LOGINEla nem esperou ele responder, foi entrando e já encontrou Lisa e Carlos. Foram apresentados e se sentaram todos à mesa: Ivone na ponta, Kaori e Rui lado a lado, de frente para o casal. Ivone, por estar mais próxima, fez o prato dela, que ainda tinha dificuldade por estar com apenas uma mão livre. Começaram a comer conversando sobre trabalho. Carlos não tinha filhos e havia dedicado a vida ao que fazia era empresário.
Na distração, perguntou se o lugar onde ela trabalhava era legal e qual era sua função. — Sei que é em um mercado, na loja que tem dentro dele. Eu não sei muito bem quais eram as minhas funções, não me lembro. Mãe, eu gostava? — perguntou. Lisa explicou que sim, que ela gostava porque conversava bastante com várias pessoas todos os dias. Então, para a surpresa de todos, Kaori pediu para ir lá um dia ver tudo. Feliz, a mãe disse que a levaria naquela semana mesmo. Começaram a falar sobre os laudos médicos e as recomendações. Comentavam que era possível que boa parte das memórias voltassem, mas não todas, e provavelmente em desordem. Fizeram a pergunta mais comum: se estava recordando algo, mesmo que mínimo. Ela respondeu que não. Aquilo a incomodava muito, porque parecia que duvidavam dela, e o vazio que sentia dentro de si a consumia dia após dia. Já fazia uso de antidepressivos, calmantes, remédios para ansiedade, vitaminas, muitas mudanças no corpo e no emocional, uma carga enorme de tudo. Durante o almoço foi ficando incomodada com o assunto. Já estava sem apetite por causa dos doces que havia comido na rua. Rui sugeriu que mudassem o tema. Chateada com ele, disse que não precisava de ninguém sentindo pena. Pediu licença, dizendo que ia pra casa porque estava cansada e com dor. A situação ficou desconfortável, mas ela já queria ir embora antes mesmo de Carlos chegar. Despedindo-se, disse que fora um prazer conhecê-lo e se desculpou por não poder ficar mais conversando. Ele, educado, respondeu que entendia e pediu desculpas caso tivesse dito algo que a incomodasse. Ela garantiu que estava tudo certo, agradeceu pelo almoço e pediu dinheiro à mãe para pagar Rui, que logo disse não ser necessário. Curiosa, Ivone perguntou do que estavam falando. — Comprei uns doces pra ela lá no bar. Não precisa pagar nada, não! — respondeu ele. Kaori agradeceu, com leve ironia, deu tchau para todos e saiu. Quando foi atravessar a rua, foi surpreendida por Rui correndo atrás, dizendo que foi levar as chaves que ela havia esquecido com Lisa. — Obrigada. Pode voltar, é pertinho, acho que consigo me lembrar do caminho! — disse. Ele insistiu em acompanhá-la, já que não estava fazendo nada. Caminharam em silêncio. Quando chegaram ao portão, ele perguntou se ela ia se esquecer da besteira que ele havia dito. — Não sei, não tenho controle do que quero absorver ou não. Mas já é a segunda vez que você me fala coisas ruins, então… — respondeu séria. Ele pediu o número dela para ver se, pelo menos, lembraria do nome dele. Ela disse que não sabia de cabeça e pediu para anotar o dele. — Deixa quieto, não precisa — respondeu, rindo de forma irônica. Confusa, ela perguntou: — Por quê? É sério, eu não sei meu número novo, poxa. Você é bem estranho, sabia? — Na verdade, já fizemos isso e você nunca me mandou nada, então… com ou sem memória, no fundo você é a mesma! — Ele falou. Ela apenas fechou o portão e se despediu, chateada. Mais tarde, ficou pensando no que ele disse e, à noite, quando Lisa chegou, pediu o número dele para Ivone. Salvou, mas não mandou nada. Após passar o dia sozinha, decidiu ir de ônibus até o trabalho. Pesquisou tudo na internet, se arrumou como pôde, insatisfeita com o que via no espelho e foi para o ponto mais próximo, perto do bar. Sentou-se e percebeu que o ônibus estava atrasado. Foi até o bar perguntar se haviam mudado os horários. Daia chegou logo atrás, se cumprimentaram. Ela comentou que ia sair de ônibus, mas devia ter perdido. Saíram juntas. Rui estava lá fora conversando com um rapaz. Kaori deu tchau apenas por educação. — Eles estão passando adiantado. O próximo vem em dez minutos, no máximo. Pra onde você vai? — perguntou Daia. — No trabalho, ver como é — respondeu Kaori. Rui se aproximou, ouvindo a conversa. Ela comentou que ainda não tinha dito nada à mãe e pediu para não falarem nada. Ele se ofereceu para levá-la de moto, mas ela recusou. — Melhor não — disse. Daia perguntou se ela tinha certeza de que conseguiria ir e voltar sozinha. — Aham, de boa. Qualquer coisa peço pro meu pai me buscar depois! — Disse Kaori. Rui perguntou se ela tinha medo de moto. Ela confirmou. Ele, já