Share

CAPÍTULO 3

Author: Lívia Prado
last update publish date: 2026-06-04 00:03:35

Eu tentei manter o controle de mim mesma durante todo o trajeto, lutando para não deixar que ele estragasse o único motivo que ainda me dava um fio de esperança. Mas Arthur, como sempre, fazia questão de esmagar qualquer resquício de paz que eu tentasse construir. Foi o caminho todo repetindo as mesmas ameaças, naquele tom frio e cortante que eu conhecia tão bem, que eu não ousasse tentar nada contra ele, que seguisse exatamente as suas ordens ou pagaria um preço que eu não seria capaz de suportar.

— Olha ali — apontou com a cabeça, desviando o olhar apenas por um segundo, e eu vi os seguranças parados na entrada principal da instituição. — Hoje à noite vamos jantar na casa dos seus pais, para comemorar essa sua nova conquista. Esse cargo vai me abrir portas que valem muito mais do que você imagina.

— Eu preciso ir agora — falei, apressada, abrindo a porta do carro antes mesmo que ele parasse completamente, desesperada para me afastar daquele ar pesado.

— Calma, deixa dessa pressa — segurou-me pelo pulso, fechando a porta novamente e me trancando ali dentro com ele. — No próximo final de semana terá um jantar na casa do senhor Lombardi. Ele quer te apresentar à esposa. Você vai ser simpática, vai fazer amizade com a família, e principalmente, vai se aproximar da filha dele. Essa menina, a Carolina, vai herdar tudo o que o pai construiu. Ela será dona de tudo aquilo que move a cidade. — Deu uma risada curta, cheia de arrogância, e cuspiu as palavras como se fossem ordens de batalha. — Nem me olhe com essa cara de nojo. Você está ali dentro apenas para cumprir um papel. Será que pensou, por um segundo, que eu faria tudo isso por amor a você? Não seja ingênua, Susana.

— Eu não penso em absolutamente nada que venha de você. Tenha um péssimo dia — tentei me soltar, mas ele travou o cinto de segurança, impedindo a minha saída.

— Mal começou e já está querendo mostrar as asinhas? — aproximou o rosto, o hálito quente e fedorento me fazendo recuar. — A Carolina não é uma garota fácil de lidar. É exigente, mandona e acostumada a ter tudo o que quer. Se precisar, dê nota máxima para ela mesmo que ela não acerte uma única questão. Elogie, concorde, seja a melhor amiga que ela nunca teve. Você foi colocada lá para servir aos meus interesses.

Ele não esperou que eu respondesse, saiu do carro, deu a volta e abriu a porta do meu lado, obrigando-me a sair sob o olhar de quem passava.

— Não quero erros — segurou-me pelo queixo com força, apertando até que eu senti dor nos maxilares, e olhou ao redor para garantir que ninguém estivesse prestando atenção demais. — Grave bem isso na sua cabeça oca: eu mando, você obedece. E a minha ordem agora é: aproxime-se da Carolina Lombardi, ganhe a confiança dela e me traga informações.

Quando um pequeno grupo de pessoas passou ao lado, ele mudou de postura num passe de mágica, abraçou a minha cintura com falsa ternura e sorriu para mim como se fôssemos o casal mais apaixonado do mundo.

— Vai lá, meu amor. Tenha um ótimo dia — murmurou docemente, antes de segurar o meu rosto e pressionar os lábios contra os meus num beijo falso, úmido e repugnante.

Senti-me suja. No momento em que ele finalmente me soltou e virou as costas, eu só conseguia pensar em uma coisa: precisava escovar os dentes. Com toda a força. Até arrancar da pele qualquer rastro dele. O ódio que eu sentia daquele homem era maior do que qualquer medo que ele pudesse me causar.

