INICIAR SESIÓN— Pai. — A súplica do garoto fez Vicent amenizar seu olhar. Não brigava por ele chegar atrasado. Não era por isso…
Até porque quem seria louco de chamar atenção de Ronny Tornneght na empresa?
Não era por isso.
— Vamos indo — Ele levou já segurando a mão da namorada, no entanto, Vicent levantou de seu lugar também agarrando a mão livre da menina que se assustou mais que próprio.
Por que ele estava fazendo isso?
— Você pode ir. Deixe que ela termine de comer.
Seu tom de voz foi como uma ordem.
Quem seria louco de ir contra?
— Preciso deixar ela em casa.
— Não se preocupe, ela arruma um jeito de ir, certo, Clarisse?
Deixando de olhar para Ronny, Vicent focou totalmente sua atenção a garota que apenas piscou em sua direção sem saber o que fazer. Aos poucos, notou que nenhum ou outro lhe soltará os braços.
Que tipo de brincadeira era aquela entre os homens?
— Tudo bem. Vou pedir para o motorista levar ela primeiro. Porque você pode dar seu jeito de ir pro trabalho — Ronny murmurou puxando Clarisse para mais perto.
Para lhe falar algo.
Algo que Vicent também queria saber, claro que ele queria saber porque faria melhor, muito melhor que um garotinho de meia-idade.
Se afastou de vez tornando a se sentar. E não demorou a receber um olhar de reprovação do filho antes de vê-lo sair da mesa deixando Clarisse para trás.
O olhar perdido enquanto comia uma coisa ou outra sem jeito. Será que ele a assustou?
— Por que você faz isso? — Vicent a olhou outra vez, agora em seus olhos e sendo retribuído com o mesmo olhar.
Ou não?
Era coisa da sua cabeça?
— Isso o que?
— O tratar mal. Ele não pode ficar um pouco mais comigo? Ou eu não posso ficar com ele?
Os dois.
— Não trato mal meu filho. Mas não gosto de vê-lo chegar atrasado em suas obrigações. Se você está atrapalhando é minha função deixar isso claro.
— Por que me segurou? — Ele não tinha a resposta correta no momento. — Me impede de ir e vir com seu filho, isso quer dizer que na festa fará o mesmo?
— Ainda bem que tocou nesse assunto, espero que tenha algo decente para usar. Caso contrário, mandarei que uma amiga minha escolha alguns vestidos para que não apareça de qualquer jeito.
— Você acha que não sei me vestir?
— Ficarei mais confortável em saber o que está vestindo… — Clarisse suspirou, mas isso poderia ser bom, ganharia mais ponto com ele. — Por dentro e fora do vestido.
— Por dentro… e por fora? — Clarisse murmurou tentando entender o que tinha sido dito, e olhando atentamente para o homem sentado no canto da mesa, não soube o que dizer.
Ele estava querendo vê-la nua? Era isso? A namorada do seu filho?
— Esteja aqui algumas horas antes. Mandarei vestidos para escolher. A noite tem que ser perfeita para Ronny.
Dando esse ultimato, Vicent levantou da mesa sendo seguido pelos olhos claros da mulher que não tinha entendido. Ele a queria ver nua? Já não basta a achar bonita demais para Ronny, agora queria ver-la nua? Respirou fundo se afastando um pouco da mesa. O que estava acontecendo naquela casa?
Levantou rapidamente indo atrás daquele homem, porque se tinha alguma coisa rolando naquela casa ao seu respeito, iria descobrir. Chegou na sala vendo apenas a silhueta do homem dobrar no fim da escada, ah, estava indo para o quarto? Melhor, pois não teria ninguém para interromper.
Subiu as escadas degrau por degrau e chegou ao corredor e nem sequer bateu na porta para abri-la e o viu juntando suas coisas ao redor da cama.
Ela notou quando o clima mudou, lá fora, o calor era infernal, mas ali dentro, o frio lhe percorreu o corpo inteiro. Estremeceu ao ver o olhar de repreensão vindo do homem. Ela poderia correr para longe, mas assim que tentou abrir a porta travou.
Travou por quê?
Pra que?
