LOGINCapítulo — O Preço de uma Escolha
Helena passou boa parte da manhã organizando suas coisas. Desde o encontro com Darley, seus pensamentos pareciam incapazes de permanecer em silêncio. Ela ainda conseguia lembrar dos olhos dourados dele. Da maneira como ele a observava. Daquela sensação estranha de que havia alguma coisa naquele homem que ela não conseguia compreender. Mas Helena não pretendia permitir que aquilo ocupasse espaço demais em sua cabeça. Tinha problemas mais importantes. Sobre a cama, algumas roupas estavam cuidadosamente dobradas. Ao lado delas, suas armas permaneciam separadas e prontas. Helena conferiu cada uma antes de guardá-las. Não sabia exatamente o que aconteceria nos próximos dias. Só sabia que precisava estar preparada. Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos. — Entre. A porta se abriu. Celeste apareceu. Helena não precisou perguntar para saber que havia alguma coisa errada. A expressão da irmã estava diferente. Mais determinada. Mais segura de si. — Preciso falar com você. Helena continuou organizando as coisas. — Então fale. Celeste entrou e fechou a porta. — Sobre Darley. As mãos de Helena pararam por um instante. Ela ergueu os olhos. — O que tem ele? — Eu vou fazer um acordo com ele. Helena permaneceu em silêncio. Celeste esperava alguma reação. Medo. Surpresa. Talvez uma tentativa de impedi-la. Mas não recebeu nenhuma. — Você tem certeza? — Helena perguntou. — Tenho. — Então faça. Celeste franziu a testa. — Só isso? Helena voltou a guardar uma das lâminas. — O que você esperava? — Que tentasse me impedir. Helena soltou uma pequena risada sem humor. — Celeste, esse problema é inteiramente seu. A irmã ficou imóvel. — Como? Helena finalmente se virou para ela. — Você escolheu se envolver com Darley. Você escolheu fazer esse acordo. Você trouxe isso para você. Então, se alguma coisa der errado, você se vira e resolve os seus próprios problemas. Celeste apertou os lábios. — Você não entende. — Entendo perfeitamente. Helena caminhou até a janela. — Você quer alguma coisa que acredita que ele pode lhe dar. — Quero o que é meu por direito. Helena olhou para ela. — A coroa? Celeste não respondeu. Não precisava. A resposta estava estampada em seu rosto. Helena respirou fundo. — Então vá atrás dela. — E você não vai fazer nada? — Não. A resposta foi simples. Definitiva. — Eu não vou me meter nas escolhas que você faz, Celeste. Mas também não espere que eu esteja lá para consertar as consequências. Celeste sustentou o olhar da irmã por alguns segundos. Depois sorriu. Um sorriso pequeno e estranho. — Talvez você se arrependa de não ter escolhido um lado. Helena não se intimidou. — Talvez. Celeste saiu. Helena ficou olhando para a porta fechada. Havia alguma coisa naquela conversa que não lhe agradava. Mas ela não iria atrás da irmã. Não dessa vez. Horas depois, muito além das fronteiras do reino das fadas, Celeste caminhava em direção ao território dos lobos. Não estava acompanhada por Helena. Não havia soldados. Apenas alguns homens responsáveis por conduzi-la até a fronteira. Quando chegou ao local combinado, encontrou dois lobos esperando. Um deles a observou de cima a baixo. — Você veio sozinha? — Vim. — O Alfa está esperando. Celeste ergueu o queixo. — Então me levem até ele. Darley estava no interior da construção principal da alcateia quando ouviu os passos. Ele já sabia quem estava chegando. Quando Celeste entrou, encontrou-o de costas, observando a floresta pela grande abertura de madeira. — Alfa Darley. Ele se virou. — Você veio. — Eu disse que viria. Celeste caminhou alguns passos. — Darley, precisamos conversar sobre— O olhar dele endureceu. — Darley, não. Ela parou. — O quê? Ele se aproximou lentamente. — Alfa Darley para você. Celeste engoliu a irritação. — Claro. Alfa Darley. Ele