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Capítulo 3: O que poderia ser

作者: A. Beatriz
last update 公開日: 2026-08-11 12:45:10

...PREOCUPAÇÕES...

A noite tinha caído suavemente sobre a cidade, envolvendo a casa numa calma que contrastava demasiado com o ritmo do dia. A Valéria mal tinha pousado a mala quando as vozes dos seus filhos encheram o espaço, acompanhadas por um riso masculino que já lhe era demasiado familiar. Mal tinha entrado na sala quando os dois rapazes se lançaram sobre ela com entusiasmo.

— Cristopher... desculpa o atraso. Tive imensa papelada para organizar hoje e não podia ir embora sem terminar primeiro. Não te causaram muitos problemas? — perguntou ela, aproximando-se enquanto tirava os sapatos, observando a cena.

Cristopher, que até há pouco estava confortavelmente deitado no sofá, abanou a cabeça com um sorriso enquanto se levantava.

— De forma alguma —respondeu ele—. A Sofi e o Mateo são crianças incríveis. Quase me facilitaram o trabalho.

—Porque somos os melhores! —interveio a Sofía com orgulho.

—Sem dúvida alguma, princesa! —acrescentou o Cristopher rapidamente.

Valeria não conseguiu evitar sorrir ao vê-los assim, tão cheios de vida, tão alheios a tudo o resto.

—Claro que sim — murmurou ela, com ternura.

Mateo, sem perder tempo, virou-se para Cristopher com os olhos a brilhar de emoção.

—Tio Cris… Amanhã vais ensinar-me a lançar melhor?

Cristopher soltou uma risadinha.

—Estás a desafiar-me?

—Sim!

—Então não tenho outra escolha —respondeu ele, inclinando-se ligeiramente na direção do menino—. Amanhã começamos um treino a sério.

—Sim! —exultaram os dois meninos.

A Valéria ficou a observá-los em silêncio por um momento. Aquela cena à sua frente... simples, quotidiana... tinha algo que lhe apertava suavemente o peito.

—Meninos... — chamou-os suavemente, e as duas crianças viraram-se imediatamente. —Porque é que não vão um momento para a sala de jogos?... A mãe quer falar um momento com o tio Cris.

—Podemos jogar na consola? — perguntou a Sofía.

— Sim, mas sem brigas, está bem? — respondeu ela.

— Sim, vamos! — gritou o Mateo, puxando a irmã.

Em questão de segundos, os dois desapareceram entre risos. Então, a Valéria deu um pequeno passo em direção ao Cristopher, parando a poucos passos de distância.

—Obrigada... —disse ela, suavemente—. Por os teres ido buscar e tudo o mais. Sei que não é da tua responsabilidade e, mesmo assim...

Ele abanou ligeiramente a cabeça, olhando-a diretamente nos olhos com uma calma que contrastava com o que se via no seu olhar. —Não precisas de me agradecer, faço-o de bom grado —respondeu ele—. Não é incómodo... a sério. Além disso, passar tempo com eles nunca é.

Ela esboçou um leve sorriso.

—São bons miúdos...

—São mesmo —confirmou ele. Mas não desviou o olhar dela, e isso mudou alguma coisa. —Na verdade... —continuou, inclinando-se ligeiramente para a frente—, se dependesse de mim... não passaria nem um único dia longe deles.

Valeria sentiu o seu corpo ficar ligeiramente tenso. Não por desconforto, mas pelo que se avizinhava. Cristopher deu mais um pequeno passo.

—Nem de ti.

O silêncio instalou-se entre os dois. Valeria sustentou o seu olhar por um segundo… apenas um… antes de desviá-lo suavemente.

—Cris… —disse ela em voz baixa—. Já falámos sobre isto.

Ele não recuou. Em vez disso, pegou-lhe na mão com cuidado, como se temesse que ela se afastasse.

—Eu sei, eu sei —respondeu ele. Valeria tentou retirar a mão, mas ele não a soltou de imediato.— Não tens de dizer nada agora. Não te estou a pedir uma resposta imediata — acrescentou com suavidade —. Só… que penses nisso… Porque eu já pensei… demasiado, e sei o que quero — continuou —. Gostaria de estar aqui… não apenas assim. Gostaria de fazer parte disto… de vocês.

