INICIAR SESIÓN
Genebra brilhava como uma mulher perigosa naquela noite, linda o suficiente para distrair e fria o suficiente para matar.
A chuva fina deixava as ruas espelhadas do lado de fora do Grand Hôtel Lumière, enquanto homens milionários e mulheres envoltas em seda desfilavam pelo salão principal fingindo estarem ali pela caridade. Ninguém doa milhões por bondade, doam por influência, culpa ou lavagem de dinheiro, muitas das vezes os três. Entreguei meu convite ao segurança da entrada com um sorriso discreto, ele verificou meu nome na lista e mudou imediatamente de postura. O nome Valentina Svanova abria portas, meu verdadeiro nome, não. Atravessei o salão sentindo o peso familiar da vigilância deslizar pela pele, não precisei olhar diretamente para identificar: Quatro seguranças armados; duas câmeras móveis; uma saída de serviço atrás das esculturas renascentistas; e um homem bêbado prestes a tropeçar numa peça avaliada em quase meio milhão de euros. Elegância é só caos usando perfume caro, peguei uma taça de champanhe com um garçom e continuei andando devagar, observando os quadros expostos sob a iluminação dourada. O “Coração de Vênus” ainda não havia aparecido, claro que não! Uma joia daquela magnitude não seria exibida assim tão rápido. Primeiro, eles atraem os tubarões e depois jogam a isca na água. Meu telefone vibrou discretamente dentro da clutch, não peguei. Se a DRT estivesse impaciente, deveriam ter recrutado outra pessoa, tenho meu método de agir e não vou mudar por causa de um bando de engravatados que acham que mandam em mim. Parei diante de uma pintura barroca apenas para utilizar o reflexo do vidro como apoio visual. Um casal discutia próximo à escadaria e dois homens trocavam envelopes perto do bar. Um político francês sorria para fotógrafos como quem nunca havia cometido crimes financeiros na vida. Amador. Então senti aquela sensação que minha filha chama de sentido aranha. O instinto frio de quem percebe estar sendo observado por outro alguém treinado, ergui os olhos lentamente para o outro lado do salão e o encontrei. Terno preto impecável, a postura relaxada demais para o ambiente mantinha uma das mãos no bolso e a outra segurando um whisky. Os olhos escuros estavam fixos em mim, não em meu vestido, nem em meu corpo. Em mim. Aqueles olhos analíticos, precisos e muito perigosos, meu primeiro pensamento foi simples: Interpol. Meu segundo pensamento foi pior: problema. Ele ergueu levemente o copo em minha direção, não sorri de volta, mas também não abaixei a cabeça. Homens confiantes demais normalmente escondem alguma coisa e homens calmos demais escondem corpos, de qual será a categoria deste? Meu instinto me diz que, até o final da noite, vou descobrir. Voltei a olhar a pintura como se não tivesse notado a presença dele. Três segundos depois, uma voz grave surgiu ao meu lado. — Você está analisando as pinceladas ou procurando rotas de fuga? Mantive os olhos na tela. — Isso depende, você costuma encurralar mulheres em eventos beneficentes? — Só as suspeitas. Virei o rosto devagar e constatei que, de perto, ele era ainda mais perigoso. Bonito, elegante, mordaz e, infelizmente, o tipo de homem que parecia pertencer naturalmente a ambientes caros e provocar minhas decisões ruins. —Pareço suspeita? — Você parece atenta, existe uma pequena diferença. A voz dele era controlada, precisa e cada palavra parecia escolhida antes de sair. Observei discretamente sua aliança inexistente, o relógio absurdamente caro e a leve marca sob o punho esquerdo. Uma arma. Muito interessante. — Imagino que você seja do tipo que acha tudo e todos suspeitos. — Profissão ruim para confiar nas pessoas. Aquilo fez meu