LOGINJulia se virou imediatamente ao ouvir alguém chamar seu nome.
Era Rosângela.
Vestida com um elegante vestido branco e coberta por joias luxuosas que brilhavam sob o sol, ela exibia uma aparência impecável.
Seu olhar, porém, era repleto de desprezo.
— O que você está fazendo aqui? Não conseguiu se sustentar no interior e resolveu voltar para tentar viver às custas da família Lins?
Ao ouvir aquelas palavras cheias de sarcasmo, Julia deu dois passos para trás.
— Não... Vim procurar emprego.
— Procurar emprego?
Rosângela caiu na gargalhada.
— Julia, você nasceu para trabalhar na roça. Não perca seu tempo querendo um emprego aqui.
Assim que terminou de falar, empurrou Julia, que caiu no chão. Em seguida, pisou em seu currículo sem a menor consideração antes de entrar na empresa.
Nos últimos anos, Rosângela havia se tornado vice-gerente-geral da empresa da família Lins e uma das principais acionistas do Grupo Fontana.
O Grupo Fontana era o maior da região e oferecia excelentes oportunidades de crescimento. Foi justamente por isso que Julia decidiu tentar uma vaga ali.
Além disso, desde que descobriram a troca de bebês na maternidade, os pais da família Lins passaram a mimar Rosângela ainda mais, tornando-a cada vez mais arrogante e autoritária.
Julia abaixou-se e recolheu o currículo amassado.
Enquanto limpava a sujeira do papel, sentiu o peito apertar.
As lágrimas quase escaparam, mas ela respirou fundo e conseguiu contê-las.
Mesmo sabendo que Rosângela trabalhava ali, ela não podia desistir.
Três filhos dependiam dela.
Ela precisava daquele emprego.
Determinada, enxugou o rosto e entrou no prédio.
Apesar dos anos vivendo no interior, sua capacidade profissional permanecia impecável.
Ela passou por todas as etapas da seleção até chegar à entrevista final.
Mas, ao entrar na sala, congelou.
A entrevistadora era justamente Rosângela.
Assim que a viu, Rosângela soltou um sorriso debochado.
— Como esse processo seletivo foi conduzido? Estão deixando qualquer um entrar? Como uma pessoa dessas chegou até a fase final?
Como a família Lins possuía participação na empresa, ninguém ousou contrariá-la.
Os entrevistadores apenas trocaram olhares constrangidos.
Um deles tentou amenizar a situação.
— Senhora Lins, a candidata teve uma das melhores avaliações desta seleção.
— Uma das melhores?
Rosângela soltou uma risada fria.
— Desde quando uma caipira pode ser considerada uma excelente candidata? Tirem essa mulher daqui.
Julia apertou o tecido da camisa, sentindo os olhos arderem.
Se fosse anos atrás, jamais aceitaria aquela humilhação.
Mas agora era diferente.
O salário oferecido pelo Grupo Fontana era muito superior ao de qualquer outra empresa.
Ela precisava daquele emprego.
Precisava sustentar os três filhos.
Engolindo todo o orgulho, respirou fundo.
Com a voz trêmula, disse:
— Senhorita Lins... por favor, me dê uma oportunidade. Prometo que vou me dedicar ao máximo.
Rosângela sorriu com desprezo.
Levantou-se lentamente e caminhou até ficar bem diante dela.
— Julia... você viveu tantos anos sendo sustentada pela família Lins. Acha mesmo que vou deixar você entrar na empresa tão facilmente?
Ela cruzou os braços.
— Quer trabalhar aqui?
Fez uma breve pausa antes de sorrir de forma cruel.
— Então ajoelhe-se diante de mim. Talvez, se eu ficar satisfeita, permita que você entre.
Julia cerrou os dentes.
As palavras de revolta chegaram à garganta, mas não conseguiram sair.
Naquele instante, os rostos de Pedro, Mateus e Gabriel passaram por sua mente.
Ela não podia perder aquela oportunidade.
As crianças não tinham culpa de nada.
Engolindo toda a dor, levantou lentamente o olhar para Rosângela.
Os olhos estavam marejados.
Ela mordeu o lábio com força.
— Está bem... eu me ajoelho.
Fechou os punhos e começou a se abaixar.
— Pare.
Uma voz fria ecoou pelo ambiente.
Ao mesmo tempo, a porta da sala foi aberta com força.
Todos se viraram.
Um homem alto entrou calmamente.
Vestia um terno preto de alta-costura, perfeitamente alinhado. Um discreto broche de diamante brilhava na lapela, enquanto seus olhos profundos transmitiam uma frieza capaz de intimidar qualquer pessoa.
Era Samuel Fontana.
Filho mais velho da família Fontana e o presidente mais jovem da história do Grupo Fontana.
Julia ficou imóvel.
Por algum motivo...
