Share

CAPÍTULO 2

Author: Maya Durand
last update publish date: 2026-01-06 09:19:26

Antes do erro: POV Rachel

O silêncio do meu casamento não começou de repente.

Ele foi entrando devagar, como poeira em uma casa fechada.

Primeiro foram as mensagens curtas.

Depois, as noites em que Eduard chegava tarde demais para qualquer conversa que não fosse sobre trabalho.

E então… o toque desapareceu.

Sem brigas, sem trauma.

Só ausência.

Eu estava deitada ao lado dele muitas noites e, ainda assim, me sentia sozinha.

Naquela semana, eu tinha parado de contar os dias.

Um ano era uma palavra grande demais para dizer em voz alta. Um ano sem sexo “de verdade” parecia um exagero, como se eu estivesse dramatizando algo que, para ele, era apenas cansaço. Rotina. Pressão.

Mas eu sabia a diferença entre fase ruim e abandono.

Na cozinha, de manhã, o café já estava pronto quando Eduard apareceu. Camisa impecável, cheiro de colônia cara, o mesmo olhar sério de sempre. Ele beijou minha testa — um gesto automático, quase corporativo — e abriu o celular antes mesmo de sentar.

— Você vai cedo hoje? — perguntei, tentando soar casual.

— Reunião com o Adrian. — A resposta veio sem levantar os olhos. — Depois tenho call com investidores.

Adrian.

O nome passou por mim como uma lâmina fina. Não doía… ainda. Só marcava.

— Você janta em casa? — insisti.

Eduard suspirou, como se eu tivesse feito uma pergunta difícil demais para uma terça-feira.

— Rachel, eu tô numa fase pesada. A gente conversa depois, tá?

Depois.

Essa palavra também tinha virado rotina.

Eu encarei minha xícara por um instante, sentindo uma coisa ruim se formar no fundo do peito: a sensação de que eu estava pedindo migalhas para o homem que me chamava de esposa.

— Tudo bem — respondi, porque era o que eu sempre respondia.

Ele saiu antes de eu terminar o café.

E eu fiquei ali, parada no meio da cozinha, com a xícara nas mãos e uma certeza incômoda: eu estava começando a desaparecer.

No escritório, eu funcionava.

Sempre funcionava.

Eu era a advogada que resolvia crises antes que elas virassem escândalo. A mulher que lia contratos como quem lê pessoas. A que nunca se confundia, nunca perdia o controle, nunca deixava emoções transbordarem onde não era permitido.

Ali, eu ainda existia.

Foi por isso que eu cheguei cedo naquele dia.

O prédio estava mais silencioso do que o normal. Os corredores cheiravam a limpeza recente e ambição velha. Entrei na minha sala, larguei a bolsa e liguei o computador, tentando esquecer a conversa da cozinha como quem apaga um arquivo.

Eu estava abrindo uma pasta de documentos quando a notificação apareceu: reunião remarcada — sala 12 — 8h30.

Sala 12.

A sala 12 era onde decisões importantes aconteciam. Onde ninguém levantava a voz, mas tudo parecia um pouco mais tenso do que deveria. Eu respirei fundo e peguei minha prancheta com anotações.

Quando cheguei, a porta estava entreaberta.

Eu empurrei devagar.

A sala estava vazia… ou quase.

Adrian Weiss estava lá dentro, sozinho, de pé perto da janela. O sol da manhã entrava pela vidraça, cortando o ambiente e destacando a silhueta dele como se aquela sala tivesse sido construída para enquadrá-lo.

Ele não estava de terno completo ainda.

Só a camisa branca, mangas dobradas. O relógio no pulso. A postura calma de quem não tem pressa.

Eu congelei por um segundo.

Não porque ele era bonito — embora fosse, de um jeito indecente.

Mas porque havia algo em Adrian que sempre me deixava alerta: a sensação de que ele via demais.

Como se nenhuma versão minha fosse suficiente para enganá-lo.

— Rachel — ele disse, virando o rosto. A voz baixa, segura. — Você é pontual.

— Bom dia — respondi, controlada, entrando e fechando a porta atrás de mim.

Ele sorriu de leve.

Não era um sorriso gentil.

Era um sorriso que sabia coisas.

— Eduard ainda não chegou? — perguntei, indo direto ao assunto.

— Ainda não. — Adrian inclinou a cabeça, como se observasse uma reação que eu não queria mostrar. — Mas vai chegar.

Eu me sentei, abri a prancheta, fingi normalidade.

— Então podemos adiantar a pauta.

— Podemos — ele concordou, mas não se sentou.

Ficou ali, perto da janela, com a luz batendo no braço dele, nas veias discretas, no gesto lento com que afrouxou um botão da camisa. Um movimento simples, quase nada — mas meu corpo registrou como se fosse mais do que isso.

