INICIAR SESIÓNNarrado por Helena Ramos
Nunca pensei que um elevador pudesse separar duas vidas.
No térreo da Montelli Investimentos, eu era apenas a faxineira que carregava um carrinho de limpeza e evitava olhar os executivos nos olhos.
No vigésimo quinto andar, eu acabava de assinar um contrato que me transformava na assistente pessoal do homem mais poderoso do estado.
As portas de aço se fecharam atrás de mim com um clique suave.
O reflexo no espelho devolveu uma mulher que eu mal reconhecia: uniforme cinza, olhos inchados de tanto chorar e um contrato capaz de decidir o futuro do meu irmão.
Respirei fundo.
— Persevera… — sussurrei.
— Entre.
A voz grave de Lorenzo veio antes mesmo que eu batesse pela segunda vez.
O escritório permanecia impecável. Ele estava de pé diante de uma tela gigantesca repleta de gráficos financeiros, com as mangas da camisa social dobradas até os antebraços. Sem o paletó, parecia menos inalcançável… e estranhamente mais perigoso.
Ele desligou a tela.
— A partir de hoje, você não mora mais na sua casa.
A frase caiu como uma pedra.
— Como assim?
— A cláusula quatro.
Eu havia lido o contrato, mas minha cabeça estava tão ocupada pensando em Gabriel que mal consegui processar cada detalhe.
— Você ficará temporariamente na cobertura.
— Eu não posso abandonar meu irmão.
— Não vai.
Lorenzo pegou uma pasta e a colocou sobre a mesa.
— O hospital onde Gabriel está internado agora pertence à Fundação Montelli. O tratamento dele foi autorizado há vinte minutos.
Meus olhos percorreram o documento.
No canto inferior, em letras discretas, estava escrito:
Cirurgia experimental — APROVADA
Minhas pernas fraquejaram.
— Isso… isso é verdade?
— Eu nunca assino documentos falsos.
Levei a mão à boca.
Durante cinco anos eu implorei por uma chance. Bastaram vinte minutos nas mãos daquele homem para algo impossível acontecer.
Uma lágrima escapou.
Lorenzo desviou o olhar para a janela, como se não soubesse lidar com choro.
— Não me agradeça.
— Mas eu…
— Você ainda vai pagar por isso.
A frieza voltou imediatamente.
Era como se qualquer demonstração de humanidade fosse proibida dentro dele.
Às sete da noite, um motorista me deixou diante do edifício Montelli Residence.
Eu esperava um apartamento luxuoso.
Encontrei um andar inteiro.
A cobertura ocupava o último piso do prédio. Assim que as portas do elevador se abriram, fui recebida por uma sala gigantesca de tons claros, madeira natural e enormes janelas revelando São Paulo iluminada.
Tudo era bonito.
E assustadoramente silencioso.
Uma mulher elegante de aproximadamente cinquenta anos aproximou-se sorrindo.
— Você deve ser Helena.
— Sim…
— Sou Clara. Governanta da residência.
Seu sorriso tinha uma gentileza rara.
Ela pegou minha mala — pequena demais para quem supostamente passaria meses ali.
— Venha. Vou mostrar seu quarto antes que o senhor Montelli chegue para o jantar.
Quarto.
Eu quase ri quando ela abriu a porta.
Era maior do que a casa onde cresci.
Havia uma cama de casal, um closet, banheiro de mármore e uma varanda particular.
Passei os dedos sobre a colcha bege sem acreditar.
— Eu… não preciso de tudo isso.
Clara sorriu.
— Aqui ninguém pergunta o que precisa. Apenas aprende a conviver com o excesso.
Aquilo ficou ecoando na minha cabeça.
Às oito em ponto, Clara apareceu novamente.
— O jantar está servido.
Desci imaginando que Lorenzo já tivesse comido.
Estava errada.
Ele estava sentado sozinho à mesa de oito lugares, lendo documentos enquanto um prato permanecia intacto diante dele.
Vestia apenas uma camisa branca e calça social escura.
Sem gravata.
Sem paletó.
Os cabelos negros ainda estavam úmidos, como se tivesse acabado de sair do banho.
Por um instante, parecia um homem comum.
Até levantar os olhos.
— Sente-se.
Olhei ao redor.
— Aqui?
— Não vejo mais ninguém.
Sentei na cadeira mais distante.
Clara começou a servir a comida, mas Lorenzo interrompeu.
— Pode nos deixar.
A governanta fez uma leve reverência e desapareceu.
O silêncio tornou-se quase constrangedor.
Peguei os talheres cuidadosamente.
Lorenzo continuava lendo.
— Você sempre trabalha durante o jantar?
Ele ergueu uma sobrancelha, como se eu tivesse quebrado uma regra invisível.
— Quase sempre.
— Isso não é saudável.
As palavras escaparam antes que eu pudesse impedir.
Meu coração congelou.
Eu tinha acabado de dizer ao meu chefe bilionário como ele deveria viver.
