MasukUm gelo cortante percorreu minhas veias, paralisando cada músculo do meu corpo. Encarei a parede descascada ao lado do interfone enquanto a voz chiada do porteiro aguardava uma resposta. Através do tecido fino da cortina, eu conseguia ver a silhueta alta de Henrique ao lado do carro de luxo. Ele andava de um lado para o outro na calçada estreita de Sepetiba, ajustando o paletó de grife com gestos brutos, visivelmente fora do seu elemento, mas movido por uma fúria cega.— Seu Adilson... — murmurei, a voz falhando e saindo quase inaudível. — Não deixa ele subir. Por favor. Diz que eu não estou em casa.— Minha filha, ele tá irritado demais, ameaçando chamar a polícia e criar confusão no portão... — o idoso respondeu, perceptivelmente acuado pela imponência agressiva de Henrique.Antes que eu pudesse responder, ouvi o som abafado de uma discussão ao fundo do interfone, seguido pelo ruído do aparelho sendo arrancado da mão do porteiro. A voz grave, rouca e descontrolada de Henrique invadi
O restaurante no início da Praia da Barreira não lembrava em nada os ambientes gélidos e pretensiosos que Henrique frequentava.Não havia lustres de cristal, executivos sussurrando sobre fusões ou garçons que nos encaravam como se estivessem avaliando o saldo das nossas contas bancárias. Era um refúgio acolhedor com deck de madeira voltado para o oceano, onde o cheiro da maresia se misturava ao aroma de frutos do mar grelhados e manjericão fresco.Lucas puxou a cadeira para mim assim que nos acomodamos em uma mesa reservada na varanda, protegida do sol forte por um ombrelone claro.— Eu costumo vir aqui quando preciso organizar os pensamentos — ele comentou, ajeitando o guardanapo no colo antes de me olhar com atenção. — Os executivos sempre preferem os bistrôs fechados por causa do status, mas acho que um pouco de vento no rosto faz bem para a alma.Sorri fraco, surpresa com o quanto ele reparava nas pequenas coisas.— É lindo, Lucas. Eu nem me lembrava da última vez que sentei perto
A manhã seguinte no apartamento de Lucas amanheceu sob uma névoa suave que cobria os prédios da cidade.Pela primeira vez em meses, acordei sem o aperto sufocante no peito ou a sensação iminente de que uma bomba relógio estava prestes a explodir. O quarto de hóspedes onde passei a noite era amplo, arejado e carregava um cheiro acolhedor de lençóis limpos e alfazema.Quando caminhei até a cozinha, encontrei Lucas já vestido em um terno cinza-chumbo impecável, terminando de preparar o café. Ele se virou assim que ouviu meus passos, abrindo um sorriso brando que pareceu afugentar qualquer resquício da dor de ontem.— Bom dia, Valentina. Dormiu bem? — ele perguntou, servindo uma xícara e me entregando com delicadeza. — Preparei algo leve para você. Hoje o dia vai exigir energia.— Bom dia... Dormi como há muito tempo não conseguia — confessei, segurando a xícara quente. — Mas confesso que só de pensar em colocar os pés naquela holding para oficializar minha saída, meu estômago embrulha.L
A proximidade entre nós dois parecia ter alterado a pressão do ar naquela sala.O silêncio que nos cercava deixou de ser o abrigo calmo do trauma e se transformou em uma tensão magnética, densa e vibrante, onde cada respiração tornava-se consciente.Lucas não apressou o momento. A mão dele, que repousava na minha bochecha, deslizou devagar para a curva do meu pescoço, e seus dedos quentes se entrelaçaram nos meus cabelos, desfazendo com cuidado o nó rígido do coque que eu usara como armadura naquela manhã. Os fios escuros caíram soltos sobre meus ombros, e ouvi Lucas soltar um suspiro baixo, uma reação quase involuntária ao me ver desarmada diante dele.— Você não tem noção do quanto é linda quando deixa todo aquele peso de lado — ele murmurou, a voz rouca e próxima, roçando os lábios a milímetros da minha pele, na linha da minha mandíbula.Um arrepio intenso percorreu todo o meu corpo. Instintivamente, apoiei as mãos no peito dele, sentindo o tecido macio de sua camisa e a batida fir
A promessa de Lucas ecoou pela sala ampla, agindo como um anestésico sobre os nervos em frangalhos que me sustentavam desde a madrugada.Pela primeira vez em meses, a sensação de sufocamento deu lugar a um espaço respirável. Olhar para ele, tão inteiro, tão firme e disposto a segurar o meu peso sem exigir nada em troca, fez surgir dentro de mim uma coragem que eu julgava completamente extinta.O telefone sobre a mesa de centro voltou a vibrar, a luz da tela piscando com uma insistência quase agressiva. Mais uma chamada de Henrique.Lucas acompanhou o meu olhar e, sem dizer nada, apenas assentiu devagar, dando-me o tempo necessário para processar o meu próximo movimento. Alcancei o aparelho com os dedos firmes. Desta vez, não havia o tremor de pavor de antes. Deslizei o dedo pela tela e silenciei as notificações definitivas de todas as chamadas dele. Em seguida, abri o aplicativo de mensagens, encarei o nome Henrique Fontes no topo da lista e digitei com uma frieza cirúrgica:“Não volt
O toque dos nossos dedos entrelaçados sobre a mesa de centro parecia a única coisa sólida num mundo que acabara de ser reduzido a escombros. Olhei para a mão de Lucas, quente e acolhedora, e depois ergui os olhos para encontrar a serenidade do seu olhar. A forma como ele me enxergava — sem o peso da condenação que o escritório inteiro me lançara — tornava a minha culpa ainda mais esmagadora.Respirei fundo, sentindo o peito apertar com uma honestidade dolorosa que eu não podia mais adiar.— Lucas... eu preciso te pedir desculpas — comecei, com a voz embargada e falhada, puxando suavemente o ar. — Me desculpa de verdade. Por não ter sido sincera com você desde o começo.Lucas não desviou o olhar. Ele apenas me escutou em silêncio, ajustando a postura para me dar toda a sua atenção.— Você sempre foi tão correto, tão transparente e atencioso comigo — continuei, sentindo novas lágrimas quentes marejarem meus olhos, mas desta vez não de pavor, e sim de uma vergonha genuína. — E eu permiti







