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O bilionário e a ladra
O bilionário e a ladra
Author: RR Floriano

Uma noite de mudanças

Author: RR Floriano
last update publish date: 2026-05-20 02:36:22

Genebra brilhava como uma mulher perigosa naquela noite, linda o suficiente para distrair e fria o suficiente para matar.

A chuva fina deixava as ruas espelhadas do lado de fora do Grand Hôtel Lumière, enquanto homens milionários e mulheres envoltas em seda desfilavam pelo salão principal fingindo estarem ali pela caridade. 

Ninguém doa milhões por bondade, doam por influência, culpa ou lavagem de dinheiro, muitas das vezes os três.

Entreguei meu convite ao segurança da entrada com um sorriso discreto, ele verificou meu nome na lista e mudou imediatamente de postura.

O nome Valentina Svanova abria portas, meu verdadeiro nome, não.

Atravessei o salão sentindo o peso familiar da vigilância deslizar pela pele, não precisei olhar diretamente para identificar: 

Quatro seguranças armados; duas câmeras móveis; uma saída de serviço atrás das esculturas renascentistas; e um homem bêbado prestes a tropeçar numa peça avaliada em quase meio milhão de euros.

Elegância é só caos usando perfume caro, peguei uma taça de champanhe com um garçom e continuei andando devagar, observando os quadros expostos sob a iluminação dourada. 

O “Coração de Vênus” ainda não havia aparecido, claro que não!

Uma joia daquela magnitude não seria exibida assim tão rápido.

Primeiro, eles atraem os tubarões e depois jogam a isca na água.

Meu telefone vibrou discretamente dentro da clutch, não peguei.

Se a DRT estivesse impaciente, deveriam ter recrutado outra pessoa, tenho meu método de agir e não vou mudar por causa de um bando de engravatados que acham que mandam em mim.

Parei diante de uma pintura barroca apenas para utilizar o reflexo do vidro como apoio visual. 

Um casal discutia próximo à escadaria e dois homens trocavam envelopes perto do bar. 

Um político francês sorria para fotógrafos como quem nunca havia cometido crimes financeiros na vida.

Amador.

Então senti aquela sensação que minha filha chama de sentido aranha.

O instinto frio de quem percebe estar sendo observado por outro alguém treinado, ergui os olhos lentamente para o outro lado do salão e o encontrei.

Terno preto impecável, a postura relaxada demais para o ambiente mantinha uma das mãos no bolso e a outra segurando um whisky.

Os olhos escuros estavam fixos em mim, não em meu vestido, nem em meu corpo.

Em mim.

Aqueles olhos analíticos, precisos e muito perigosos, meu primeiro pensamento foi simples: Interpol.

Meu segundo pensamento foi pior: problema.

Ele ergueu levemente o copo em minha direção, não sorri de volta, mas também não abaixei a cabeça.

Homens confiantes demais normalmente escondem alguma coisa e homens calmos demais escondem corpos, de qual será a categoria deste? Meu instinto me diz que, até o final da noite, vou descobrir.

Voltei a olhar a pintura como se não tivesse notado a presença dele. Três segundos depois, uma voz grave surgiu ao meu lado.

— Você está analisando as pinceladas ou procurando rotas de fuga?

Mantive os olhos na tela.

— Isso depende, você costuma encurralar mulheres em eventos beneficentes?

— Só as suspeitas.

Virei o rosto devagar e constatei que, de perto, ele era ainda mais perigoso.

Bonito, elegante, mordaz e, infelizmente, o tipo de homem que parecia pertencer naturalmente a ambientes caros e provocar minhas decisões ruins.

—Pareço suspeita?

— Você parece atenta, existe uma pequena diferença.

A voz dele era controlada, precisa e cada palavra parecia escolhida antes de sair.

Observei discretamente sua aliança inexistente, o relógio absurdamente caro e a leve marca sob o punho esquerdo.

Uma arma.

Muito interessante.

— Imagino que você seja do tipo que acha tudo e todos suspeitos.

— Profissão ruim para confiar nas pessoas.

Aquilo fez meu estômago apertar por um segundo.

Profissão.

Então ele estava testando terreno e resolvi jogar também.

— E qual é sua profissão?

— Investimentos e muito interessado em itens raros.

— Não me parece só isso.

— Curadora de arte.

— Também não parece só isso.

Finalmente sorri, um sorriso contido, mas eu não consegui controlar, ele está mexendo com meus nervos.

Os olhos dele escureceram quase imperceptivelmente ao perceber.

Ah! Então era assim que ele queria brincar.

— Você aborda todas as mulheres desse jeito?

— Só as que observam câmeras antes de observar pinturas.

Droga.

Mantive a expressão neutra, mas minha pulsação desacelerou daquele jeito específico que antecede perigo real.

Ele havia notado, não era um milionário entediado, era treinado.

— Talvez eu só seja cuidadosa.

— Talvez eu também.

A orquestra tocava baixo ao fundo, taças tilintavam e lances milionários começavam próximos ao palco principal.

Ainda assim, parecia que o salão inteiro tinha desaparecido, restávamos apenas nós naquele jogo silencioso.

— Não me disse seu nome.

Ele comentou.

Inclinei levemente a cabeça.

— Valentina Svanova, curadora da galeria.

Ele repetiu mentalmente, vi no olhar, guardando, catalogando e arquivando.

Então estendeu a mão.

— Dante Valenti.

O toque foi firme, quente e perigoso demais.

E naquele instante, tive absoluta certeza de uma coisa:

Conhecer Dante Valenti seria um erro colossal.

O problema?

Meu corpo inteiro já parecia disposto a cometer esse erro assim mesmo.

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