Mag-log inHelena Evelyn
Eu já estava arrependida antes mesmo de pisar na passarela. Luzes fortes e música alta ecoavam por todos os lados. Havia gente rica, joias brilhando e taças de champanhe no ambiente. E eu ali, de calcinha e sutiã, tentando parecer confiante. Minha alma só queria fugir correndo de volta pro interior da Bahia. Eu sentia uma vergonha danada de estar quase nua na frente de estranhos. Minha mãe na roça Infartaria se me visse assim. A assistente de palco me empurrou delicadamente. — É a sua vez, Valentina. Vai! Respirei fundo. Apertei as mãos, engoli o choro e dei o primeiro passo. O chão da passarela parecia liso como espelho. Eu jurava que não ia olhar na direção de ninguém. Jurei pra mim mesma, pra Nossa Senhora e pra todos os santos. Mas assim que avancei sob os flashes, eu senti. O olhar. Pesado, quente, irritante. Um olhar que queimava na minha pele mais do que os refletores. Levantei o queixo e fingi que era poderosa. Fingi que estava acostumada a desfile de lingerie. Encontrei os olhos dele bem ali, na primeira fila. Claro. Onde mais aquele infeliz estaria? Nathan Keen. Pernas abertas, braço jogado no encosto da cadeira. Terno escuro bem cortado e barba por fazer. Ele ostentava aquele sorriso de canto insuportável. Como se o mundo inteiro fosse um brinquedo particular dele. E como se eu fosse a atração principal desse circo. “Não tropeça, Helena”, implorei a mim mesma em pensamento. “Se tropeçar na frente desse homem, você se j**a do palco e não volta nunca mais.” Cada passo do salto alto parecia ecoar direto no meu peito. Eu me obriguei a olhar pra frente, pra câmera no fundo do corredor. Mas a verdade é que meus olhos voltavam pra ele como teimosos. Aquele olhar avaliador. O olhar de quem acha que tem o direito de julgar tudo o que vê. A vontade que me dava era de arrancar o salto agulha e cravar na cara dele. Quando finalmente saí da passarela, minhas pernas tremiam por inteiro. Aplausos ecoavam atrás de mim, junto com gritos de fotógrafos. Mas tudo o que eu conseguia ouvir era a minha própria cabeça gritando. “Por que esse homem tem que ser tão bonito, meu Deus?” “Não podia ser feio? Careca? Barrigudo?” “Tinha que ter esse cheiro de perfume caro e esse ar de pecado?” Sentei numa cadeira do camarim, tentando fazer o coração acalmar. Mas não durou dois minutos a minha paz. Uma assistente de produção apareceu com uma prancheta na mão. — Valentina? — ela chamou, olhando pra mim. — O senhor Keen pediu pra você ir pro setor de figurino assim que terminasse. Estranhei na hora. — Fazer o quê? — Organizar todas as peças que foram usadas no desfile de hoje. — Dobradas, etiquetadas e separadas por tamanho no estoque. Fiquei olhando pra moça, achando que era piada de mau gosto. — O quê? Eu sou modelo da marca, não arrumadeira! A moça deu um sorriso sem graça e deu um passo para trás. — Foram as ordens diretas do CEO, querida. Sinto muito. O sangue subiu para o meu rosto na mesma hora. A raiva queimou meu peito. Claro. Claro que era isso. O desgraçado do Nathan Keen achou um jeito de me castigar. Ele queria me punir pelo tapa que eu dei nele no saguão. Em vez de me mandar embora, decidiu me humilhar me transformando em servente. — Esse homem só pode estar pedindo pra levar outro tapa — resmunguei. Ajeitei o rolo de roupa surrada que eu tinha trazido e fui pro depósito. Aquele homem achava que ia dobrar minha espinha? Ele não conhecia a baiana que tinha cruzado o caminho dele. O depósito de figurino parecia um campo de guerra. Rendas, sutiãs, cintas e cabides espalhados pelo chão inteiro. A poeira do estoque fazia meu nariz coçar. Respirei fundo e peguei o primeiro monte de lingerie cara. Enquanto dobrava uma calcinha rendada mínima, eu o xingava mentalmente. Canalha. Arrogante. Galinha. Magnata de meia tigela. Lembrei da cena da bofetada que dei nele no primeiro dia. Do rosto surpreso dele, da marca vermelha virando na pele clara. Do silêncio sepulcral no salão inteiro. Do meu coração batendo na garganta. Qualquer pessoa com juízo teria se encolhido de medo. Mas eu não. Eu o encarei e levantei o queixo. Ele achou que eu era lixo só porque vim da roça e estava de roupa simples. Dobrei mais um sutiã de renda preta e empilhei na prateleira. Quanto mais eu organizava, mais minha cabeça girava nele. Eu odiava Nathan Keen. Odiava o jeito como ele andava. Odiava o tom de voz autoritário. Odiava a