As suas palavras não eram forçadas. Eram perigosamente sinceras. Valeria respirou fundo antes de falar.

— Cristopher… Neste momento, não estou a pensar nisso.

O seu tom era suave, mas firme. Isso foi o suficiente para que ele a soltasse lentamente… não parecia irritado, mas sim contido… depois, o seu olhar desviou-se dela, passando para o relógio.

—Tenho de ir —disse ele, afastando-se um pouco—. Ainda tenho alguns assuntos para resolver no escritório.

Valeria acenou com a cabeça. —Obrigada… mais uma vez.

Ele dirigiu-se para a porta, mas antes de sair, parou por um segundo e olhou para ela.

—Ouve… não deixes de pensar nisso.

Com isso, foi-se embora. A porta fechou-se suavemente. E o silêncio voltou a preencher o espaço. Mas não era um silêncio qualquer; Valeria permaneceu imóvel por alguns segundos, como se ainda pudesse sentir a presença de Cristopher no ar, e isso não era estranho.

Ele não era um desconhecido na sua vida, nem alguém passageiro, afinal. Cristopher Hale… é o irmão mais velho da sua melhor amiga. Tinha sido, sem que ela o tivesse planeado, um dos pilares mais sólidos desde que chegou a Toronto.

Conheceu-o quando a Emma a convidou para ir à casa da família sem aviso prévio e, desde então, algo na forma como ele olhou para ela... dizia tudo; não era apenas curiosidade... era algo mais profundo, mais direto. Ele interessou-se por ela mesmo sabendo que ela estava grávida; nem sequer se importou que as crianças não fossem dele, não hesitou, nem recuou... só queria assumir a responsabilidade.

Com o tempo, não só se tornou um apoio constante — presente em cada momento difícil, em cada pequena conquista —, como também alguém que, silenciosamente, começou a ocupar um lugar importante na vida dela. O Cristopher não era apenas um bom homem... era o tipo de homem que qualquer mulher desejaria ter ao seu lado. Atraente, seguro, atencioso... com aquela forma tranquila de proteger sem impor, de cuidar sem sufocar. E, mesmo assim, ela tinha-o rejeitado mais do que uma vez.

Não por falta de interesse… mas porque o seu coração, teimoso e marcado, ainda não estava pronto para aceitar algo que parecia bom demais para ser verdade.

Valeria limitou-se a soltar um suspiro suave antes de se afastar, como se, com aquele simples gesto, fosse deixar para trás tudo o que acabara de acontecer, e, sem perder mais tempo, dirigiu-se para a sala de jogos, onde encontrou a Sofía e o Mateo completamente absortos no seu pequeno mundo, a rir, a discutir à vez e a celebrar cada vitória como se fosse a coisa mais importante do dia, e aquela cena, tão simples, conseguiu arrancar-lhe um sorriso sincero enquanto se aproximava para se certificar de que tudo estava em ordem.

Uma hora depois, já estavam a jantar; à mesa, tudo eram risos, pequenas queixas e conversas sem sentido aparente. Até que, fiéis à sua promessa, acabaram aconchegados no sofá com um filme e uma grande taça de pipocas que acabou mais no chão do que nas suas bocas.

Quando, finalmente, o cansaço começou a fazer-se sentir nos seus corpinho, levou-os à casa de banho, ajudando-os a despir-se entre risos sonolentos, mas foi nesse momento, enquanto ensaboava cuidadosamente os braços do Mateo e, depois, os da Sofia, que reparou em pequenos pontos avermelhados, como marcas recentes de picadas.

Quando lhes perguntou, o Mateo explicou com total naturalidade que, naquele dia, alguns médicos tinham ido à escola para lhes fazer um exame geral, e a Sofia confirmou a história com entusiasmo.

Isso tranquilizou-a, embora uma ligeira inquietação permanecesse no fundo da sua mente; assim que estiveram prontos, levou-os para os quartos, aconchegando primeiro a Sofia, que adormeceu quase imediatamente, e depois o Mateo, que insistiu em ouvir o seu conto favorito antes de fechar os olhos, escutando atentamente cada palavra até adormecer profundamente; só então é que a Valéria se permitiu regressar ao seu quarto, tomar um banho quente que levasse consigo o peso do dia e, finalmente, deixar-se cair na cama.

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