Respirei fundo, sentindo o ar puro da manhã encher os meus pulmões como um alívio temporário, e caminhei apressada até o banheiro mais próximo. Peguei a escova e o creme dental da minha bolsa, esfregando com tanta força que a gengiva chegou a sangrar um pouco. Limpei o rosto, arrumei os fios de cabelo e tentei, diante do espelho, apagar o rastro de sofrimento que ele deixou em mim. Hoje eu seria apenas a professora Susana. Hoje eu viveria a minha vida, nem que fosse por poucas horas.

— Bom dia — anunciei ao entrar na sala dos professores, atraindo de imediato a atenção de todos os presentes. Pelos olhares cruzados e os cochichos, percebi que a minha presença ali já era motivo de comentários. Um ou outro respondeu baixo, com educação apenas. Sentei-me num canto, recolhi o material que usaria nas aulas e por um momento a realidade pesou sobre os meus ombros, eu estava com medo. Confesso que o receio era grande.

— É uma sorte muito grande ser apadrinhada logo por um dos donos da instituição — uma voz masculina cortou o silêncio, carregada de ironia. Levantei os olhos e vi um homem de braços cruzados me analisando com desdém. — Me diga uma coisa… Susana, não é? Você não se sente mal? Todos nós sabemos que havia cinco candidatas para essa vaga. Cinco pessoas que estudaram, lutaram e esperaram anos por essa oportunidade. E você foi a escolhida, sem prova, sem entrevista, sem passar por nenhum processo seletivo.

— Pedro, deixa a garota em paz — interrompeu uma mulher que se aproximou sorrindo, deixando claro que não concordava com o tom da conversa. — Ele está assim porque a namorada dele foi uma das que não foi aprovada. Não dê ouvidos a ele.

Fiquei paralisada, sentindo a vergonha queimar o meu rosto. Ele tinha toda a razão. Que chance eu teria realmente tido se o senhor Lombardi não tivesse interferido na minha contratação, atendendo ao pedido do Arthur? Senti como se a minha capacidade e os meus anos de estudo tivessem sido apagados apenas pela forma como cheguei até ali.

— Sou a Luiza — ela estendeu a mão, e eu levantei devagar, correspondendo ao cumprimento com gratidão.

— Muito prazer, Luiza. Obrigada por ter me defendido.

— Vamos, eu te mostro tudo. Temos cerca de vinte minutos antes do sinal bater.

Ela foi extremamente simpática, guiou-me por cada corredor, apresentou-me aos funcionários e explicou como funcionava toda a rotina. Eu comentei que havia estudado ali muitos anos atrás, mas que tudo parecia ter mudado tanto que eu mal reconhecia os ambientes. Conheci também alguns alunos durante o percurso, jovens que pareciam carregar o mundo nas costas ou, ao contrário, que não ligavam para nada. Eram ousados, seguros de si, especialmente aqueles que pertenciam às famílias mais ricas da cidade.

— A sua primeira turma do dia não é fácil, Susana — alertou-me Luiza, com um olhar sincero e preocupado. — Você consegue contar nos dedos de uma mão quantos realmente estão ali porque querem aprender. A maioria está cumprindo apenas uma obrigação imposta pelos pais.

— É triste pensar assim, mas eu entendo bem como é — comentei, sentindo uma pontada no peito. Nada era pior do que ter os sonhos roubados ou ter os passos ditados por outra pessoa. — Às vezes os próprios pais esquecem que o maior presente que podem dar aos filhos é a liberdade de escolha.

— Você não tem filhos? — perguntou curiosa. Neguei com a cabeça. Ela sorriu, continuando. — Vi o seu esposo na entrada, acompanhando você. Ele parece te amar muito, devo dizer que é um homem bonito. Vocês formam um par perfeito, dá para ver amor nos olhos de vocês. Devem ter filhos lindos quando decidirem tê-los.

Eu forcei um sorriso amarelo, daqueles que não chegam aos olhos. Tive vontade de dizer a ela que podia ficar com ele de presente, sem nenhum custo, pois eu não desejava a ninguém a vida de prisão e aparências que eu levava.

