LOGINNarrado por Helena RamosA chuva começou assim que o carro deixou o Palácio Bellavita.Gotas grossas deslizavam pelos vidros escurecidos, transformando as luzes da cidade em manchas douradas e avermelhadas. Eu mantinha as mãos sobre o colo, mas meus dedos apertavam com força o pequeno envelope preto escondido entre as dobras do vestido.“Pergunte a Lorenzo quem realmente matou Augusto Montelli.”A frase queimava na minha memória.Ao meu lado, Lorenzo respondia e-mails no celular como se aquela tivesse sido apenas mais uma noite de gala. A gravata estava levemente afrouxada, e a máscara preta repousava sobre o banco ao seu lado. Pela primeira vez, ele parecia cansado.Muito cansado.Olhei discretamente para seu perfil.Era difícil acreditar que o mesmo homem que me encurralara contra uma parede dias atrás agora parecia carregar o peso do mundo nos ombros.— O que foi? — ele perguntou, sem tirar os olhos da tela.Desviei o olhar para a janela.— Nada.— Você está me olhando há cinco min
Narrado por Helena RamosA última nota da valsa desapareceu lentamente pelo salão.Por alguns segundos, ninguém aplaudiu. Era como se todos tivessem permanecido presos naquele instante em que Lorenzo ainda segurava minha cintura e eu mantinha a mão sobre seu ombro. O brilho dos lustres refletia na máscara prateada entre meus olhos, e eu só voltei à realidade quando ouvi o mestre de cerimônias agradecer à orquestra.Lorenzo soltou minha mão primeiro.O calor dos seus dedos desapareceu, deixando uma estranha sensação de vazio.— Você mentiu de novo — murmurei enquanto caminhávamos para fora da pista.Ele arqueou uma sobrancelha.— Sobre o quê?— Você dança muito bem.— Eu disse que odiava dançar. Não que dançava mal.Revirei os olhos.— Isso é manipulação de palavras.— Chama-se precisão.Sorri sem conseguir evitar.Aquela troca de provocações estava se tornando perigosamente natural.O salão fervilhava de conversas.Garçons circulavam com bandejas de cristal, taças tilintavam discretam
Narrado por Helena RamosSe existia um lugar onde o dinheiro tinha cheiro, era aquele salão.Notas suaves de baunilha, rosas brancas e madeira antiga se misturavam ao perfume caro dos convidados. O teto abobadado era coberto por afrescos dourados, enquanto centenas de cristais pendiam dos lustres como estrelas congeladas. A orquestra executava uma valsa delicada, e o som dos violinos parecia envolver cada canto do Palácio Bellavita.Eu nunca havia pertencido àquele mundo.E, ainda assim, todos estavam olhando para mim.— Sorria — Lorenzo murmurou ao meu lado, sem mover os lábios.— Como consegue perceber tudo?— Porque eles não estão olhando para o salão.Engoli em seco.— Estão olhando para você?Ele soltou um suspiro discreto.— Não, Helena.Pela primeira vez, seus olhos encontraram os meus através das máscaras.— Estão olhando para nós.Meu coração acelerou.Um fotógrafo surgiu diante da escadaria.— Senhor Montelli! Uma fotografia, por favor!Antes que eu pudesse recusar, Lorenzo
Narrado por Helena RamosNunca imaginei que um vestido pudesse carregar tanto peso.Ele estava pendurado diante do espelho desde a noite anterior, como uma promessa silenciosa de que minha vida jamais voltaria a ser a mesma. O cetim azul-safira parecia absorver a luz do quarto e devolvê-la em reflexos profundos, quase líquidos. Ao lado dele, a máscara veneziana prateada brilhava delicadamente, bordada com pequenos cristais que lembravam estrelas.Eu permaneci alguns segundos apenas olhando.— Você realmente vai fazer isso… — murmurei ao meu reflexo.Clara bateu à porta antes que eu pudesse responder a mim mesma.— Posso entrar?— Claro.Ela entrou carregando uma caixa de veludo e sorriu ao perceber que eu ainda não havia tocado no vestido.— Está nervosa.— Dá para perceber tanto assim?— Um pouquinho.Ela apoiou a caixa sobre a cama.— O senhor Montelli pediu que eu a ajudasse.Meu coração acelerou de forma inexplicável.Durante a próxima hora, Clara transformou meu quarto em um pequ
Narrado por Helena Ramos O cheiro de café foi a primeira coisa que me acordou. Abri os olhos lentamente, ainda desorientada pelo quarto enorme da cobertura. Durante alguns segundos, esqueci onde estava. Depois, a lembrança caiu sobre mim como um peso: o contrato, Lorenzo, Gabriel, a cirurgia… e as três regras presas dentro da minha cabeça. Nunca entre no meu escritório sem autorização. Nunca faça perguntas sobre o meu passado. Nunca se apaixone por mim. Revirei os olhos. Como se fosse tão simples dar uma ordem para o coração. Tomei um banho rápido, prendi os cabelos em um coque baixo e vesti uma calça de alfaiataria preta com uma camisa branca que Clara havia separado para mim. Quando desci, o relógio marcava exatamente 6h02. — Bom dia, Helena. — Clara sorriu enquanto colocava frutas sobre a mesa. — O senhor Montelli já está esperando. Já esperando. Claro que estava. Atravessei a sala de jantar e encontrei Lorenzo sentado à cabeceira, lendo o jornal impresso enquanto toma
Narrado por Helena RamosNunca pensei que um elevador pudesse separar duas vidas.No térreo da Montelli Investimentos, eu era apenas a faxineira que carregava um carrinho de limpeza e evitava olhar os executivos nos olhos.No vigésimo quinto andar, eu acabava de assinar um contrato que me transformava na assistente pessoal do homem mais poderoso do estado.As portas de aço se fecharam atrás de mim com um clique suave.O reflexo no espelho devolveu uma mulher que eu mal reconhecia: uniforme cinza, olhos inchados de tanto chorar e um contrato capaz de decidir o futuro do meu irmão.Respirei fundo.— Persevera… — sussurrei.— Entre.A voz grave de Lorenzo veio antes mesmo que eu batesse pela segunda vez.O escritório permanecia impecável. Ele estava de pé diante de uma tela gigantesca repleta de gráficos financeiros, com as mangas da camisa social dobradas até os antebraços. Sem o paletó, parecia menos inalcançável… e estranhamente mais perigoso.Ele desligou a tela.— A partir de hoje,