— Você revisou o contrato novo da expansão? — ele perguntou.

— Sim. Há cláusulas de responsabilidade que precisam de ajuste — respondi, técnica.

Adrian caminhou até a mesa devagar e pousou uma pasta na minha frente. Quando os dedos dele tocaram a mesa perto da minha mão, eu senti… algo.

Não foi toque.

Foi presença.

— Você parece cansada — ele comentou, casual demais.

Meu estômago apertou.

— É só trabalho.

— Claro — ele disse, como quem aceita uma mentira por educação.

O olhar dele desceu para minha mão por um instante. E voltou para o meu rosto.

Eu segui a direção sem querer.

A aliança estava lá.

Dourada. Certinha. Intocável.

— Eduard tem sorte — Adrian murmurou.

Meu corpo ficou rígido.

— Sorte?

— De ter você — ele completou, sem alterar o tom.

Não havia flerte explícito naquela frase. E, ainda assim, eu senti como se tivesse.

Porque Eduard não dizia isso.

Eduard não dizia nada.

Eu fechei a prancheta com mais força do que precisava.

— Vamos manter isso profissional.

Adrian não se ofendeu. Não pareceu surpreso.

Ele só deu um passo mais perto — pouco, quase imperceptível — e baixou a voz.

— Eu estou sendo profissional, Rachel. — Uma pausa curta. — Mas você… está fingindo.

Meu coração errou uma batida.

— Eu não estou fingindo nada.

— Está — ele disse, calmo. — Fingindo que está tudo bem.

Eu levantei, rápido demais, como se a cadeira tivesse me queimado.

— Eduard vai chegar a qualquer momento.

— Eu sei.

A forma como ele disse isso me incomodou.

Como se ele estivesse esperando.

Como se a ausência do meu marido fosse um espaço que Adrian sabia usar melhor do que ninguém.

Eu dei a volta na mesa, tentando recuperar a distância.

— Você sempre fala como se soubesse da vida dos outros.

Adrian me acompanhou com o olhar, sem se mover.

— Eu sei ler sinais.

— Então leia esse — eu disse, sem pensar, apontando para a porta. — Eu não quero esse tipo de conversa.

O silêncio caiu.

Pesado.

Adrian finalmente se aproximou — devagar, controlado, como se cada passo fosse calculado. Parou a uma distância segura… mas o ar entre nós não parecia seguro.

— Você está certa — ele disse. — Eu não deveria.

Eu soltei o ar, aliviada demais.

Mas então ele acrescentou, como quem entrega o golpe sem levantar a voz:

— Só que… você também não.

Eu congelei.

— Eu não o quê?

Adrian inclinou a cabeça, o olhar firme em mim.

— Você pode fingir, mas seu corpo não...

Antes que eu conseguisse responder, a maçaneta girou do lado de fora.

A porta começou a se abrir.

E eu percebi, tarde demais, que o problema não era Adrian ter dito demais…

Era eu ter sentido demais.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O Sócio do Meu Marido, Meu Segredo Proibido   CAPÍTULO 165

    POV EduardEduard releu o comunicado três vezes antes de enviar.Mesmo sabendo que não mudaria nada.A tela do notebook iluminava parcialmente o escritório escuro do apartamento enquanto Manhattan brilhava do lado de fora como se ainda existisse algum tipo de normalidade no mundo. O texto continuava aberto diante dele:“Apresento formalmente minha renúncia ao cargo de membro do conselho da Weiss Corporation...”Frio. Objetivo. Corporativo.Exatamente como deveria ser.E ainda assim parecia estranho resumir o colapso da própria vida em dois parágrafos jurídicos.Ele apertou “enviar” antes que pudesse reconsiderar.Pronto.O silêncio depois daquilo foi pior do que esperava.Porque durante anos a empresa tinha sido: rotina, poder, competição, identidade.Agora parecia apenas exaustão.Eduard recostou na cadeira lentamente e passou a mão pelo rosto.Cansado.Profundamente cansado.O celular vibrou quase imediatamente.Lorenzo.Cl

  • O Sócio do Meu Marido, Meu Segredo Proibido   CAPÍTULO 164

    POV RachelO trajeto até a empresa foi silencioso.Não desconfortável.Só pesado demais para conversa vazia.Rachel observava Manhattan pela janela do carro enquanto as notificações continuavam surgindo sem parar no celular largado ao lado dela no banco. Em algum momento ela simplesmente desistiu de abrir qualquer coisa.Não queria mais ler versões distorcidas da própria vida escritas por desconhecidos.Ao lado dela, Adrian dirigia com uma tensão silenciosa presa no maxilar.As mãos firmes no volante. Olhar fixo na avenida. O celular vibrando constantemente no console sem que ele atendesse metade das ligações.Rachel apoiou a cabeça no vidro por um instante.Cansaço físico começava finalmente a ultrapassar adrenalina.— O que você acha que Isabella vai fazer?Adrian soltou uma respiração baixa.— Tentativa de controle de narrativa.— Isso não respondeu minha pergunta.Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder:— Isabella nunca faz movimento sem benefício próprio.

