INICIAR SESIĂNO vento mudou antes que qualquer som pudesse alertĂĄ-la.
Helena estava recolhendo as lĂąminas quando sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Parou. NĂŁo era medo. Era instinto. Ergueu lentamente o rosto e observou as ĂĄrvores que cercavam a aldeia. Tudo parecia normal, mas havia alguma coisa errada. Os pĂĄssaros haviam parado de cantar. As folhas, antes agitadas pela brisa, permaneciam imĂłveis. â VocĂȘ sentiu isso? â perguntou ela. Hiago levou a mĂŁo ao punho da espada. â Senti. Um uivo atravessou a floresta. Depois outro. E outro. Profundos. Distantes. Poderosos. Os soldados das fadas começaram a se posicionar ao redor da clareira. Helena estreitou os olhos. â Lobos. Hiago balançou a cabeça. â NĂŁo sĂŁo lobos comuns. Antes que Helena pudesse responder, um brilho azulado surgiu entre as ĂĄrvores. A barreira. A antiga proteção que cercava o reino das fadas havia sido ativada. Aquilo nĂŁo acontecia sem motivo. A luz percorreu as copas das ĂĄrvores como uma corrente de energia, formando uma parede invisĂvel ao redor da aldeia. EntĂŁo veio o impacto. Um estrondo fez o chĂŁo estremecer. Os soldados levantaram as armas. Helena sentiu o coração acelerar. AlguĂ©m estava tentando atravessar a fronteira. â NinguĂ©m passa pela barreira â Hiago murmurou. Outro impacto. Dessa vez, uma rachadura de luz apareceu no ar. Helena arregalou os olhos. â Isso Ă© impossĂvel. A barreira começou a se desfazer em pequenos fragmentos luminosos. E entĂŁo alguĂ©m atravessou. NĂŁo entrou correndo. NĂŁo atacou. Apenas caminhou. Alto. Forte. Vestido de preto, com os cabelos claros contrastando com a escuridĂŁo da floresta. Havia algo nele que fazia o ar parecer mais pesado. Os soldados apontaram as armas. O estranho parou. Seus olhos percorreram a aldeia com uma calma assustadora. Dourados. Helena nĂŁo o conhecia. Mas, no instante em que seus olhares se encontraram, sentiu algo inexplicĂĄvel. Como se alguma coisa dentro dela tivesse despertado. O homem tambĂ©m pareceu perceber. Por um segundo, seu rosto perdeu a expressĂŁo fria. Foi rĂĄpido. Quase imperceptĂvel. Depois desapareceu. â Quem Ă© vocĂȘ? â Hiago exigiu. O estranho ignorou a pergunta. Seu olhar voltou para Helena. â Onde estĂĄ Celeste? Helena franziu o cenho. â Como sabe o nome dela? Ele nĂŁo respondeu. Apenas observou a princesa por mais alguns segundos. â EntĂŁo vocĂȘ Ă© Helena. O coração dela bateu mais forte. â Como sabe meu nome? Um dos soldados avançou. â Responda! O estranho sequer desembainhou a espada. Uma pressĂŁo invisĂvel tomou conta da clareira. O soldado caiu de joelhos. Helena ergueu a mĂŁo. â Chega! A pressĂŁo desapareceu. Ela encarou o invasor. â VocĂȘ estĂĄ dentro do meu reino. Quebrou uma barreira que existe hĂĄ sĂ©culos e ameaça meus soldados. DĂȘ-me um motivo para nĂŁo mandar prendĂȘ-lo. Pela primeira vez, ele sorriu. NĂŁo era um sorriso gentil. Era quase uma provocação. â Porque seus soldados nĂŁo conseguiriam me prender. Hiago avançou. Helena o segurou pelo braço. â NĂŁo. O homem inclinou a cabeça. â VocĂȘ Ă© diferente do que eu esperava. â E vocĂȘ Ă© exatamente tĂŁo arrogante quanto parece. O sorriso dele aumentou. â Darley. Apenas isso. Nenhum tĂtulo. Nenhuma explicação. Mas o nome provocou murmĂșrios entre os soldados. Helena conhecia histĂłrias sobre o povo dos lobos. Criaturas que viviam alĂ©m das montanhas, em territĂłrios onde poucos tinham coragem de entrar. â Por que estĂĄ aqui? Darley olhou para a floresta. â Vim buscar alguĂ©m. â Quem? Antes que ele respondesse, um grito cortou a noite. Helena reconheceu a voz. â Celeste! Ela correu. Hiago foi atrĂĄs. Darley permaneceu parado por um instante antes de segui-los. Quando chegaram Ă clareira, encontraram Celeste diante de uma criatura enorme. Um lobo. Mas ele nĂŁo estava atacando. Estava ferido. E Celeste segurava a mĂŁo sobre o ferimento. â O que aconteceu? â Helena perguntou. Celeste