LOGINEla acreditou que seu filho morreu. Ele nunca soube que tinha um filho. Agora, o destino colocou os três na mesma casa. Anos atrás, **Alice** viveu o pior momento de sua vida. Depois de um parto traumático, ela recebeu a notícia de que seu bebê não havia sobrevivido. Destruída, Alice foi embora acreditando que havia perdido o único pedaço de si que jamais poderia substituir. Seu bebê estava vivo. E foi a própria mãe do pai da criança quem o tirou de seus braços e fez Alice acreditar que ele havia morrido. Anos depois, Alice recebe uma oportunidade que parece boa demais para recusar: trabalhar como babá do filho de **Lucas**, um dos CEOs mais poderosos do país. Lucas é rico, reservado, controlador e acostumado a comandar tudo ao seu redor. Com uma empresa gigantesca para administrar e uma rotina que não permite espaço para imprevistos, ele precisa desesperadamente de alguém para cuidar de seu filho. Alice parece ser a escolha perfeita. Até conhecer o menino. Desde o primeiro instante, uma conexão inexplicável nasce entre os dois. Há algo naquele garoto que mexe com Alice de uma maneira que ela não consegue entender. O olhar, os gestos, pequenos detalhes que despertam uma sensação familiar demais para ser ignorada. Enquanto se aproxima da criança, Alice também começa a se envolver com Lucas. Ele deveria ser apenas seu chefe. Mas Lucas é intenso, possessivo e perigosamente atraente. E quanto mais Alice tenta manter distância, mais ele parece determinado a ultrapassar todos os limites. Só que existe um segredo naquela família. Um segredo capaz de destruir tudo. Porque o filho de Lucas nasceu na mesma época em que Alice perdeu seu bebê. E quando as peças finalmente começarem a se encaixar, Alice descobrirá que passou anos chorando por uma criança que nunca morreu.
View MoreMinha mãe sempre soube esconder as coisas.
Ela fazia isso com elegância.
Nunca levantava a voz, nunca deixava documentos fora do lugar e jamais dizia mais do que precisava. Quando queria manipular uma situação, não precisava ameaçar ninguém. Bastava escolher as palavras certas e esperar que as pessoas fizessem o resto.
Eu só descobri o quanto ela era boa nisso quando já era tarde demais.
Mas, antes de tudo começar, existia Alice.
Eu a conheci muito antes de me tornar o homem que todos conhecem hoje.
Naquela época, eu ainda não era CEO da Voss Group. Não tinha uma empresa avaliada em milhões, não vivia cercado por advogados, investidores e seguranças, e tampouco entendia que dinheiro podia comprar quase qualquer coisa — menos algumas oportunidades perdidas.
Alice não fazia parte do meu mundo.
Talvez esse tenha sido justamente o motivo pelo qual eu gostava tanto de estar perto dela.
Ela não se impressionava com o meu sobrenome.
Não se importava com os carros da minha família ou com a casa onde eu morava.
Quando eu falava sobre negócios, ela mudava de assunto.
Quando eu tentava bancar o homem importante, ela ria.
E quando eu estava cansado de ser tudo aquilo que esperavam de mim, era para ela que eu ia.
Alice conseguia transformar algumas horas em algo que parecia pertencer somente a nós dois.
Eu me apaixonei antes de perceber.
Quando percebi, já era tarde.
Eu não sabia que seria possível amar alguém daquela maneira. Achava que amor era uma coisa bonita, simples, quase previsível.
Alice me ensinou que não era.
Também foi ela quem me ensinou que felicidade pode durar pouco.
✿✿✿
Eu estava no escritório do meu pai quando Alice apareceu na porta.
Ela segurava uma pequena caixa branca.
— Posso entrar?
Levantei os olhos do computador.
— Claro.
Ela entrou, fechou a porta e ficou parada diante da minha mesa.
Havia algo diferente em seu rosto.
— O que aconteceu?
Alice colocou a caixa sobre a mesa.
— Abre.
Eu franzi a testa.
— O que é isso?
— Lucas, abre.
Fiz o que ela pediu.
Dentro havia um teste de gravidez.
Duas linhas.
Por alguns segundos, fiquei olhando para aquilo sem conseguir processar.
Depois levantei os olhos.
Alice estava me observando.
— Você está grávida?
Ela assentiu.
— Eu ia contar antes, mas fiquei com medo.