Lorenzo fechou lentamente a pasta.
— Você costuma aconselhar CEOs no primeiro dia?
Corei.
— Desculpe. Eu falei sem pensar.
Ele me observou por alguns segundos.
Depois, inesperadamente, um canto da boca dele quase sorriu.
Quase.
— Você fala demais quando está nervosa.
— E o senhor fala de menos.
Silêncio.
Meu Deus.
Eu realmente disse isso.
Abaixei imediatamente a cabeça para o prato.
Esperei uma bronca.
Ela não veio.
Em vez disso, ouvi um ruído baixo.
Era uma risada.
Discreta.
Tão breve que cheguei a duvidar se realmente aconteceu.
Quando levantei os olhos, Lorenzo já havia voltado à expressão habitual.
Depois do jantar, Clara me entregou um celular novo.
— É corporativo. Apenas o senhor Montelli tem este número.
Antes que eu perguntasse qualquer coisa, o aparelho vibrou.
Lorenzo: Biblioteca. Agora.
Engoli seco.
A biblioteca ocupava um dos cantos mais bonitos da cobertura. Estantes do chão ao teto, uma lareira moderna e centenas de livros perfeitamente organizados.
Lorenzo estava diante de uma parede repleta de fotografias antigas.
Não eram fotos da empresa.
Eram da família.
Um menino de aproximadamente dez anos sorria ao lado de um homem de cabelos grisalhos.
Augusto Montelli.
Lorenzo percebeu meu olhar.
— Meu pai.
Aproximei-me devagar.
— Vocês pareciam felizes.
— Parecíamos.
A resposta carregava um peso estranho.
Ele retirou uma fotografia da moldura.
Nela, Augusto apertava a mão de outro homem.
Meu coração disparou.
Samuel Ramos.
Meu pai.
Os dois sorriam como velhos amigos.
— Eles construíram a empresa juntos — Lorenzo disse em voz baixa. — Meu pai dizia que Samuel era o irmão que ele escolheu.
Senti os olhos marejarem.
— Então por que tudo terminou assim?
Lorenzo permaneceu em silêncio.
Depois colocou a fotografia novamente no lugar.
— É exatamente isso que vamos descobrir.
Nossos olhares se encontraram.
Pela primeira vez, não havia ódio.
Havia a mesma dor.
Eu perdi meu pai.
Ele perdeu a confiança no dele.
Talvez fosse por isso que, por alguns segundos, o abismo entre nós pareceu um pouco menor.
O celular dele tocou.
Lorenzo atendeu imediatamente.
A expressão mudou.
— Entendido.
Ele desligou e voltou a vestir a máscara de CEO.
— Amanhã você começa às seis da manhã.
— Tão cedo?
— Você queria salvar seu irmão.
Assenti.
Ele caminhou até a porta da biblioteca.
— Boa noite, Helena.
— Boa noite… Lorenzo.
Foi a primeira vez que chamei seu nome.
Ele não corrigiu.
Quando voltei para meu quarto, encontrei um envelope sobre a cama.
Dentro havia apenas uma folha.
REGRAS DA COBERTURA
Nunca entre no meu escritório sem autorização.
Nunca faça perguntas sobre o meu passado.
Nunca se apaixone por mim.
Fiquei encarando a terceira regra por vários segundos.
Então ri sozinha.
— Como se isso fosse acontecer.
Lá embaixo, do outro lado da cidade, alguém observava uma fotografia de Helena presa a um mural.
E murmurava:
— Você está exatamente onde eu queria.
