LOGINO sol se punha em Coral Gables, tingindo a mansão dos d’Ávila com um dourado que não trazia consolo.
Do lado de fora dos portões, uma multidão silenciosa se formava. Vizinhos, amigos de infância de Teresa, rostos conhecidos do bairro. O gramado estava coberto por centenas de velas. Chamas pequenas tremiam nas mãos das pessoas, formando um rio de luz na escuridão.
O ar vibrava com murmúrios de orações e cânticos. Coral Gables inteiro chorava pela noiva desaparecida. Dentro da casa, o silêncio era pior que o barulho.
Dona Maria d’Ávila estava no sofá, pálida, com um curativo na cabeça. As mãos tremiam enquanto apertava uma foto de Teresa contra o peito. Ao lado dela, Arthur d’Ávila tentava sustentar a postura de pai forte, mas os olhos vermelhos entregavam o desespero.
Gabi e Olívia, as irmãs de Arthur, circulavam oferecendo água e palavras vazias, tentando costurar os pedaços daquela família.
No canto, Eleanor Mercer chorava baixo, o terço escorregando entre os dedos. Duas mães, a mesma dor. A televisão ligada no canto mostrava imagens ao vivo da frente da casa. O repórter falava de um cerco policial sem precedentes, de buscas que se estendiam por Miami.
No centro de tudo, David Mercer estava de pé.
Dois dias sem dormir tinham apagado o noivo. A roupa do casamento tinha ido embora. Agora ele usava calça cargo preta, botas militares e uma camiseta justa que marcava o corpo tenso.
Ao seu lado, o sargento Miller aguardava na cadeira de rodas, calado. No fundo do corredor, trancado no escritório, o detetive Lincoln Spector ouvia pela terceira vez a fita do depoimento de Roberto. O motorista descrevia os sotaques, os traços, as palavras em árabe dos sequestradores. Spector rebobinava, anotava, procurava a falha que o laboratório de Miami não via. Foi então que a bengala do Tio Joe bateu forte no chão.
— Isso não tem cabimento! — rosnou Joe Mercer, irmão de Thom. — O menino serviu esse país até o último fio de sangue em Helmand. Voltou pra casa pra ter paz. E agora a guerra vem atrás dele e leva uma inocente? Isso é uma desgraça! Thom trocou um olhar com Miller. Um olhar curto, pesado.
— Arthur. Joe. Vem cá um minuto — disse Thom, a voz baixa e firme. — David. Miller. Escritório. Agora.
A porta de madeira se fechou com um estalo. Do lado de fora ficaram os choros. Do lado de dentro, só a verdade. -- Me diz que não vai fazer besteira, David — Thom foi direto, plantando-se na frente do filho. — Vi sua cara quando o Spector falou do navio para o Camboja. Você quer ir atrás dela sozinho.David não piscou.
— Eu vou pro Camboja, pai. Joe bateu a bengala no chão de novo.
— Escuta teu pai, rapaz! Isso não é Helmand! Você não tem mais exército, não tem apoio, não tem cobertura. Deixa pra polícia. Deixa pro Spector. Ele é federal. Tem recursos. Seu dever acabou quando pendurou a farda. Se for sozinho, você vai ser só mais um alvo.
— Ele tem razão, filho — Thom segurou o ombro de David. Os olhos marejados. — Se entrar num país sem lei, sem comunicação, o governo não vai te tirar de lá. Você vai ser caçado. Pensa na sua mãe. Ela não aguentaria enterrar você, filho. Spector desligou o gravador. O clique cortou o ar.
— David, se você sair por essa porta com esse plano, eu sou obrigado a te prender antes do aeroporto — disse, duro. — Deixa a polícia trabalhar.
— A lei do Spector para na fronteira, detetive — a voz dele saiu fria, sem tremor. — No Camboja não tem tratado. Se eu ficar aqui esperando papel de Washington, a Teresa pode ser morta. Miller, status? Miller endireitou-se na cadeira.
— Tem um voo de carga que sai de Homestead em quatro horas, Coveiro. Escala na Grécia. Depois Banguecoque. O meu contacto na Tailândia já tem armas e propina para cruzar o rio para o Camboja. Entramos sem deixar rasto.