  • O Sócio do Meu Marido, Meu Segredo Proibido   CAPÍTULO 163

    POV AdrianA notícia já estava em todos os lugares antes mesmo de Adrian terminar de vestir o paletó.Rachel permanecia sentada na bancada da cozinha, celular nas mãos, enquanto notificações subiam na tela rápido demais para acompanhar. Sites financeiros. Portais de entretenimento. Colunistas políticos. Perfis de fofoca corporativa que ele nem sabia que existiam.As fotos estavam ruins.Granuladas. Distantes. Tiradas claramente às pressas.Mas não ruins o suficiente.Rachel entrando no carro dele na saída do hospital. O braço dele na cintura dela por alguns segundos. Os dois próximos demais.Mais íntimos do que deveriam parecer.Mais reais do que qualquer um deles ainda tinha conseguido esconder publicamente.Adrian fechou lentamente o botão do paletó enquanto observava ela em silêncio.Rachel parecia imóvel.Mas ele já conhecia os sinais.A rigidez nos ombros. O maxilar travado. A forma como os dedos apertavam o celular.Ela estava começando a entrar em modo de sobrevivência ou

  • O Sócio do Meu Marido, Meu Segredo Proibido   CAPÍTULO 162

    POV RachelRachel acordou antes do despertador.Por alguns segundos ficou imóvel na cama, olhando o teto escuro do quarto enquanto tentava entender por que o peito parecia estranhamente leve naquela manhã.Então lembrou.O conselho. O colapso. O hospital. Eduard. Adrian.O beijo.Os olhos dela fecharam automaticamente por um instante.Meu Deus.A memória voltou inteira: a mão dele em seu rosto, o jeito como Adrian a olhara sem esconder absolutamente nada, a sensação absurda de finalmente parar de lutar contra algo que já existia fazia tempo demais.Rachel soltou o ar lentamente e virou na cama.O quarto estava silencioso.A luz azulada do amanhecer atravessava parcialmente as cortinas.Ela percebeu o relógio marcando pouco depois das seis.E percebeu outra coisa logo em seguida:Pela primeira vez em meses, não sentia ansiedade ao acordar.Aquilo quase a assustou.Rachel sentou devagar na cama, prendendo o cabelo de qualquer jeito antes de caminhar até a cozinha do apartamento.

  • O Sócio do Meu Marido, Meu Segredo Proibido   CAPÍTULO 161

    POV EduardO apartamento estava silencioso demais.Eduard percebeu isso no instante em que entrou.Nenhuma televisão ligada. Nenhum som vindo da cozinha. Nenhuma luz além da iluminação baixa da sala refletindo sobre o vidro das janelas.Durante anos aquele silêncio tinha parecido normal.Agora parecia abandono.Ele largou a chave sobre a bancada e afrouxou lentamente a gravata enquanto caminhava até o bar perto da janela. Serviu whisky no automático, mais pelo hábito do que pela vontade real de beber.O celular vibrava sem parar desde o fim da reunião do conselho.Investidores. Advogados. Dois membros da imprensa. Mensagens internas da empresa.Ele ignorou todas.Pela primeira vez em muito tempo, estava cansado demais até para administrar a própria crise.Encostou-se na janela com o copo na mão e observou Manhattan abaixo.A cidade continuava bonita. Indiferente.Como se nada tivesse desmoronado.Mas alguma coisa tinha.E Eduard finalmente parara de fingir que ainda dava para sa

  • O Sócio do Meu Marido, Meu Segredo Proibido   CAPÍTULO 160

    POV AdrianAdrian estava sozinho na sala da presidência quando Rachel entrou.A cidade já estava escura do lado de fora, refletida nos vidros enormes do escritório como uma segunda Manhattan suspensa sobre eles. O andar inteiro permanecia quase vazio àquela hora; apenas algumas luzes acesas ao longe denunciavam executivos tentando conter uma crise que já tinha escapado das mãos havia tempo demais.Ele ergueu os olhos imediatamente ao ouvir a porta.Rachel parecia cansada.Mas diferente.Havia alguma coisa mais calma nela agora. Não tranquila. Ainda não.Só menos perdida.Adrian fechou o notebook devagar.— Como ela está?Rachel soltou uma respiração baixa antes de caminhar até a mesa.— Melhor do que imaginei.Ele observou atentamente o rosto dela.— E Eduard?Ela demorou alguns segundos antes de responder.— Acho que finalmente percebeu o tamanho do estrago.O silêncio caiu entre os dois por um instante.Adrian conhecia bem aquela sensação.O momento exato em que alguém entende que

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status