INICIAR SESIÓNAprendi cedo que pessoas culpadas revelam mais pelos silêncios do que pelas palavras.
Foi assim que encontrei políticos corruptos, negociadores ilegais, traficantes de armas e um ministro alemão que suava toda vez que alguém mencionava vinho francês. Valentina Svanova não suava, não tremia e esse era o problema. Do outro lado do salão do Grand Hôtel Lumière, ela observava a festa como quem analisa um campo minado elegante, não bebia o champanhe que segurava, nem demonstrava deslumbramento e não buscava atenção. Ela calculava rotas, pessoas, distâncias e possíveis riscos. Ela tinha treinamento e disciplina. A Interpol vinha monitorando seu nome havia meses. A curadora de arte renomada, especialista em peças raras, recebia convites impossíveis de conseguir, era presença frequente demais em negociações que terminaram com obras desaparecidas e milionários mortos. Bonita coincidência? O dossiê dela era limpo demais e dossiês limpos geralmente escondem coisas grandes. Meu ponto eletrônico vibrou discretamente, levei o copo aos lábios sem mover a boca. — O alvo chegou há sete minutos. Informou Becker do outro lado da linha. — Confirma identificação? Observei Valentina virar levemente diante de uma pintura barroca e o reflexo do vidro denunciava o que ela realmente fazia: Vigilância periférica, ela já tinha identificado as saídas e cada pessoa que se encontrava no salão. Interessante. — Confirmado. Murmurei. — Ela está limpa visualmente, nenhuma arma aparente. Becker soltou um ruído baixo. — Aproximação autorizada, precisamos saber se ela veio pela jóia e quem a contratou. Claro que veio, ou o que Valentina Svanova estaria fazendo naquela sala sem um motivo? A questão era: ela trabalhava para alguém maior, e quem seria essa pessoa? “Coração de Vênus” Não atraía ladrões comuns, a joia havia começado guerras silenciosas entre pessoas ricas demais para aparecer nos jornais. E agora a ladra mais procurada do mundo das artes estava ali, a poucos metros de mim. Usando um vestido preto que parecia ter sido desenhado especificamente para destruir a concentração masculina. Ignorei o pensamento imediatamente, mas um segundo antes fiz uma varredura estratégica dos pés à cabeça. O controle emocional não era opcional no meu trabalho, e sim sobrevivência. Então, ela ergueu os olhos e olhou direto nos meus. Merda. A maioria das pessoas desvia quando percebe a vigilância, alguns fingem não notar e outros demonstram nervosismo. Valentina não. Ela sustentou o olhar como quem dizia: vi você primeiro. Senti meu corpo reagir num nível irritantemente instintivo. Não era desejo, aquilo não poderia acontecer, era alerta. Pelo menos foi assim que decidi chamar. Ergui o copo discretamente em sua direção, ela não respondeu. Excelente. Mulheres impressionáveis me entediam, atravessei o salão sem pressa, observando cada microexpressão dela conforme eu me aproximava. A postura permaneceu elegante, a respiração controlada e as mãos estáveis. Mas os olhos… Os olhos dela me avaliavam como uma ameaça. Finalmente, alguém inteligente naquela noite, parei ao seu lado. — Você está analisando as pinceladas ou procurando rotas de fuga? A resposta veio imediatamente. — Isso depende, você costuma encurralar mulheres em eventos beneficentes? Por um momento, quase sorri. Becker estava certo, ela era boa. Muito boa. A troca seguinte confirmou minhas suspeitas, Valentina mentia com naturalidade refinada demais para ser civil comum, cada resposta dela escondia outra pergunta e cada sorriso parecia estrategicamente calculado. E ainda assim… Algo começou a sair do eixo perigosamente rápido. Talvez fosse o jeito como ela me observava sem submissão, ou a inteligência afiada escondida sob aquela voz calma, talvez o fato de ela parecer tão perigosamente confortável perto do risco. Fazia