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Capítulo 6

作者: Kell velloso
last update 公開日: 2026-07-04 06:59:58

Zaya

O café da manhã começa como todos os outros dias desde que me mudei para esta casa: silencioso, medido, cada um no seu lugar, como se a distância entre as cadeiras fosse uma cláusula invisível que nenhum de nós ousa quebrar. Mas há algo diferente nesta manhã, algo que não existia antes, e eu sinto antes mesmo de sentar, antes mesmo de encarar o café que a governanta deixou sobre a mesa, antes mesmo de levantar os olhos para confirmar o que já sei.

Brett está diferente.

Ele está sentado no mesmo lugar de sempre, o café preto na mão, o jornal aberto à sua frente como faz todas as manhãs, e ainda assim sei que algo mudou. A postura está mais rígida, os ombros mais tensos, como se estivesse segurando algo que não quer deixar escapar. Ele não me olha quando entro, mas eu sei que percebeu minha presença,  ele pausa por uma fração de segundo no movimento da xícara, quase imperceptível, mas está lá, como uma confirmação silenciosa de que eu também estou diferente.

Sento-me  à sua frente e pego a xícara, sentindo o calor atravessar a porcelana enquanto seguro por tempo demais, como se precisasse desse contato para me ancorar em algo. O silêncio se estende entre nós, é familiar e, ao mesmo tempo, estranho, e eu percebo que já não sei mais se o que pesa é a ausência de palavras ou a presença de tudo que elas não dizem.

— O senhor dormiu bem?

A pergunta sai antes que eu consiga controlar, e imediatamente me arrependo. Não era para ser dita, não era para quebrar o silêncio com algo tão banal, tão desnecessário. Mas ela já está no ar, pairando entre nós como uma pequena falha que não pode ser recolhida.

Brett levanta os olhos do jornal e me encara por um instante que parece durar mais do que deveria e seus olhos estão escuros, profundos, e há algo ali que não estava antes, uma hesitação, um recuo, é como se ele também estivesse tentando se localizar dentro desse novo território que estamos pisando sem querer.

— O suficiente. E a senhora? — responde, e a voz sai mais baixa do que o normal.

A palavra "senhora" soa estranha vindo dele agora, é como se estivesse usando o mesmo formalismo de sempre, mas sem a mesma convicção. Como se estivesse tentando se lembrar de uma distância que já não existe mais.

— Também.

Minto. Não dormi bem, não durmo bem desde que cheguei aqui, desde que comecei a ouvir os passos no corredor durante as madrugadas, desde que comecei a prestar atenção nos pequenos ruídos da casa, tentando decifrar o que eles significam, tentando entender o que ele está fazendo quando acha que ninguém está olhando. Eu não durmo bem porque, em algum momento que não consigo identificar e minha mente começou a querer saber mais do que deveria.

O silêncio volta, mas agora é diferente, mais denso, como se o ar estivesse carregado de algo que nenhum de nós está pronto para nomear. Eu pego uma fatia de pão, passo manteiga devagar me concentrando no movimento dos dedos para não pensar no que está acontecendo, para não perceber o jeito que ele me olha quando acha que eu não estou vendo, para não notar que ele também está segurando a xícara com mais força do que o normal.

E então acontece.

É um movimento banal, insignificante, que poderia passar despercebido em qualquer outro contexto. Ele se inclina para pegar o açúcar, eu me inclino para pegar o guardanapo, e por um breve instante, um instante que dura menos de um segundo, nossas mãos se tocam.

O choque é imediato, como se uma corrente elétrica atravessasse a minha pele, rápida, intensa, deixando um rastro de calor que se espalha pelos meus dedos, subindo pelo braço, se alojando em algum lugar no centro do peito. Minha mão congela, incapaz de se mover, e por um momento eu esqueço o que estou fazendo, esqueço onde estou, esqueço tudo exceto a sensação do toque, a temperatura da pele dele contra a minha, a forma como esse contato acidental queima mais do que qualquer gesto intencional poderia queimar.

E ele também sente.

