Fugindo do Passado

Fugindo do Passado

last updateÚltima actualización : 2026-09-03
Por:  Gilda Cordeiro Actualizado ahora
Idioma: Portuguese
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Emilie tinha uma vida simples e uma fé inabalável, até que um único homem decidiu que ela lhe pertencia. O que ele tirou dela — a família, a inocência, o chão sob os pés — ela jurou nunca mais recuperar. Christian Dumont não acredita em amor. Aprendeu, do jeito mais duro, que confiança é apenas outro nome para fraqueza — até o dia em que uma desconhecida invade seu banheiro armada de uma vassoura, e sem querer, começa a desarmar tudo o que ele construiu por dentro. O que nasce entre os dois não é conto de fadas. É dois corações partidos aprendendo, aos trancos, a confiar de novo — enquanto um passado violento se recusa a ficar para trás. Uma história sobre sobrevivência, poder e o tipo de amor que só floresce depois do fogo.

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Capítulo 1

capítulo 1

Emilie Carmody

Um romance

Capítulo 1

O sol de domingo entrava pela janela do meu quarto como se tivesse pressa, um facho quente atravessando a cortina fina, quando a voz da minha mãe

cortou o silêncio da manhã.

— Emy! Vai se atrasar para o culto de hoje!

Emy. Assim é que todos me chamam, desde que me entendo por gente. Levantei de um salto, o coração ainda meio adormecido, e corri para o

banheiro.

— Por que não me acordou mais cedo, mamãe? — gritei por cima do barulho da água.

Minha mãe, Maria, apareceu na porta do banheiro com aquele sorriso de sempre, os cabelos pretos já roubados por alguns fios grisalhos, o corpo

robusto e as mãos ainda com cheiro de café. Baixinha, forte, bonita à sua maneira simples. Vivíamos numa casinha modesta, na pequena e tranquila Hill

City — o tipo de lugar onde todo mundo sabe o nome de todo mundo, e os segredos, quando existem, custam caro.

— Ora, Emilie Carmody — ela riu —, você já é uma jovem adulta. Sua mãe não vai viver para sempre.

— Não gosto quando você fala essas coisas — respondi, a voz já embargada. — Como eu viveria sem vocês dois?

Sou filha única. Meus pais são tudo o que tenho de mais precioso neste mundo — meus melhores amigos, minha base, meu chão. Não sei o que seria

de mim sem eles.

— Nós te mimamos demais — ela disse, beijando minha testa molhada. — Agora vá se arrumar, que eu vou terminar o café.

Me arrumei rápido e desci. Meu pai estava à mesa, o jornal aberto entre os dedos, o cheiro de café fresco pairando na cozinha pequena.

— Bom dia, papai lindo — falei, dando um beijo estalado no seu rosto.

— Bom dia, princesa do papai — ele respondeu, sem tirar os olhos do jornal, mas com aquele sorriso que só ele tinha para mim.

Joshua Carmody. Alto, olhos verdes, cabelos loiros, corpo robusto de quem trabalha duro a vida inteira. Trabalhava nos Correios da cidade; minha

mãe, como cozinheira na mansão Kessler. Éramos pobres — isso ninguém em Hill City deixava a gente esquecer — mas éramos felizes, e meus pais se

amavam de um jeito que eu só via nos livros que vendia na livraria.

— Despachem, estamos atrasados! — a voz da minha mãe ecoou da sala.

Tomamos o café-da-manhã correndo, como quase todo domingo, e seguimos para o culto. Fui criada dentro daquela igreja, entre hinos e orações, e

ali, entre aquelas paredes simples, sempre senti que estava na presença de Deus. Naquele dia havia uma atividade especial para os jovens; o pastor

conduziu o sermão com sua voz cheia e pausada.

Quando o culto terminou, meus pais ficaram do lado de fora conversando com os conhecidos de sempre, e eu fui correndo ao encontro das minhas

duas melhores amigas: Diana e Célia.

Diana, filha do pastor, baixinha, cabelos cacheados, pele escura, o tipo de pessoa que parece ter nascido sabendo o que é certo. Inteligente, doce, com

os pés bem fincados no chão. Vivia repetindo, brincando, que “filha de pastor não é neta de Deus” — como se precisasse provar que também era

humana.

Célia era diferente. Não veio de família de igreja; converteu-se sozinha, já mais velha que nós duas, com uma vida inteira de histórias que nos

deixavam de boca aberta. Loira, olhos azuis, alta como uma modelo de revista. Eu era a sonhadora do trio — cada uma com sua personalidade, e talvez

fosse exatamente isso que nos tornava inseparáveis.

Voltei para casa e fui direto para o quarto, que estava uma bagunça só.

— Emilie Scott arrumando o quarto sem eu precisar falar nada… glória a Deus — minha mãe debochou, encostada na porta.

— Para, mãe, sabe que eu sempre arrumo, só não tive tempo essa semana. Cursinho, igreja, trabalho… está me matando

— Eu sei, minha vida, estou brincando — ela disse, me envolvendo num abraço apertado.

— Quer ajuda com o jantar? — perguntei.

— Adoraria.

Fomos para a cozinha. Amo cozinhar com a minha mãe; ela tem as mãos cheias de talento, e às vezes, quando há algum evento na mansão, eu vou

junto ajudá-la. Terminamos o jantar e ainda decidimos fazer um bolo de chocolate — o favorito do meu pai. Sentamos os três à mesa, entre risadas e

histórias, como sempre.

Mais tarde, já no meu quarto, liguei o telefone para falar com as meninas.

Chamada ativada

Eu: Alguém aí? Célia: Oiii, gatas! Diana: Presente! Célia: (risos, em áudio) Que rebelde, Diana! Diana: Vocês viram que hoje meu irmão não tirou

os olhos da Célia? Eu: Eu também notei. Formam um lindo casal, já shipo os dois. Célia: Parem com isso, gente. Ele é filho de pastor, eu não sou a

mulher ideal pra ele. Diana: E por quê? Se os dois se gostam, o que tem de errado nisso? Célia: Vocês sabem que eu não cresci na igreja. Não sou

virgem como vocês. Sabem a fama que eu tenho na cidade.

Célia cresceu com uma mãe dependente química, e desde cedo teve que cuidar sozinha dos irmãos mais novos. Por necessidade, acabou entrando na

prostituição ainda adolescente. Quando a mãe finalmente se converteu e voltou para casa, Célia deixou as ruas para trás e retomou os estudos. Nunca

escondeu isso de nós — pelo contrário, falava com uma coragem que eu admirava.

Eu: Concordo com a Diana. Você não é a única garota não-virgem da igreja, só que as outras fingem que são. Célia: (mudando de assunto) Está

chegando o dia do CDE! Como vamos comemorar?

CDE — Célia, Diana e Emilie. O dia em que nos conhecemos e viramos inseparáveis.

Eu: Piquenique no rio? Célia: Combinado. Eu cuido dos biquínis. Diana: Cuidado com indecência, hein — (rimos todas) Célia: Pode deixar,

pastora. Diana: Estou tão ansiosa pra gente entrar na faculdade juntas. Eu: Graças à igreja, que conseguiu bolsa pra gente. Nossos pais nunca teriam

como pagar. Célia: A Emy tem razão. Diana: Parem com isso — a gente estudou muito pra merecer essas bolsas. A igreja apostou em nós porque viu

nossa vontade de estudar. Vamos nos formar com honras, ponto final. Eu: Gente, estou morrendo de sono. Vou dormir. Todas: Até amanhã!

Desliguei o telefone, apaguei a luz e deitei. Amanhã seria só mais um dia — ou pelo menos era o que eu pensava. -

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