INICIAR SESIÓNQuando acordei naquela manhã de domingo, eu realmente senti que havia descansado. Foi a primeira noite desde o dia em que toda minha vida mudou, que minha mente pareceu finalmente relaxar.
Poderia culpar o álcool, mas a verdade é que no final da noite não existia mais nenhuma gota de álcool em minhas veias. Só as novas lembranças e perguntas que havia acabado de criar.
O sol já estava pintando forte no alto, quando decidi sair do meu anexo.
—Ayla, você está aqui?— a voz de Emma alcançou meus ouvidos logo que coloco os pés pra fora.
Sorri quando encontrei a garota vestida completamente de rosa, os cabelos partidos ao meio e a sua inseparável boneca ao lado.
—Pra onde você vai tão linda assim?— perguntei ao me aproximar.
—Vou sair com o papai.— Ela disse empolgada e no mesmo momento, aquela noticia me empolgou do mesmo jeito. —Achei que você não fosse ficar comigo hoje.
—Ah, não. Eu só passei a noite aqui, já estava saindo.— Expliquei.
A garota baixou os olhos no mesmo instante, parecia um pouco decepcionada e aquilo partiu meu coração.
—O que aconteceu, querida?— perguntei, me abaixando até ficar em sua altura.
—Eu... Eu só queria que você fosse com a gente.— Ela sussurra. —Porque sei que o papai não vai poder ficar conversando comigo como você iria.
Sorrio com o coração coberto de carinho, e um tanto doloroso por ela não entender que a personalidade do seu pai diverge da realidade do quanto ele se importava com ela.
—Emma, certamente o seu pai está muito feliz em passar um final de semana com você. Mesmo que seja com aquele jeito caladão dele.— fiz uma carinha emburrada, imitando a carranca que o seu pai sempre tinha em sua expressão e ela sorriu. —E se isso não fosse um programa de família, eu adoraria mesmo acompanhar você.
No mesmo instante em que termino de falar, as portas da mansão se abrem. Vejo quando sr. Baric... Juan. Agora eu sabia seu primeiro nome.
Quando Juan se coloca para fora de casa e seus olhos pousam nos meus. Meu coração acelera enquanto observo, pela primeira vez, ele vestindo outra cor além de preto. Seus braços estão agarrados por uma camisa curta e justa de uma cor do vinho mais intenso, e eu percebo então a tatuagem presente em seu antebraço, coisa que nunca havia notado antes.
—Emma, está pronta?— ele pergunta, ao perceber que eu estava feito uma estátua o encarando. —Senhorita Green.— Ele me cumprimenta curto e formalmente
Rapidamente tiro os meus olhos dele. Tudo bem, isso foi um pouco constrangedor.
—Sr. Barichello.— Respondo também formalmente, mesmo com a voz embargada.
Emma confirma ao seu pai que está pronta e eu começo a me despedir dela, quando ela de repente me surpreende ao perguntar:
—Papai, a Ayla pode ir com a gente?— sua voz está cheia de empolgação, quando eu volto a congelar no chão.
Juan me encara, a surpresa também o toma e eu vi o desconforto em sua expressão também.
—Emma, hoje é a folga da Ayla. Ela não pode sair conosco.— Ele explica, um tanto afetado, mas não me olha.
—Mas ela não liga, papai.— Emma insiste. —Não é, Ayla? Você disse que adoraria ir com a gente.
Engulo em seco. Claramente aquilo pareceu soar invasivo demais, e eu sinto meu rosto ficar vermelho. Antes que eu comece a gaguejar, Juan me encara:
—Você...— é tudo que ele fala.
—Não seria um problema pra mim.— Respondo ao entender a pergunta em seu olhar.
Ele solta uma grande quantidade ar. Não sabia se por alívio, exasperação ou simples tédio.
—Tudo bem. Ela vai.— Ele diz, por fim e vai direto em direção ao carro.
Emma e eu trocamos sorrisinhos cúmplices e ela segue saltitante, enquanto seguimos o seu pai até o carro. Mesmo que eu não fizesse a menor ideia de qual lugar eu estava indo.
***
Assim que o carro parou vinte minutos depois, e me dei conta de que estava em frente a uma outra mansão ainda mais sofisticada e maior do que a do meu chefe, eu travei bem ali. Havia diversos carros parados em frente à casa, o que me fez pensar que o que estava acontecendo ali era mil vezes maior que eu.