se levantou devagar. â Ele me procurou. Helena olhou para Darley. â Seu lobo? â NĂŁo. Darley se aproximou do animal. A criatura abaixou a cabeça diante dele. â Ele pertence ao meu povo. Celeste limpou uma pequena mancha de sangue do braço. â Eu encontrei uma passagem escondida na floresta. Ele estava sendo perseguido. Eu o ajudei. Darley a encarou. â E em troca? Celeste sorriu. â Eu queria um acordo. Darley soltou uma risada curta. â VocĂȘ acha que pode negociar comigo? â NĂŁo acho. Ela deu um passo Ă frente. â Eu sei. Helena sentiu que havia algo errado. Celeste nunca era tĂŁo confiante sem ter alguma coisa escondida. â O que vocĂȘ ofereceu? Celeste olhou para a irmĂŁ. E entĂŁo respondeu: â Uma informação. O olhar de Darley mudou. â Uma informação que pode me levar atĂ© alguĂ©m que procuro hĂĄ muito tempo. Helena sentiu um frio percorrer o corpo. â Quem? Celeste nĂŁo respondeu. Darley olhou diretamente para Helena. Dessa vez, havia algo diferente em seus olhos. NĂŁo desejo. NĂŁo ainda. Curiosidade. Como se ele tivesse acabado de perceber que talvez tivesse encontrado algo muito mais importante do que aquilo que procurava. â Acho que a informação da sua irmĂŁ acabou de se tornar mais interessante â disse ele. Helena cerrou os punhos. â VocĂȘ nĂŁo vai levar ninguĂ©m daqui. Darley sustentou seu olhar. â NĂŁo vim levar ninguĂ©m. Ele passou por ela sem tocĂĄ-la. â Vim descobrir a verdade. Helena se virou. â E se a verdade nĂŁo estiver do seu lado? Darley parou. Olhou por cima do ombro. â EntĂŁo serĂĄ melhor para todos nĂłs que vocĂȘ descubra primeiro. E desapareceu entre as ĂĄrvores. Helena ficou imĂłvel. Pela primeira vez, nĂŁo sentiu que havia encontrado um inimigo. Sentiu algo muito pior. Havia acabado de entrar no jogo de alguĂ©m que ela ainda nĂŁo compreendia.Darley permaneceu em silĂȘncio depois que Kael terminou de falar.Durante toda aquela conversa, ele havia ficado ao lado de Helena, segurando sua mĂŁo e tentando demonstrar segurança, mesmo quando cada nova informação parecia abrir uma ferida diferente em sua certeza.Mas agora que Kael havia terminado de falar, Darley percebeu que estava com dificuldade para organizar os prĂłprios pensamentos.Ele sempre havia sido o mais poderoso.Desde que assumira a posição de Alfa, aprendera a conviver com a responsabilidade de proteger sua matilha. NĂŁo existia criatura dentro de seu territĂłrio que ele acreditasse ser capaz de enfrentĂĄ-lo e sair vitoriosa. Seu poder era conhecido, respeitado e temido.Durante muito tempo, Darley acreditou que isso era suficiente.Ele sabia que havia criaturas antigas no mundo. Sabia que existiam magias que nem mesmo os lobos compreendiam completamente. Mas nunca imaginou que pudesse haver seres capazes de fazer seu prĂłprio poder parecer pequeno.Agora sabia.Quatro
Helena permaneceu diante da janela, olhando para a escuridĂŁo que cobria a floresta. As palavras de Kael ainda pesavam sobre seus pensamentos.Seis seres.Seis reis e rainhas que haviam vivido em uma Ă©poca tĂŁo antiga que seus reinos jĂĄ nĂŁo existiam. Seis criaturas que, assim como Kael, haviam conhecido o poder, a glĂłria e a queda.Ela voltou lentamente o rosto para ele.â VocĂȘ falou que essa poderia ser a diferença entre nĂłs.Kael a observou por alguns segundos antes de responder.â Ă.Ele caminhou atĂ© ela, mantendo uma distĂąncia respeitosa.â Essa Ă© a diferença entre mim e vocĂȘ, Helena. Eu nunca me apaixonei. Nunca tive um vĂnculo de alma com alguĂ©m.Helena sentiu o coração apertar.Kael continuou:â Eu acreditava que nĂŁo precisava de ninguĂ©m. Achava que o poder era suficiente para preencher qualquer vazio. Quanto mais eu conquistava, mais queria. Quanto mais poderoso eu ficava, menos precisava das pessoas ao meu redor. AtĂ© que, um dia, eu jĂĄ nĂŁo tinha ninguĂ©m.Ele abaixou os olhos.â