— O que você está fazendo aqui? — Perguntou sem fôlego. Não poderia ficar num espaço fechado com aquela garota. Ele iria enlouquecer. — O que está fazendo no meu quarto?
— Você me disse coisas, coisas que não poderiam ser ditas a mim — estremeceu ao vê-lo dar um passo em sua direção. — Como quer ver por dentro e fora do vestido. Isso quer dizer que te alegraria me ver nua?
— Isso é inapropriado. E errado da sua parte vir ao meu quarto para me perguntar coisas que não fazem sentido. Por favor, saia.
Vicent tinha razão.
Subir até ali, lhe questionar sobre ele a querer vê-la nua. Isso era um absurdo sem tamanho. Mas não dava para não pensar nisso. O contexto da conversa, o assunto do vestido, tudo levava a crer que ele queria sim.
Depois de muito pensar, ergueu a cabeça para tornar a encarar o homem que estava mais perto, mais perto do que precisava, os olhos claros brilhando em sua direção como se tivesse vendo uma joia preciosa. Essa joia era ela? Claro que não, ela era apenas uma garota, não chegava nem perto das modelos lindas com as quais já o tinha visto sair.
— Você tem razão. Foi um erro eu subir até aqui para lhe perguntar algo tão bizarro. — Murmurou, no entanto, Vicent jogou sua cabeça para o lado, analisando o rosto bonito e aqueles lábios que abriam e fechavam. Ele nunca tinha ficado tão próximo dela como naquele momento.
Seu corpo estava rígido, podia sentir todas as elevações de músculos e seu amigo subir como se estivesse pronto para dar o bote.
Ele podia fazer isso… na frente das pessoas. Tendo ela tão perto agora, ninguém precisava saber.
— Você não iria querer me ver nua. Afinal, não sou tão bonita como as mulheres que já estiveram em seu quarto. — Suas palavras saiam e ele ouvia tudo atentamente, mas sua atenção era dada toda aos lábios.
Clarisse acabou sorrindo com a imagem, ele tão perto, cheiroso, e parecia gostar de seus lábios. Sorriu mais os mordendo, será que ele estava mesmo olhando para sua boca.
A ação da mordida fez o homem se aproximar mais a prendendo contra a porta. O sorriso parou, e logo seus olhos se encontraram de verdade.
— Você é bonita sim. — Ela sentiu um fogo de energia dentro de si. Aquilo era gostoso de ouvir, ainda mais vindo dele. — Bonita demais para estar no meu quarto. Não suba mais.
— Então eu entendi certo quando você disse que era bonita. Na verdade, achei que tinha feito isso para me agradar, para que eu venha na festa com o Ronny, sei que não gosta de mim.
— Nunca disse que não gostava de você. — Sua frase saiu rouca, estava na cara que ele não iria para o trabalho sem antes tomar um banho gelado e ter suas mãos fazendo um trabalho vergonhoso para sua idade.
— Você disse várias vezes.
— Eu disse que não gostava de você com meu filho. Mas eu gosto… de você.
Clarisse arregalou os olhos virando as costas na mesma hora. A porta ainda não abriria e ela sentiu a respiração dele vir ao pé do ouvido. Fechou os olhos quando o peito dele encostou em suas costas e uma parte mais enrijecida...
Não sabia se tentava sair daquele fecho. Era fantasioso e sex, mas tão errado. Muito errado.
— Quer mesmo saber minha resposta?
— Quero… — Talvez gemer um "quero" para o homem poderia lhe dar brechas para inúmeras fantasias que se passavam na cabeça, não teria sido uma boa ideia. Sentiu a mão dele pousar em sua cintura e apertar. Aquilo era bom. Fechou os olhos apenas para sentir o calor.
— Eu gostaria de vê-la nua. — Clarisse tentou, mas não evitou o sorriso. — Mas só vê-la, não me traria alegria.
— E o que te daria alegria? — Perguntou devagar, dando mais um sorriso, porém, virou novamente para encarar o homem nos olhos, — O que te daria alegria além de me ver nua?
— Tocar em você. Te jogar nessa cama e sentir tudo em você, com as minhas mãos e a minha boca.