sabendo disso, disse que poderia guardar a moto e pegar o carro. — Não precisa, também tô com medo de andar de carro. Melhor eu ir de ônibus mesmo. Se não fosse pelo medo, iria com você. Mas obrigada, de verdade, valeu. Já vou indo pra não perder o próximo — respondeu, se afastando. Ele acabou indo atrás e se sentou no ponto também. Quando o ônibus chegou, ela perguntou: — O que você tá fazendo aqui? Ele riu: — Vou pegar o ônibus pra ir com você. Se você tem medo de ir de moto, vamos de ônibus. Disse que só não ia comigo por medo, então acho que não tem problema irmos juntos agora, né? Ela riu sem graça e disse que seria chato, mas ele ignorou. Subiram e se sentaram lado a lado. Ela estava com fones de ouvido, ofereceu um a ele e perguntou se estava sendo pago pra vigiá-la. — Não, tô ao seu dispor de graça mesmo. Que música é essa? É tão… sei lá, de menina. — Deve ser porque sou uma menina, não é mesmo? O que você gosta de ouvir? — respondeu, irônica. Conversaram sobre música o trajeto todo. Havia muitos lançamentos que ela não conhecia, e até cantores que gostava e já tinham falecido. Ao chegarem ao mercado, começaram a andar pelos corredores. Várias pessoas se aproximaram para abraçá-la e perguntar como estava. Ela cumprimentava todos, sem saber se realmente conhecia ou não. Parecia que todos olhavam e comentavam. — Tô com fome, vamos na lanchonete? — sugeriu ele. — Acho que quero ir embora. Tá todo mundo falando de mim. Mas se quiser, pode ficar — respondeu, chateada. Ele olhou as prateleiras e foram ao setor em que ela trabalhava. Uma moça se aproximou, abraçou e disse que ela fazia falta, perguntando quando voltaria. — Não tenho ideia — respondeu ela, tentando conter o desconforto. A moça insistiu, dizendo que todos iam ajudar, que as meninas que ela havia ensinado teriam prazer em reensinar tudo. Ela começou a chorar e pediu para Rui tirá-la dali. Ele, atencioso, explicou a quem se aproximava que ela não estava se sentindo bem. Fora do mercado, ela sentou chorando, com falta de ar, em plena crise de pânico. Ele perguntou se queria ligar para o pai ou a mãe. — Não, vão brigar comigo — respondeu ela. Ele sentou ao lado, segurou a mão dela e acariciou suas costas, pedindo calma. Depois de um tempo, ela se acalmou. Ele, brincando, disse que estava com fome e a convidou para comer um lanche. Foram a uma lanchonete ali perto. Ela não quis comer, só tomou uma garrafinha de água. No retorno, ficou calada, sem vontade de conversar ou ouvir música. Pegaram dois ônibus até o bairro. Ela não deixou que ele pagasse. Quando chegaram, ele foi buscar a moto no bar. — Obrigada pela companhia. Não conta nada pra ninguém, tá? — pediu ela. Antes de dormir, enviou uma mensagem: “Não esqueci do domingo ainda.” Ele respondeu: "E eu não vou esquecer de hoje. Suas músicas são horríveis! 😂 está melhor?" " Tô melhor. Tenho gosto musical de uma menina de 15 anos, e você é velho demais pra entender." Os dois conversaram até tarde da noite. Quando Lisa chegou, se surpreendeu ao vê-la ainda acordada. Conversaram sobre o dia. Kaori contou tudo o que fez, exceto o mal-estar. Achou que a mãe brigaria, mas, ao contrário, ficou feliz ao vê-la progredindo.Rui se aproximou, abraçou Kaori e falou que Gabriel entendia, que só tinha ligado por ligar e perguntado se eles iriam ao aniversário. Ela respondeu, limpando as lágrimas:— Eu quero ir, mas... Sei lá. Pergunta se ele já foi embora, se quer dar uma passada aqui.Rui falou que não precisava, porque Gabriel já devia ter ido embora. Kaori insistiu, dizendo que ele poderia ficar chateado por ser o padrinho. Lisa pediu que a filha relaxasse um pouco, porque todos entenderiam e respeitariam aquele momento. Disse que era melhor falar a verdade, explicar que ainda não se sentia confortável para viajar, muito menos para ir a uma festa.Mais tarde, Bibi ligou para Kaori por chamada de vídeo, porque queria mostrar Maria usando o vestido. As duas começaram a conversar, e Kaori falou que ainda não sabia se conseguiria ir, mas daria uma resposta no dia seguinte. Bibi respondeu que estava tudo bem, que o primeiro mês era difícil e que ela não precisava se preocupar.Chateada, Kaori acabou se abrindo
