LOGINO som agudo e insistente do telefone fixo parecia uma buzina de emergência perfurando a névoa de prazer que ainda turvava minha mente. Pisquei várias vezes, tentando recobrar os sentidos enquanto encarava o olhar de Henrique. Ele não se moveu um milímetro. Apenas continuou ali, posicionado entre as minhas pernas, com a respiração pesada e a pulsação visível na veia do pescoço.
— H-Henrique... o telefone — murmurei, o pavor finalmente abrindo caminho através do meu torpor. — Deixe tocar — a voz dele veio como um rosnado baixo, a mão segurando minha coxa com mais força. — Pode ser a recepção! Alguém pode estar subindo! — tentei empurrar os ombros dele, mas ele era uma rocha. O telefone tocou pela quarta vez, parecendo ainda mais alto. Henrique praguejou baixo, um palavrão grave que fez meu estômago gelar, e virou o rosto para a mesa. Com um movimento rápido e impaciente, ele esticou o braço e apertou o botão do viva-voz. — O que foi? — ele exigiu, o tom tão frio e autoritário que parecia outra pessoa. — Senhor Fontes, me desculpe incomodar — a voz do segurança da portaria ecoou na sala. — O seu motorista já está com o carro a postos na garagem. O senhor pediu para avisar quando desse dezoito horas. Olhei para o relógio de parede. Já eram seis da tarde. O prédio estava prestes a esvaziar, e as equipes de limpeza logo começariam a circular pelos andares. — Obrigado, Carlos. Estou descendo em dez minutos. Não deixe ninguém subir — Henrique ordenou, desligando a chamada antes de qualquer resposta. O silêncio voltou a pesar sobre nós, mas o clima tinha mudado. A realidade havia invadido o ambiente como uma rajada de vento frio. Arfei, me encolhendo na mesa enquanto tentava puxar o decote do meu vestido para cima com as mãos trêmulas. Henrique me observou por alguns segundos. A rigidez em seu rosto não era de raiva, mas de uma frustração brutal. Ele fechou o zíper da calça devagar, sem nunca desviar os olhos do meu rosto. A forma como ele arrumava a própria roupa, impecável e frio, me fazia sentir completamente exposta, vulnerável e culpada. — Você precisa ir — ele disse, a voz rouca voltando ao tom controlado de sempre. Ele se aproximou da mesa, pegou a chave de metal da casa de praia na gaveta e a colocou na minha mão aberta. Quando tentei fechar os dedos, ele segurou meu pulso, impedindo que eu me afastasse. — Isso não acabou, Valentina — ele sussurrou, a poucos centímetros da minha boca. — Você sabe disso, não sabe? — Nós não podemos voltar a fazer isso, Henrique — respondi, tentando soar firme, mas minha voz falhou miseravelmente. — A Laura... ela é minha irmã de consideração. O que nós fizemos aqui... se ela souber, vai me odiar para sempre. Henrique deu um sorriso amargo, o olhar descendo para os meus lábios ainda inchados pelo momento anterior. — Ela não vai saber. Mas não tente fingir que você não queria isso tanto quanto eu. Eu vi como você se desfez na minha mão, garota. Ele soltou meu pulso devagar, deixando um rastro de calor na minha pele. — Ajeite a roupa e saia primeiro. O carro da frente vai te levar até a casa da Laura. Eu vou logo em seguida. Ajeitei meu vestido com os dedos ainda trêmulos, peguei minha bolsa sobre a cadeira e me dirigi à porta de carvalho. Minha mão segurou a maçaneta gelada, mas antes de abrir, olhei para trás. Henrique já estava de costas para mim, ajustando as abotoaduras da camisa como se nada tivesse acontecido. Saí do escritório e caminhei pelo corredor deserto, sentindo minhas pernas bambas e um calor queimando entre as coxas que me lembrava, a cada passo, do crime que eu acabara de cometer. Quando cheguei à mansão dos Fontes meia hora depois, Laura veio correndo pelo salão de entrada com um sorriso enorme no rosto. — Tina! Finalmente! Achei que você tinha se perdido — ela disse, me abraçando forte. Congelei. O perfume do pai dela ainda estava entranhado no meu pescoço. — Eu trouxe a chave... — consegui dizer, forçando um sorriso plástico. — Perfeito! Meu pai já ligou avisando que está chegando. Vamos jantar todos juntos hoje para comemorar o fim da semana! Meu coração errou a batida. Eu teria que sentar à mesma mesa, encarar o pai da minha melhor amiga e fingir que as mãos dele não tinham estado por baixo da minha calcinha menos de uma hora atrás.(Henrique)O som dos pneus cantando contra o concreto do subsolo ecoou pelas paredes da garagem como um tiro. Arrancando em alta velocidade, dobrei a curva acentuada da rampa de acesso com o meu sedã, cortando o caminho bem no instante em que o veículo de apoio enviado por Marcos manobrava de lado, bloqueando completamente a pista de saída para a rua.Luzes de emergência piscavam, refletindo no teto cinzento de concreto. Os dois carros da minha equipe fecharam a passagem em formato de "V", criando uma barreira intransponível na rampa íngreme.No centro da armadilha, o sedã preto com vidros G5 de alta blindagem — o carro oficial da segurança de Lucas Alencar — freou bruscamente a menos de dois metros dos nossos parachoques. O ruído seco das travas e o cheiro de borracha queimada preencheram o ar abafado do subsolo.Ajustei a postura, pulei para fora do carro antes mesmo que o motor desligasse completamente e avancei com passos pesados. Três homens armados da minha equipe de segurança d
(Henrique)No instante em que a ligação no viva-voz mudou para o tom estridente de linha cortada, o silêncio no quarto do hotel em Botafogo durou menos de um segundo. O grito de desespero de Valentina — “Henrique! Me socorre! Ele tá aqui!” — ainda vibrava no ar, estilhaçando a pouca calma que restava naquele ambiente.Dona Helena levou as duas mãos ao peito, cambaleando para trás. As lágrimas que já escorriam pelo seu rosto transformaram-se em um choro convulsivo.— O que aconteceu, meu filho? — a voz da senhora veio rasgada, agarrando-se ao meu braço com uma força trêmula. — O que aquele homem vai fazer com a minha Tina? Pelo amor de Deus, não deixa ele machucar a minha menina!— Ele não vai tocar nela, dona Helena — afirmei, a voz saindo mais dura do que eu pretendia, movido por uma descarga violenta de adrenalina. Segurei as mãos da senhora por um segundo para transmiti-la firmeza, embora o meu próprio peito estivesse em chamas. — Laura, cuide dela. Não saia deste quarto por nada.