Clarisse respirou fundo tentando manter aquele contato. Sabia que o rosto estava vermelho, e que tudo que ele disse parecia um convite que por um momento, pensou em aceitar.
Mas era errado. Muito errado.
Seu momento de silêncio fez com que Vicent pensasse duas, três, dez vezes, antes de destravar o trinco da porta mais acima que ela não viu. O barulho a fez despertar e ao mesmo tempo, o homem se afastou, mas não deixou de encará-la.
— Eu sou a namorada do seu filho — Murmurou devagar, o outro apenas riu.
— Isso não me impediria de ter o que eu quero. — Clarisse ofegou dando um passo à frente. Vicent abriu mais os olhos, estavam em alerta. Se aquela mulher desse outro passo, ele a pegaria. Não pensaria mais em nada.
Porém ela recuou, finalmente saindo do quarto.
Vicent fechou os olhos já puxando a gravata do pescoço. Precisava de um banho, e da imagem de Clarisse jogada na sua cama apenas para seu deleite.
Do outro lado, Clarisse desceu as escadas correndo quase tropeçando em todos os degraus e atravessou a porta daquela casa. Não esperou o motorista abrir a porta do carro, apenas entrou e pediu para ir embora rápido. Seja lá o que aconteceu naquele quarto. Ninguém podia saber.
Ninguém.
No primeiro dia, Clarisse acreditou que morreria.Não de fome.De medo.Onde Jasper estava?Para onde Ronny o levara?Ele estava alimentando?Estava chorando?Sentia falta dela?— Meu filho…Clarisse ficou junto à porta.— Devolve meu filho.Ninguém respondia.Os empregados tinham sido demitidos.A casa estava vazia.Completamente vazia.Nenhuma Margaret.Nenhuma Melissa.Nenhuma voz.Nada.Apenas Clarisse.No segundo dia, a fome começou.Mas o pior era a sede.Havia água no banheiro.Bebeu.O estômago doía.Abriu gavetas.Nada.Nenhuma comida.— Desgraçado.Tentou a porta.Nada.Janela.Trancada.Procurou alguma coisa.Qualquer coisa.Passou horas mexendo em cada canto.Até encontrar uma pequena peça metálica solta na estrutura de uma gaveta.Tentou a fechadura.Não sabia o que estava fazendo.Tentou mesmo assim.Uma hora.Duas.As mãos começaram a doer.— Abre.Sussurrava.— Abre…Nada.No terceiro dia, conseguiu.Um clique.Clarisse congelou.Girou.A porta abriu.Ficou parada.Não
Desceu pela lateral da casa.Não usou a porta principal.Tinha percebido durante semanas que a porta próxima à lavanderia nem sempre acionava o mesmo aviso que a entrada principal.Abriu devagar.O ar frio atingiu seu rosto.Liberdade.Por alguns segundos, Clarisse apenas respirou.Depois caminhou.Não correu.Ainda.Passou pelo jardim.Atrás das árvores.Chegou próximo ao portão lateral usado pelos funcionários.O coração parecia ensurdecedor.O segurança estava do outro lado, falando ao telefone.Clarisse esperou.Jasper começou a resmungar.— Shhh…Balançou-o.— Só mais um pouquinho.O homem virou.Clarisse congelou.Ele não a viu.Continuou andando.Quando desapareceu…Ela saiu.Atravessou.Um passo.Dois.Três.Clarisse olhou para trás.O portão.A casa.Ronny.Tudo ficou do outro lado.Começou a correr.Não tinha carro.Não confiava em motorista.Caminhou até uma avenida movimentada carregando Jasper e a bolsa.Conseguiu um táxi.Entrou quase tropeçando.— Rodoviária.O motorista
