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Capítulo 3: Terras Sem Lei

Author: Aristelo
last update publish date: 2026-09-06 10:55:17

A neve caía implacável sobre as Terras Neutras, cobrindo os rastros de Eliz enquanto ela se adentrava na floresta fechada. Cada passo era uma batalha contra o cansaço e a dor física de ter o laço sagrado arrancado de sua alma.

A ferida na palma da sua mão ainda sangrava devagar, manchando a neve branca com gotas escarlates. Eliz parou perto de um tronco de carvalho secular, apoiando-se nele enquanto arfava. Suas orelhas ruivas se dobraram para baixo, tentando se proteger do vento congelante, e sua cauda ruiva estava enrolada ao redor da cintura para manter o mínimo de calor corporal.

Dentro de seu peito, o vazio era ensurdecedor.

A dor da rejeição não era apenas emocional; era uma doença física para os trocadores de pele (shifters). A febre do laço quebrado já começava a queimar em seu sangue, fazendo sua visão oscilar em tons de cinza e vermelho.

— Eu preciso... continuar — murmurou para si mesma, a voz falhando. — Se eu parar... eu morro.

Sua loba interior gania em agonia, sentindo falta do calor da Alcateia do Norte e da presença do Supremo. Mas Eliz usou a própria raiva para sufocar o lamento da fera.

— Ele nos traiu — rosnou Eliz para a própria mente, forçando as pernas a se moverem. — Ele nos trocou por uma ilusão. Não chore por ele!

Ela caminhou por horas no escuro, afastando-se o máximo possível das fronteiras do Norte. Ela sabia que Kaelen mandaria patrulhas assim que se recuperasse do impacto inicial da ruptura. O orgulho do Supremo jamais permitiria que uma rejeitada saísse impune.

Ao longe, o uivo de um lobo cortou a noite.

Eliz parou instantaneamente. Suas orelhas tremeram, captando a direção do som. Não era o uivo organizado de uma patrulha oficial da Alcateia do Norte. Era um som gutural, desarmônico e faminto.

Renegados.

As Terras Neutras eram o refúgio dos expulsos, dos criminosos e dos lobos sem alcateia que haviam perdido a sanidade para o lado selvagem. Para um renegado, uma loba jovem, enfraquecida e exalando o cheiro inconfundível de um laço de sangue recém-quebrado era uma presa fácil — e valiosa.

Eliz puxou a adaga de prata do cinto.

Sons de passos na neve fofa começaram a cercá-la. Três silhuetas grandes e disformes emergiram da escuridão entre os pinheiros. Seus olhos brilhavam em um amarelo doentio no escuro.

— Olha só o que a tempestade trouxe para nós — zombou o maior deles, um homem alto, de ombros largos, com cicatrizes profundas no rosto e orelhas de lobo cinzentas e rasgadas. — Uma ruivinha bonita... e cheirando a sangue fresco de Supremo.

— Ela está fraca, Balthazar — disse o segundo renegado, lambendo os lábios. — A febre do laço está matando ela. Vai ser fácil.

— O que uma loba tão delicada faz longe da proteção do seu Supremo? — Balthazar deu um passo à frente, abrindo as garras. — Foi descartada? Não tem problema, docinho. A gente encontra uma utilidade para você na nossa matilha.

Eliz ajustou o cabo da adaga na mão ferida, ignorando a dor aguda que disparava pelo seu braço. A postura ingênua que ela mantivera por anos na Alcateia do Norte desapareceu completamente, substituída por um olhar de sobrevivência pura.

— Dê mais um passo — disse Eliz, a voz baixa e perigosa —, e eu garanto que você não vai viver para ver o sol nascer.

O líder dos renegados gargalhou, um som áspero que ecoou pelas árvores.

— Ela tem garras! Adoro quando elas tentam lutar!

Ele se projetou para a frente com velocidade sobrenatural, transformando-se parcialmente no ar — suas garras crescendo e sua mandíbula se alongando em um focinho feroz.

Eliz não recuou. Em vez de tentar esquivar da força bruta do renegado, ela usou sua baixa estatura para se abaixar sob o ataque dele. Com um movimento rápido treinado em segredo durante suas noites solitárias, ela cravou a adaga de prata diretamente na coxa de Balthazar.

O renegado urrou de dor quando a prata pura queimou suas fibras musculares.

— Sua vadia! — o segundo renegado avançou pelas costas dela.

Eliz girou no calcanhar, mas a febre do laço quebrado fez sua cabeça girar. Suas pernas fraquejaram, e ela foi atingida em cheio no ombro por uma patada pesada. O impacto a jogou violentamente contra a neve dura.

A adaga escapou de sua mão, deslizando para longe na escuridão.

Balthazar mancou até ela, o sangue negro de renegado escorrendo de sua perna, a expressão distorcida de pura raiva. Ele ergueu a mão com garras afiadas, mirando diretamente na garganta de Eliz.

— Chega de brincadeiras. Vou rasgar sua cabeça e levar como troféu!

Eliz olhou para as garras caindo em sua direção. Ela não podia se mover a tempo. A morte parecia inevitável naquelas terras frias e esquecidas.

É assim que termina?, a voz da sua loba interior questionou no silêncio da sua mente.

Não, Eliz pensou, o ódio por Kaelen e por sua própria fraqueza queimando mais forte que a febre. Eu não recusei o Supremo para morrer no lixo!

Subitamente, antes que as garras de Balthazar tocassem a pele do pescoço de Eliz, um rosnado ensurdecedor ecoou pela floresta, tão grave e poderoso que a própria neve pareceu tremer nos galhos das árvores.

Um vulto colossal de um lobo cinzento-prateado, muito maior do que qualquer predador comum, saltou da copa das árvores, atingindo o renegado no ar e esmagando-o contra o chão com uma força brutal. O som de ossos se quebrando ecoou pela clareira.

Eliz piscou, tentando manter a consciência enquanto observava a nova ameaça que surgira da tempestade. O imenso lobo de olhos dourados congelantes virou-se devagar para os outros dois renegados, que recuaram imediatamente com as caudas entre as pernas, aterrorizados.

O protetor inesperado não era um renegado. E certamente não pertencia ao Norte.

A consciência de Eliz começou a desvanecer enquanto a febre finalmente tomava conta de seu corpo, mas antes de fechar os olhos, ela viu o enorme lobo se aproximar devagar, farejando o ar ao redor de seu corpo caído na neve.

Ela estava à mercê de um novo desconhecido nas terras sem lei.

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