— Valentina! Valentina, me responde! Onde você está? — o grito de Henrique rasgava o alto-falante do celular, a voz distorcida pela urgência e pela distância, enquanto o caos se instalava no banheiro de mármore.— Ele tá me pegando, Henrique! Bloco A! No banheiro! — consegui gritar antes que a sombra de Naldo cobrisse completamente a luz do teto.Com um movimento seco e desprovido de qualquer hesitação, a mão pesada do segurança se cravou no meu pulso. O aperto de ferro fez meus dedos se abrirem por reflexo, e o celular de Camila escorregou da minha mão, caindo ruidosamente no piso e deslizando até bater no rodapé. A voz de Henrique continuava a ecoar do aparelho no chão, um ruído abafado e desesperado que Naldo calou no segundo seguinte, pisando com o calcanhar da bota sobre a tela, estilhaçando o vidro e encerrando a linha.— Que absurdo é esse?! — Camila gritou, indignada, dando um passo à frente. — Você destruiu o meu telefone! Quem é você? Segurança, tira esse homem daqui!— Afas
No segundo toque, a ligação foi atendida. O som ambiente de fundo pareceu silenciar antes mesmo que a voz grave e familiar de Henrique cruzasse a linha, carregada de uma surpresa contida.— Alô?— Henrique... sou eu — sussurrei com a voz colada ao microfone do aparelho, encarando o espelho da bancada com o coração parecendo querer rasgar meu peito. — Não posso falar muito. O Naldo está do lado de fora.Houve uma pausa de um único segundo, e pude ouvir o som pesado da respiração dele mudar do outro lado da linha. A emoção de ouvir minha voz transbordou antes que ele conseguisse conter a postura.— Valentina... meu Deus, Valentina. Que bom ouvir você. Você está bem? Onde você está?— Henrique, me escuta! — interrompi, a voz trêmula de desespero e urgência. — Eu preciso da verdade. A minha mãe... ela esteve aqui ontem. O Lucas disse que você a trouxe para me usar, para me desestabilizar. Eu preciso saber se ela está bem, se ela realmente está aqui no Rio ou se tudo não passa de mais um t
O estalo da trava ressoou como um sinal de trégua na penumbra.O som abafado dos passos de Lucas sobre o piso de madeira indicava que as três horas de isolamento haviam chegado ao fim. Permaneci exatamente na mesma posição de bruços, o peito colado ao futon, os pulsos contidos atrás das costas e a respiração regulada para demonstrar a mais absoluta serenidade.Senti o toque dos dedos dele na minha nuca, desfazendo o nó da fita de cetim com movimentos calmos. Quando a venda deslizou, a iluminação suave do quarto fez minhas pálpebras piscarem devagar. Lucas curvou-se, soltando as amarras dos meus pulsos e ajudando-me a sentar. A pele dos meus braços formigou com o retorno da circulação, mas mantive as mãos postas sobre o colo, o queixo ligeiramente baixado.Ele me observou por alguns segundos, os olhos varrendo o meu rosto em busca de qualquer vestígio de turbulência.— Como está a sua mente agora, Valentina? — perguntou ele, num tom baixo, enquanto guardava as fitas de contenção no con
A luz fria do corredor refletia-se no painel de aço escovado do leitor biométrico.Ouvi o bipe agudo da trava desengatando, seguido pelo ruído suave da porta pesada do quarto secreto se abrindo. O ambiente sem janelas exalava o mesmo aroma discreto de sândalo e couro, uma fragrância que Lucas escolhera para associar aquele espaço a um estado de concentração e rendição.Entrei primeiro. Meus pés descalços tocaram a textura macia do futon centralizado no cômodo. As paredes espelhadas devolviam a imagem da minha própria vulnerabilidade: os olhos vermelhos pelo choro contido, as roupas alinhadas contra a vontade e a postura curvada pela força do hábito. Lucas entrou em seguida, fechando a porta atrás de si. O estalo final do fecho magnético selou o nosso isolamento do restante da cobertura.— Ajoelhe-se — ordenou ele, sem alterar o tom sereno e absoluto que usava para impor sentenças.Dobrei os joelhos sem hesitar, apoiando o peito das mãos sobre as coxas, mantendo os olhos cravados na ma