— Isso foi uma punição?— Uma demonstração.Clarisse sentiu náusea.— Do quê?O sorriso veio.Pequeno.Carinhoso.Terrível.— Do que eu sou capaz de fazer por amor.Clarisse parou de respirar.Ronny tocou delicadamente o rosto de Jasper.Ela recuou.— Não encosta.O olhar dele mudou.Clarisse percebeu e corrigiu rapidamente:— Ele acabou de dormir.Ronny sorriu novamente.— Claro.Passou a mão pelos cabelos dela.Clarisse ficou imóvel.— Eu amo você.Ela fechou os olhos.— Amo Jasper.A mão desceu pelo rosto fragilizado.— Amo nossa família.Clarisse sentiu uma lágrima.— E não vou perder nenhum dos dois.Ronny beijou sua testa.Ela teve vontade de se afastar.Não fez.— Entendeu agora?Clarisse abriu os olhos.Olhou para Jasper.Era por ele.Sempre por ele.— Entendi.Ronny sorriu.— Ótimo.Saiu.Clarisse esperou os passos desaparecerem.Então sentou na poltrona.O corpo tremia.Não tinha comido.Estava fraca.Precisava de água.Precisava de banho.Precisava de médico talvez.Mas segu
Depois daquilo, Clarisse passou a temer o anoitecer.Durante o dia ainda conseguia fingir.Tinha Jasper.Tinha o escritório.Tinha as páginas dos livros onde podia inventar mulheres que corriam, gritavam, quebravam portas e conseguiam escapar de homens poderosos.À noite, porém, existia Ronny.E existia a cama.Nos primeiros dias depois de recuperar a saúde, ele ainda fora cuidadoso.Perguntava se estava bem.Beijava sua testa.Abraçava-a.Dizia que não precisava fazer nada enquanto não se sentisse recuperada.Clarisse chegou a acreditar que talvez aquilo permanecesse assim.Não permaneceu.Com o passar das semanas, os abraços começaram a durar mais.As mãos demoravam onde ela não queria.Os beijos que ela evitava passaram a ser cobrados.— O que foi?Ronny perguntava.— Nada.— Então por que virou o rosto?Clarisse inventava.Dor de cabeça.Sono.Cansaço.Jasper havia chorado muito.O corpo ainda não estava completamente recuperado.Qualquer coisa.Ronny aceitava algumas vezes.Em out
Maressa não dormia havia duas noites.Na terceira, desistiu de tentar.Ficou sentada na sala com o telefone apoiado sobre as pernas, olhando para o aparelho como se pudesse obrigá-lo a tocar apenas pela força do desespero.Nada.Nenhuma ligação.Nenhuma mensagem.Nenhuma resposta.Clarisse simplesmente havia desaparecido.Não literalmente.Maressa sabia onde a filha estava.Sabia a cidade.Sabia que estava com Ronny.Sabia que tinha uma casa, dinheiro, empregados, médicos e tudo aquilo que, na cabeça de qualquer pessoa olhando de fora, significaria segurança.Mas uma mãe não precisava enxergar a filha para saber quando havia alguma coisa errada.E havia.Alguma coisa estava terrivelmente errada.— Liga de novo.Gregori estava em pé próximo à janela.Não parecia melhor.O homem que durante toda a vida aprendera a controlar situações difíceis, lidar com criminosos, ameaças, acidentes e problemas que fariam outras pessoas perderem a cabeça agora parecia incapaz de lidar com o silêncio de
Vicent soube do nascimento três dias depois.Três dias.Setenta e duas horas em que, em algum lugar distante, Clarisse havia entrado em trabalho de parto, sofrido, gritado, chorado e colocado uma criança no mundo enquanto ele seguia sua rotina sem saber de absolutamente nada. A notícia chegou de maneira quase ridícula. Uma ligação. Um comentário entre duas pessoas da empresa. Depois uma confirmação que Dylan conseguiu arrancar de alguém ligado à equipe de Ronny. Vicent estava sentado atrás da enorme mesa do escritório quando a secretária entrou sem bater.Não reclamou. Dylan só fazia aquilo quando havia algo realmente importante.— Tenho uma notícia.Vicent sequer ergueu os olhos dos documentos.— Se for sobre o contrato dos holandeses, já falei que—— O filho da Clarisse nasceu.A caneta parou. Vicent não respirou. Dylan ficou diante da mesa esperando. Devagar, muito devagar, ele levantou os olhos.— O quê?— O bebê nasceu. - A voz dela se tornou mais suave. — É um menino.Vicent cont







