altar de pedra da capela.Meu pai e meu irmão me observavam com sorrisos de cúmplices no canto do pátio, compartilhando daquele triunfo que não era apenas afetivo, mas também uma afirmação de poder do nosso clã. Fui conduzido por eles até a biblioteca particular da mansão, um reduto de madeira escura e poltronas de couro desgastadas pelo tempo, reservado para os rituais mais restritos da família. Cruzar aquele umbral significava ingressar no círculo dos homen
༺ Tamara Silva ༻Algumas semanas se passaram desde o pesadelo que abalou por um momento a minha vida. Olhei-me novamente no espelho da suíte master, observando o reflexo com uma sensação de leveza que há muito tempo não experimentava. Dessa vez, o traje branco e o véu delicado indicavam que estava pronta para ir ao encontro do meu amor, do homem que surgiu na minha trajetória para ressignificar o meu conceito de proteção. Daqui em diante, restaria colher a felicidade planejada.Eu sabia que, apesar da imersão de Malik na estrutura da máfia, o nosso núcleo familiar encontraria um terreno próspero. Ele havia assumido o compromisso de transferir a maioria das obrigações burocráticas e operacionais para os cuidados de Renzo e dos demais membros do alto escalão do clã siciliano. Ele permaneceria a par de algumas decisões estratégicas indispensáveis, agindo como um conselheiro master, mas o foco central seria a nossa rotina. O patriarca da família Stavani acabou compreendendo que o herdei
༺ Pedro Albuquerque ༻Qualquer chance que guardei de manter Tamara nos meus braços havia sido arrancada de mim violentamente. Observei a silhueta da ruiva descer do iate, seu corpo envolto em panos enquanto recebia a proteção de Malik, afastando-se em direção ao cais continental.Minha perna latejava com uma intensidade insuportável; o braço direito queimava onde o projétil havia atravessado a carne, deixando um rastro de sangue que empapava as cordas utilizadas para imobilizar os meus movimentos junto ao mastro de carga.O meu inferno particular estava apenas começando nesse convés de madeira. Enquanto o automóvel blindado que transportava a minha antiga secretária sumia na névoa da estrada costeira, eu permanecia retido nesta embarcação hostil. Todo o meu organismo clamava por alívio diante dos ferimentos, mas a presença de Renzo logo à frente indicava que a trégua concedida pela Tamara não se estendia ao restante do clã siciliano.— O meu irmão pode ter manifestado benevolência em
༺ Tamara Silva ༻Não fazia a menor ideia do que o destino reservava para Pedro após a audácia de me sequestrar, mas a certeza no meu íntimo ditava que não queria ver Malik carregando aquele sangue nas mãos.Toda a interferência tática executada no convés partia exclusivamente da consideração guardada por Estela, embora soubesse que aquela seria a última concessão feita em favor daquela família.Todos ao redor, incluindo os soldados da organização e o próprio Renzo, detinham a liberdade de julgar a atitude como ingenuidade, tolice ou incapacidade de enxergar os riscos de reincidência por parte de Pedro.Que pensassem o que bem entendessem. A meta principal concentrava-se em preservar a própria consciência limpa e tranquila, com o amparo de saber que não atuei como o estopim para a execução dele, evitando também herdar o rancor eterno da minha melhor amiga. Independentemente dos erros monstruosos cometidos, Pedro permanecia na condição de irmão dela, e os laços de sangue carregavam um







