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Observando

Autor: RR Floriano
last update Fecha de publicación: 2026-05-20 02:42:42

A noite avançou lenta, luxuosa e irritantemente quente.

Genebra inteira parecia coberta por ouro líquido sob os lustres do salão, enquanto políticos, colecionadores e predadores sociais circulavam como tubarões bem vestidos.

E no centro daquilo tudo…

Valentina Svanova.

Ela flutuava entre as pessoas com elegância calculada, tocava os braços no tempo exato, sorria sem realmente sorrir e escutava mais do que falava.

Perigosa.

Observei enquanto um empresário espanhol tentava prolongar uma conversa claramente unilateral e Valentina inclinou a cabeça, respondeu algo curto e elegante o suficiente para não soar ofensivo… e saiu antes que ele percebesse que tinha sido dispensado.

Dois minutos depois, um magnata suíço tentou a mesma sorte e fracassou também.

Quase senti pena, mas tinha outra sensação que eu não quis nomear 

— Você está olhando para ela há vinte minutos.

Becker murmurou no ponto eletrônico. 

— Isso está começando a parecer pessoal.

Ignorei.

Meus olhos encontraram os dela novamente do outro lado do salão, era irritante a frequência com que aquilo estava acontecendo, é como se ambos estivessem presos num tipo silencioso de vigilância mútua.

Ela sempre desviava primeiro e depois voltava, eu fazia exatamente a mesma coisa.

Inaceitável, nada profissional.

Peguei outro whisky tentando reorganizar a própria mente, não era difícil manter controle normalmente, passei anos infiltrado, e isso havia transformado disciplina em reflexo.

Mas Valentina provocava um tipo específico de instabilidade, ela não tentava seduzir diretamente e talvez fosse exatamente isso que a tornava tão difícil de ignorar.

— Dante.

Becker insistiu. 

— Percebemos movimentação suspeita próxima à ala leste. Foque na operação, se concentre.

Certo.

Voltei a procurá-la imediatamente.

Patético.

Encontrei Valentina próxima ao bar lateral, conversando com um banqueiro francês conhecido por lavar dinheiro para metade da elite europeia. Henri Beaumont.

Excelente.

Ela entregou discretamente um cartão para ele, meu corpo inteiro ficou alerta.

Beaumont sorriu daquele jeito viscoso que homens ricos utilizam quando acreditam que têm poder sobre uma mulher.

Valentina sustentou o olhar dele por dois segundos e depois se afastou com uma calma elegante que dava a impressão de que ela era intocável.

E foi exatamente nesse momento que alguma coisa dentro de mim saiu perigosamente do controle.

Porque eu não queria apenas descobrir o que havia naquele cartão, e sim queria saber para onde ela iria depois.

Com quem e por quê, e se aquele vestido continuaria existindo no final da noite.

Merda.

— Não faça isso.

Becker avisou imediatamente, como se pudesse ouvir meus pensamentos. 

— Você está se deixando envolver pela beleza dela.

Desliguei o ponto eletrônico, ficou um silêncio e uma paz instantânea.

Eu sabia que talvez o que eu estava fazendo era suicídio profissional, mas meu instinto me dizia para seguir em frente.

Vi Valentina atravessar o corredor lateral em direção à varanda externa do hotel, a música do salão ficou distante enquanto eu a seguia entre colunas de mármore e cortinas de veludo escuro.

Ela parou perto da sacada, a chuva fina de Genebra transformava as luzes da cidade em borrões dourados abaixo de nós.

Valentina apoiou uma mão na varanda sem olhar para trás.

— Achei que os agentes federais eram mais discretos.

Parei a poucos passos dela.

— E eu achei que curadores de arte evitassem banqueiros investigados internacionalmente.

Ela virou finalmente o rosto, o vento frio bagunçou algumas mechas escuras do cabelo dela, mas seus olhos permaneciam perigosamente tranquilos.

— Talvez eu goste de homens perigosos.

— Beaumont não é perigoso, é só um rico esnobe.

O canto da boca dela subiu devagar.

— E você?

— Ainda estou decidindo.

Ela riu baixo, não alto e nem teatral, só interessada.

E o pior foi que aquele som atravessou meu corpo de um jeito absurdamente físico.

Cristo.

Valentina se aproximou um passo, chegou perto demais.