Levantei da cadeira.
— Medo de quê?
— Da sua família. Do que você faria. Do que todo mundo diria.
Aproximei-me dela.
— E você acha que eu vou deixar você passar por isso sozinha?
Ela não respondeu.
Segurei suas mãos.
— Alice, olha para mim.
Ela ergueu o rosto.
— Eu vou estar com você.
— Mesmo que sua mãe seja contra?
— Principalmente se ela for contra.
Alice sorriu, ainda com lágrimas nos olhos.
Naquele momento, eu tinha certeza de que conseguiria proteger as duas.
Ela e nosso bebê.
Eu estava errado.
Minha mãe descobriu a gravidez algumas semanas depois.
A reação dela foi exatamente o que eu esperava.
— Você está jogando seu futuro fora.
— Não estou.
— Essa menina não entende o que significa fazer parte desta família.
— Ela não precisa entender.
Minha mãe cruzou os braços.
— E quando você perceber que está preso a uma criança e a uma mulher que não fazem parte dos seus planos?
— Alice faz parte dos meus planos.
Ela ficou em silêncio.
— Você é jovem demais para saber o que está fazendo.
— Talvez. Mas sei que quero meu filho.
A partir daquele dia, minha mãe passou a interferir cada vez mais.
Eu tentava ignorar.
Alice também.
Nós tínhamos algo maior para esperar.
Nosso bebê.
Passávamos horas discutindo nomes.
Eu queria escolher um nome forte.
Alice dizia que eu estava levando aquilo a sério demais.
Eu dizia que ela estava escolhendo nomes impossíveis de pronunciar.
Ela ria.
Eu gostava de ouvi-la rir.
Era uma das poucas coisas que faziam todo o resto desaparecer.
Até o dia em que tudo mudou.
✿✿✿
Alice entrou em trabalho de parto antes do previsto.
Eu estava em uma reunião quando recebi a ligação.
Saí da sala sem explicar nada.
No caminho até o hospital, liguei várias vezes para ela.
Ninguém atendeu.
Quando cheguei, encontrei minha mãe no corredor.
— Onde está Alice?
— No quarto.
— E o bebê?
Ela não respondeu.
Meu estômago revirou.
— Mãe?
Ela se aproximou e segurou meu braço.
— Lucas...
A expressão dela mudou.
— O bebê não resistiu.
Não lembro de ter respondido.
Não lembro de ter perguntado nada.
A única coisa que consigo recordar com clareza é o corredor daquele hospital.
As luzes brancas.
O cheiro de antisséptico.
O relógio na parede.
Minha mãe dizendo que os médicos tinham feito tudo o que podiam.
Eu deveria ter entrado naquele quarto.
Deveria ter perguntado onde estava meu filho.
Deveria ter exigido vê-lo.
Mas não fiz nada disso.
Talvez porque uma parte de mim esperasse acordar daquele pesadelo.
Talvez porque eu simplesmente não soubesse como reagir.
Minha mãe disse que seria melhor não ver o bebê.
Segundo ela, eu só me machucaria mais.
Eu acreditei.
Esse foi o primeiro erro.
O segundo aconteceu quando Alice acordou.
Ela estava pálida, fraca e completamente desorientada.
Assim que abriu os olhos, perguntou:
— Cadê meu filho?
Minha mãe segurou sua mão.
— Alice...
— Cadê ele?
Eu estava ao lado da cama.
Não consegui responder.
Minha mãe respondeu por mim.
— Ele não sobreviveu.
Alice ficou olhando para ela.
Depois olhou para mim.
— Lucas?
Eu abaixei os olhos.
— Sinto muito.
Ela começou a chorar.
Eu me sentei ao lado dela, mas não encontrei palavras que pudessem aliviar aquilo.
Nada poderia.
Ela perguntou se eu tinha visto o bebê.
Eu disse que não.
Foi quando ela perguntou:
— Então como você sabe que ele morreu?
A pergunta ficou entre nós.
Eu não tinha resposta.
Minha mãe interferiu antes que eu pudesse pensar.
— Os médicos nos informaram.
Alice fechou os olhos.
Depois disso, nunca mais fomos os mesmos.
Ela foi embora alguns dias depois.
Eu tentei procurá-la.
Minha mãe disse que Alice precisava de espaço.
Disse que insistir seria cruel.