— Eu tenho uma menina, de sete anos. Qualquer dia marcamos um almoço, para você conhecê-la. Tenho certeza que vão se dar bem.

— Com certeza, vou adorar — respondi, parando em frente à porta da primeira sala de aula.

— Bom, eu fico por aqui. Qualquer dificuldade ou dúvida, é só me procurar. A minha turma já me espera. Boa sorte, Susana. E desculpa a sinceridade, mas você vai precisar dela — ela sorriu, dessa vez com um pouco mais de seriedade. — Mas algo me diz que você tem garra suficiente para conquistar o seu espaço.

Ela afastou-se, deixando-me sozinha diante da porta pesada de madeira. Respirei fundo, enchi-me de coragem e empurrei-a devagar. Ao entrar, vários alunos conversavam alto, alguns em pé sobre as carteiras, outros circulando pela sala. O barulho cessou por completo quando os meus pés tocaram o centro do sala..

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O Preço De Sentir Você.   CAPÍTULO 105

    Susana...Não sei se estou sendo uma pessoa egoísta, mas não quero nada e nem ninguém que me faça lembrar o meu passado, amo minha irmã, mas sei que não viverei em paz, ela está bem, feliz, segura, com pessoas que a ama, melhor que continue assim, não prolonguei a despedida, só queria ir embora com a única pessoa que me amou, que lutou por mim e que me daria a vida para me vê bem.__tem certeza disso? __tá querendo que eu fique?...ou já colocou outra em meu lugar?__cruza os braços e faço um biquinho fazendo ela rir.__te esperei por cinco anos, te esperaria por uma vida inteira se fosse preciso __mesmo receosa, segura meu braço e me puxa para si selando nossos lábios, o beijo é rápido, mas o suficiente para me acender, segura meu rosto entre suas mãos__vamos embora desse país?__Eu com certeza gostei da ideia, com você eu vou para qualquer lugar do mundo__me dar um selinho, segura minha mão, seguimos para o carro que estava estacionado do outro lado da rua.__já esta tudo pronto para

  • O Preço De Sentir Você.   CAPÍTULO 104

    Carol...Foram momentos difíceis, fiquei dias em coma, muitas queimaduras pelo corpo inalei muita fumaça, que me deixou impossibilitada por um ano, eu lutei contra meus medos, precisava ser forte por ela, eu poderia sergui em frente, mas jamais iria desistir, precisava me reerguer por ela, só ela que me importava.As cicatrizes que aqueles malditos deixaram no meu corpo foi o combustível para consegui me vingar de todos aqueles malditos. Devo minha vida ao Lipe e aos amigos dele, já não havia esperança para mim, me deram dois tiros e me trancaram no carro e, em seguida colocaram fogo, já sem forças eu só pensava na Susana, mas eles não me deixaram morrer, me tiraram de dentro do carro em chamas, só consegui agradecer e desmaiei, acordei dois meses depois, estava sozinha, sem identificação, assim que consegui entrar em contato com o pessoal, respirei aliviada em saber que as crianças estavam bem, eles tiveram que me deixar pois a polícia chegou.Minha recuperação foi bem difícil, mas e

  • O Preço De Sentir Você.   CAPÍTULO 103

    Susana Cinco malditos anos se possaram e, se eu falar a vocês que aqui me sinto livre, posso dormir se medo pois tenho a certeza de que não serei tocada, abusada, agredida.O primeiro ano nesse lugar foi um inferno, eu fui espancada varias vezes, ouvi uma detenta falar que a ordem vero de fora, aquele maldito delegado, tenho certeza que foi ele, mas em um belo día acordei com gritos, fomos tiradas das celas e jogadas no patio, lembro que ness dia chovia muito, passamos horas na chuva, quando finalmente fomos levados para dentro, ao passar pelo corredor me diparo com cinco corpos no chão, eram elas, as malditas que fizeram meus dias um inferno, pensei comigo, elas se foram mas outras virão outros, mas não veio.Tenho pesadelos quase todas as noites, em todos esse meses a imagem da Corol naquel carro me atormenta. A diretora do presidio por anos tentar me ajudar, depois da Carol aqui encontrei pessoas boas, que tentam me deixar bem, mesmo eu sendo essa pessoa fechada, que não fala com