Narrado por Helena Ramos O cheiro de café foi a primeira coisa que me acordou. Abri os olhos lentamente, ainda desorientada pelo quarto enorme da cobertura. Durante alguns segundos, esqueci onde estava. Depois, a lembrança caiu sobre mim como um peso: o contrato, Lorenzo, Gabriel, a cirurgia… e as três regras presas dentro da minha cabeça. Nunca entre no meu escritório sem autorização. Nunca faça perguntas sobre o meu passado. Nunca se apaixone por mim. Revirei os olhos. Como se fosse tão simples dar uma ordem para o coração. Tomei um banho rápido, prendi os cabelos em um coque baixo e vesti uma calça de alfaiataria preta com uma camisa branca que Clara havia separado para mim. Quando desci, o relógio marcava exatamente 6h02. — Bom dia, Helena. — Clara sorriu enquanto colocava frutas sobre a mesa. — O senhor Montelli já está esperando. Já esperando. Claro que estava. Atravessei a sala de jantar e encontrei Lorenzo sentado à cabeceira, lendo o jornal impresso enquanto toma
Narrado por Helena RamosNunca pensei que um elevador pudesse separar duas vidas.No térreo da Montelli Investimentos, eu era apenas a faxineira que carregava um carrinho de limpeza e evitava olhar os executivos nos olhos.No vigésimo quinto andar, eu acabava de assinar um contrato que me transformava na assistente pessoal do homem mais poderoso do estado.As portas de aço se fecharam atrás de mim com um clique suave.O reflexo no espelho devolveu uma mulher que eu mal reconhecia: uniforme cinza, olhos inchados de tanto chorar e um contrato capaz de decidir o futuro do meu irmão.Respirei fundo.— Persevera… — sussurrei.— Entre.A voz grave de Lorenzo veio antes mesmo que eu batesse pela segunda vez.O escritório permanecia impecável. Ele estava de pé diante de uma tela gigantesca repleta de gráficos financeiros, com as mangas da camisa social dobradas até os antebraços. Sem o paletó, parecia menos inalcançável… e estranhamente mais perigoso.Ele desligou a tela.— A partir de hoje,
Narrado por Helena RamosDormi exatamente uma hora e quarenta e dois minutos.Eu sabia porque passei o resto da noite olhando para o relógio digital do quarto do hospital, sentada ao lado da cama de Gabriel. A crise finalmente cedeu depois de três medicações, e ele adormeceu segurando minha mão como fazia quando era criança.Mas eu não consegui fechar os olhos.A imagem daqueles olhos azuis encarando o documento do meu pai voltava sem pedir licença.Lorenzo Montelli.O homem que, em menos de cinco minutos, conseguiu me fazer sentir medo, raiva e uma estranha sensação de que minha vida acabara de mudar para sempre.— Você vai trabalhar? — Gabriel perguntou sonolento.Sorri, escondendo o cansaço.— Vou. E você vai obedecer às enfermeiras.— Eu sempre obedeço.— Mentira.Ele riu baixinho.Antes de sair, beijei sua testa e sussurrei a palavra que agora pertencia à nossa família.— Persevera.Às oito e cinco da manhã, o elevador parou no vigésimo quinto andar.A cobertura executiva era dif
Narrado por Helena RamosO relógio da recepção marcava 21h47 quando o último executivo deixou o décimo nono andar.As luzes principais foram reduzidas, deixando apenas a iluminação indireta dos corredores. Durante o dia, a Montelli Investimentos era um organismo vivo, barulhento e apressado. À noite, tornava-se um palácio de vidro onde até os próprios passos pareciam altos demais.Eu gostava do silêncio.Era a única parte do expediente em que ninguém me olhava como se eu fosse invisível.Empurrei o carrinho de limpeza pelo corredor presidencial, organizando os frascos de álcool, panos de microfibra e o balde de água morna. Meu corpo inteiro doía. Os ombros estavam pesados, meus pés queimavam dentro dos sapatos gastos e minhas mãos já tinham adquirido aquele cheiro permanente de produtos de limpeza.Mas toda vez que o cansaço ameaçava vencer, eu pensava em Gabriel.Na conta do hospital.Nos remédios.No desenho escondido na gaveta.Foi então que meu celular vibrou dentro do bolso do av
Narrado por Helena RamosNunca imaginei que um chão pudesse me fazer sentir tão pobre.Meus sapatos produziam um som tímido sobre o mármore polido enquanto eu atravessava o saguão da Montelli Investimentos. Tudo ali parecia ter sido desenhado para lembrar às pessoas quem mandava: o pé-direito gigantesco, as paredes de vidro, o aroma sofisticado de café e o silêncio elegante de quem vestia ternos que provavelmente custavam mais do que o aluguel da minha casa.A recepcionista sorriu de maneira impecavelmente profissional.— Bom dia. Nome, por favor?— Helena Ramos. Sou a nova auxiliar de serviços.Ela digitou algumas coisas no computador e entregou um crachá provisório.HELENA RAMOS — SERVIÇOS GERAISSegurei o cartão entre os dedos. Pela primeira vez, meu nome parecia pesado.— O elevador à esquerda. Décimo nono andar. A supervisora Beatriz está esperando.Agradeci e caminhei até os elevadores.Enquanto esperava, observei meu reflexo nas portas espelhadas. Prendi uma mecha do cabelo atr
Narrado por Helena Ramos— Helena. A vida pode até nos pregar algumas peças, mas nós sempre temos que perseverar. A voz do meu pai ainda mora dentro de mim. Não importa quantos anos passem, eu ainda consigo ouvi-la com a mesma clareza das manhãs em que ele me levava para a escola, segurando um copo de café numa mão e a minha na outra. Ele dizia aquilo sempre que alguma coisa dava errado. Quando o carro quebrava. Quando um negócio não fechava. Quando eu voltava para casa chorando por causa de uma nota ruim. Persevera. Na época eu achava que era só uma palavra bonita. Hoje descobri que era um modo de sobreviver. Samuel Ramos nem sempre foi um empresário de sucesso. Antes dos ternos caros e das reuniões importantes, ele era apenas um homem que acreditava demais nas pessoas. Trabalhava até tarde, fazia promessas que cumpria e nunca deixava de jantar conosco, mesmo que chegasse em casa exausto. Para muita gente, ele foi um empresário respeitado. Para mim, ele foi só o meu pai. E ag







