LOGINPela primeira vez na minha vida inteira, algo dentro de mim se contorceu. Não era minha loba, não de verdade, mas era um instinto cru, primitivo, rasgando minhas veias como fogo.
Companheiro.
A palavra explodiu na minha mente e ecoou em cada parte do meu corpo. Minhas pernas se moveram sozinhas.
Eu não estava mais no controle de nada. Empurrei um casal alto que estava no meu caminho, ignorando os rosnados ofendidos que eles deram. O cheiro era um ímã puxando meu peito com força.
Passei pela mesa de comida, tropecei na borda do tapete do salão, quase caí, mas continuei andando, farejando o ar. Mais perto. Mais perto.
O cheiro estava ficando muito forte. Minha pele formigava, queimando de antecipação. Lágrimas começaram a se acumular nos cantos dos meus olhos. O alívio ameaçava me derrubar. Eu o encontrei. Finalmente.
A multidão se abriu de repente. Parei no lugar, ofegante, o peito subindo e descendo bem rápido.
O cheiro vinha do grupo perto da lareira. O grupo da elite da alcatéia.
Meus olhos encontraram os ombros virados de costas para mim. A jaqueta de couro preta, a postura rígida de quem nasceu para mandar no mundo. Ele estava no meio de uma risada quando paralisou. Os músculos das costas dele travaram.
Ele também sentiu.
O copo de uísque na mão dele estalou. O vidro quebrou em dezenas de pedaços, espalhando bebida e sangue pelo chão. Ele se virou devagar, como se estivesse lutando contra o próprio corpo.
Damon.
O futuro Alpha da Alcatéia Lua Crescente. O filho prodígio. O garoto que não apenas me ignorava, mas que deixava seus amigos me usarem de saco de pancadas por pura diversão durante os treinamentos. O herdeiro arrogante.
O mundo parou de girar. Quando os olhos escuros dele encontraram os meus, o choque do vínculo estalou no ar entre nós, tão real e violento que eu quase pude ouvir o estrondo. O universo inteiro desapareceu, deixando apenas o espaço que nos separava. Meu peito se encheu de uma esperança cega, idiota e desesperada. Meu Alpha. Meu companheiro.
Por um segundo, um milésimo de segundo que pareceu durar horas, os olhos dele brilharam no tom dourado mais puro e intenso que eu já tinha visto. Seus lábios se abriram levemente. O instinto de posse estampou cada traço do seu rosto.
Mas então, veio a compreensão.
O dourado sumiu, engolido por um negro furioso. O rosto de Damon se contorceu. A surpresa inicial desapareceu, sendo substituída rapidamente por um nojo tão grande, tão profundo, que foi como levar um chute no meio do estômago.
Ele deu um passo na minha direção, o ódio irradiando do seu corpo em ondas de calor que fizeram os lobos ao redor se afastarem. Eu dei um passo para trás, tremendo da cabeça aos pés, morrendo de medo.
- Damon? - a voz doce de Chloe soou bem ao meu lado.
Eu nem a vi se aproximar. Damon não piscou. Sem desviar os olhos de mim, aqueles olhos que agora me encaravam como se eu fosse um pedaço de lixo apodrecendo na frente dele, ele estendeu a mão. Mas não para mim.
Os dedos dele agarraram a cintura de Chloe, puxando minha irmã adotiva de forma possessiva para colar contra o seu corpo. Ela ofegou, surpresa, mas imediatamente sorriu, vitoriosa e presunçosa, esfregando o nariz no ombro dele.
Meu sangue congelou. O ar sumiu dos meus pulmões.
Damon soltou uma risada seca, sem um pingo de humor. Ele esticou a mão livre agarrando o meu queixo com brutalidade que me fez soltar um gemido agudo de dor. Ele ergueu meu rosto com força, forçando-me a olhar diretamente para a repulsa em seus olhos, garantindo que absolutamente todos no salão estivessem prestando atenção em nós.
Ele falou.