Acho que o sr. Barichello percebeu o desespero em meu rosto, porque explicou assim que saiu do carro:
—Estamos em um lunch que antecede o aniversário de uma priminha da Emma.
—Sua família está aqui?— perguntei, me sentindo ainda mais nervosa.
—Não a minha.— Ele disse simplesmente e pegando na mão da Emma, começa a seguir em frente.
Tudo bem... Minha respiração está ofegante quando me dei conta de que estava prestes a conhecer uma parte daquela história que estava desejando há muito tempo. A família da sua esposa certamente faria esclarecer muitas questões em minha cabeça.
—Juan, querido. Emma!— uma senhora baixinha e parecendo extremamente amorosa os cumprimenta calorosamente.
—Vovó!— Emma a abraça, animada. Eu sorrio observando toda aquela cena.
Eles seguem conversando em minha frente, enquanto olho ao meu redor e percebo a quantidade quase absurda de pessoas ali. Todas vestindo roupas e joias que separados valem mais que todo meu patrimônio.
—E quem é essa moça?— ouço em minha frente, percebendo que meu plano de invisibilidade não deu certo.
—Senhora Falcon, essa é a nova babá da Emma.— Sr. Barichello responde.
No mesmo instante, a mulher para em minha frente e me puxa para um abraço caloroso. A surpresa daquele ato me deixa sem reação e um tanto tímida.
—Obrigada, minha querida.— Ela diz, e seus olhos parecem marejados. —Desde que minha filha se foi, tudo que me restou de mais valor foi o fruto que ela deixou aqui. Cuide bem dela.
Eu engulo em seco, sentindo o peso e a emoção daquele momento.
—Darei o melhor de mim para o bem-estar e felicidade de sua neta.— Respondi honestamente.
Ela sorriu para mim e em seguida voltou sua atenção para o sr. Barichello.
—Cada dia que se passa, ela ainda está mais parecida com a Alison, não é?
No mesmo instante, vejo quando aquela áurea, a sombra coberta de amargura e raiva, cobre os olhos de Juan. Seu pensamento parece estar em qualquer lugar, menos ali. A sua dor era palpável e isso estranhamente doía em mim também.
—Com licença.— É tudo que ele diz ao se afastar e seguir até a varanda da casa.
Sua atitude um tanto rude não parece surpreender sua ex sogra. Ao contrário, ela apenas respira fundo.
—Elisa!— Emma grita de repente e corre pra brincar até perto de uma garotinha da sua idade.
Me vejo sozinha com a senhora Falcon e aquilo me deixa nervosa.
—Ele não era assim.— Ela diz de repente. —Juan era o menino mais caloroso e amoroso que conheci a vida inteira. E hoje ele só é mais distante e intocável que o sol.— Ela comenta, observando o mesmo local em que ele desapareceu.
—E ele ficou assim desde a morte da sua filha?— não me seguro a perguntar.
—Ah não, minha querida.— Ela me olha e me dá um sorriso tristonho. —Isso foi desde que ele teve o azar de ganhar na loteria. Alguns chamam de sorte, mas olhando tudo que isso fez com ele...
—Senhora Falcon, pode vir aqui um instante?— uma mulher a interrompe no meio da sua fala.
Ela apenas se desculpa e se afasta de mim. Tudo bem, tudo aquilo me deixou ainda mais curiosa, confusa. Juan havia ganhado na loteria? O dinheiro o mudou tanto assim? Porque a realidade é que eu não consigo imaginar aquela figura sendo calorosa e amorosa, me pergunto então o tanto de escuridão que deve tê-lo invadido.
Assim que fiquei sozinha naquele salão, corri dali o mais rápido possível e sai pelo mesmo lugar em que o sr. Barichello havia saído. Todo o espaço estava vazio, exceto pela figura do homem encostado no parapeito, com um cigarro entre os dedos.
Me atrevo a me aproximar.
—Não sabia que uma criança conheceria tanta gente.— Eu falo assim que paro ao seu lado, mas ele não sorri. —A Emma está brincando com outras crianças.
Ele não responde nada, apenas dá um trago em seu cigarro e solta a fumaça lentamente.