  • O Preço De Sentir Você.   CAPÍTULO 102

    Susana...Enquanto a idiota dormia, pensei qual seria o próximo passo, preparei uma panela de óleo, quero que ela sinta bastante dor.__Hora de acordar__encosto a panela em sua perna, acorda no susto, coloco a panela sobre a cadeira, agarro em seus cabelos__Lívia, já te dei tempo suficiente, agora só irei parar quando você estiver morta.__va...vamos conversar.__não quero ouvir nada que venha de você.__Susana...__bato forte sua cabaça na mesa, dois dentes são quebrados, ela chora.__você pode chorar, implorar, mas não irei parar__o sangue dos seus joelhos escorre sem parar, formando uma poça de sangue no chão, quando ela levanta a cabeça e me olha, pego a panela de óleo e derramos em parte do seu coro cabeludo e por toda suas costas, a dor é tanta que ela desmaia na hora, nem deu tempo de gritar.Sua respiração era fraca, ela não irá aguentar muitíssimo, pego uma serra circular, nunca usei essas coisas, mas acredito que não seja tão difícil, ela abre os olhos, me aproximo mostrando

  • O Preço De Sentir Você.   CAPÍTULO 101

    Susana...__Chegamos__não sei em que momento eu dormi, acredito que essa desgraçada me deu algo__dormiu o caminho inteiro, você deve está com fome.__só preciso de um banho__saio do carro me sentindo tonta, olho em volta tentando saber onde estamos.__vamos dormi aqui essa noite, amanhã pela manhã temos uma avião para pegar.__para onde você vai me levar? __surpresa, mas garanto que você vai amar__antes mesmo dela sair do carro sei telefone toca....como assim a polícia? Você só pode está de brincadeira comigo__...não se preocupa, tenho um lugar seguro pra ir, é realmente tivemos sorte...não me liga novamente, espera por minha ligação.Ela desliga a chamada, fica alguns minutos olhando para a frente, quando volta a me olhar um largo sorriso brota em seu rosto.__os idiotas ainda acreditam que o babaca está vivo, tivemos sorte, a polícia chegou logo depois que saímos, vamos só tomar um banho, vou antecipar o nosso voo.Não falo nada, pois única coisa que quero é acabar com a raça dess

  • O Preço De Sentir Você.   CAPÍTULO 100

    Susana...Chegou a pior hora, mesmo sabendo que logo estaremos juntas, me dói, depois de tantos dias sem vê-la, sem tocá-la, estou confiante, isso é o que me conforta conforta, sei que iremos consegui.__se você continuar a me olhar assim, te juro que não penso duas vezes, e te levo para longe daqui__me abraça, mas não tem como ficar indiferente com tudo isso.__vamos pensar positivo, tudo irá ficar bem, estou confiante__ela se mantém séria, tá muito apreensiva, mas não é pra menos.__você sabe dos perigos__respiro fundo, sei que ela está certa, mas quero viver a vida toda me escondendo.__sabemos dos perigos, mas acabar com a Livia virou uma questão de honra, so viveremos em paz, no dia que ela morrer.__hmmm, nasce uma nova Susana__sorrio com o jeito que ela fala__ depois disso iremos embora.__sim, iremos, sem olhar pra trás__nem sei o que farei com a Manu depois de tudo o que ela fez, mas assim que estiver livre, irei sentar com a Carol e iremos decidir juntas__Carol, acho que é m

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status