Eu deveria ter desconfiado.
Mas eu estava tão ocupado tentando entender como continuar vivendo que deixei o tempo passar.
Alice desapareceu.
E eu fiquei.
Acordei antes do despertador, com o corpo dolorido e uma sensação estranha de que alguma coisa tinha mudado de lugar dentro de mim.O escritório estava cinza. A cortina entreaberta deixava passar uma faixa fina de luz do amanhecer. O paletó escorregara até a cintura de Alice, e ela dormia de lado, com a mão fechada sobre meu peito, o cabelo espalhado pelo braço do sofá.Não me mexi.Fiquei olhando.Eu tinha estado com outras mulheres nos últimos quatro anos. Nenhuma passou a noite. Nenhuma conheceu a casa. Eu tinha regras, e elas me protegiam de qualquer coisa que se parecesse com isso.Agora estava deitado num sofá de couro duro, com o braço dormente, e não queria me mover por nada neste mundo.Aquilo devia me assustar.Assustava.Mas não o suficiente para me fazer sair dali.— Você está me olhando — Alice murmurou, sem abrir os olhos.— Estou.— É estranho.— Você dormiu comigo na faculdade e nunca reclamou.— Eu tinha vinte anos. Não sabia que você olhava.— Eu sempre olhei.Ela ab
Theo dormiu cedo naquela noite, cansado da festa, com o cartaz da família preso na parede por uma fita adesiva torta.— Você vai dormir aqui hoje? — ele perguntou, já de olhos fechados.— Vou.— No quarto de hóspedes?— No quarto de hóspedes.— Tá bom.Fiquei sentada na beira da cama até a respiração dele ficar funda e regular. Depois apaguei o abajur e saí sem fazer barulho.No corredor, parei.A casa estava em silêncio, mas não era um silêncio vazio. Havia uma fresta de luz dourada sob a porta do escritório, no fim do corredor.Eu tinha passado a tarde inteira repetindo a pergunta que Lucas me fez dois dias antes. E quando não tiver ninguém?Agora eu sabia a resposta.Esse era o problema.Caminhei até a porta, bati uma vez e abri sem esperar.Lucas estava de pé diante da janela, sem paletó, o colarinho aberto, um copo de uísque na mão que ele não tinha bebido. Virou quando me ouviu e ficou imóvel.— Theo?— Dormindo.— Aconteceu alguma coisa?— Não tem ninguém — falei.Ele demorou a
Remarquei a reunião do conselho três vezes para estar naquela escola na sexta-feira.Minha assistente me olhou como se eu tivesse pedido para cancelar o Natal.— O senhor nunca remarcou nada por causa do Theo.— Então está na hora.Não expliquei mais.A escola ficava num bairro arborizado, com um pátio cheio de bandeirinhas coloridas e mesas dobráveis. Pais de terno, mães de salto, babás de uniforme, avós de bolsa grande. Theo nos esperava na entrada, com uma camiseta de dinossauro por cima do uniforme, segurando um cartaz com a palavra FAMÍLIA escrita em letras tortas.— Vocês demoraram!— Cheguei na hora — falei.— Dois minutos atrasado — Alice disse ao meu lado, e sorriu.
Não dormi.Fiquei deitada de olhos abertos até o teto ficar cinza, repassando os mesmos dez segundos. As mãos dele no meu cabelo. O balcão frio nas costas. A voz baixa pedindo que eu mandasse parar.Eu mandei.E ele parou.Era isso que me assustava. Não o que eu tinha sentido, mas a facilidade com que ele obedeceu. Eu passei quatro anos aprendendo a desconfiar de quem toma o que quer. Não sabia o que fazer com um homem que se afasta ao primeiro sinal.Levantei às seis. Tomei banho, prendi o cabelo, vesti a roupa mais sem graça que tinha na bolsa. Uma armadura de algodão cinza.Desci repetindo a mesma frase: você é a babá, você é a babá, você é a babá.Lucas já estava na cozinha.Camisa branca abotoada até o colarinho, paletó, gravata no lugar. O rosto, uma máscara de negócios. Do homem que me beijou contra um balcão restava apenas o perfume.— Bom dia, Alice.— Bom dia.— Há café.— Obrigada.Ele voltou ao tablet. Nem um olhar além do necessário.Era exatamente o que eu tinha pedido.


















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