forma como olhava pras pessoas de cima para baixo. Mas, acima de tudo, eu odiava o que ele provocava em mim. Porque, desde o dia daquele tapa, eu não conseguia tirar o rosto dele da cabeça. A altura. Os ombros largos. Aquele perfume amadeirado que impregnou o ar quando ele chegou perto. Uma calcinha caiu da minha mão porque minhas mãos tremeram de raiva. Abaixei pra pegar do chão quando ouvi passos no corredor do depósito. Passos firmes, sapatos de couro estalando no piso limpo. — A produção já recolheu todo o material do desfile? — a voz ecoou. Reconheceria aquela voz em qualquer canto do mundo. Voz grave, rouca, cheia de uma autoridade natural que dava raiva. Engoli seco no mesmo instante. Encolhi-me atrás das araras cheias de vestidos e mantive a respiração presa. Ele não entrou no depósito. Só passou pelo corredor conversando com alguém da equipe. Mesmo assim, meu corpo inteiro ficou em alerta máximo. Como se um predador perigoso estivesse rondando minha gaiola. Fiquei imóvel até o som dos passos sumir completamente. Quando o silêncio voltou, eu me soltei contra a parede, exausta. Era isso que ele fazia comigo. Ele me deixava em estado de guerra o tempo todo. Não importava se estava perto ou longe. Minha mente vivia girando em torno dele. Girava pra odiar, pra planejar respostas afiadas, pra imaginar formas de pisar nele de volta. Terminei de organizar as peças já era quase noite. Minhas costas doíam, meus pés queimavam por causa do salto. Quando finalmente saí da agência, o ar frio da rua bateu no meu rosto. Peguei o metrô lotado até o apartamento que dividia com as outras garotas. Cheguei lá caindo de cansaço. Fiz uma pizza congelada no forno e comi três fatias de uma vez só. Comi com raiva, mastigando como se estivesse mastigando o orgulho de Nathan. Só quem já passou fome de verdade sabe a benção que é ter o que comer. Mas nem a comida tirava o peso do meu peito. Fui pro banheiro, tomei um banho quente bem demorado. Deixei a água lavar a maquiagem pesada e o cansaço do desfile. Coloquei meu pijama velhinho de malha, com estampa de bichinho. Joguei-me na cama e abracei o travesseiro com força. O quarto estava escuro e silencioso. — Eu odeio esse homem — murmurei para o teto. — Odeio, odeio, odeio com todas as minhas forças. Repiti as palavras como se fossem uma reza pra me proteger dele. Pra lembrar a mim mesma de quem ele era: o inimigo. O chefe arrogante que queria me ver por baixo. O homem rico que achava que tudo tinha preço. Só que, quando fechei os olhos e o sono finalmente me venceu... Não foi a lembrança da raiva que apareceu no meu sonho. Foram os olhos dele. Escuros, intensos, dominantes. E, no sonho, eu não estava erguendo a mão para dar um tapa. Eu estava chegando perto demais. Perto o suficiente para sentir o calor do corpo dele contra o meu.Helena EvelynO silêncio da nossa suíte na Califórnia tinha um peso diferente naquela manhã. Não era o silêncio do vazio, mas o de uma promessa que pulsava dentro de mim, silenciosa e avassaladora. Olhei-me no espelho, ajeitando o roupão de seda que Nathan insistia que eu usasse — ele amava a forma como o tecido deslizava pela minha pele, como se marcasse seu território a cada movimento meu.Há meses eu tentava. Cada teste negativo era uma pequena ferida no meu otimismo, mas eu havia decidido desencanar. "No tempo de Deus", eu disse a mim mesma. Mas o destino, assim como meu marido, não costuma pedir permissão para agir.O atraso menstrual foi o primeiro sinal, mas meu temperamento foi o veredito. Eu estava uma fera. Nathan, com todo o seu poder e controle, parecia um alvo ambulante para o meu mau humor. Bastava ele me olhar de um jeito mais profundo ou respirar perto demais do meu ouvido para que eu sentisse vontade de desferir um soco naquela cara linda e esculpida.O teste de farmá
Helena Evelyn— Você é louco ou o quê? — gritei, ainda dentro do carro, sentindo o sangue ferver. — Quase machucou o coitado do Maurício por nada, seu ogro!— Está com pena dele, Helena? Então vá ficar com ele! — Nathan rosnou, as mãos apertando o volante com força. — Acha que eu não vi? Ele quer transar com você. Todo homem naquela faculdade quer.Aquelas palavras foram a gota d’água. Não contive a indignação e desferi um tapa estalado no rosto dele. O som ecoou no carro luxuoso.— Cala a boca, Nathan! O Maurício é casado, ama a esposa e os filhos. Ele nunca me faltou com o respeito. É o meu único amigo naquela faculdade cheia de gente de nariz empinado!Fui o caminho todo em silêncio, sentindo o peito apertado. Ele não confiava em mim. Ao chegar em casa, tomei um banho demorado para lavar a raiva e me joguei no sofá, ligando a TV no último volume. Eu não queria ouvir a voz dele. Não queria ouvir que ele achava que eu era capaz de traí-lo.Depois de um tempo, senti o sofá afundar ao