tempo que ninguém despertava minha atenção daquele jeito. Muito tempo mesmo. — Você aborda todas as mulheres desse jeito? Ela perguntou. — Só as que observam câmeras antes de observar pinturas. A mínima alteração em sua pulsação apareceu no pescoço. Achei. Por um segundo, senti satisfação profissional, mas no segundo seguinte, meu olhar desceu involuntariamente para a boca pintada com um batom vermelho provocante. Erro… daqueles bem graves. Afastei o pensamento antes que ganhasse forma. Ela era uma suspeita, possivelmente criminosa e provavelmente ligada à organização que eu estava investigando havia quase um ano. Dormir com ela seria estupidez, desejá-la já era um problema. O ponto deu um bip agudo em meu ouvido. Mensagem de Becker. — Não perca tempo tentando seduzir nossa presa, descubra o que ela sabe e algo para podermos acusá-la. Continuei olhando para Valentina, ela inclinou levemente a cabeça, só esperando, talvez me testando e sim, me provocando. Cristo. A operação inteira acabaria num incêndio se aquela mulher continuasse me olhando daquele jeito. — Não me disse seu nome. Falei, tentando continuar um assunto normal. — Valentina Svanova, curadora da galeria. Eu sabia que uma parte era mentira, conseguia sentir a mudança no tom de voz dela, mas era bonita o suficiente para soar convincente. Estendi a mão. — Dante Valenti, bilionário excêntrico. Quando os dedos dela tocaram os meus, percebi duas coisas imediatamente: A primeira: Valentina estava acostumada com armas, porque já tinha percebido a minha e não se assustou. A segunda: era infinitamente pior. Eu deveria me afastar dela, imediatamente, só tinha um problema: meu corpo inteiro parecia disposto a fazer exatamente o contrário.E no Brasil, Alice continua em sua crise de identidade.Entrei na sala estressada com o calor e com os meninos deste país, eu vou acabar uma tia solteirona e, ao invés de possuir muitos gatos, vou ter galinhas.—Vou morrer solteira, não tem jeito.Lúcia deve ter me escutado e veio até a sala. Minha mãe parece que se acostumou com meus ataques, nem levantou a cabeça do computador.— O que aconteceu agora?— Ela decidiu que vai morrer solteira, fora o assunto de outro dia que aparentemente alguém não vai conseguir achá-la.— Com dezessete anos? E quem não vai te achar, Alice?— Exatamente.Apontei para as duas.— Finalmente alguém entendeu a gravidade da situação e já disse que ninguém, foi só um momento de loucura.Minha mãe soltou o ar pelo nariz.— Tem vários garotos legais por aqui.— Claro.Levantei um dedo.— O filho do dono da quitanda.— O Paulo é um bom menino.— Mãe.Olhei profundamente ofendida.— O Paulo arrota e acha isso engraçado.Lúcia quase engasgou tentando não rir.Co
DanteCheguei de volta a Veneza e fui direto para o escritório da Interpol, isso já está virando rotina.Junto comigo trouxe o relógio adulterado e a página do livro onde MM deixou sua mensagem.Agora é descobrir a outra parte da história para entender o que Marcelo planeja.Ele me trouxe de volta por algum motivo, penso que sei, vamos ver se estou certo.Entrei na sala de Becker e coloquei a pasta com o material em cima da mesa.Ergui a cabeça e Becker estava me encarando.Você vai mesmo voltar?Suponho que não tenho escolha, Marcelo deixou um recado direcionado exatamente a mim.E o que você julga que ele quer com você?Ele quer me manter longe da Valentina. Talvez julgue que assim a está protegendo. Becker parou, sei que esse olhar dele significa que acertei, mas que tem algo mais.Então, já que você voltou, agora posso te contar o que sumiu.Invadiram o prédio? Roubaram algo físico?Não. Nosso ladrão é mais tecnológico. Ele invadiu nosso sistema, passando por todos os sistemas de