Thom recuou um passo, horrorizado.
— Vocês enlouqueceram!
O noivo tinha desaparecido. No lugar dele estava o soldado. David apenas assentiu para o pai, para o tio e para Arthur, guardando o plano no silêncio da farda invisível que vestia.
Virou-se e abriu a porta. Na sala, Eleanor levantou-se num salto. Ao ver a expressão dele e o silêncio dos homens atrás, o coração de mãe gritou antes da boca.
— Não! David, não! — Ela correu e agarrou os braços do filho, chorando. — Eu passei quatro anos a rezar para tu voltares vivo daquele deserto! Agora vais-te jogar no perigo de novo? Pelo amor de Deus!
David segurou as mãos da mãe. O peito apertou-lhe, mas ele não disse uma única palavra sobre para onde ia ou o que faria. Tirou do bolso o pedaço do véu de seda, manchado de sangue, e entregou-o a Arthur.
— Fica com isto. Cuida da dona Maria. E mantém a igreja reservada. Eu vou resolver isto.
Virou as costas. Ignorou os gritos de Spector e os apelos da mãe. Empurrou a cadeira de Miller até à saída e a porta da vivenda fechou-se com um estrondo.
O som da rua, das orações, dos choros... tudo ficou do lado de dentro. Do lado de fora, sob o céu escuro de Miami, David não tinha um passaporte na mão, mas os seus olhos procuravam o horizonte com a frieza de quem já sabia exatamente qual seria o próximo gatilho a puxar. O tempo corria, e o silêncio dele era o sinal de que o pior estava prestes a acontecer.
David MercerO silêncio da selva voltou, pesado e sufocante. Só se ouvia o som da chuva tropical a fustigar as folhas de bambu e o gotejar constante do sangue na lama vermelha. Sob a mira da minha Beretta M9, as pupilas do terceiro salteador dilataram-se tanto que o castanho dos seus olhos quase desapareceu. A AK-47 velha tremia na mão dele. O cano vacilou, descendo um centímetro. Depois dois.Ele percebeu o que o chefe mutilado na traqueia e o outro homem a jorrar sangue da coxa já sabiam: eu não era um engenheiro civil. Eu era a morte com uma farda invisível.— Don't... — gaguejou ele, numa mistura de inglês macarrónico e dialeto. — No shoot...Com um movimento rápido da mão esquerda, avancei e arranquei-lhe a AK-47 dos dedos flácidos. Dei um passo atrás, retirei o carregador da arma e lancei o corpo de metal para a densidade da vegetação escura. Ele caiu de joelhos na lama, com as mãos acima da cabeça, a tremer como uma folha.— Sai do meu trilho — ordenei, com a voz num tom baixo
David MercerO motor do jipe gemia em rotação baixa, sofrendo. A cada metro o lodo vermelho tentava engolir as rodas.Já íamos há mais de três horas longe do subúrbio de Saigão. O asfalto acabou. Agora era só trilho, rasgado pela erosão e pela lama das plantações de borracha abandonadas. O jipe sacudia. Terra molhada batia nas janelas fumadas.A humidade do Sudeste Asiático entrava pelas frestas da chapa como vapor. Colava a camisa ao meu peito e deixava o painel melado. O ar cheirava a vegetação podre, gasóleo e terra encharcada. Com 1,87m e ombros de fuzileiro, aquela cabine era um caixão de metal. Cada osso doía com os solavancos. Mas os olhos ficaram presos na mata. Ela se fechava sobre nós como garras negras sob a tempestade. No auricular esquerdo, no volume mínimo, Miami chiava.— Corvo... a frequência... a perder sinal... — a voz do sargento Miller vinha picotada pelas nuvens do golfo. — Tempestade... interferência no satélite de Homestead... estás a entrar na zona cega... C