Rui sorriu, beijou Kaori e disse que não sairia do lado das duas por nada. Ela já estava chorando quando segurou a mão dele e falou:— Eu aguento, né? Porque, a cada cinco minutos que se passam, só tá piorando, e eu tô começando a ficar com medo, porque eu não sei se...Ele a interrompeu, tentando tranquilizá-la:— Você consegue, amor, é assim mesmo. Pode apertar minha mão, para de falar e se concentra na respiração. Pensa que daqui a pouco nossa princesa vai estar nos seus braços e não seja mole. Você consegue!Kaori sorriu, limpando as lágrimas, e aguentou as contrações. Foi até rápido, porque, antes das dez horas, Zaya nasceu de parto normal. Os dois ficaram superemocionados, tiraram fotos, e Rui falou:— Seja bem-vinda, filha! Papai e mamãe sonhamos muito com você, princesa, e seu irmão te encomendou direto com o Papai do Céu e com o Papai Noel também!Zaya estava chorando, toda ardida, e Kaori falou, emocionada:— Eu não consigo acreditar que é nossa! Ela é tão pitiquinha mesmo,
Quando Lidiane precisou se afastar para ganhar o bebê, contrataram gente nova para trabalhar no restaurante. Ela teve parto cesáreo, e quem cuidou dela foi Ivone, porque sua mãe não fez a menor questão. No Dia das Mães, fizeram uma decoração especial no restaurante. Era o primeiro Dia das Mães de Kaori, e Rui caprichou, deu simplesmente um carro de presente para ela, que comprou no trabalho de Juliano, conseguindo condições melhores de pagamento.Kaori continuou estudando, mesmo com todo mundo, exceto o pai, dizendo que ela poderia parar e dar uma pausa. No começo, Juliano até tinha falado que ela poderia parar, mas depois passou a incentivá-la e elogiá-la o tempo inteiro. Às vezes, dirigia meia hora ou até mais só para levar um lanchinho ou uma marmita para a filha. Ele foi praticamente quem mais ajudou com tudo de que ela precisava no dia a dia. Sílvia também ficou bem próxima, sempre com Bernardo e ajudando Kaori.Alguns dias eram mais difíceis que outros, mas ela se manteve firme
Letícia disse que aceitava dinheiro para gastar no parque. Ele, todo bobo, respondeu que só tinha cartão, e ela falou, irônica:— Pode ser, ué! Como você vai a um encontro sem dinheiro?Ele ficou intimidado, querendo agradá-la, mas Bibi logo chamou a atenção da irmã. Todos ficaram meio juntos durante o passeio inteiro, e deu para perceber que ele estava querendo conhecer melhor a família dela. Letícia quis ir embora no carro dele e, na hora de se despedirem, falou:— Agora vocês vão namorar de novo, né? Minha mãe precisa de um namorado! E você é médico, se ela ficar doente de novo, vai poder cuidar dela!Ele ficou rindo, sem saber o que responder. Letícia tocou o terror durante o dia inteiro e fez o homem parecer bobo, porque ele não tinha muita noção da inteligência e da ironia dela. Apesar de tudo, ele disse que tinha se divertido muito e comentou, brincando com Bibi, que a tendência era melhorar, referindo-se a Letícia e à idade dela, já que estava crescendo. Gabriel respondeu, irô
Letícia falou, brava:— Você disse que não ia ficar me fazendo passar vergonha! Que saco! Bibi, olha o Gabriel!Ele respondeu, debochado:— Na frente da sua amiguinha esquisita, foi o que falei. E, se você começar com graça, eu conto aquilo!Letícia ficou tão irritada que quase chorou, enquanto Gabriel continuava pirraçando. Tati entrou no meio para defendê-la, e Bibi falou rindo:— Olha lá, a cúmplice! Adivinha onde a Letícia ficou a semana toda? Atrás da Tati e dos meninos! Largou o Gabriel sozinho com a Maria.Tati respondeu que não tinha culpa de ser mais legal do que eles e foi abraçar sua protegida. Letícia estava fazendo catequese e já havia escolhido a madrinha: seria Tati. Quando Gabriel soube, ficou com ciúmes e até um pouco chateado. Letícia estava ficando mocinha e, cada vez mais, aproximava-se de Tati, enquanto começava a enxergar Gabriel como um irmão mais velho chato, já que ele adorava pirraçá-la.Quando Bibi percebeu que ele não tinha gostado, conversou com o marido e
Kaori falou que a bebê mexia, sim, mas só para a mamãe. Bibi se aproximou, começou a acariciar a barriga dela e falou, toda carinhosa:— Logo, logo você começa a mexer bastante, né, pitica? Eu vou conversar muito com você, mas não sei ser boba como sua mãe. Ainda assim, vamos ser amigas, vou te mimar bastante, a tia já te ama demais. Tô ansiosa pra te conhecer e carregar!Kaori falou, surpresa:— Mexeu! Bibi, ela mexeu! Eu não acredito, o Rui vive tentando isso e nunca aconteceu. Conversa com ela!Bibi respondeu que não tinha sentido absolutamente nada, mas continuou conversando com a bebê, começou a chamá-la de Zaya e a falar sobre Maria. Novamente, a menina mexeu, mas só Kaori conseguiu sentir. Ela começou a chorar, toda boba, emocionada com aquilo, e falou:— É melhor você perder o medo de dirigir, porque queremos você aqui pra fazer companhia pra gente no nosso repouso todinho, madrinha.Bibi respondeu, quase chorando:— Eu vou continuar vindo, mesmo com medo e podendo perder meu