estômago apertar por um segundo. Profissão. Então ele estava testando terreno e resolvi jogar também. — E qual é sua profissão? — Investimentos e muito interessado em itens raros. — Não me parece só isso. — Curadora de arte. — Também não parece só isso. Finalmente sorri, um sorriso contido, mas eu não consegui controlar, ele está mexendo com meus nervos. Os olhos dele escureceram quase imperceptivelmente ao perceber. Ah! Então era assim que ele queria brincar. — Você aborda todas as mulheres desse jeito? — Só as que observam câmeras antes de observar pinturas. Droga. Mantive a expressão neutra, mas minha pulsação desacelerou daquele jeito específico que antecede perigo real. Ele havia notado, não era um milionário entediado, era treinado. — Talvez eu só seja cuidadosa. — Talvez eu também. A orquestra tocava baixo ao fundo, taças tilintavam e lances milionários começavam próximos ao palco principal. Ainda assim, parecia que o salão inteiro tinha desaparecido, restávamos apenas nós naquele jogo silencioso. — Não me disse seu nome. Ele comentou. Inclinei levemente a cabeça. — Valentina Svanova, curadora da galeria. Ele repetiu mentalmente, vi no olhar, guardando, catalogando e arquivando. Então estendeu a mão. — Dante Valenti. O toque foi firme, quente e perigoso demais. E naquele instante, tive absoluta certeza de uma coisa: Conhecer Dante Valenti seria um erro colossal. O problema? Meu corpo inteiro já parecia disposto a cometer esse erro assim mesmo.E no Brasil, Alice continua em sua crise de identidade.Entrei na sala estressada com o calor e com os meninos deste país, eu vou acabar uma tia solteirona e, ao invés de possuir muitos gatos, vou ter galinhas.—Vou morrer solteira, não tem jeito.Lúcia deve ter me escutado e veio até a sala. Minha mãe parece que se acostumou com meus ataques, nem levantou a cabeça do computador.— O que aconteceu agora?— Ela decidiu que vai morrer solteira, fora o assunto de outro dia que aparentemente alguém não vai conseguir achá-la.— Com dezessete anos? E quem não vai te achar, Alice?— Exatamente.Apontei para as duas.— Finalmente alguém entendeu a gravidade da situação e já disse que ninguém, foi só um momento de loucura.Minha mãe soltou o ar pelo nariz.— Tem vários garotos legais por aqui.— Claro.Levantei um dedo.— O filho do dono da quitanda.— O Paulo é um bom menino.— Mãe.Olhei profundamente ofendida.— O Paulo arrota e acha isso engraçado.Lúcia quase engasgou tentando não rir.Co
DanteCheguei de volta a Veneza e fui direto para o escritório da Interpol, isso já está virando rotina.Junto comigo trouxe o relógio adulterado e a página do livro onde MM deixou sua mensagem.Agora é descobrir a outra parte da história para entender o que Marcelo planeja.Ele me trouxe de volta por algum motivo, penso que sei, vamos ver se estou certo.Entrei na sala de Becker e coloquei a pasta com o material em cima da mesa.Ergui a cabeça e Becker estava me encarando.Você vai mesmo voltar?Suponho que não tenho escolha, Marcelo deixou um recado direcionado exatamente a mim.E o que você julga que ele quer com você?Ele quer me manter longe da Valentina. Talvez julgue que assim a está protegendo. Becker parou, sei que esse olhar dele significa que acertei, mas que tem algo mais.Então, já que você voltou, agora posso te contar o que sumiu.Invadiram o prédio? Roubaram algo físico?Não. Nosso ladrão é mais tecnológico. Ele invadiu nosso sistema, passando por todos os sistemas de