O perfume dela misturava jasmim e alguma coisa mais escura que eu não consegui identificar imediatamente. 

Algo quente e viciante.

— Você me segue com frequência, senhor Dante?

— Só quando a mulher em questão entrega cartões suspeitos para criminosos financeiros.

— Ciúme profissional?

— Investigação.

— Que palavra sem graça.

Os olhos dela desceram lentamente para minha boca antes de voltarem aos meus, o movimento foi pequeno, mas suficiente para incendiar cada instinto ruim dentro de mim.

Eu deveria interrogá-la, pressioná-la e descobrir qual a parte dela nessa história toda.

Em vez disso, só conseguia imaginar o gosto daquela boca insolente. Valentina inclinou levemente a cabeça.

— Você está tentando decidir se me prende ou se me beija?

Soltei uma respiração baixa.

— Estou tentando lembrar qual das duas opções é mais perigosa.

Mantive o olhar preso no dela e meu cérebro dizia se afaste e meu corpo dizia beije.

Então, o telefone dela vibrou. Valentina olhou rapidamente para a tela e, pela primeira vez naquela noite…

A máscara dela vacilou, foi só um segundo, mas o suficiente para eu perceber.

Ela ficou com receio.

Bloqueou a tela imediatamente e guardou o celular.

— Problemas?

Perguntei.

Ela sustentou meu olhar por um segundo longo demais.

— Sempre.

Valentina olhou pela varanda no instante em que um táxi preto estacionou diante da entrada principal do hotel.

O reflexo dourado das luzes de Genebra atravessava a chuva fina enquanto ela parecia calcular mentalmente tempo, distância e saída, sempre calculando riscos.

Ela deu meio passo para frente, então Henri Beaumont surgiu atrás dela como um abutre usando perfume francês caro.

— Minha querida, você não precisa de um táxi, eu a levo até seu hotel.

Meu maxilar travou imediatamente, Beaumont sorriu daquele jeito oleoso que me fazia querer cometer crimes internacionais sem autorização da Interpol.

Valentina virou lentamente para ele e, por um segundo, achei que ela recusaria com elegância. Ao invés disso, ela olhou diretamente para mim e segurou meu braço.

O toque atravessou meu corpo inteiro de maneira absurdamente inconveniente.

— Mas aquele táxi não é meu.

Disse com a voz suave e com um sorriso delicado nos lábios, terminou.

— O senhor Dante já havia me oferecido uma carona.

Eu não havia oferecido, ainda, mas não movi um músculo para contrariá-la.

O banqueiro soltou uma risada curta.

— Um bilionário sempre consegue o prêmio maior.

Os dedos dela apertaram levemente meu braço, um gesto pequeno com um efeito devastador.

Valentina abriu um sorriso debochado e perigoso.

— Pois é… a vida é assim.

Cristo.

Meu corpo reagiu instantaneamente à proximidade dela, o calor da mão delicada sobre meu braço parecia ridiculamente perceptível através do tecido do paletó.

Patético.

Anos trabalhando infiltrado em organizações criminosas, tiros, perseguições e interrogatórios.

E agora, uma mulher tocando meu braço estava transformando meu cérebro em sopa italiana premium, mantive a expressão neutra com esforço profissional.

— Beaumont 

Falei calmamente. 

— Foi um prazer, mas acho que já terminamos por hoje.

O francês percebeu o aviso escondido no tom, os olhos dele deslizaram entre minha pessoa e Valentina antes de surgir um sorriso resignado.

— Claro. Não vou atrapalhar a sua noite, divirtam-se.

Interessante como aquelas palavras provocaram algo perigosamente possessivo dentro de mim.

Beaumont finalmente se afastou pelo corredor principal, esperei até ele desaparecer completamente antes de olhar para Valentina.

Ela ainda segurava meu braço, como se tivesse esquecido ou talvez não tivesse.

— Você usa homens aleatórios com frequência para escapar de banqueiros inconvenientes? 

Perguntei com um sorriso de lado nos lábios.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Só os úteis.

— Fico honrado.

— Não fique, ainda estou tentando entender se confio em você ou se te odeio.

A chuva aumentava lá fora, desenhando rios transparentes nos vidros da varanda. O salão atrás de nós continuava cheio de risos caros e conversas falsas, mas ali, naquele pequeno espaço entre mármore e sombras, parecia existir apenas nós e uma tensão que crescia.

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