Sei disso porque ele se afasta rápido demais, como se o toque tivesse queimado da mesma forma, como se ele precisasse cortar o contato antes que se tornasse algo mais, algo que nenhum de nós pode controlar. O movimento é brusco, quase desajeitado, e por um segundo vejo algo em seu rosto que nunca vi antes, uma fissura no controle impecável, uma hesitação que não combina com ele, que não combina com o homem que faz propostas e assina contratos sem hesitar e nenhum de nós diz nada.

Não há palavras para o que acabou de acontecer. Não há cláusula que possa explicar o que o toque significou, não há contrato que possa conter a sensação que ainda vibra em meus dedos, insistente, teimosa e que se recusa a desaparecer, então desvio o olhar e ele também.

Terminamos o  café da manhã como sempre, em silêncio, cada um voltando para nossos espaços, nossas rotinas e para a distância segura que construímos para nós mesmos, mas não é mais a mesma distância, e não é mais o mesmo silêncio.

Sei que algo mudou, e não há como voltar atrás.

O resto do dia passa com as horas se arrastando enquanto eu tento, sem sucesso, me concentrar no trabalho. Os números na tela do computador dançam diante dos meus olhos, as palavras dos relatórios se embaralham, e eu percebo que estou lendo a mesma frase várias vezes sem tentar entender nada, minha mente não está aqui, está naquela mesa, naquele toque, na sensação que continua viva em meus dedos como uma lembrança que insiste em permanecer.

Nunca imaginei que um toque pudesse ser tão devastador.

Cinco anos sozinha, cinco anos me protegendo de qualquer tipo de envolvimento, cinco anos construindo paredes tão altas que ninguém conseguiu escalar, e agora, em um gesto acidental, tudo o que construí está ameaçado.

Brett me observa durante a tarde.

Sei disso porque sinto seu olhar, mesmo quando estou de costas, mesmo quando estou concentrada em uma pasta qualquer. Há algo nessa atenção que vai além da supervisão profissional, algo que não cabe no acordo que fizemos, algo que me desarma mais do que eu gostaria de admitir. Ele não diz nada, não faz nenhum gesto, mas a presença é constante, como se ele também estivesse tentando entender o que aconteceu de manhã, como se ele também estivesse tentando decifrar porque aquele toque, banal e acidental, ainda ecoa em sua própria pele.

No fim da tarde, quando me preparo para ir embora, ele  ergue os olhos do monitor e me encara por um instante que parece durar mais do que o normal.

— Zaya.

O nome sai diferente desta vez, menos formal, mais próximo, e eu paro antes de chegar à porta, sentindo o peso da palavra pairar entre nós.

— Senhor Howard?

— Amanhã teremos outro jantar.

Eu espero que ele continue, que diga algo mais, que explique o que está acontecendo, mas ele apenas me encara, e nos seus olhos há algo que não consigo decifrar completamente, talvez uma pergunta que ele não faz, uma hesitação que ele não confessa, uma linha tênue entre o que ele deveria sentir e o que ele está sentindo.

— Eu estarei pronta.

A resposta é automática, precisa, profissional, a máscara que coloco todos os dias para sobreviver, e por um momento, apenas por um momento, eu vejo algo ceder em seu rosto, algo que ele também não pode controlar.

Ele desvia o olhar primeiro.

— Bom trabalho hoje — diz finalmente, e a frase parece deslocada, como se ele precisasse de uma desculpa para encerrar a conversa.

Saio sem responder, mas as palavras não desaparecem, e o toque continua.

Os passos na casa, meu corpo, ainda vibrando com o eco de uma mão que não pertence a mim.

É impossível.

Não era para ser.

Não pode.

Nada de toques.

Nada de sexo.

Nada de se apaixonar.

As regras são claras.

Mas ainda assim, enquanto subo as escadas para meu quarto, a mão que tocou a dele parece pesar mais do que o resto de mim, e eu sei, eu sei com uma certeza que me apavora, que essa regra já foi quebrada.

Porque o que aconteceu hoje de manhã já foi um toque.

E eu sei que não vou conseguir esquecer.

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