Aquele homem lhe parecia estranhamente familiar.
Samuel apenas lançou um breve olhar em sua direção antes de seguir adiante.
Assim que o viu, Rosângela abriu um largo sorriso e correu para recebê-lo.
— Samuel! Você finalmente chegou! Eu senti tanto a sua falta.
Ela tentou segurar seu braço com intimidade.
Samuel franziu a testa e afastou a mão dela sem a menor delicadeza.
Rosângela sorriu, visivelmente constrangida.
Mesmo assim, insistiu.
— Você deve estar cansado da viagem. Quer que eu prepare alguma coisa para você?
Samuel era o presidente do Grupo Fontana.
Jovem, poderoso e extremamente bem-sucedido, era uma figura conhecida em toda a região.
Embora sua família mantivesse amizade com os Lins, ele passara muitos anos morando no exterior e raramente voltava ao país.
Foi justamente quando retornou que Rosângela se apaixonou por ele à primeira vista.
O sentimento, porém, nunca foi correspondido.
Se não fosse pela insistência do avô Fontana, Samuel provavelmente jamais pisaria ali para encontrá-la.
— Não precisa. Já estou de saída.
— Samuel, eu vou com você.
Rosângela pegou a bolsa e fez menção de acompanhá-lo.
Nesse instante, Julia deu um passo à frente.
— Senhorita Lins... eu...
Antes que pudesse terminar, Samuel falou friamente:
— Você está desclassificada.
Julia ficou atordoada.
Embora Rosângela fosse vice-gerente-geral, era Samuel quem tinha a palavra final dentro da empresa.
Ele olhou para Julia sem demonstrar qualquer emoção.
Ela franziu a testa.
— Por quê?
Samuel respondeu sem hesitar:
— O Grupo Fontana não contrata pessoas sem caráter.
Depois disso, virou-se e saiu da sala.
No fim, Julia perdeu a vaga.
Para conseguir sustentar os filhos, aceitou um emprego como garçonete na cafeteria que funcionava no térreo do prédio.
O salário era bem menor, mas, fazendo alguns bicos, conseguia sobreviver.
Enquanto trabalhava, não conseguiu deixar de reclamar mentalmente de Samuel.
Se ele não tivesse aparecido naquele momento, talvez ela ainda tivesse alguma chance de conseguir o emprego.
— Julia! Um café para a mesa oito!
Ela voltou à realidade, preparou um café americano e o levou até a mesa indicada.
Assim que colocou a xícara sobre a mesa, congelou.
O cliente era Samuel.
Ele usava um par de óculos de armação dourada e lia uma revista com tranquilidade.
Embora parecesse mais acessível do que durante a entrevista, continuava transmitindo a mesma aura fria e distante.
Julia apertou os punhos.
Era realmente o destino brincando com ela.
— Seu café.
Ela colocou a xícara sobre a mesa um pouco mais forte do que o necessário e se virou imediatamente para sair.
No entanto, acabou esbarrando em outro cliente.
— Me desculpe!
Ela abaixou a cabeça às pressas e pediu desculpas várias vezes.
O homem olhou para a roupa manchada e perdeu a paciência.
— Você faz ideia de quanto custa este terno? Nem trabalhando cinco anos conseguiria pagar por ele!
Julia ergueu lentamente a cabeça.
Ao ver o rosto daquele homem, seu corpo inteiro enrijeceu.
Era Ricardo.