—Se você quiser ir embora, peço ao motorista que a leve.— É tudo que ele diz.
E eu já o conhecia um pouco para saber que aquilo era sua maneira sutil de me mandar ir embora e dizer que não precisava que eu estivesse ali. Mas também acredito que ele já me conhecia um pouco pra saber que eu não faria nada que eu não o quisesse.
—Esperarei a Emma.— Disse e ele voltou a ficar em silêncio.
Depois de alguns minutos, ele esticou o cigarro em minha direção, me oferecendo.
—Obrigada.— Neguei com a cabeça. —Mas existem outras maneiras mais rápidas de morrer.— Comentei, o repreendendo por aquele hábito.
Ele soltou uma lufada de ar que parecia com uma risada. Mas em seguida, apenas tragou mais um cigarro com todo o ar presente em seus pulmões.
—Mas o fim é sempre o mesmo, não é?— ele comenta em seguida.
Reviro os olhos, e meio que sorrio para o seu comentário depreciativo. Aquela pequena interação me dá abertura.
—Não sabia que tinha ganhado na loteria.— Eu digo e no mesmo instante vejo como todo seu corpo se retrai. —Essa era a única sorte que eu precisava ter na vida.—
Juan apenas olha fixamente em sua frente e balançando a cabeça lentamente fala:
—Você acha que o que eu tive foi sorte? Esse pequeno ato da minha vida, me amaldiçoou por completo. E eu jamais desejaria isso a você.
Aquela frase inteira me deixa sem fôlego. Estou confusa. Confusa sobre como aquilo amaldiçoou sua vida. E surpresa. Surpresa por ele parecer querer me proteger daquele final.
Estou prestes a continuar minhas séries de perguntas, quando somos interrompidos.
—Juan, finalmente te achei!— a voz aguda e um tanto enjoativa enche todo aquele lugar.
Bianca caminha em seus saltos altos em sua direção e passa os braços ao redor dos seus ombros. Estranhamente aquilo me deixou desconfortável e eu desvio os olhos no mesmo instante, o coração apertando.
—Você.— Ela fala acusadoramente quando me vê. —O que está fazendo aqui?
Engulo em seco, prevendo toda a tempestade que estava por vir.
Escrever esta história foi, para mim, muito mais do que simplesmente criar personagens e enredos. Foi uma verdadeira travessia, uma jornada profunda que me levou a lugares dentro de mim que eu nem sempre sabia que existiam. Cada página nasceu de um encontro íntimo com minhas próprias dores, ausências que ainda ecoam no silêncio dos meus dias, e amores que, de um jeito ou de outro, me sustentaram nos momentos em que a escrita parecia impossível, quando as palavras teimavam em fugir e o coração parecia pesado demais para continuar. Foi um processo de autoconhecimento, de enfrentamento e, acima de tudo, de entrega.Quando comecei a escrever, não tinha a menor ideia de onde essa história me levaria. Não sabia quais caminhos ela abriria, nem quais portas se fechariam ao longo do percurso. Tudo o que eu sabia era que precisava dar voz a mulheres que, tantas vezes, são silenciadas pela vida, pela sociedade, por suas próprias inseguranças. Mulheres como Ayla, Amanda, Alison, Andrea, Emma... C
Epílogo – Anos depoisO tempo não apaga. Ele ajeita, desloca, empurra as dores para cantos diferentes, como quem arruma um quarto sem nunca jogar fora de verdade o que machuca. Oito anos haviam passado desde o casamento no jardim da mansão reconstruída. Oito anos cheios de gritos infantis, brigas, reconciliações, aniversários cheios de bolo mal cortado e alguns silêncios que só o convívio traz.A mansão na estrada daquela ampla cidade agora parecia outra. As paredes, que carregavam as marcas da explosão, estavam cobertas por heras verdes, que cresciam sem pedir licença, como se a própria natureza tivesse decidido cuidar da família. O portão rangia ao abrir, e as crianças costumavam correr para fora antes mesmo do carro desligar.Juan e Ayla tinham agora dois filhos além de Emma: o pequeno Matteo, de oito, e Clara, de cinco. Emma, adolescente, passava horas trancada no quarto ouvindo música no fone, mas ainda buscava o colo de Ayla quando alguma decepção adolescente apertava o peito. J
