LOGIN(POV DE GABRIEL BLACKWOLF)O espelho me devolvia um estranho.Meus cabelos ainda estavam úmidos, gotas frias escorrendo pela nuca e se perdendo no colarinho da camisa social branca. O cheiro de sabão neutro e o rastro metálico do ritual de limpeza ainda impregnavam meus poros.Meus dedos travaram no tecido da gravata de seda.Eu, o Comandante da Polícia Lupina, o homem que enfrentava assassinos sem piscar, não conseguia dar um simples nó. Minhas mãos tremiam. Um tremor sutil, rítmico, que nascia no fundo da minha alma aterrorizada.Encarei meu reflexo, buscando os restos do Alfa que eu costumava ser.Minha mente voltou para a penumbra do quarto, dias atrás. A luz vermelha piscando no armário... a porta do closet se abrindo devagar como a boca de um túmulo.Foi real?Fechei os olhos com força, sentindo uma pontada de dor na têmpora. O piche que tossi ainda deixava um gosto amargo, ferroso, na base da minha língua.— Delírio — sussurrei para o espelho, tentando convencer a mim mesmo. —
(POV GABRIEL BLACKWOLF) O peso do meu corpo contra o colchão parecia a gravidade de um planeta inteiro me esmagando.Rafael e meu pai me ajudaram a deitar. Eu era um Alfa, o Comandante, mas naquele momento, eu era apenas carne e osso quebrados, cheirando a sangue e piche.Eles me limparam, mas o frio da purificação ainda morava na minha medula.Júlia dormia ao meu lado. O som da respiração dela era a única coisa que mantinha o meu coração batendo no ritmo certo.Fechei os olhos. O silêncio da casa foi preenchido pelo som distante das ondas quebrando na orla de Costa da Lua.Aquele som... aquele maldito som de água e sal.Ele me arrastou para baixo. Para longe. Para um tempo onde a minha pele não tinha cicatrizes e a minha alma não conhecia o peso da farda.(FLASHBACK — MUITOS ANOS ATRÁS)O sol de meio-dia queimava meus ombros pequenos, mas eu não me importava.Eu tinha oito anos e a areia entre os meus dedos era o meu reino. Mas o meu tesouro era ela.Júlia tinha chegado a poucos mes
(POV GABRIEL BLACKWOLF) A escuridão foi rasgada por um trovão que nasceu dentro das minhas costelas.Meu corpo arqueou violentamente sobre o mármore frio, os calcanhares batendo contra o chão.O ar entrou nos meus pulmões como se eu estivesse engolindo cacos de vidro em brasa.Abri os olhos. A visão estava turva, manchada por um vermelho pulsante.Rafael estava sobre mim. O rosto dele era uma máscara de horror; o suor escorria pelo seu nariz, e suas mãos agarravam as pás do desfibrilador como se fossem a única coisa impedindo o mundo de desabar.Ele me envolveu em um abraço bruto, a respiração dele vindo em soluços curtos contra o meu pescoço.— Porra, seu filho da puta! — ele rugiu, o tremor nos braços dele me sacudindo. — Você vive me matando do coração! Que susto, porra!Tentei falar, mas só consegui expelir mais um jorro de sangue negro.O gosto era de piche e morte. A purificação ainda não tinha acabado.Eu sentia o bloqueio se retorcendo dentro de mim, uma criatura de sombras q
(POV DE GABRIEL BLACKWOLF)O silêncio da garagem era mais ensurdecedor do que as sirenes no beco.Desliguei o motor, mas minhas mãos continuaram presas ao volante. O vídeo no meu celular queimava no meu bolso como brasa.Ele estava lá dentro. O monstro viu o momento em que eu a possuía com os lábios. Ele assistiu à nossa fraqueza.Júlia abriu os olhos devagar. O brilho castanho caramelado estava opaco, perdido em uma névoa de exaustão e dor.— Gabriel... você não me levou para a escola — ela murmurou, a voz saindo como um sopro.— Não. Você não está nada bem, trouxe você para casa. Virei-me para ela. A palidez do seu rosto me atingiu como um soco no estômago. Ela parecia de porcelana, prestes a estilhaçar ao menor toque.— Acho que vou chamar o Rafael — continuei, já pegando o celular. — O estresse ainda te causando dor? A marca não está estabilizando direito...Ela apenas concordou com um movimento mínimo de cabeça, fechando os olhos novamente como se a luz do dia doesse.— E os men
(POV DE GABRIEL BLACKWOLF)O papel estava úmido, impregnado com o cheiro ferroso de sangue fresco.A caligrafia era um escárnio. Cada letra desenhada com uma precisão doentia que fazia meu lobo rosnar no fundo da minha alma."A pele dela é tão macia quanto eu imagino, Comandante? Estou ficando insatisfeito com a distância. Não se engane, Júlia será minha. E você... você será o primeiro a apodrecer debaixo de sete palmos."Amassei o bilhete com tanta força que o papel se tornou uma massa disforme na palma da minha mão.O desgraçado estava brincando de deus. Primeiro a minha casa, agora um corpo desovado na porta do meu almoço. Ele não estava apenas matando; ele estava marcando território.— Jhonny! — chamei, a voz saindo como um trovão, autoritária e letal.Meu braço direito apareceu em segundos, já isolando o perímetro com a equipe de perícia.— Comandante, a área está cercada. Ninguém passa — Jhonny informou, mas seus olhos desviaram para Júlia.O Bilhete parecia queimar como um avis
(POV DE JÚLIA MONTSERRAT)Eu encarava aqueles olhos azuis elétricos tentando esconder meu desespero da pior forma possível, mas não durou muito.— Júlia, qual o problema? Você não quer ir? — ele perguntou calmamente.Meu coração batia tão forte que era difícil respirar.Eu com certeza viraria um meme se alguém me filmasse. Tentei forçar um sorriso e manter a boca ocupada, mas eu sei que uma hora teria que responder e Gabriel ia explodir.Eu tava segurando uma bomba.Fiquei com dó dos garçons. Ele ia quebrar aquela mesa com certeza.— Júlia, fala... o que tá rolando? — ele questiona, a testa franzida."Ah, Gabriel... por que agora? Por que voltar a ser o homem por quem eu morreria, logo quando eu mais preciso te odiar?" Não adiantava mais esconder.— Tudo bem, tenta ficar calmo, por favor... — eu começo e tomo um gole da minha bebida gelada. — É que o Dante me convidou pra ir já tem uns dias.Gabriel parou de respirar.— Ele falou que vocês estavam cogitando se faria ou não o baile dia