— Vim aqui para lhe dizer que vou ajudá-la — disse a Sra. Fontana, sem rodeios.A matriarca falou de forma fria e um tanto ambígua, mas Rosângela captou imediatamente a intenção por trás daquelas palavras.— O que a senhora quer dizer? — Os olhos de Rosângela brilharam instantaneamente.E daí se Samuel parecia distante ultimamente? Tendo a matriarca da família Fontana ao seu lado, suas chances de consolidar sua posição dobravam. Afinal, em uma dinastia empresarial como a deles, um casamento jamais era decidido por uma pessoa só.A Sra. Fontana virou-se lentamente, sustentando um olhar gélido:— Pensei bastante. Não posso, de forma alguma, permitir que aquela mulher se aproxime do meu filho.Desde que Samuel e Julia se aproximaram, o descontentamento da matriarca só aumentou. Após refletir, concluiu que preferia apoiar Rosângela a permitir que alguém como Julia fizesse parte da linhagem da família.Afinal, Rosângela ainda trazia o sobrenome de uma família tradicional e de velhos conhec
Mesmo que revelasse a verdade a Samuel, que diferença faria? Julia nem sequer ousava alimentar ilusões de se integrar à influente e tradicional família Fontana. Se contasse tudo naquele momento, temia que a revelação apenas acelerasse o término inevitável do relacionamento dos dois.Ponderando em meio ao turbilhão de emoções, Julia deixou o ambiente hospitalar atordoada. Na precipitação do momento, nem percebeu que a folha avulsa do laudo de compatibilidade genético havia escapado de seus pertences, ficando sobre a mesa do aposento.Pouco depois, Marcelo, que retornara ao quarto para auxiliar Samuel no procedimento de alta hospitalar, deparou-se com o documento. Ao correr os olhos pelo impresso, sobressaltou-se com o teor daquelas informações.— O documento traz o nome da Julia e trata-se de uma confirmação formal de teste de paternidade.O relatório atestava um vínculo genético direto com as crianças, porém não identificava nominalmente o genitor no cabeçalho de resumo.Sem hesitar,
A partir daquele dia, Ricardo passou a vigiar os passos de Julia diariamente. Contudo, percebeu que, além de levar e buscar os filhos na escola, ela mantinha uma rotina extremamente pacata e quase não interagia com pessoas de fora.Durante esse período, Ricardo chegou a flagrar encontros ocasionais entre Julia e Samuel. No entanto, a ideia de que o poderoso herdeiro da família pudesse ser o homem do passado parecia tão absurda que ele simplesmente ignorou essa possibilidade.Após dias sem qualquer pista concreta, o casal viu-se sem alternativa a não ser procurar Rosângela.— Você esteve envolvida em tudo desde o início — cobrou Camila, em tom de aviso. — Precisa entender que, se a Julia realmente encontrar aquele homem do passado, nenhum de nós sairá ileso.Os três reuniram-se na mesa mais reservada de uma cafeteria discreta, falando em sussurros cautelosos. Evitavam encontros presenciais justamente para não levantar suspeitas, e só tomaram essa atitude extrema diante do avanço das in
Julia não se importava se Camila estava grávida ou não.Sentia-se cada vez mais protegida e respaldada por Samuel. Sempre que alguma situação desconfortável surgia, ele intervinha e a defendia. Às vezes, ao se ver em um impasse, seu primeiro impulso inconsciente era recorrer a Samuel.Além disso, ela não dava a mínima importância à presença daquele casal.Após a saída de Julia com o comprovante do exame, Ricardo e Camila sentaram-se em um canto do hall do laboratório, visivelmente perturbados.Camila, por ter acabado de passar por exames de rotina, queixou-se de mal-estar e inclinou-se no ombro de Ricardo, buscando atenção:— Olhe para ela! Que mulher insuportável e arrogante!Ricardo afagou-lhe os ombros, tentando acalmá-la:— Não se estresse por causa disso. Na próxima vez, fingimos que nem a conhecemos.Apesar da paciência exigida pelo estado da esposa, o comportamento constante de Camila vinha desgastando sua tolerância.— Espere um pouco... — interrompeu Camila, subitamente alert
— Que tal eu providenciar um novo imóvel para você? Aquele apartamento atual é muito compacto e não oferece o conforto que você e as crianças merecem — sugeriu Samuel.A proximidade constante de Rafael morando no apartamento vizinho deixava Samuel bastante desconfortável. Ele dispunha de diversas propriedades amplas e bem localizadas na capital, e transferir Julia com os meninos para uma delas seria a solução ideal.Julia, porém, não deu resposta imediata. Sua mente continuava completamente absorvida pela questão do exame de paternidade.Será que Samuel era mesmo o pai biológico das crianças? Apesar dos anos decorridos, as memórias daquela noite marcante jamais haviam apagado de sua lembrança. Relembrando os detalhes, a silhueta daquele homem de fato guardava uma semelhança impressionante com a de Samuel.Percebendo o silêncio e o olhar distante de Julia, Samuel supôs que ela ainda estivesse abalada pela postura ríspida do Velho Senhor Fontana. Tentando tranquilizá-la, acrescentou:—
Julia sentia-se tomada por certo remorso. Afinal, Samuel fora hospitalizado e precisara de atendimento médico devido ao ferimento sofrido para proteger a ela e aos filhos. Ao chegar ao quarto de hospital de Samuel, surpreendeu-se ao encontrar o Velho Senhor Fontana já acomodado no ambiente. No instante em que cruzou com o olhar do patriarca, Julia estancou à porta, tomada pela incerteza de entrar ou se retirar. O idoso mantinha uma conversa séria com o neto, mas, ao notar a presença de Julia, sua expressão tornou-se gélida. A simpatia que alimentara por ela no passado evaporara no momento em que soube que Samuel havia se machucado por sua causa. — O que você faz aqui? — questionou o idoso, com um tom grave e seco. Julia ficou sem reação. Percebendo a saia-justa e o constrangimento de Julia, Samuel sentou-se na leito hospitalar. — Você não tinha levado o Mateus ao médico? Como ele está? Naquele instante, sob o olhar severo do idoso, Julia não encontrou clima para detalh