assentiu. — Agora fale. — Quero fazer um acordo. — Sobre? — Sobre a coroa. Darley permaneceu em silêncio. — Quero me tornar rainha — Celeste continuou. — E acredito que você possa me ajudar. — E o que eu ganho? — Acesso ao reino das fadas. Informações. Influência. Darley estreitou os olhos. — E por que eu deveria confiar em você? Celeste sorriu. — Não precisa confiar. A resposta pareceu despertar seu interesse. — Continue. — Basta aceitar que podemos ser úteis um ao outro. Darley caminhou até uma mesa e apoiou as mãos sobre ela. — Talvez. — Então temos um acordo? — Ainda não. Celeste franziu a testa. — O que falta? Darley a encarou. — Eu quero algo que você ainda não pode me oferecer. — O quê? Ele não respondeu. Porque havia coisas que nem mesmo Celeste precisava saber. Naquela noite, Darley permaneceu sozinho. Retirou do bolso uma pequena pedra azul. Ficou observando-a por alguns segundos. Uma lembrança antiga atravessou sua mente. Um menino ferido. Uma floresta. Uma voz feminina. Pequenas mãos tentando ajudá-lo. Ele nunca conseguiu esquecer. Também nunca descobriu quem era aquela garota. Mas continuava procurando. Anos haviam passado. E, mesmo sem saber o motivo, Darley sentia que estava cada vez mais perto da resposta. No reino das fadas, Helena permanecia diante da janela. Celeste havia escolhido seu caminho. E Helena havia escolhido não segui-la. Talvez fosse melhor assim. Ela fechou as cortinas e se afastou. Sem saber que, enquanto tentava se manter distante dos problemas da irmã, uma antiga promessa começava a se aproximar novamente de sua vida. Uma promessa feita muitos anos antes. Por um garoto que ela havia salvado. E por uma garota que jamais imaginara que um dia voltaria a encontrá-lo.A coluna de luz dourada continuava atravessando o céu.Dentro da alcateia, ninguém conseguia desviar os olhos das janelas. A energia que emanava da floresta era tão intensa que até os lobos mais experientes começaram a se agitar, caminhando de um lado para o outro, incapazes de compreender o que estava acontecendo.Helena permanecia nos braços de Darley.As lágrimas ainda escorriam por seu rosto, embora ela não soubesse explicar o motivo.Não estava triste.Também não sentia medo.Era como se uma lembrança esquecida estivesse tentando encontrar o caminho de volta para sua consciência.— Helena, olhe para mim — pediu Darley, segurando delicadamente seu rosto.Ela ergueu os olhos.— Eu conheço aquela voz, Darley.Ele franziu a testa.— Como pode conhecê-la se nunca a ouviu antes?— Não sei. Mas, quando ela falou, alguma coisa dentro de mim respondeu. Foi como se eu estivesse esperando por ela durante toda a minha vida.Darley encostou a testa na dela.— Então vamos descobrir quem é. Mas
Helena apertou a mão de Darley.A voz ainda ecoava em sua mente, carregada de uma força tão antiga que parecia atravessar não apenas seus pensamentos, mas também sua própria alma.Você despertou os sete.Ela tentou responder mentalmente, mas, antes que pudesse formar qualquer palavra, uma pressão tomou conta de seu peito.Não era dor.Era reconhecimento.Como se uma parte desconhecida de sua essência soubesse exatamente quem estava falando com ela.Darley percebeu a mudança em seu rosto.— Helena, olhe para mim.Ela ergueu os olhos.— Tem alguém falando comigo.Aren deu um passo à frente.— É um dos soberanos?— Não — respondeu Helena, balançando a cabeça. — É diferente. A presença de quem está falando comigo não se parece com a de nenhum deles.Kael ficou imóvel.Pela primeira vez desde que chegara à alcateia, sua expressão perdeu a habitual segurança.— O que você sentiu exatamente?Helena fechou os olhos, tentando encontrar palavras para descrever aquela sensação.— É como se essa