A luz do rádio piscou uma última vez antes de apagar completamente. O silêncio que se seguiu dentro da cabana foi pesado. Do lado de fora, a quietude da floresta foi coberta pelo som de passos. Dezenas deles. Mercenários fechando o cerco na escuridão.Kael não hesitou, mesmo com o rosto pálido e os músculos tremendo de exaustão após o choque que sugou o veneno das suas veias. Ele chutou um tapete velho e empoeirado no canto da sala, revelando uma porta de ferro escondida no piso: um alçapão.O primeiro tiro estourou a janela.Balas de prata começaram a furar as paredes. Estilhaços voaram em todas as direções. Kael me agarrou pela cintura e me empurrou para o buraco escuro do alçapão. Caí de pé nos degraus. O Alpha Supremo desceu também, puxando a escotilha de ferro acima de nós e girando a tranca justo quando os caçadores arrombaram a porta principal da cabana lá em cima.- Continue correndo, Aria - a voz de Kael soou rouca.Disparamos pelo corredor estreito. Mas, no terceiro lance de
A boca de Kael desceu para o meu pescoço. O calor do corpo dele era uma fornalha contra a minha pele, mas a respiração ofegante que batia no meu rosto não era apenas de desejo. Era de dor.Meus olhos estavam fixos no braço esquerdo dele. As veias negras e grossas pulsavam de forma bizarra, subindo pelo antebraço, cruzando a dobra do cotovelo e avançando agressivamente pelo bíceps rígido. A necrose estava se movendo. Rápido demais, como vermes debaixo da pele, subindo em direção ao tronco.Meus pensamentos, antes inundado e entorpecido pelo Cio da Ligação, se clareou um pouco. Se nós consumássemos aquela ligação ali, o ritmo cardíaco de Kael bateria no teto. O coração de um lobo Supremo acelera muito durante a cópula, e isso bombearia aquele veneno desconhecido diretamente para o peito em questão de minutos. Ele morreria antes mesmo de terminar de me marcar.Eu me recusei a ser a assassina do único homem que se colocou na frente da morte por mim.Kael tentou prender o meu quadril, rosn
O sorriso perverso do mercenário através do vidro rachado durou apenas um segundo.O ar dentro da cabine estava saturado com o calor do meu cio, uma tensão carnal que fazia meus ossos derreterem. Mas quando a ameaça quebrou a nossa bolha, a luxúria nos olhos de Kael desapareceu, substituída por fúria uma demoníaca. Ser interrompido no pico do Cio da Ligação não deixava um Alpha Supremo irritado. Deixava-o completamente irracional.Kael virou o rosto para mim.- Não saia daqui - ele rosnou, a voz distorcida, não mais humana.Kael puxou a perna para trás e chutou a porta blindada da SUV de dentro para fora. A força do golpe fez as dobradiças estouraram. A porta inteira foi arrancada da lataria, voando pelo ar até despencar no asfalto.Lá fora, o mercenário saltou do teto. Ele girou duas foices afiadas nas mãos, rindo alto.- O Mestre Damon manda lembranç...Ele nunca terminou a frase.Kael não se transformou em lobo. Ele sequer deu tempo para que o mercenário firmasse os pés no chão. Us
O ar ali dentro estava pesado, quase impossível de respirar. O calor que emanava da nova tatuagem na minha garganta não agia mais como um ferimento ardido, ele havia se transformado em um veneno doce, incendiando cada terminação nervosa do meu corpo.O cheiro de Kael, deixou de ser apenas um perfume no ar para se tornar uma presença. Ele encurralava meus sentidos, impregnando o banco e prendendo a minha mente em uma caixinha estreita onde só existia uma única necessidade primitiva.O sobretudo que eu usava ficou pesada. A gola alta apertava minha pele febril como uma corda. Eu precisava de ar. Eu precisava de toque.Pela primeira vez em dezessete anos de vida, o trauma que sempre me fez encolher os ombros e recuar diante da aproximação de um macho simplesmente evaporou. Minha loba não estava rosnando em alerta de perigo, ela estava uivando em exigência.Avancei.Minhas mãos agarraram o tecido da camisa de Kael. Com um puxão, forcei os ombros do Alpha Supremo para baixo, trazendo o pei
Chloe desceu os degraus da antecâmara como se flutuasse, com o rosto coberto de satisfação. Uma coleira pendia de seus dedos. Ela parou a um passo de mim.- Você tem noção do que vai acontecer, Aria? - ela sussurrou. - Os cirurgiões do Conselho não se importam com a sua loba. Eles querem abrir você viva. Eles vão escavar cada centímetro daquela luz prateada até não sobrar nada de você. Você será apenas um espécime em um frasco.- Você não é uma Iniciada, Chloe. Você é apenas uma cadela adestrada segurando a coleira de velhos covardes que têm medo de uma mulher que nunca conseguiram controlar.O rosto de Chloe contorceu-se. Ela soltou um ganido de ódio e avançou, tentando prender o metal ao redor do meu pescoço.Antes que o metal tocasse a minha pele, Kael agarrou o pulso de Chloe. Os ossos do braço dela estalaram sob a pressão de Kael. Ela soltou um grito estridente e a coleira caiu no chão.Dezenas de guardas do Conselho surgiram das sombras das galerias superiores, como baratas saind
O som da sirene quebrou a bolha de desejo que nos prendia contra a porta de ferro.Mas a conexão entre nós não sumiu. Ela apenas mudou de forma.Kael não me mandou recuar. Ele não gritou para que eu corresse para o quarto e me escondesse debaixo dos lençóis como uma fêmea humana frágil. Os olhos dele desceram pelo meu rosto, farejando a adrenalina, a fúria da loba contida e a firmeza dos meus músculos. Ele sabia que eu não ia quebrar.Ele se abaixou. E pegou o cabo da minha adaga de prata. Kael se levantou e bateu a arma contra a minha palma aberta, sujando a minha pele de terra.- Proteja a minha retaguarda - foi a única coisa que ele disse.Não houve beijo. Não houve hesitação. Giramos juntos e corremos lado a lado sob o dilúvio em direção ao pátio sul. O peso do sobretudo encharcado arrastava meus ombros para baixo, e a lama tentava prender as minhas botas a cada passada, mas eu forcei o ritmo, acompanhando os passos do monstro ao meu lado.O cheiro chegou antes do barulho.Um fedo