DanteCheguei a Paris no final da tarde.O frio da cidade parecia civilizado depois do calor brasileiro.Não que o frio seja agradável.Mas civilizado.Um carro me aguardava no aeroporto e, meia hora depois, eu estava diante do prédio onde aconteceria o leilão.Monalisa já me esperava na entrada.Loira.Olhos azuis.Elegante.Sorriso fácil.O tipo de mulher que, alguns anos atrás, provavelmente teria conseguido me convencer a cancelar compromissos importantes.Ou pelo menos a chegar atrasado.— Senhor Valenti.— Senhorita.Ela sorriu.— É um prazer finalmente conhecê-lo.Assenti educadamente.Bonita.Muito bonita.Mas não era Valentina e, ultimamente, esse detalhe parecia eliminar noventa e nove por cento da população feminina do planeta.Monalisa me conduziu pelos corredores do edifício.— A peça está na sala de avaliação.— Ótimo.— Ficamos muito felizes quando soubemos que o senhor viria pessoalmente.Menti.— Eu também vou gostar se o relógio for realmente meu.Ela riu.— Justo.E
DanteVoltar para Veneza deveria ser estranho.Mas quando saí do avião e o frio atingiu meu rosto, senti um alívio quase constrangedor.Neve de verdade.Nada de sol assassino, nem de trinta graus na sombra e nada de caminhar duzentos metros e sentir que estava sendo lentamente cozido.Sorri sozinho.Provavelmente como um idiota.Mas, após uma semana no interior do Brasil, aquele frio parecia um abraço, entrei no carro enviado pela empresa e segui direto para a sede da Interpol.Não passei em casa, nem fui ao escritório ou parei para trocar de roupa.Queria ver o relógio.Precisava vê-lo, porque uma parte de mim ainda acreditava que aquilo poderia ser algum erro.Alguma falsificação ou coincidência absurda.Quando entrei no prédio da Interpol, percebi algo curioso.Ninguém me parou, nem questionou minha presença ou sequer pareceu lembrar que eu havia solicitado desligamento meses atrás.Alguns agentes apenas acenaram, outros me cumprimentaram e um deles chegou a perguntar quando eu vol
Alguns dias antes do passeio no shopping.AliceExiste uma quantidade limitada de emoção que uma pessoa consegue suportar e aparentemente a minha cota acabou quando saímos de Veneza.Porque viver numa fazenda no interior de São Paulo era exatamente tão emocionante quanto assistir tinta secar.Talvez menos.Pelo menos a tinta muda de cor.A vaca da frente da nossa casa não, ela simplesmente existe, todos os dias fica parada no mesmo lugar me encarando.Como se tivesse algum problema pessoal comigo.Cruzei os braços na varanda.Ela mastigou.Continuei encarando.Ela mastigou de novo.Tenho a impressão de que estávamos numa disputa psicológica e claro que eu estava perdendo.— Mãe!Gritei para o interior da casa.— Essa vaca está me julgando!A voz dela veio da cozinha.— Ela é uma vaca, Alice.— Exatamente.— Isso não faz sentido.— Você claramente não conhece aquela vaca.Ela não respondeu e isso foi covardia. Entrei novamente na cozinha e minha mãe estava sentada diante do notebook, o
DanteJá fazia uma semana.Sete dias inteiros.Sete dias de calor, de pesquisas.E sete dias dirigindo por estradas que pareciam levar a lugar nenhum e tudo isso sem encontrar absolutamente nada.Encostei a cabeça na cadeira do carro e observei o estacionamento do shopping pela terceira vez naquele dia.Nada.Nem Alice, nem Valentina e nem sequer uma caminhonete carregada de fruta do dragão.Como se as duas tivessem evaporado depois daquele encontro.Ou quase encontro.Passei a mão pelo rosto, se eu não as tivesse visto com meus próprios olhos, começaria a acreditar que tinha imaginado tudo.Talvez uma insolação particularmente agressiva.Ou talvez o calor finalmente tivesse cozinhado meu cérebro.Mas não.Eu as havia visto.Natasha e Valentina estavam aqui e respirando o mesmo ar que eu.Andando pelas mesmas ruas, mas de alguma forma continuavam invisíveis.Suspirei e saí do carro.Nos últimos sete dias, eu havia visitado todas as lanchonetes do shopping.Todas.Sem exceção.As espec