Helena permaneceu em silêncio por alguns segundos.A frase continuava ecoando em sua mente.Quando todos os companheiros forem reunidos, o herdeiro nascerá do poder que os uniu.Mas, dessa vez, alguma coisa havia mudado.Ela não sentia mais medo.Sentia compreensão.Como se todas as peças que estavam espalhadas dentro dela finalmente começassem a encontrar seus lugares.Helena olhou para Darley.Depois para Aren e Daren.— Eu entendi.Darley se aproximou.— Entendeu o quê?Helena respirou fundo.— Por que os sete despertaram.Os três ficaram atentos.— Não foi para que eu tomasse o poder de vocês. E também não foi para que vocês tomassem o meu.Ela levou a mão ao peito.— O despertar de vocês aconteceu porque o poder dentro de mim estava crescendo demais.Aren franziu a testa.— Crescendo?— Sim.Helena fechou os olhos.— Existe algo dentro de mim que ainda não nasceu completamente. Algo muito maior do que o poder que eu já despertei. E eu não conseguiria controlar isso sozinha.Darle
A noite parecia ter parado.No instante em que Helena abriu os olhos, todos os sons ao redor desapareceram.As folhas deixaram de se mover.O vento cessou.Até os animais da floresta permaneceram imóveis, como se alguma força invisível tivesse ordenado que o mundo inteiro esperasse.Então veio o puxão.Mais forte do que todos os anteriores.Helena levou a mão ao peito.Seu coração bateu uma vez.Depois outra.E, no terceiro batimento, uma onda de energia atravessou seu corpo.— Helena! — Darley gritou.A energia explodiu para fora dela.Não foi uma explosão destrutiva.Foi como se a própria natureza tivesse acordado junto com ela.As árvores se curvaram.O chão vibrou.A água dos rios próximos se ergueu por alguns centímetros, formando pequenas ondas sem que houvesse vento.As flores que estavam fechadas durante a noite começaram a desabrochar.E, muito longe dali, os sete soberanos sentiram.Kael foi o primeiro a cair de joelhos.Aren sentiu as pernas perderem a força.Daren segurou
Kael permaneceu em silêncio por alguns instantes.Helena ainda tentava compreender tudo o que havia visto.Seis histórias.Seis quedas.Seis maneiras diferentes de serem destruídos pelo próprio poder.Mas agora havia uma sétima presença.A última rainha.Aquela que ainda faltava.Kael respirou profundamente.— O nome dela era Aurélia.Helena levantou os olhos.— Aurélia?— Sim.Kael observou a floresta através da abertura entre as árvores.— Ela foi uma boa rainha. Talvez a melhor entre todos nós.Helena pareceu surpresa.— Então por que ela está entre eles?Kael demorou a responder.— Porque bondade não significa que alguém continuará se importando com os outros para sempre.Helena franziu a testa.— O que aconteceu?Kael suspirou.— Aurélia perdeu quase tudo. Pessoas. Família. Reino. Confiança.Sua voz ficou mais baixa.— Depois de tantos séculos, ela simplesmente deixou de se importar.Helena permaneceu pensativa.— Ela se tornou cruel?— Não.Kael balançou a cabeça.— Esse foi jus
Eryon começou a se mover.Depois de séculos preso nas profundezas da terra, cada passo parecia carregar o peso de uma era inteira.As pedras próximas tremiam quando ele passava.Algumas se erguiam sozinhas.Outras rolavam pelo chão como se estivessem sendo atraídas por sua presença.Eryon não precisava tocá-las.Não precisava sequer olhar para elas.A terra reconhecia seu poder.O ar parecia responder à sua respiração.E, a cada quilômetro percorrido, aquela sensação dentro de seu peito ficava mais forte.O chamado.Aquela energia que o havia arrancado das profundezas.Aquela presença que, desde o instante em que despertara, parecia estar esperando por ele.Eryon sabia que precisava encontrá-la.Mas havia outra coisa que começava a chamar sua atenção.Ele não estava sozinho.Existiam outras presenças se movendo.Algumas muito distantes.Outras mais próximas.E uma delas estava se aproximando rapidamente.Lúcio.Eryon fechou os olhos por alguns segundos.Sentiu a energia daquele antigo