DanteCheguei a Paris no final da tarde.O frio da cidade parecia civilizado depois do calor brasileiro.Não que o frio seja agradável.Mas civilizado.Um carro me aguardava no aeroporto e, meia hora depois, eu estava diante do prédio onde aconteceria o leilão.Monalisa já me esperava na entrada.Loira.Olhos azuis.Elegante.Sorriso fácil.O tipo de mulher que, alguns anos atrás, provavelmente teria conseguido me convencer a cancelar compromissos importantes.Ou pelo menos a chegar atrasado.— Senhor Valenti.— Senhorita.Ela sorriu.— É um prazer finalmente conhecê-lo.Assenti educadamente.Bonita.Muito bonita.Mas não era Valentina e, ultimamente, esse detalhe parecia eliminar noventa e nove por cento da população feminina do planeta.Monalisa me conduziu pelos corredores do edifício.— A peça está na sala de avaliação.— Ótimo.— Ficamos muito felizes quando soubemos que o senhor viria pessoalmente.Menti.— Eu também vou gostar se o relógio for realmente meu.Ela riu.— Justo.E
DanteVoltar para Veneza deveria ser estranho.Mas quando saí do avião e o frio atingiu meu rosto, senti um alívio quase constrangedor.Neve de verdade.Nada de sol assassino, nem de trinta graus na sombra e nada de caminhar duzentos metros e sentir que estava sendo lentamente cozido.Sorri sozinho.Provavelmente como um idiota.Mas, após uma semana no interior do Brasil, aquele frio parecia um abraço, entrei no carro enviado pela empresa e segui direto para a sede da Interpol.Não passei em casa, nem fui ao escritório ou parei para trocar de roupa.Queria ver o relógio.Precisava vê-lo, porque uma parte de mim ainda acreditava que aquilo poderia ser algum erro.Alguma falsificação ou coincidência absurda.Quando entrei no prédio da Interpol, percebi algo curioso.Ninguém me parou, nem questionou minha presença ou sequer pareceu lembrar que eu havia solicitado desligamento meses atrás.Alguns agentes apenas acenaram, outros me cumprimentaram e um deles chegou a perguntar quando eu vol
Alguns dias antes do passeio no shopping.AliceExiste uma quantidade limitada de emoção que uma pessoa consegue suportar e aparentemente a minha cota acabou quando saímos de Veneza.Porque viver numa fazenda no interior de São Paulo era exatamente tão emocionante quanto assistir tinta secar.Talvez menos.Pelo menos a tinta muda de cor.A vaca da frente da nossa casa não, ela simplesmente existe, todos os dias fica parada no mesmo lugar me encarando.Como se tivesse algum problema pessoal comigo.Cruzei os braços na varanda.Ela mastigou.Continuei encarando.Ela mastigou de novo.Tenho a impressão de que estávamos numa disputa psicológica e claro que eu estava perdendo.— Mãe!Gritei para o interior da casa.— Essa vaca está me julgando!A voz dela veio da cozinha.— Ela é uma vaca, Alice.— Exatamente.— Isso não faz sentido.— Você claramente não conhece aquela vaca.Ela não respondeu e isso foi covardia. Entrei novamente na cozinha e minha mãe estava sentada diante do notebook, o
DanteJá fazia uma semana.Sete dias inteiros.Sete dias de calor, de pesquisas.E sete dias dirigindo por estradas que pareciam levar a lugar nenhum e tudo isso sem encontrar absolutamente nada.Encostei a cabeça na cadeira do carro e observei o estacionamento do shopping pela terceira vez naquele dia.Nada.Nem Alice, nem Valentina e nem sequer uma caminhonete carregada de fruta do dragão.Como se as duas tivessem evaporado depois daquele encontro.Ou quase encontro.Passei a mão pelo rosto, se eu não as tivesse visto com meus próprios olhos, começaria a acreditar que tinha imaginado tudo.Talvez uma insolação particularmente agressiva.Ou talvez o calor finalmente tivesse cozinhado meu cérebro.Mas não.Eu as havia visto.Natasha e Valentina estavam aqui e respirando o mesmo ar que eu.Andando pelas mesmas ruas, mas de alguma forma continuavam invisíveis.Suspirei e saí do carro.Nos últimos sete dias, eu havia visitado todas as lanchonetes do shopping.Todas.Sem exceção.As espec