O sábado começou abafado, como se o próprio céu estivesse inquieto, prestes a desabar em tempestade. Na cozinha da mansão, o barulho era constante: talheres batendo, panelas arrastadas, gente indo e vindo com caixas de flores, toalhas, garrafas de vinho. O ar cheirava a pão de queijo recém-saído do forno, misturado ao perfume doce das rosas que uma vizinha trouxera de presente. O som das vozes se misturava ao riso das crianças correndo pelos corredores, enquanto o bebê, embalado por Andrea, dormia tranquilo no carrinho.Ayla estava no quarto, diante do espelho, sentada numa cadeira baixa. O vestido pendurado na porta balançava levemente com a brisa que entrava da janela aberta. Não era um vestido de noiva tradicional, daqueles cheios de rendas e caudas enormes. Era simples, de tecido leve, quase bege, com bordados discretos na cintura. Ela havia escolhido assim porque não queria parecer outra pessoa, não queria se esconder atrás de nada. O bebê dormia no berço ao lado, a respiração cu
As semanas que se seguiram ao nascimento do bebê transformaram a casa num lugar onde o cansaço e a descoberta se misturavam em cada canto. Ayla mal conseguia distinguir manhã de noite; o relógio da sala, que antes marcava as horas com um som alto e constante, agora parecia zombar dela, marcando um tempo que não obedecia ao ritmo da maternidade. Aos poucos, porém, a poeira foi baixando. O bebê mamava melhor, Emma já não chorava escondida com medo de perder espaço, e Juan fazia o possível para manter a mansão viva e funcional enquanto a família se ajeitava.Era um domingo de sol. O cheiro de terra molhada ainda vinha das chuvas da madrugada, misturado ao aroma forte do café que Juan havia passado mais cedo. Ayla saiu do quarto com o bebê no colo, os pés descalços tocando o piso frio de mármore. Ele dormia pesado, o corpo mole, o rosto enfiado contra o peito dela. Emma estava sentada no tapete da sala, pintando com lápis de cor, a língua para fora num gesto concentrado que lembrava Juan
A casa não parecia mais a mesma desde que trouxeram o bebê. O silêncio confortável de antes havia sido substituído por um ciclo estranho de choros, passos apressados, portas se abrindo de madrugada e vozes sussurradas tentando não acordar Emma. Até o ar parecia outro, impregnado de leite morno, pomada para assaduras e aquele cheiro indefinível de recém-nascido, uma mistura de talco e suor doce que se entranhava nas roupas e nos cabelos.Ayla estava exausta. O corpo ainda doía do parto, cada músculo parecia reclamar quando ela se levantava da cama. Os pontos queimavam, a cabeça latejava por noites mal dormidas, e a sensação constante de cansaço parecia pesar mais que o próprio bebê no colo. Mas quando olhava para o pequeno, deitado no berço novo que Juan montara no quarto deles, sentia uma estranha força correr pelo peito, algo que a obrigava a seguir, mesmo quando tudo parecia desabar.Juan fazia o possível, mas não escondia o cansaço. Chegava no quarto de camiseta amarrotada, olhos v
O dia do parto chegou.Ayla já não sabia distinguir o que era dor física e o que era medo. O frio da sala de cirurgia misturava-se ao suor que escorria por sua testa, colando os cabelos à pele. O teto branco, com suas lâmpadas fortes, parecia distante, quase cruel. O cheiro de antisséptico invadia tudo, e cada vez que uma nova contração vinha, ela pensava que talvez não fosse aguentar.Juan estava ali, paramentado, máscara cobrindo metade do rosto, mas os olhos… os olhos estavam vermelhos, tensos, e não paravam de procurar os dela.— Eu tô aqui, Ayla, eu tô aqui — repetia, como se fosse um mantra.Mas nem sempre conseguia controlar a voz, que falhava. Ele não era de chorar, mas naquele momento não sabia o que fazer com a angústia que pesava no peito.O médico falava com calma, embora a pressa estivesse escondida na forma como suas mãos se moviam.— Precisamos acelerar. A pressão dela caiu, a gente tem que agir rápido.Ayla ouviu fragmentos. A anestesia deixava seu corpo meio fora de s