David MercerA madrugada em Ho Chi Minh chegou cinzenta pelas frestas da ventoinha. Eu já estava acordado muito antes do despertador tocar.Sentei na cama de solteiro. O ar abafado colava a poeira das paredes de betão na minha pele. No espelho baço vi um estranho: cabelo cortado rente em Miami, pele morena disfarçada com base barata. O resultado era um operário cansado. Só que os meus 1,87m e os ombros de fuzileiro não dá pra esconder. Isso continua gritando. Puxei o saco de lona pra cima do colchão.Beretta M9 de 9mm. Faca Ka-Bar.O peso do aço me acalmou e me afundou ao mesmo tempo. Lá fora aquilo era cadeia perpétua. Aqui era a única coisa entre mim e a morte. Pegar a estrada? Impossível.Auto-Estradas cheias de cães, postos e guarda com punho de ferro. O Spector já tinha avisado: fronteiras fechadas, polícia em todas as saídas da província. Se me pegassem com ferro na bagagem, Timothy Scott morria ali. E com ele, a Teresa. Enfiei a Beretta num coldre de lona sob a camisa larga, en
Vandy fez um sinal com a cabeça em direção à cortina de veludo vermelho que separava o camarote do corredor dos fundos. Dois capangas entraram no espaço empurrando duas jovens. Elas não tinham mais dezoito anos. Usavam trajes tradicionais de seda, mas os seus rostos mostravam os sinais claros de sedação extrema — olhos semicerrados e passos vacilantes. Tinham os pulsos atados com fitas plásticas pretas.— Estas duas chegaram no lote de terça-feira, vindas das províncias vizinhas — explicou Vandy, apontando para as jovens com desdém. — Estão limpas. Foram testadas e estão prontas para o uso. Considera-as uma oferenda pessoal para ti e para os teus guardas esta noite. Podem levá-las para os quartos do piso superior. Façam o que quiserem com elas. Amanhã, se ainda estiverem inteiras, os meus homens tratam de as recolher.O inspetor Sarath olhou para as raparigas. Um brilho de luxúria crua cruzou o seu rosto enrugado. Ele levantou-se e agarrou no queixo da mais próxima com força, virando
Samnang VandyO fumo denso de ópio e tabaco misturava-se com o vapor húmido que subia das margens do rio Vàm Cỏ Đông. Sob as vigas de madeira podre da Lanterna de Lótus, uma taberna clandestina oculta nos pântanos nos arredores da vila fronteiriça de Trapeang Phlong, o submundo respirava ao ritmo do álcool, da droga e da impunidade. A poucos quilómetros dali, os camiões de carga roncavam na Estrada Nacional 7, cruzando o posto aduaneiro oficial para o Vietname. Mas naquele antro, a lei era ditada por outra engrenagem. Contrabandistas jogavam dados enquanto consumiam doses de metanfetamina pura, e mulheres com olhares vazios moviam-se como fantasmas entre os clientes da noite. Samnang Vandy observava a decadência lá em baixo com um esgar de desdém do alto do camarote privado. Ele ajeitou os punhos da sua camisa de linho escuro. O perfume caro de sândalo que usava servia como uma armadura olfativa contra a podridão do lugar. À sua frente, sentado numa poltrona de cabedal desgastada,
Teresa d'ÁvilaA sombra de Samnang Vandy caiu sobre mim com o peso de uma laje de betão. Encolhi-me contra o cimento frio do porão, apertando os trapos do vestido de noiva contra o peito, enquanto o silêncio da cela era quebrado apenas pelo som compassado dos passos dele. Ele não tinha pressa. Tinha a calma de um predador que sabe que a presa não tem para onde fugir. O cheiro do perfume caro de sândalo dele misturava-se de forma nauseabunda com o odor a mofo e a álcool daquele subsolo. O barão do crime agachou-se à minha frente. A luz fraca e amarelada do candeeiro de teto refletia-se na cicatriz profunda que lhe cortava a face direita. Ele estendeu a mão e, com uma lentidão que me fez parar o coração, enterrou os dedos no meu cabelo, puxando-me a cabeça para trás com força para me obrigar a olhar diretamente para os seus olhos escuros e vazios.— És demasiado valiosa para ser desperdiçada numa vala comum, americana — murmurou Vandy, num inglês perfeito, soltando um riso seco que me