Helena permaneceu em silĂȘncio depois que Kael terminou de falar. As palavras dele continuavam ecoando dentro de sua cabeça, como se cada uma tivesse encontrado um lugar para permanecer. Ele havia sido um rei. NĂŁo apenas um rei qualquer, mas um rei poderoso, temido por outros reinos e por criaturas que hoje sequer existiam mais. Durante sĂ©culos, Kael havia governado terras, comandado exĂ©rcitos e acumulado um poder que parecia impossĂvel de imaginar. E, ainda assim, ele estava ali. Diante dela. Depois de tudo aquilo. Helena olhou para Kael com uma mistura de desconfiança, medo e curiosidade. AtĂ© aquele momento, ela o enxergava apenas como uma criatura antiga que havia esperado pelo despertar de seu poder. Agora, porĂ©m, começava a perceber que havia muito mais escondido por trĂĄs daquele olhar. â VocĂȘ realmente foi um rei? â perguntou ela, quase em um sussurro. Kael assentiu. â Fui. Helena respirou profundamente. Era estranho pensar nele daquela maneira. Um rei. AlguĂ©m que u
Depois de tudo o que havia acontecido, a fortaleza da matilha jĂĄ nĂŁo parecia a mesma.A descoberta da traição de Celeste havia mudado o ambiente entre todos. NĂŁo havia mais cochichos sobre o que ela tinha feito, porque agora todos sabiam que ela havia passado informaçÔes sobre o sangue de Helena. O que ninguĂ©m conseguia ignorar era o tamanho da consequĂȘncia.Darley havia sido o primeiro a tomar uma decisĂŁo.Celeste fora levada para o calabouço da matilha, onde permaneceria atĂ© que ele decidisse o que seria feito com ela. PorĂ©m, mais do que a prisĂŁo, o que realmente havia destruĂdo Celeste era a maneira como Darley passou a tratĂĄ-la.Ele nĂŁo gritava com ela. NĂŁo a insultava. NĂŁo demonstrava raiva.Era pior.Ele simplesmente havia perdido todo o carinho, toda a confiança e todo o respeito que um dia sentira pela prĂłpria irmĂŁ.Para Darley, Celeste havia ultrapassado uma fronteira que nĂŁo poderia ser apagada com um pedido de desculpas.Helena tambĂ©m havia chegado Ă mesma conclusĂŁo.Durant
A comemoração tomou conta da alcateia naquela noite.Os guerreiros voltavam da fronteira cansados, feridos, mas vitoriosos. Os cinco estandartes inimigos haviam sido derrubados, e a notĂcia de que Darley havia protegido seu territĂłrio se espalhava rapidamente entre as alcateias vizinhas.Mas, dentro da casa principal, nĂŁo havia clima de comemoração para todos.Celeste permanecia em seu quarto.Andava de um lado para o outro.O plano que deveria colocĂĄ-la acima de Helena havia se transformado em um desastre.Ela havia reunido reis.Alfas.Inimigos antigos.Homens que odiavam Darley.E mesmo assim, todos haviam sido derrotados.Pior.Helena havia demonstrado um poder que ninguĂ©m esperava.Celeste apertou os punhos.â Isso nĂŁo acabou.Ela abriu uma gaveta e retirou o medalhĂŁo antigo.â Ainda tenho aliados.â NĂŁo tem mais.A voz atrĂĄs dela fez Celeste congelar.Ela se virou lentamente.Laura estava parada na porta.Sozinha.â O que vocĂȘ estĂĄ fazendo aqui?Laura entrou e fechou a porta.â
O grito de Darley atravessou o campo.â ATAQUEM!Como se aquela Ășnica palavra tivesse rompido uma barreira invisĂvel, os dois exĂ©rcitos avançaram.O chĂŁo tremeu sob o peso de centenas de guerreiros.Espadas se chocaram.Machados cortaram o ar.Uivos se misturaram aos gritos de guerra.A primeira linha da alcateia de Darley avançou contra os invasores, enquanto Natanael comandava o flanco esquerdo e Helder conduzia os guerreiros pelo lado direito.Darley permaneceu no centro.Seus olhos estavam fixos no homem montado no lobo negro.â Ruan â rosnou.O Alfa rival sorriu.â Finalmente nos encontramos novamente.Darley avançou.Os dois colidiram com tanta força que o impacto levantou poeira do chĂŁo.Enquanto os Alfas lutavam, Helena permanecia alguns metros atrĂĄs.Sua respiração estava acelerada.Ela queria ajudar.Mas alguma coisa dentro dela dizia que ainda nĂŁo era o momento.Kael apareceu ao seu lado.â EstĂĄ sentindo?â O quĂȘ?â O sangue.Helena levou a mĂŁo ao peito.Aquela sensação est