Helena EvelynO final de semana com meus pais no hotel foi um sonho, mas assim que eles voltaram para casa, a realidade do Carnaval de Salvador nos atropelou. Foram quatro dias de uma folia intensa, mas para o Nathan, foram quatro dias de tortura psicológica.Eu nunca o vi tão fora de si. Logo no primeiro dia, quando descemos para sentir a energia do trio elétrico, um rapaz da minha idade, com o rosto pintado e o sangue quente do Carnaval, parou na minha frente e segurou meu braço para me convidar para dançar. Ele nem teve tempo de terminar a frase. Antes que eu pudesse sorrir ou negar, Nathan avançou como um animal protegendo o território. Ele segurou o pulso do garoto com tanta força que vi os dedos dele ficarem brancos.— Ela tem dono, moleque. E eu não tenho paciência — Nathan rosnou.O rapaz sumiu na multidão em segundos, e eu tive que lidar com um "Leão" rosnando no meu ouvido o resto da noite. Foi exaustivo, mas eu mentiria se dissesse que não amei ver aquele homem poderoso, ac
Helena EvelynChegamos ao Hotel Fasano, um dos lugares mais sofisticados de Salvador, e o restaurante é simplesmente de cair o queixo. Assim que as meninas me avistaram, foi uma confusão de gritos e abraços.— Amiga, que falta você me faz! — Ketley me apertou forte, acompanhada por Emily e Sophia.— Eu também morri de saudade! Mas dona Ketley, por que não atendeu minhas ligações? — brinquei, mas ela logo apontou para o Nathan com um sorriso cúmplice.— Culpa dele, querida! Mas olha que lugar maravilhoso... Estou doidinha para aproveitar esse Carnaval!— Pois se preparem! — anunciei, sentindo uma felicidade que transbordava. — Amanhã tem bloco da Ivete e muito mais. Vamos dançar até o sol raiar!Degustamos um vinho impecável e queijos finos, perdendo a noção do tempo. Quando a meia-noite passou, o grupo decidiu se recolher. Eu deveria voltar para casa, mas o olhar do meu moreno dizia que ele não me soltaria tão cedo.— Fica comigo — ele sussurrou, possessivo. — Tem uma banheira incríve
Nathan KeenO calor de Salvador não era apenas uma questão de temperatura; era uma entidade física que pulsava contra a minha pele, competindo com o calor do meu próprio sangue. Eu estava em solo brasileiro há poucos dias, mas sentia que tinha sido transportado para outra dimensão. Nova York era feita de aço, vidro e regras silenciosas. A Bahia era feita de cores berrantes, tambores que faziam o chão tremer e uma liberdade que me deixava em estado de alerta constante.Eu estava encostado em um camarote VIP, mas meus olhos não estavam no desfile dos trios elétricos. Meus olhos eram dois rastreadores fixos na única mulher que importava.Helena. Minha morena. Minha futura esposa.Ela estava usando um abadá que eu mesmo ajudei a customizar — ou melhor, que eu quase proibi de ser usado. Ela o transformou em um top minúsculo que deixava sua barriga dourada à mostra e um short jeans tão curto que era uma afronta à minha sanidade. Ela dançava. E, porra, como aquela mulher sabia se mover. O ri
Helena Evelyn— O jantar estava delicioso, dona Laura e seu Mauro. Agradeço imensamente pela acolhida, mas agora preciso retornar ao hotel — Nathan disse, com a elegância de sempre.— Se quiser, pode passar a noite aqui, meu filho — minha mãe ofereceu. Arregalei os olhos. *Mainha, você não sabe o perigo que está convidando para dormir sob o seu teto!*— Agradeço, mas meus amigos estão me esperando no hotel — Nathan respondeu, e eu quase caí para trás.— Como assim? O Victor e o Michael estão aqui em Salvador? E você não me disse nada! — Eu estava pronta para dar um sermão nele, mas senti os olhos da minha família sobre mim, segurando o riso. Para eles, era engraçado ver uma "baixinha" como eu peitando um homem de quase dois metros de pura gostosura.— Era para ser surpresa, morena. As meninas, Emily e Sophia, também vieram.— O quê? Até elas? Você é um idiota mesmo, Nathan! — disparei, esquecendo a etiqueta.— Mocinha, olha a boca! — meu pai me repreendeu.— Desculpa, pai... — Corei n







